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quarta-feira, 9 de dezembro de 2020

Aníbal Machado 4

A casa rouca

Ficara o galo, sobrevivência da ruína.

Rouco o seu canto. Canto que não parecia mais de galo, senão a própria voz da casa abandonada. Casa rachada ao sol, aluindo-se ao vento de chuva.

Não mais agora figuras humanas entrando; apenas lagartixas e morcegos para recepção às sombras.

Casa rouca submersa no matagal, teu galo ficou. E seu canto perdeu o timbre de sol, já não inaugura os dias. E se fez adequado aos estragos do reboco, à podridão das esquadrias - última secreção de paredes gemidas.

Galo rouco. Casa rouca.

Aníbal Machado

(Aníbal Machado nasceu no dia 9 de Dezembro de 1894. Morreu em 1964.) 

segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

Aníbal Machado 3

[...]
Ora, todo mundo sabe que Zequinha fugiu com a mulher do vereador. Jogava tão bem, que ela fugiu com ele...
Os rapazes só contavam agora com a mediação de Dona Maria que não estava bem, depois que lhe nascera a criança.
Daí por diante, nunca mais se bateu bola no cemitério. Reforçada a vigilância, meus fantasmas não apareciam.
Fiquei mais triste. Agora, nem para voar até o arraial tenho força. Para nada, aliás, tenho mais forças.
Já não percebo bem o que se passa atrás dos muros. A paisagem se dissolve ao meu olhar que está se apagando.
Parece que ainda resta para os ouvidos um canto de lavadeira batendo roupa. Tão longe...
Mas está acontecendo qualquer coisa lá na entrada. O portão se abriu todo! O povo chegando!...
Ah, é a senhora?! Pois entre, a casa é sua... Eu, sozinho, já não podia responder por todo este cemitério. Estou sumindo... O espaço endureceu. Meu prazo terminou.
Só vejo figuras opacas imobilizadas no gesto de chutar a bola. E essa coisa fixa, mancha final de luz remota que deve ser o Sol.

"O defunto inaugural - Relato de um fantasma", Aníbal Machado

(Aníbal Machado nasceu no dia 9 de Dezembro de 1894. Morreu em 1964.)

domingo, 9 de dezembro de 2018

Aníbal Machado 2

Descosendo o espaço

O pássaro agonizante põe pela boca os milhares de quilômetros que devorou pelos ares.

Aníbal Machado

(Aníbal Machado nasceu no dia 9 de Dezembro de 1894. Morreu em 1964.)

sábado, 9 de dezembro de 2017

Aníbal Machado

A suicida do viaduto

A rapariga subiu o viaduto e entregou a alma ao Senhor. O corpo na corda ficou em má posição, pois mesmo embaixo passava o canal da rua cheio de gente.
A lâmpada vermelha impedia o trânsito até que os bombeiros retirassem o corpo do céu.
- Tem calça?
- Tem.
- Não tem.
- Tem, sim!
Os motoristas olham. Olham os soldados. O público olha. Ninguém pode passar.
A dúvida persiste. Um vento bate de propósito nas vestes da moça. Há um zunzum na multidão. Não tem calça!
O delegado então manda afastar os transeuntes. Era proibido olhar. Os bombeiros trabalham. O viaduto se envolve na noite. O vento despiu a suicida. Há um deslocamento de astros e uma estrela nova começa a reluzir no corpo da mocinha dependurada no alto.
As senhoras estão aflitas e animam o esforço dos bombeiros para que se retire depressa do céu aquela estrela, pois não convém que ela fique brilhando muito tempo sobre a cidade. E os bombeiros trabalham, enquanto os homens ficam te olhando, lá de baixo, suicida do viaduto - todos deslumbrados mas em silêncio, inclusive o teu padeiro por quem te mataste e que só começou a te amar depois que viu a tua nudez exposta como uma lâmpada no céu da noite, sobre o clamor das ruas apinhadas.

"João Ternura", Aníbal Machado

(Aníbal Machado nasceu no dia 9 de Dezembro de 1894. Morreu em 1964.)