Mostrar mensagens com a etiqueta O aldeão e o demónio. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta O aldeão e o demónio. Mostrar todas as mensagens

domingo, 16 de agosto de 2015

Millôr Fernandes 3

Chapeuzinho Vermelho

Era uma vez (admitindo-se aqui o tempo como uma realidade palpável, estranho, portanto, à fantasia da história) uma menina, linda e um pouco tola, que se chamava Chapeuzinho Vermelho. (Esses nomes que se usam em substituição do nome próprio chamam-se alcunha ou vulgo). Chapeuzinho Vermelho costumava passear no bosque, colhendo Sinantias, monstruosidade botânica que consiste na soldadura anômala de duas flores vizinhas pelos invólucros ou pelos pecíolos, Mucambés ou Muçambas, planta medicinal da família das Caparidáceas, e brincando aqui e ali com uma Jurueba, da família dos Psitacídeos, que vivem em regiões justafluviais, ou seja, à margem dos rios. Chapeuzinho Vermelho andava, pois, na Floresta, quando lhe aparece um lobo, animal selvagem carnívoro do gênero cão e… (Um parêntesis para os nossos pequenos leitores - o Lobo era, presumivelmente, uma figura inexistente criada pelo cérebro superexcitado de Chapeuzinho Vermelho. Tendo que andar na floresta sozinha, natural seria que, volta e meia, sentindo-se indefesa, tivesse alucinações semelhantes.).
Chapeuzinho Vermelho foi detida pelo Lobo, que lhe disse: (Outro parêntesis; os animais jamais falaram. Fica explicado aqui que isso é um recurso de fantasia do autor e que o Lobo encarna os sentimentos cruéis do Homem. Esse princípio animista é ascentralíssimo e está em todo o folclore universal.) Disse o Lobo: "Onde vais, linda menina?" Respondeu Chapeuzinho Vermelho: "Vou levar estes doces à minha avozinha que está doente. Atravessarei dunas, montes, cabos, istmos e outros acidentes geográficos e deverei chegar lá às treze e trinta e cinco, ou seja, a uma hora e trinta e cinco minutos da tarde”.
Ouvindo isso o Lobo saiu correndo, estimulado por desejos reprimidos (Freud: "Psychopathology Of Everiday Life", The Modern Library Inc. N.Y.). Chegando na casa da avozinha ele engoliu-a de uma vez - o que, segundo o conceito materialista de Marx indica uma intenção crítica do autor, estando oculta aí a idéia do capitalismo devorando o proletariado - e ficou esperando, deitado na cama, fantasiado com a roupa da avó.
Passaram-se quinze minutos (diagrama explicando o funcionamento do relógio e seu processo evolutivo através da História). Chapeuzinho Vermelho chegou e não percebeu que o Lobo não era sua avó, porque sofria de astigmatismo convergente, que é uma perturbação visual oriunda da curvatura da córnea. Nem percebeu que a voz não era a da avó, porque sofria de otite, inflamação do ouvido, nem reconheceu nas suas palavras, palavras cheias de má-fé masculina, porque, afinal, eis o que ela era mesmo: esquizofrênica, débil mental e paranóica, pequenas doenças que dão no cérebro, parte súpero-anterior do encéfalo. (A tentativa muito comum da mulher ignorar a transformação do Homem é profusamente estudada por Kinsey em "Sexual Behavior in the Human Female". W. B. Saunders Company, Publishers.) Mas, para salvação de Chapeuzinho Vermelho, apareceram os lenhadores, mataram cuidadosamente o Lobo, depois de verificar a localização da avó através da Roentgenfotografia. E Chapeuzinho Vermelho viveu tranqüila 57 anos, que é a média da vida humana segundo Maltus, Thomas Robert, economista inglês nascido em 1766, em Rookew, pequena propriedade de seu pai, que foi grande amigo de Rousseau.

"Lições de Um Ignorante", Millôr Fernandes

(Millôr Fernandes nasceu no dia 16 de Agosto de 1923. Morreu em 2012.)

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Millôr Fernandes

O aldeão e o demónio

Pois um dia o aldeão dormitava depois do almoço, enquanto as ovelhas pastavam lá fora, quando o demónio lhe surgiu em carne e osso: "Aldeão - tonitroou ele -, você deve morrer!!! É chegada a tua hora! Mas eu vim aqui para te dar uma grande oportunidade. Escolhe uma destas três coisas: bate em teu criado, mata tua mulher ou bebe deste vinho".
O aldeão, aterrorizado por aquela visão, mal teve tempo de pensar. Mas foi talvez sua sabedoria ancestral que fez com que dissesse: "Bater em meu criado jamais poderei fazer, porque através dos anos ele me tem sido sempre fiel. Matar minha mulher jamais poderei matar, porque ela vive comigo também há muitos anos. Deixa que eu bebo o vinho".
O diabo deu uma gargalhada e lhe entregou o vinho. O homem bebeu, se embriagou, bateu no criado, matou a mulher, e, desde então, abandonou o campo e vive nos bares da cidade, conhecido como um dos mais prestigiosos playboys de nossa sociedade.

Moral: O diabo não é tão feio quanto se pinta.

"Fábulas Fabulosas", Millôr Fernandes

(Milton Viola Fernandes, conhecido como Millôr Fernandes, nasceu no dia 16 de Agosto de 1923. Morreu em 2012.)