- Gostas de broche? - pergunto e encaro-o fito nos olhos, muito sério, muito natural.
- An, nem por isso - responde sempre calmo.
- Pois é só o que eu te posso fazer - digo, como se me desculpasse de não ser o Calouste Gulbenkian.
- E quanto me dá? - pergunta desagradável feita em tom meramente comercial.
- Olha, não te posso dar nada - diz o falso Calouste -, dava-te se tivesse, mas estou tesíssimo, não tenho um tostão, já o tabaco foi fiado na pensão, só amanhã é que recebo um vale de Lisboa, amanhã às duas e meia.
- ‘tão, nada feito - diz a sua honra camponesa, e pela primeira vez noto como me apetecia aquele corpo, ser dono ou servo daquele aparato movediço de carne, pele, ossos, pêlos, força. E também me parece que ele está pronto a ir atrás de uma promessa, duma mentira qualquer, e que a recusa pela venda comercial é onde ele esconde a sua pronta adesão. Talvez o seu vício. Mas para comercial, comercial e meio.
"O Libertino Passeia por Braga a Idolátrica o Seu Esplendor", Luiz Pacheco
(Luiz Pacheco nasceu no dia 7 de Maio de 1925. Morreu em 2008.)
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terça-feira, 7 de maio de 2019
segunda-feira, 7 de maio de 2018
Luiz Pacheco 6
Saio para a rua e vou à cata dos dois pequenos libertinos ricos. Passeio pelas ruas de Braga, sigo ora uma miúda ora outra, deito olhares de megatoneladas, fumo. O cinema ainda não acabou. Vigio de longe o jogo amoroso duma mocinha a palrar na rua com um marçanito, muito gesticulosa, muito espalha-brasas, e com o corpo todo pendurado para cima dele que com a mão esquerda na algibeira vai entretendo o caralho com as promessas que a vista lhe está a demonstrar.
Até aqui, tudo muito bragal. Mas está-me a apetecer agora abjecção; saí da porta do cinema chateado com a demora dos rapazinhos, até porque não sabia se teriam ido ao Teatro Circo se ao Geraldo, onde também havia sessão. E aconteceu então o inesperado: tudo aliás muito naturalmente encadeado.
"O Libertino Passeia por Braga, a Idolátrica, o Seu Esplendor", Luiz Pacheco
(Luiz Pacheco nasceu no dia 7 de Maio de 1925. Morreu em 2008.)
Até aqui, tudo muito bragal. Mas está-me a apetecer agora abjecção; saí da porta do cinema chateado com a demora dos rapazinhos, até porque não sabia se teriam ido ao Teatro Circo se ao Geraldo, onde também havia sessão. E aconteceu então o inesperado: tudo aliás muito naturalmente encadeado.
"O Libertino Passeia por Braga, a Idolátrica, o Seu Esplendor", Luiz Pacheco
(Luiz Pacheco nasceu no dia 7 de Maio de 1925. Morreu em 2008.)
quinta-feira, 7 de maio de 2015
Luiz Pacheco 3
Outubro, 15. Noite em Vieira do Minho friorenta e agitada por pesadelos, incongruências, palpitações. Já de madrugada, O Mensageiro das Trevas aparece-me na cama, agarra-me quase ao colo com os seus dedos de aço nos braços e diz-me baixo, numa voz irónica mas simpática (ou cínica e trocista?): "Ontem (referência, parece, a um sonho meu da véspera, em que me surgira A Morte, com a sua caveira comum, de dentuça à mostra, cara desgraçada!), ontem viste-me com a minha triste cara verdadeira, hoje venho alegre (a face dele era uma máscara apalhaçada, coberta de giz) mas é para te dar uma má notícia, coitado:
AMANHÃ MESMO MORRERÁS!
Acordo aos estremeções, aflito, com uma consciência muito nítida do encontro, e começo por fazer figas debaixo da roupa ao Intruso, mas depois, cheio duma superstição infantil (que me ficou da criança que fui, entenda-se), faço o sinal-da-cruz. E para não tirar as mãos debaixo do quente das mantas, engrolo gestos e palavras mesmo sobre o peito, à matroca, como um aprendiz de catequese faria. Sossego mais. Começo a pensar como morrerei. Desastre? colapso? ou loucura súbita e logo suicida? Adormeço nisto.
"O Libertino Passeia por Braga, a Idolátrica, o Seu Esplendor", Luiz Pacheco
(Luiz Pacheco nasceu no dia 7 de Maio de 1925. Morreu em 2008.)
AMANHÃ MESMO MORRERÁS!
Acordo aos estremeções, aflito, com uma consciência muito nítida do encontro, e começo por fazer figas debaixo da roupa ao Intruso, mas depois, cheio duma superstição infantil (que me ficou da criança que fui, entenda-se), faço o sinal-da-cruz. E para não tirar as mãos debaixo do quente das mantas, engrolo gestos e palavras mesmo sobre o peito, à matroca, como um aprendiz de catequese faria. Sossego mais. Começo a pensar como morrerei. Desastre? colapso? ou loucura súbita e logo suicida? Adormeço nisto.
"O Libertino Passeia por Braga, a Idolátrica, o Seu Esplendor", Luiz Pacheco
(Luiz Pacheco nasceu no dia 7 de Maio de 1925. Morreu em 2008.)
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