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domingo, 13 de janeiro de 2019

Franklin Távora 5

Joaquim, que contava o duplo da idade de seu filho, era baixo, corpulento e menos feio que Teodósio, o qual, posto que mais entrado em anos, sabia dar, quando queria, à cara romba e de cor fula uma aparência de bestial simplicidade em que só uma vista perspicaz e acostumada a ler no rosto as ideias e os sentimentos íntimos, poderia descobrir a mais refinada hipocrisia.
- Entendo que é bem lembrado o que dizes, Cabeleira - acrescentou o cabra, levantando-se; corro sem demora a armar o laço para apanhar o passarinho; ainda que, a bem dizer, já cá tenho o meu plano que há de cair tão certinho como S. João a vinte e quatro.
- E onde depois nos encontraremos? - perguntou Joaquim, vendo que Teodósio se achava já de marcha para a vila.
- Não será o mais custoso. Esperarei por vocês debaixo da ingazeira da ponte.
Teodósio, não estando mais para conversa, conchegou o chapéu de palha à cabeça, para que o vento não lho arrebatasse, e desapareceu em rápido marche-marche, por detrás dos matos que naquele tempo enchiam ainda em sua maior parte a zona onde hoje se ostenta com suas graciosas habitações, entre risonhos verdores, a Passagem da Madalena.

"O Cabeleira", Franklin Távora 

(Franklin Távora nasceu no dia 13 de Janeiro de 1842. Morreu em 1888.)

sábado, 13 de janeiro de 2018

Franklin Távora 4

Antes que o sol descesse ao horizonte e as trevas envolvessem de todo a natureza, meteram-se o pai e o filho pelo caminho onde um quarto de hora atrás havia desaparecido o outro companheiro, alma do negócio e principal responsável pelos perigos a que todos eles iam expor talvez a própria vida. A solidão estava sombria e triste.
Contavam-se então as casas por aquelas paragens. Em torno delas o deserto começava a aumentar, antes de pôr-se o sol. Uma lei cruel, a lei da necessidade, obrigava os moradores a trancar-se cedo por bem da própria conservação.
Os roubos e assassinatos reproduziam-se com incrível frequência nos caminhos e até nas beiradas dos sítios.
Sólidas habitações não tinham em muitos casos assegurado às famílias inelutável obstáculo ao assalto dos malfeitores. Triste época em que o despotismo tudo podia contra os cidadãos pacíficos e bons, nada contra a parte cancerosa da sociedade!

"O Cabeleira", Franklin Távora 

(Franklin Távora nasceu no dia 13 de Janeiro de 1842. Morreu em 1888.)

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Franklin Távora

O Cabeleira chamava-se José Gomes, e era filho de um mameluco por nome Joaquim Gomes, sujeito de más entranhas, dado à prática dos mais hediondos crimes.
De parceria com um pardo de nome Teodósio, que primou na astúcia e nos inventos para se apossar do que lhe não pertencia, percorriam José e Joaquim o vasto perímetro da província em todas as direções, deixando a sua passagem assinalada pelo roubo, pelo incêndio, pela carnificina.
Um dia assentaram dar um assalto à própria vila do Recife.
As populações do interior, em sua maioria destituídas de bens da fortuna, e então muito mais espalhadas do que atualmente, pouco tinham já com que cevar a voracidade dos três aventureiros a quem desde muito pagavam um triplo imposto consistente em víveres, dinheiro e sangue. O assalto foi resolvido em secreto conciliábulo dentro das matas de Pau-d'Alho onde mais de uma vez se haviam reunido para concertos idênticos.
Na mesma hora aperceberam-se para a temerária tentativa e, com o arrojo que lhes era natural, puseram-se a caminho contando de antemão com o feliz sucesso em que tinham posto a mira.
À notícia da sua aproximação, a maior parte dos moradores, deixando os povoados, então muito fracos por não terem ainda a densidão que só um século depois tornou alguns deles respeitáveis, emigrou para os matos, único abrigo com que lhes era permitido contar, embora se achassem a poucas léguas do Recife; tais houve que, não tendo tempo ou recursos para fugir aos cruéis visitantes, lhes deram hospedagem como meio de não incorrerem no seu desagrado.

Ao declinar do dia seguinte, eram eles na Estância. Sentaram-se no adro da capela de taipa que fora aí levantada por Henrique Dias, para recordar aos vindouros que nesse lugar tivera ele o seu posto militar pelas guerras da restauração. Esse posto era, dentre todos, o que ficava mais vizinho ao inimigo. Eloqüente testemunho da bravura do troço da gente preta a quem a pátria reservou distinta menção nas maiores páginas da história colonial.
- É muito cedo para entrarmos na vila, disse o Cabeleira. E não será até melhor que o Teodósio vá primeiro que nós para assentar ainda com dia no meio mais certo de realizar a empresa?
- Tens razão, José Gomes - acrescentou Joaquim: o Teodósio, que é macaco velho, deve ir adiante a sondar as coisas. Para bater o pé ao inimigo e fazer frente a qualquer dunga, vocês sabem muito bem que eu sou cabra decidido; agora, para espertezas não contem comigo; isso é lá com o Teodósio, que é mestre em saberetes; e ninguém lhe vai ao bojo.
Os três malfeitores traziam consigo bacamartes, parnaíbas, facas e pistolas.
Cabeleira podia ter vinte e dois anos. A natureza o havia dotado com vigorosas formas. Sua fronte era estreita, os olhos pretos e lânguidos, o nariz pouco desenvolvido, os lábios delgados como os de um menino. É de notar que a fisionomia deste mancebo, velho na prática do crime, tinha uma expressão de insinuante e jovial candidez.


"O Cabeleira", Franklin Távora 

(Franklin Távora nasceu no dia 13 de Janeiro de 1842. Morreu em 1888.)