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segunda-feira, 16 de abril de 2018

José Geraldo Vieira 4

- Nunca fumei. O hábito de trazer fósforos comigo provém de exigências de Maria Clara. Além de obrigar-me a adquirir coleções de charutos e a oferecê-los às visitas, acha que, complementarmente, deva estar munido sempre de fósforos. Até nisso minha mulher exerce - pensa que exerce! - influência sobre mim e exorbita dessa autoridade que eu... tolero! Sim, pois se não fumo! Trata-se, em última análise, de me fazer ver que, se não fumo, toda gente fuma; logo, para que não cuidem que tal virtude ou defeito é miserabilidade de velho, ela exige de mim esta e outras extravagâncias sem nexo. Contumélias!... Mas não era isso que eu queria dizer... Daqui deste trem assistimos da noite ao que dela se oferece intato, já que dentro do vagão a luz a corrói. Tamanha nos vai acompanhando, embora já esteja atrás mas não cesse de vir ainda e sempre de diante, que decerto quer que entendamos que apenas ela é que viaja deveras pelas duas metades da Terra, em excursão circular.

"A Ladeira da Memória", José Geraldo Vieira

(José Geraldo Vieira nasceu no dia 16 de Abril de 1897. Morreu em 1977.)

domingo, 16 de abril de 2017

José Geraldo Vieira 3

Olhou de esguelha para o gradil e as janelas. Ao transpor o jardim e o terraço escolheu entre as chaves da penca a Yale da saleta. Entreabriu devagar a porta; e tendo entrado não acendeu a luz: lá fora já clareava.
Deteve-se uns segundos circunvagando o olhar pelas sombras indistintas dos móveis; invejou-lhes a quietude e subiu a escada cautelosamente para os degraus não rangerem. Ao entrar no quarto logo pôs de alcateia o recurso da invenção, pois já passava das quatro horas da madrugada. Abeirando-se pé ante pé da orla da cama, debruçou-se um pouco sobre o corpo da mulher, e assim que lhe percebeu o relevo e a tepidez veio para o seu lado habitual, principiando a despir-se. Viu-a virar-se para o canto e proferir duas ou três palavras. Alertou a imaginação ante aquela vaga reprimenda.
Nele a mentira tinha sido sempre a oportuna destruidora de embaraços. Aplicava-a com habilidades instantâneas de simulação, quer para ajeitar atrasos e demoras, quer para tecer coincidências viáveis. Sem hesitações nem redundâncias, tudo muito verossímil. Estirado na cama ficou à espera de perguntas que decerto viriam em série.


"A Mulher Que Fugiu de Sodoma", José Geraldo Vieira

(José Geraldo Vieira nasceu no dia 16 de Abril de 1897. Morreu em 1977.)

sábado, 16 de abril de 2016

José Geraldo Vieira 2

Sem soltar o braço de Brígida, Gonçalo olhava para as portas e para o alto da escada. Percorreu tudo, desde a cozinha à "sala que não abre nunca" e subiu para revistar os quartos e os salões. Ria, fazia um ar de espera, a ver se lhe diziam; encaminhou-se para o jardim, até as parreiras, foi espiar em volta do moinho, onde afi nal encontrou a ama com o garoto. Mas, industriada pela tia Mariana, a ama fugia-lhe. Mal a alcançava, ela desvencilhava-se, obedecendo sempre aos gestos e à voz da tia Mariana.
- Gestatten Sie, bitte, ich bin sein Vater! Io sono il babo! I am the daddy! Mais, nom de Dieu, c’est mon enfant! (Dizia assim, em diversos idiomas porque achava a ama com cara de estrangeira e não atinava com a nacionalidade dela).

"A Quadragésima Porta", José Geraldo Vieira

(José Geraldo Vieira nasceu no dia 16 de Abril de 1897. Morreu em 1977.)

quarta-feira, 16 de abril de 2014

José Geraldo Vieira

Taciturno e absorto, muito embora esteja bem junto de meu velho tio-avô - um desembargador aposentado -, viajo rente à janela do vagão D do trem noturno, no último banco do lado direito.
Em dado momento aproximo o punho a fim de ver as horas, e então percebo que os olhos dessa criatura compreensiva se fixam no quadrantezinho do relógio que emergiu de sob a manga do meu sobretudo. Estendo-lhe cortesmente o antebraço para que veja melhor, e oscilamos de comum acordo nossas cabeças. Meu tio agradece calado mas atento, depois olha para fora através da vidraça fazendo da minha testa alça de mira; e por fim se acomoda, enquanto isso por duas ou três vezes estudando o meu feitio.
Percebo que vai travar conversa outra vez, porque uma fusão de analogias decorrentes do relógio, da escuridão e da velocidade está a exigir dele um exerciciozinho verbal.
E, de fato. Torna a ajeitar-se, a olhar para fora, até que diz não sei se para mim ou se para ele mesmo, com o queixo preso entre o polegar e o indicador - atitude antiqüíssima, dos tempos ainda de quando juiz.
- Não, a noite não é isto só.

"A Ladeira da Memória", José Geraldo Vieira

(José Geraldo Vieira nasceu no dia 16 de Abril de 1897. Morreu em 1977.)