Estou varado. Um cão que percebe alemão! Palavra de honra, vi no Parque da Cidade um cão que percebe alemão. Coisa absolutamente extraordinária. O normal, o que é segundo a natureza, é que os cães percebam português, como toda a gente sabe e Deus quer.
Bobi, senta! Tejo, vai lá para fora! Ou, condescendamos,
Aramis, anda já aqui à dona! E os bichinhos compreendem e acatam. Sentam, vão ou vêm. Foi sempre assim com todos os animais desde Adão e Eva e nem podia ser de outra forma após Noé. Foi assim no Presépio e foi assim na embaixada de D. Manuel ao Papa. Agora, em alemão é que eu não fazia ideia. Parece impossível...
Eu vou contar: era um casal claramente germânico que iniciava a sua caminhada matinal pelo parque. À frente, livre da trela, saltitava um daqueles luluzinhos fraldiqueiros muito pouco germânicos e que se afastava dos donos cada vez mais, à procura da brincadeira com os melros. E afastou-se tanto que a senhora se sobressaltou, pôs-se de repente em sentido, puxou pelos galões, levantou e estendeu o braço direito (apontando ao animal, quero eu dizer) e disse qualquer coisa parecida com
Mainazuçavelpencomanihaihaihaihacomanumume e que eu suponho que seja o nome de baptismo do bicho, uma vez que ele deu si, fez imediatamente meia volta e, de rabo entre as pernas, foi entregar-se aos braços abertos da dona. O palavrão também pode querer significar outra coisa qualquer, mas não sei dizer o quê, porque, neste como noutros departamentos, estou ainda abaixo de cão.
O que sei dizer é que fiquei para a minha vida. Um cão que percebe alemão? Depois do que vi, já estou por tudo, acredito em tudo. Se me chamarem para ir jogar no Saragoça, eu acredito-me e vou. Se me disserem que a crise começa a acabar já para o ano, eu fio-me e corro a fazer o empréstimo para o Ferrari. Se me garantirem que o Miguel Relvas, não desfazendo, é muito boa pessoa, eu... eu... ... Não sei, se calhar não acredito.