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sábado, 20 de junho de 2026

Mais valia

Um questão de feitios
Silvestre recusou trabalhar com Urbano. Estava habituado ao Campos...

Ele era o Mais-valia da empresa. Puseram-lhe o nome. Chamavam pelo Mais-valia e o Mais-valia vinha. E ia. E ia e vinha. E vinha e ia. E tornava a ir e tornava a vir. Chamavam-no a toda a hora e momento, por tudo e por nada, era Mais-valia para aqui, Mais-valia para ali, e ele, que acreditava no valor das palavras, no poder dos hífens, andava vaidoso e feliz. O trabalho do Mais-valia era ir e vir, vir e ir, o que lhe ocupava sobremaneira o dia. Sentia-se tão necessário! Ele não sabia que a alcunha lhe ficara porque toda a gente do emprego dizia que mais valia despedi-lo.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Mundial da Produtividade. É também Dia Mundial do Malabarismo, mas isso já são outras habilidades.)

Mal agradecidos

O homem-estátua foi despedido. Por falta de produtividade. Logo ele que tinha sido contratado para não mexer uma palha.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Mundial da Produtividade.)

domingo, 20 de junho de 2021

O homem-estátua

Porto, meados de Junho de 2021. Ao fim de 35 anos de inabalável serviço na ex-libríssima Praça da Liberdade, o homem-estátua chamou o fiscal da Câmara num pst! muito bem disfarçado. "Ó colega, isto aqui já não dá nada. Até o cavalo de D. Pedro IV leva mais do que eu ao fim do dia. Vou-me embora, provavelmente para o Brasil, há agora aquela vaga do Cristo Redentor, que fugiu, e levo um guarda-sol. Lembras-te do Relvas? Sabias que sempre que os portugueses emigram têm uma visão universalista que lhes traz sucesso?", disse o homem-estátua ao fiscal camarário, por entre dentes e sem perder a pose. Era efectivamente um homem-estátua muito profissional e filósofo. "Além disso, estou farto de que me caguem em cima", acrescentou, descendo finalmente do banco de cozinha e arrumando os tarecos e o reumatismo em dois sacos plásticos do Pingo Doce do tempo em que os sacos plásticos eram de borla. "As pombas?", perguntou o fiscal da Câmara, que era um bocadinho lerdo, multas à parte. "Os pombos. O Sócrates, o Cavaco, o Passos, o Portas, o Oliveira e Costa, o Salgado, o Rendeiro, o Dias Loureiro, o Duarte Lima, o Vara, o Durão Barroso, o Horta e Costa, o Jardim Gonçalves, o Rio, o Azeredo Lopes, o António Costa, o Centeno, o Cabrita, o Medina, e estes são apenas os que eu distingo pela anilha, que de resto são todos muito parecidos...", respondeu o homem-estátua, escarafunchando os bolsos à procura dos apontamentos e do manguito do Bordalo. Tinham sido realmente muitos anos de gesto suspenso e bico calado.

P.S. - Hoje, 20 de Junho, é Dia Mundial da Produtividade.

Mais-valia

Era o Mais-valia da empresa. Chamavam pelo Mais-valia e o Mais-valia vinha. E ia. E ia e vinha. E vinha e ia. E tornava a ir e tornava a vir. Chamavam-no a toda a hora e momento, por tudo e por nada, era Mais-valia para aqui, Mais-valia para ali, e ele, que acreditava no poder dos hífens, andava vaidoso e feliz. O trabalho do Mais-valia era ir e vir, vir e ir, o que lhe ocupava sobremaneira o dia. Sentia-se tão necessário! Não sabia que a alcunha lhe ficara porque toda a gente dizia que mais valia despedi-lo.

Eles não sabem que o sono

Dormia, por norma, dezasseis ou dezassete horas, consoante fossem dias ímpares ou pares, respectivamente. Ia ao emprego marcar o ponto de saída e era alvo de todas as críticas, atacado por patrões, colegas e até pelo sindicato. Defendia-se, filosoficamente: - Vocês não sabem que o sono é uma constante da vida, tão concreta e definida como outra coisa qualquer?...

Funcionário brilhoso

Profissional de mão-cheia, empenhava-se a cem por cento no emprego. Fazia tudo e fazia tudo bem. "Tenho muito brilho no meu trabalho", costumava dizer. 

Era de abraços

Abraçou o desemprego com o mesmo entusiasmo com que abraçara a profissão. Era realmente uma pessoa muito abraçadeira...

Profissional

- Então o que é que faz?
- Desempregado.
- E o que é que fazia?
- Nada.