terça-feira, 31 de janeiro de 2012

É Fareja, Nuno, Fareja!

"Há uma cabra à solta em Fajães, no concelho de Fafe, que está a deixar os nervos em franja aos habitantes locais. Com pompa, Bento Rodrigues começava assim, ontem, uma notícia no Primeiro Jornal da SIC. E lá vinha a reportagem, numa recôndita aldeola do Portugal profundo, onde uma cabra tem surgido na calada da noite, junto ao cemitério local, a fazer das suas. Foi na SIC, mas podia ter sido na TVI. Para o caso tanto faz. É o que dá esticar noticiários para fazer contraprogramação."
É assim, com não menos pompa do que Bento Rodrigues, que o jornalista Nuno Azinheira começa, hoje, a sua Crónica de TV, no Diário de Notícias.
De televisão, de jornalismo, do que é realmente notícia e do que deve ser contado aos leitores e aos telespectadores percebe o Nuno Azinheira, crítico televisivo consagrado e último director do jornal 24horas, e portanto não vou discutir com ele. Tomo apenas a liberdade de, humildemente, explicar-lhe o seguinte: não é Fajães, Nuno, é Fareja! Fareja!! Fajães foi inventado por ti, que também de certeza não sabes indicar Fafe no mapa. E por isso dizes que Fareja (Fajães, na tua versão) é uma "recôndita aldeola do Portugal profundo". Mas não é, Nuno! Fareja (Fajães, na tua versão) não é recôndita nem é uma aldeola, já passou por lá Jesus Cristo e o comboio também, e profunda é mas é a tua... ignorância.

Mais um que não conhecia a lei

Manuel Gonçalves integrou em 2009 a lista da coligação PSD/CDS à Câmara do Porto. Gonçalves é do CDS e foi eleito para vereador de Rui Rio, apesar de estar em situação de falência e de a lei eleitoral estipular que são "inelegíveis para os órgãos das autarquias locais" os "falidos ou insolventes, salvo se reabilitados". E Gonçalves não estava reabilitado. A lei refere ainda que quem aceitar uma candidatura sem ter "capacidade eleitoral passiva" é punido "com prisão até um ano ou pena de multa até 120 dias" e deve perder o mandato, explicou ao jornal Público Cândido de Oliveira, especialista em Direito das Autarquias Locais.
Depois de descoberto, Manuel Gonçalves, 48 anos, licenciado em Gestão, pediu a suspensão do mandato e disse que ia ali reabilitar-se e vinha já. Ora cá está mais um que, tal como o inocentíssimo José Lello, também não conhecia a lei...

Estou farto. Não abro mais a porta!

Antigamente eram os ciganos que andavam de porta em porta a vender cobertores. Lembro-me muito bem. E dizia-se que não se devia abrir porque eles traziam um líquido embebido num lenço que punham no nariz e na boca das pessoas para as desmaiar. As pessoas eram mulheres. E depois de desmaiadas (nunca percebi como é que funcionava esta parte), as pessoas entregavam tudo aos falsos vendedores, dinheiro e honra, pela frente e por trás, era só eles quererem. A porta da nossa casa, no Santo Velho e depois no Assento, estava sempre aberta. Os ciganos eram bem-vindos. Os ciganos eram também nossas visitas e havia até uma família cigana, ainda mais pobre do que nós, com a qual às vezes partilhávamos a mesa e a comida. A minha mãe era assim. E ainda é, graças a Deus.

Agora são os da Vodafone, da Zon, da Optimus, da Cabovisão, do Meo, do teo e do raio que os parta. Batem-me à porta exactamente quando eu estou na mesa ou a ir para a mesa, e eu vou abrir porque não sei se eles estão com fome e não acredito que me queiram fazer mal. Mas depois arrependo-me. Porque eu abro por educação, por respeito por quem precisa. Abro e cumprimento, digo que "estou servido", que "tenho a comida a arrefecer", desejo-lhes "bom trabalho e boa sorte", mas vejo-me à rasca para conseguir voltar a fechar a porta. Porque eles fazem de conta, insistem, voltam ao princípio, exigem saber quanto pagamos e acham que nós temos obrigação de lhes dizer.
As operadoras de telecomunicações estão a mandar-nos umas criaturas com orelhas mas sem ouvidos. Criaturas cada vez mais impreparadas e chatas, com "técnicas" de abordagem que são um verdadeiro insulto à inteligência. Não se trata de agressividade comercial, não, estamos já no campo da broeirice. A última vez foi este sábado, à hora de almoço. Era o homem da Vodafone, acompanhado por uma jovem à qual me pareceu que ele estaria a ensinar a arte. Provavelmente para impressionar a pupila, o vendedor passou por cima de todos os preliminares e entrou a matar.
- Boa tarde. Sou Fulano de Tal, da Vofadone. Que operadora tem para a televisão por cabo e telefone? -, atirou-me ele, cheio de uma autoridade que até me assustou. Olhei para o homem, medi-o de cima a baixo e respondi-lhe, mal me recompus:
- Boa tarde. Sou Hernâni Doellinger. E vai desculpar-me, mas eu não tenho que lhe dar essa informação. O senhor, para além de ser da Vodafone, também é da polícia?
A menina corou e ele disse que não. "Nesse caso, muito bom trabalho e dêem-me licença, que estou a almoçar", resolvi eu, enquanto o homem também se resolvia virando-me as costas com aquela cara de desprezo de quem pensa "palerma!", e se calhar sou, e estendendo o dedo para tocar na campainha do vizinho do lado.
Estou farto disto, senhoras e senhores vendedores de fibra da cobra. Já uma vez não abri a porta e é o que vou passar a fazer sempre. Mas se estiveram com fome, por favor digam, que aí o caso muda de figura.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Ó Lello, não me fodas

O deputado socialista José Lello escondeu ao Tribunal Constitucional, durante 14 anos, uma conta de 658 mil euros. Depois de ter sido apanhado pelo jornal Correio da Manhã, Lello, que é um assumido piadista, defendeu-se dizendo que... não conhecia bem a lei e não sabia o que tinha de declarar.
José Manuel Lello Ribeiro de Almeida, 67 anos, engenheiro de formação, gestor de empresas nas horas vagas, é deputado da Nação, sem interrupções, desde 1983. Portanto, há 29 (vinte e nove) anos. Foi ou é, isso para o caso agora não interessa, ministro da Juventude e Desporto, secretário de Estado das Comunidades Portuguesas, vice-presidente do grupo parlamentar do PS, presidente do Conselho de Administração da Assembleia da República, presidente da Assembleia Parlamentar da NATO, vice-presidente da Assembleia do Atlântico Norte, vice-presidente da Comissão Parlamentar de Defesa Nacional, secretário nacional do PS, vice-presidente da Câmara de Comércio e Indústria Árabe-Portuguesa, membro das comissões Política e Nacional do PS, membro da Assembleia Municipal do Porto, administrador da Philips Portuguesa SA e da Cobetar SA, entre outras empresas, e presidente do Conselho Fiscal da Nacional Gás SA, mas não só.
Esta longeva, multifacetada e distinta carreira de homem de Estado e legislador (sim, legislador, não é anedota, é assim que eles lá na Assembleia se chamam uns aos outros, isso e "ó doutor") só podia redundar numa bem fornecida e justificada lista de condecorações e louvores, nacionais e internacionais, como passo a enumerar: Grã Cruz da Ordem do Infante D. Henrique (Portugal), Grã Cruz da Ordem de Honra (Grécia), Grã Cruz da Ordem do Rio Branco (Brasil), Grã Cruz do Cruzeiro do Sul (Brasil), Grã Cruz da Ordem de Leopoldo II (Bélgica), Grã Cruz da Ordem de Mérito (R.F.A.), Grã Cruz da Ordem do Mérito Civil (Espanha), Grande Colar da Ordem do Libertador (Venezuela), Aguilla Azteca - Grau Banda (México), Grande Colar da Ordem Wissan Alavita e Oficial da Ordem Wissan Alavita (Marrocos), Grande Oficial do Mérito (França), Grande Oficial da Ordem do Mérito (Luxemburgo). E tudo isto leva o nosso José Lello ao peito inchado, para além da carteira.
Só digo o seguinte: se um cavalheiro com esta folha de serviço e este reconhecimento a nível praticamente mundial tem a distinta lata de nos vir dizer que não declarou ao Tribunal Constitucional uma conta milionária porque não conhecia a lei, como é que alguém em Portugal pode ser condenado ou sequer criticado por se baldar ao Fisco?
E mais o seguinte: ó Lello, não me fodas.

domingo, 29 de janeiro de 2012

"Os cavaquistas"

Então ele ainda há cavaquistas? Os cavaquistas não se esgotaram quando, em 2006, Cavaco Silva foi eleito pela primeira vez para "Presidente de todos os portugueses"? Ou "os cavaquistas" são apenas um alter ego que serve a Cavaco para manobrar e mandar dizer aquilo em que, como chefe de Estado, não mexe e cala? Seja como for, "os cavaquistas" estão pelos cabelos com o ministro das Finanças, Vítor Gaspar, e parece que até já exigem a sua saída do Governo.
"Os cavaquistas" vêem Gaspar como "um ultraliberal" que está a "dar cabo" do modelo social e económico construído após o 25 de Abril e no qual, frisam, os três governos de Cavaco (1985-1995) tiveram um papel crucial. "Os cavaquistas" acham errado que as medidas de austeridade que são impostas pela crise da dívida pública sejam concretizadas com um enquadramento que vai conduzir, acreditam, à destruição da classe média e, consequentemente, do tecido económico português, que assenta em pequenas e médias empresas, que vivem do consumo.
Eu não sou cavaquista, tarrenego!, mas também já tinha dado fé. E denunciei-o aqui. Por isso, não posso estar mais de acordo, olho da rua para Vítor Gaspar! E olho da rua para "os cavaquistas", a ver se esta retrete começa a feder menos.

sábado, 28 de janeiro de 2012

Secreta era a tua tia!

Os nossos serviços secretos são uma piada. Uma piada mal contada. São "secretos" mas sabe-se tudo. Quase tudo...

Umbiguíssimos

Bem encaminhado que está o lançamento planetário do tricô nacional, tenho mais uma para sugerir ao Álvaro da Economia e dos pastéis de nata. E esta é mesmo de génio, não desfazendo: cotonetes! Cotonetes made in Portugal, feitos com palitos usados mas muito bem lavados em duas ou três águas (como sempre, convém que uma delas seja das Pedras) e finalmente aconchegados nas respectivas extremidades com fiapos da lã sobrante dos camisolões, coturnos e cachecóis que vamos franchisar e internacionalizar (para Angola, sobretudo e em força).
Se os restos da lã não chegarem, e pode acontecer, tenho tudo previsto. Recorreremos, nesse caso, a uma matéria-prima alternativa, mas igualmente reciclada, sem custos acrescidos e à unha de semear - o cotão do umbigo. E só lhes digo: há por aí uns umbigos que são umas minas! Aquilo a que os especialistas chamam umbiguíssimos, tipo Cavaco Silva, José Sócrates, Eduardo Catroga, Jorge Jesus, Alberto João Jardim, Miguel Relvas, José Mourinho, Braga de Macedo, Fernando Nobre, Pedro Boucherie Mendes e outros tantos de que agora não me lembro, e que vão dar pano para mangas.
Quanto aos cotonetes propriamente ditos, eles serão, para além de factor de lucro imediato e directo para o País e Madeira, uma alavanca fundamental para uma outra indústria que lhe ficará a jusante e que é, naturalmente, o negócio das velas de cera.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Vem de carrinho o Banco de Portugal

Afinal, parece que o Banco de Portugal está disposto a suspender os subsídios de Natal e Férias aos seus trabalhadores. Uma intenção manifestada esta noite e com um grande sentido de oportunidade. Pela manhã, o jornal i noticiava que o nosso banco central gastou mais de cinco mil euros para comprar um carrinho de golfe, em Setembro de 2010, já Carlos Costa era o governador.
Isso é um assunto. Outro é este: o corte dos subsídios de Natal e Férias dos reformados e trabalhadores da Função Pública, incluindo os funcionários do Banco de Portugal, é um roubo. E há quem pense que é também uma inconstitucionalidade.

O desemprego também mata, sabiam?

"Trabalho matou 1.633 operários na última década". O título é dado assim, de chofre, pelo JN, e é assim mesmo que estas notícias devem ser dadas, sem nariz-de-cera nem paninhos quentes. O jornal de Joaquim Oliveira acrescenta ainda que, alargando os dados a 2001, o ano mais antigo constante da página na Internet da Autoridade para as Condições no Trabalho, o número das vítimas mortais sobe então para 1.913 pessoas. E se juntarmos os seis trabalhadores que perderam a vida esta semana, três deles ontem, nas obras da barragem do Tua, estamos já nas 1.919 mortes no trabalho, conclui o periódico. São números brutais. Números de tragédia e subdesenvolvimento. E fica-nos na cabeça uma ideia terrível: o trabalho mata...
Mas a falta de trabalho também mata, sabiam? E eu, pela minha parte, gostava de saber: o desemprego quantos portugueses matou na última década? Ou então, para simplificarmos a tarefa de quem o quiser averiguar, fiquemo-nos pelo seguinte: quantos trabalhadores morreram de despedimento e desemprego, digamos, nos últimos cinco anos? Ora aqui está, parece-me, outro interessante tema jornalístico para o JN pegar, se o dono deixar.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Galinhas e coelhos

Portugal trata mal as suas galinhas poedeiras e a Comissão Europeia caiu-lhe em cima com um processo. Levámos nós e mais doze países. Segundo Bruxelas, 47 milhões de galinhas na União Europeia - num total de 350 milhões - ainda estão confinadas a gaiolas demasiado pequenas que não lhes garantem "estruturas, tais como ninhos ou poleiros, que contribuam para que as aves vivam em condições menos cruéis".
Atenção, que isto é assunto sério. As normas europeias exigem que "todas as galinhas poedeiras sejam mantidas em 'gaiolas melhoradas', com mais espaço para fazer ninho, esgravatar e empoleirar-se, ou em sistemas alternativos". Estas gaiolas têm de prever, "para cada galinha, pelo menos 750 cm² de superfície da gaiola, um ninho, uma cama, poleiros e dispositivos adequados para desgastar as garras, que permitam às galinhas satisfazer as suas necessidades biológicas e comportamentais".
Está, portanto, a Comissão preocupada com o bem-estar das nossas galinhas? Pois diz que sim. Mas parece que o que verdadeiramente a incomoda é a existência de concorrência desleal entre os estados membros e distorções no mercado interno comunitário. Isto porque, alega Bruxelas, "os estados membros que ainda autorizam a utilização de gaiolas 'não melhoradas' colocam em desvantagem as empresas que investiram na conformidade com as novas medidas".
Pois. Afinal tem tudo a ver com dinheiro e não propriamente com os direitos dos galináceos. E só assim se compreende que a Comissão Europeia ainda não tenha tomado uma posição sobre o coelhocídio perpetrado sabe-se lá por quem no Parque da Cidade do Porto. Eu insisto na minha: ali houve massacre em massa. Ou, o que é ainda mais provável, em arrozada. E não descansarei enquanto não descobrir o que se passou. É a minha cruzada.

Eusébio mas sem molho

Hoje. Eusébio não faz 70 anos. Eusébio não foi internado. Eusébio não está internado. Eusébio não teve alta. Eusébio não voltou a ser internado. Eusébio não está melhor. Eusébio não está pior. Eusébio não é King. Isto é: Eusébio é forever King, por imperativo nacional, mas agora só daqui a um ano, se Deus quiser, que ainda é mais imperativo. A Bola, a Antena 1 e os outros que lhes foram ontem atrás vão dar-nos hoje um bocadinho de descanso. Um dia sossegado. Só não nos vão dar notícias, para variar, porque já há muito que não dão notícias e nas redacções já ninguém sabe o que isso é. Também nunca viram Eusébio jogar a bola. Portanto, porque não sabem do que falam, até são bem capazes de nos voltarem a enfiar, hoje, mais dose e meia de Eusébio, mas sem parabéns-a-você, sem boletins clínicos e sem outros lambe-botismos. Para mim, está bem. Mas sem molho, se faz favor.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Abençoados pela poncha

O título do jornal é: "Passos e Jardim chegam a acordo". Amém! Na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, todos os dias das vidas deles. Amém! Mas, digo eu, isto é um casal moderno, foi só para não darem o desgosto à família, e vai durar muito pouco. Hipócritas! Um e outro sabem que não foram feitos um para o outro. Ainda por cima são primos, só pode dar estupidez. No dia, breve, em que separarem os trapinhos, lá continuaremos nós, os filhos irreconhecidos, a pagar as contas de uns pais (um país!) que também não conhecemos de lado nenhum.

A justiça dos ricos

O processo de Isaltino Morais regressou ontem ao Tribunal de Oeiras e, de acordo com o jornal Público, já nada impede a juíza de decidir se manda prender o autarca, como já pediu o Ministério Público (MP) por duas vezes desde Novembro, ou se os crimes já prescreveram parcialmente, como diz o famoso e rico arguido.
O semanário Sol fez as contas no passado dia 5 de Dezembro e chegou à conclusão de que o presidente da Câmara de Oeiras vinha interpondo um recurso por mês desde que foi condenado em 2009 a sete anos de prisão pelos crimes de corrupção, fraude fiscal qualificada, branqueamento de capitais e abuso de poder – pena que foi depois corrigida para dois anos pela Relação de Lisboa, que anulou a condenação por corrupção e abuso de poder.
Entre recursos propriamente ditos, respostas a recursos do MP, respostas a respostas do MP sobre os seus próprios recursos, arguição de nulidades, pedidos de correcção de despachos e simples requerimentos ao Tribunal de Oeiras, Isaltino apresentara desde 2009 quase 30 exposições dirigidas a diferentes tribunais que apreciaram o seu processo.
Só em Novembro, após a sua prisão e imediata libertação, o autarca apresentou 14 requerimentos. E na última semana daquele mês houve dias em que os seus advogados enviaram três exposições à juíza.
Tudo isto é feito ao abrigo da lei, mas os enormes recursos financeiros do autarca é que têm alimentado este incessante processo de adiamentos em cadeia visando, em última instância, a prescrição dos crimes. Ainda segundo o Sol, Isaltino já tinha gasto, no final do ano passado, mais de 90 mil euros para tentar evitar a prisão. Fora destas contas estavam os honorários com os seus advogados, assim como o custo de um parecer de um escritório de advogados suíço. Só em taxas de justiça pelos sucessivos recursos interpostos, Isaltino já tinha despendido mais de sete mil euros.
É. A ministra Paula Teixeira da Cruz tem toda a razão. "Neste momento em Portugal há uma justiça para ricos e outra justiça para pobres".

Guerra e fotos 2

Razões de força maior levaram ao cancelamento da conferência "Imagens da I Guerra Mundial", pelo fotojornalista e professor de Fotografia Gaspar de Jesus, anunciada para amanhã, na Fnac do Gaiashopping, em Vila Nova de Gaia. O Instituto Português de Fotografia, promotor do evento, integrado no ciclo Conversas sobre Fotografia, anunciará oportunamente uma nova data.

A solução é dar ao dedo

Há que tempos que eu não via uma coisa assim: uma mulher, ainda nova, a fazer malha num transporte público. Descontraída, com um sorriso nos lábios e manuseando habilmente o frenético par de agulhas, como num duelo, ia dando forma ao novelo de lã que, aos arranques, se lhe esvaía do colo. Era uma camisola, pareceu-me. E, a cena, um delicioso anacronismo. O metro do Porto é sítio para tudo, já lhes digo, principalmente para tudo o que meta telemóvel, bisnagas e calhamaços do José Rodrigues dos Santos. Mas fazer tricô é que eu nunca tinha visto. E gostei.
Passaram-se dois dias. Num jardim fronteiro à praia de Matosinhos, um jovem casal gozava o sol de Inverno e aproveitava para ensinar a filhita a andar de bicicleta. O pai acompanhava a menina, dando-lhe as instruções elementares, mas a mãe sentou-se. Sentou-se, abriu a bolsa, rapou de um pequeno embrulho que eu primeiro não distingui e, com a agilidade de um experimentado bonecreiro, começou a bater-se com quatro-agulhas-quatro, tantas quantas são precisas para tricotar meias de lã. Era o que ela fazia, uma meia. E percebi.
Percebi que isto não é só gosto, moda ou revivalismo. É sobretudo precisão. Voltámos ao pior do tempo antigo. O Portugal democrático, da Europa, das auto-estradas, das universidades e do século XXI é afinal igual ao Portugal fascista e "orgulhosamente só", poeirento e obscurantista do tempo em que a minha mãe, por necessidade, fazia todas as minhas camisolas e as camisolas dos meus irmãos. (E que categoria que elas eram! Tenho uma comigo vai para 35 anos, acreditam?)
Por outro lado, lembrei-me, pode estar exactamente aqui a salvação do País. Permitam-me que lance o desafio: por que não transformar o tricô num desígnio nacional? Porque não começarmos todos a fazer malha para fora? Porque não pôr este país de desempregados a dar ao dedo de Norte a Sul e ilhas, elas e eles, e apostar na internacionalização e exportação em barda das nossas peças de lã? Sim, porque não? O Álvaro da Economia que me desculpe, mas o que é que as natas e os pastéis de Belém são mais do que os barretes, os camisolões, os carapins e os coturnos genuinamente made in Portugal?

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Mestre José Mourinho

Metodicamente, com competência, igual a si próprio, José Mourinho continua a preparar e a pretextar a sua saída do Real Madrid. Como, de resto, já fez nos outros sítios por onde passou. Começou por se queixar dos jornalistas espanhóis, que lhe quereriam fazer a folha, e agora queixa-se dos assobios dos próprios adeptos merengues, colocando-os de sobreaviso: "Pode ser que um dia eu responda e eles fiquem tristes"...
Pois é. Mourinho é um mestre. Mestre na arte de criar cenários para rupturas, como aqui escrevi a 29 de Agosto de 2011 e agora recordo:

"Uma câmara para Mourinho
José Mourinho diz que há uma campanha contra ele em Espanha. Eu não costumo ligar ao que Mourinho diz, porque ele nunca diz nada sem uma segunda intenção, não dá ponto sem nó, e eu tenho mais que fazer do que perder tempo a tentar perceber aonde é que ele quer chegar. Mas abro aqui uma excepção, porque me parece que, desta vez, o homem é capaz de ter razão.
Ontem, durante a transmissão do jogo Saragoça-Real Madrid (0-6), o treinador luso teve direito a uma câmara, em exclusivo, que lhe seguiu todos os movimentos no banco de suplentes. Uma distinção digna do imenso umbiguismo de El Especial, mas que trazia água no bico. Depois do turbulento episódio final do último Barcelona-Real Madrid, o que a realização espanhola procurava era apanhar Mourinho novamente em falso. O português estava sob vigilância.
Numa transmissão paralela à transmissão do próprio jogo (três golos de Cristiano Ronaldo), todos os gestos mais bruscos de Mourinho, os gritos, as caras feias, os protestos, os enfados, os desapontamentos, foram passados a pente fino e repassados em câmara lenta, para que Espanha e o mundo se convençam de uma vez que realmente está ali um homem mau. Sim, Mourinho é capaz de ter razão. Às tantas, eles estão a ver se o tramam. Se calhar há mesmo uma campanha contra ele em Espanha. No entanto,

convém não esquecer que José Mourinho é mestre na arte de criar cenários para rupturas. Foi assim em Portugal, foi assim em Inglaterra, foi assim em Itália. Atentemos primeiro no seu "desabafo" de ontem ao jornal espanhol El Mundo. Diz Mourinho: "Ao contrário de outros países onde treinei, aqui sinto que estão a fazer uma campanha contra mim. Um amigo chegou a dizer-me que, com as pedras que me lançam, conseguia construir um monumento".
Um monumento a Mourinho, claro. Um Mourinho com queda para retocar a história. Porque, se formos um pouco atrás, ao tempo em que ele era Il Speciale e treinava o Inter, vamos encontrá-lo, em Novembro de 2008, a dar azo ao seguinte título na imprensa italiana: "A Itália não gosta de mim". Ou, em Março de 2010, já a preparar o salto para Madrid e a afirmar: "Não gosto do futebol italiano e o futebol italiano não gosta de mim".
Pois é. Ele sabe-a mesmo toda!"

Quem se mete com Angola...

Um jornalista fez uma crónica, na Antena 1, a criticar duramente Angola e o pornográfico programa da RTP Prós e Contras que o primeiro-ministro Miguel Relvas transmitiu a partir de Luanda. A RDP, que parece que não gostou, vai acabar com o espaço de opinião em causa e, na passada, corta o pio ao inconveniente jornalista.
Eu já estava informado de que é perigoso afrontar o regime de José Eduardo dos Santos, só não imaginava, ingénuo como sou, que o longo braço vingador do presidente angolano chegasse cá tão longe. Põe-te a pau, amigo Orlando Castro!

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Grande momento de televisão

Ontem à noite, na TVI. Marcelo Rebelo de Sousa pregava aos peixes, na sua habitual homilia dominical. Falava da troika e de Cavaco, de Passos Coelho e de Seguro, da UGT e da CGTP, da Grécia e da Alemanha, do Benfica e do Sporting, de carecas e de guedelhas, da fome e da fartura, de tudo e de nada. O costume. De repente, lá atrás no cenário da redacção vazia, passa a dona Alice das limpezas, de aspirador pela trela, logo seguida pela dona Amélia, com um caixote de lixo na mão, e da dona Matilde, que não resiste e acaricia com o pano do pó o tampo de uma das mesas de trabalho. Grande momento de televisão! Esqueci-me da arenga do Professor e concentrei-me no desfile em fundo. Domingo lá estarei outra vez para ver. Espero que elas apareçam.

domingo, 22 de janeiro de 2012

O xexé de Belém

Cavaco Silva disse que as suas reformas lhe rendem 1.300 euros por mês. Rendem muito mais, como todos sabemos! O Chefe de Estado enganou-se, esqueceu-se, porque não quero crer que ele quisesse mentir. E disse também que 1.300 euros não lhe chegam para as despesas. Insultou-nos a todos, fez pouco deste país de pobres. Perdeu-se nas palavras, mais uma vez. O Presidente está xexé, só posso concluir e declaro-o aqui oficialmente. Em conformidade, a partir de hoje o Tarrenego! deixará de levar a sério o que Aníbal Cavaco Silva, o Provocador do Povo, diz. Que passe bem e que seja muito feliz, ele mais a sua Maria e restante família. E estimo-lhe as melhoras.

sábado, 21 de janeiro de 2012

Guilhermeville

Foto Hernâni Von Doellinger

Vamos lá ver se é desta que a Câmara de Matosinhos consegue acabar de vez com a praga dos tão descaracterísticos fogareiros a carvão à porta dos restaurantes. A coisa está bem encaminhada, e Guilherme Pinto, o presidente da autarquia, já tem outras na manga para pôr a cidade que nem um brinco. Querem saber? O mar vai ser despejado. Cheira a esgoto e é um esgoto, rua com ele! Rua, é como quem diz, que a rua é para os cagalhões de cão. Puxa-se é o autoclismo no gabinete presidencial e bye, bye, Atlântico, que um destes dias a gente vê-se lá do outro lado do mundo. Quanto à areia da praia, segue em camionetas para os cofres do município. Nunca se sabe quando é precisa para atirar aos olhos dos munícipes.
Mais? O Porto de Leixões passará a acolher apenas barquinhos de papel, higiénico, e bicicletas com matrícula estrangeira, bandeira de conveniência e campainhas de trrim-trrim. A fedorenta lota vai abaixo, para dar lugar à exclusivíssima e perfumada zona residencial Matosinhos Sul-Sul, construída só de recuados e para edis. O bife tártaro será proclamado peixe oficial de Matosinhos, porque onde não há fogo não há fumo, e quem quiser comer bem que vá à merda!
Está também a ser pensada uma permuta de população com o pessoal da Quinta da Marinha. Uma permuta total, troca por troca: a gente fina vem para cá e o povo daqui vai todo para lá. São tios por tios.
Por decreto presidencial, o Leixões SC fechará portas, derivado a excesso de alma e falta de dinheiro, e o pessoal de cabina do Metro do Porto fundará o Lokomotiv da Cruz de Pau, que dará uso ao Estádio do Mar, entretanto vendido aos Gelados Olá, sob ordens expressas do Tribunal de Contas. Para que no futuro não haja confusões, Matosinhos mudará o nome para Guilhermeville. Das memórias do passado malcheiroso e fumarento, para recordar aos vindouros a desgraça que era a cidade antiga, fica apenas o presidente. Ele e os cagalhões de cão.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Mais um insulto

Cavaco Silva disse hoje que fez as contas e já sabe quanto vai receber de reforma da Caixa Geral de Aposentações e do fundo de pensões do Banco de Portugal: 1.300 euros por mês. "Tudo somado [...], quase de certeza que não dá para pagar as minhas despesas", lamentou-se o Presidente da República.
Eu não sei em que despesas é que o cidadão Aníbal Cavaco Silva anda metido, para não se conseguir governar com 1.300 euros por mês (e vamos fazer de conta que ele não tem as reformas políticas), quando a minha mãe, que começou a trabalhar de criada de servir aos 7 anos, é obrigada a remediar-se com 250. A que despesas é que Cavaco reformado tem direito e a minha mãe não tem?
Vou dar uma novidade ao Chefe de Estado: o salário mínimo nacional ainda não chegou aos 500 euros e abrange quase meio milhão de portugueses. Menos de 500 euros, ouviu bem? E há milhares e milhares que nem isto recebem.
A verdade é esta: quando abre a boca para falar de dinheiro, seja das suas reformas, do BPN ou dos funcionários públicos, o economista e poupado Cavaco Silva só diz tolérias. E faz pouco de quem é pobre. O que é feio, diz a minha mãe.

Obrigado? Por nada.

- Ó mãe, ó mãe: já temos concertação social? Já? Já? Já?...
- Temos, meu filho, temos.
- Ó mãe, ó mãe: e os patrões estão contentes? Estão? Estão? Estão?...
- Não, meu filho, não estão.
- Ó mãe, ó mãe: e os trabalhadores estão contentes? Estão? Estão? Estão?...
- Não, meu filho, também não estão?
- Ó mãe, ó mãe: então quem é que está contente? Quem é? Quem é? Quem é?...
- O Governo, meu filho, é o Governo.
- Ó mãe, ó mãe: e porquê? Porquê? Porquê? Porquê?...
- Olha, meu filho, porque... porque... porque é que não vais chatear o teu pai?

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

E a culpa é da democracia?

Os portugueses estão cada vez mais descontentes com a democracia que têm. Apenas pouco mais de metade dos cidadãos (56 por cento) acreditam que este é o melhor sistema político, de acordo com um estudo coordenado por António Costa Pinto, Pedro Magalhães, Luís de Sousa e Ekaterina Gorbunova. Mais grave: 15 por cento dos inquiridos consideram que, em determinadas circunstâncias, é preferível um Governo autoritário.
A falta de confiança nos políticos/Governo é apontada como o maior defeito da democracia em Portugal (19 por cento dos inquiridos). Seguem-se-lhe a ineficácia dos governantes (11 por cento), as desigualdades sociais (10 por cento) e a corrupção (10 por cento).
O inquérito foi realizado em Julho do ano passado. Imaginem que o faziam agora. Creio que a democracia seria despedida, por indecente e má figura. E aqui é que bate o ponto: é que a coitada não tem culpa. É preciso muita sem-vergonha para lhe atirar pedras, com o povo que somos e os políticos que temos.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Já começou

Um grupo indeterminado de pessoas atacou ontem o balcão da Segurança Social na Loja do Cidadão da Torre das Antas, no Porto. Não foi um assalto. Eram utentes, estavam revoltados com o atendimento naquele serviço e destruíram a pontapé uma divisória em vidro. O Sindicato dos Trabalhadores em Funções Públicas e Sociais do Norte garante que este não é um caso isolado e está preocupado com a segurança dos funcionários daqueles serviços. Na verdade, as ameaças de agressões a trabalhadores com, por exemplo, canadianas e guarda-chuvas são já o pão nosso de cada dia, havendo mesmo situações em que os clientes tentaram saltar o balcão para ajustar contas com os funcionários.
Ontem também, mas em Queluz, uma dezena de pessoas, quase todas idosas, forçou a entrada no centro de saúde, levando o segurança à frente, em protesto contra a falta de médicos de família no concelho.
São os primeiros sinais do que se adivinhava. O povo não aguenta, vai rebentar. Foi previsto aqui, no Tarrenego!, e decerto as mentes dos mentecaptos que nos desgraçam a partir de Lisboa também já lá tinham chegado. Mas isto ainda não é nada. Apenas começou. Vai piorar e muito.
O desemprego, os cortes nos salários e nas reformas, a fome, a doença sem assistência, a falência, o despejo, o desprezo, a desesperança são sementes de ódio e insensatez que este Governo anda por aí a semear como se não fosse nada com ele. Diz apenas, o Governo mandado, que está a acabar um serviço que outros começaram.
Rico serviço. O serviço de nos tornar a todos pobres, para "salvar o País". País que, hoje em dia, quer dizer Eduardo Catroga, Celeste Cardona, Braga de Macedo ou Manuel Frexes, como antes queria dizer Armando Vara ou José Penedos.
O povo não pode mais e vai rebentar na rua, isso é certo. Conviria é que afinasse a pontaria. Porque ontem, no Porto e em Queluz, a ira popular errou no alvo. Porque os funcionários públicos (nas lojas do cidadão, nos centros de saúde, nos hospitais, nas câmaras ou nas juntas de freguesia) não fazem leis - cumprem-nas. Estamos todos no mesmo barco, que se afunda em alto mar. Que não seja um simples balcão a separar-nos. Os funcionários públicos também são vítimas das mesmas políticas paridas da barriga de aluguer que é o Governo Relvas-Passos-Portas e que nos desgraçam a vida. Pior: esta troika de trazer por casa, ao mesmo tempo que nos empobrece a todos, vai cinicamente retirando à Segurança Social os poucos meios de que ela ainda dispunha para nos acudir. É o serviço completo. É a completa filhadaputice.

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Um pé dentro e outro fora

Deixem-me atalhar caminho: não conheço pessoalmente a senhora doutoranda em direito Celeste Cardona e a senhora doutoranda em direito Celeste Cardona também nunca me viu mais gordo. Além disso: tenho dois irmãos que trabalham desde os 10 anos e, permitam-se, sempre com sucesso, mas os únicos lugares que os chineses lhes ofereceram foram de estacionamento e apenas porque já estavam de saída.
Posto isto, que fique também claro que não invejo o dinheiro que a senhora doutoranda em direito Celeste Cardona vai ganhar para a EDP. Nem lhe invejo o cargo, nem lhe invejo o currículo. Na verdade, a inveja é uma cena que não me assiste. E a culpa é da minha mãe, que nos ensinou assim.
De resto, nutro até uma certa simpatia pela senhora doutoranda em direito Celeste Cardona. É que eu e ela temos esta coisa em comum: estamos ambos fora da política activa. Eu, desde que nasci. A senhora doutoranda em direito Celeste Cardona, desde "há cerca de oito anos". Somos pessoas e pronto. Claro que com a pequenina diferença entre nós de que eu não faço parte da Comissão Política Nacional do CDS.

Estas carolas não param

Carros com Facebook. Aí está uma das principais novidades tecnológicas apresentadas durante a passada semana na CES, a maior feira de electrónica de consumo, que decorreu em Las Vegas, EUA. De génio: a aplicação do Facebook para quem está ao volante. Era mesmo o que estava a fazer falta.
Com esta, sou capaz de finalmente aderir aos automóveis.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Para o Governo descansar as costas

A antiga ministra da Educação, Maria de Lurdes Rodrigues, e o advogado João Pedroso vão ser julgados por prevaricação, arriscando uma pena de prisão que pode ir dos dois aos oito anos. De acordo com o jornal Público, O Ministério Público alega que em causa está o facto de a ex-governante, actual presidente da Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento (FLAD), ter, no exercício das suas funções, estado envolvida na contratação do irmão de Paulo Pedroso para o "beneficiar patrimonialmente", provocando desta forma um "prejuízo para o erário público".
Acho bem que os dois sentem o cu no mocho e que levem pela medida grande, se realmente prevaricaram (os crimes de gente fina têm sempre uns nomes a condizer!). Mas não acredito. O melhor da notícia é que dá ao Governo uma folguinha para descansar as costas.

Cuidado com o que se deseja!

Há 14 anos que Paredes de Coura espera e desespera pela prometido ligação à A3, que nem dista mais do que 12 quilómetros da sede do concelho. Desde Guterres, ainda a auto-estrada que vai de Valença ao Porto não tinha sido construída. O então ministro João Cravinho chegou a comprometer-se com a autarquia, assegurando que, até 2000, as nove mil almas courenses ficariam "ligadas ao mundo". Mas 2000 passou, o mundo não acabou e o anterior Governo, de José Sócrates, meteu o assunto na gaveta avisando a Câmara presidida pelo também socialista António Pereira Júnior de que afinal a obra não poderia avançar, "por falta de dinheiro".
Do actual Governo é que Pereira Júnior ainda não obteve respostas. Hoje, no jornal Público, o autarca lamenta e diz temer que os actuais "12 quilómetros de más ligações" entre o nó de Sapardos e a vila sejam um entrave à instalação de novas indústrias no concelho. E garante que vai continuar à espera, "não pacientemente, mas a contragosto", até porque está seguro de que a ligação à A3 acabará por se concretizar: "Temos a certeza, só não sabemos quando".
Compreendo os anseios de António Pereira Júnior, que muito provavelmente até serão comungados pela esmagadora maioria dos courenses. Afinal, hoje em dia já são poucas, e consideradas esquisitas, as pessoas que não querem ficar "ligados ao mundo". Eu, no entanto, gosto de Paredes de Coura tal qual é e está. Eu, se fosse presidente da Câmara, nunca falaria de "12 quilómetros de más ligações", mas realçaria a beleza incomparável das várias estradas (incluindo os tais 12 quilómetros) que levam até àquele paraíso. Porque Paredes de Coura é um paraíso. Tal qual é e está. Tal qual como eu gosto: pacato, quase deserto, quase só para mim. Mas eu não sou presidente da Câmara. Sou apenas uma visita e, por isso, posso dar-me ao luxo destes egoísmos. E, sim, sou esquisito: gostava bem de ir para lá morar, mas só se me garantissem que poderia ficar desligado do mundo.
O desejo do presidente da Câmara de Paredes de Coura é, porém, a ligação à A3 e mais fábricas. Pereira Júnior diz que tem muito espaço de vago e quer industrializá-lo. Assim seja! Certamente que o autarca tem também bem ponderado tudo o que o concelho poderá vir a perder quando (e se) ganhar os seus 12 quilómetros de auto-estrada. Espero que a troca valha a pena! Porque é preciso ter sempre muito cuidado com o que se deseja. É que, às vezes, os desejos concretizam-se. E convém não esquecer que foi por causa de um desejo que Adão e Eva deram cabo do paraíso original.

domingo, 15 de janeiro de 2012

Faz tu, ó Silva!

O cidadão Silva voltou ao Facebook, ou alguém por ele, para "falar" ao País. O cidadão Silva podia ter dito que é solteiro e bom rapaz, poeta nos tempos livres e astronauta de profissão, que tem 35 anos e grande pujança sexual, ou então assumir a velhice e exibir as fotografias dos gatos e dos netinhos. Porém, falou ao País.
E o que disse desta vez o cidadão Silva aos seu amigos do Facebook? Que está um frio de rachar e a casa de banho do palácio não tem aquecimento? Não! O cidadão Silva do Facebook pediu aos funcionários públicos para fazerem "mais e melhor" com "menos", de forma a "contribuírem para manter viva a esperança do futuro".
Primeiro: também há esperança do passado?
Segundo: não percebo o que é que o Silva do Facebook tem contra os funcionários públicos e o que é que distingue os funcionários públicos do resto dos portugueses para merecerem este puxão de orelhas tão personalizado.
Terceiro: o Silva do Facebook, supremo funcionário público da nação, não é o Cavaco Silva de Belém que - pelas contas do meu amigo Orlando Castro, do blogue Alto Hama - só de reformas recebe 4.152 euros do Banco de Portugal, 2.328 euros da Universidade Nova de Lisboa e 2.876 euros dos tempos de primeiro-ministro?
É? Então o meu apelo é o seguinte: já que o cidadão Silva não faz nada em Belém que sirva hoje em dia aos portugueses, para além de escrever no Facebook, ou alguém por ele, não o poderia fazer por menos?

sábado, 14 de janeiro de 2012

Nós, os parvos

Em entrevista ao semanário Expresso, citada pelo jornal Público, Eduardo Catroga justifica as recentes nomeações da rapaziada do PSD e do CDS para o supertacho da EDP com ligações a Macau, excepto a de Celeste Cardona, que ele, que sabe tudo, não sabe como é que ela lá foi parar. A sério? Então foi só isso? Foi por causa das ligações ao Oriente? E foram os chineses que os escolheram? E nós somos todos parvos?

Anjos da Guarda

A GNR identificou no ano passado 15.596 idosos a viverem sozinhos ou isolados, um número que esta força de segurança vai actualizar com uma acção que tem início já amanhã. A segunda edição da campanha Operação Censos Sénior realiza-se em todo o país até 29 de Fevereiro e tem como principal objectivo pôr em dia os dados existentes. Nos registos da Guarda constam a identificação de cada idoso, idade, contacto e identificação dos familiares mais próximos.
É um trabalho inestimável, completado pela PSP nos centros urbanos. E é um trabalho desconhecido pela maioria dos portugueses, mas que engrandece a GNR e a PSP e enche de vergonha outros serviços do Estado mais vocacionados para o assunto e que não querem saber. Eu também não sei o que é que os cagões de lá de cima fazem, depois, na posse desta preciosa informação. Cortam nas reformas e na hemodiálise?

Para quê? Para digma!

Conta o Expresso que o Benfica desistiu das negociações com Pais do Amaral e prepara-se para renovar contrato com a Sport TV da Joaquim Oliveira. Estão a ver como não houve revolução nenhuma na Liga de Clubes? Estão a ver como não houve mudança nenhuma de paradigma no futebol português? (E o que caralho quer dizer mudança de paradigma?) Estão a ver como o outro, o velho, a sabe toda? Quanto aos "pequenos", que esperem pela pancada!

Guerra e fotos

Gaspar de Jesus é o orador convidado pelo Instituto Português de Fotografia (IPF) para a próxima sessão das Conversas sobre Fotografia, agendada para dia 26 de Janeiro (quinta-feira), pelas 21h30, na Fnac do Gaiashopping, em Vila Nova de Gaia. "Imagens da I Guerra Mundial" é o tema da conferência, que terá como objectivo principal analisar a relação entre a fotografia de guerra e a sociedade e os meios de comunicação social da época.
A dissertação de Gaspar de Jesus tem como ponto de partida o notável trabalho de Arnaldo Rodrigues Garcez, conhecido como o primeiro fotógrafo de guerra português, que acompanhou a participação das tropas lusas na I Guerra Mundial e produziu um importante registo que só recentemente foi apresentado ao grande público.
Gaspar de Jesus, fotojornalista e professor de Fotografia, trabalhou em A Capital, O Primeiro de Janeiro, A Bola, TV Guia, Notícias Magazine e Autores. Artista premiado, realizou 16 exposições individuais e participou em inúmeras exposições colectivas, dentro e fora do País. Integra actualmente o quadro de formadores do IPF, no Porto. É co-autor dos livros "Portugal e o Ambiente", "Reencontros - Portugal em Fotografia", "Daqui Houve Nome Portugal", "21 Retratos do Porto para o Século XXI", "Porto Cidade com Alma" e "Porto sem Filtro". É autor do blogue Arte Fotográfica e promotor das tertúlias Com a Arte no Olhar.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

O velho sabe-a toda

Vai por aí uma enorme alegria com a "derrota" dos três grandes nas eleições da Liga de Clubes. Evidentemente que sobretudo com a "derrota" do FC Porto. A "derrota" de Pinto da Costa. A "derrota" do "sistema". Lembram-se até que o presidente portista, durante o processo eleitoral, recomendou a competência de António Laranjo, o candidato vencido, e sobre Mário Figueiredo, o vencedor de ontem, disse apenas que sabia que ele é genro do presidente do Marítimo? Lembram-se, não lembram?
É. Mas Pinto da Costa sabia mais, não queria é que se soubesse o que ele sabia. Pinto da Costa sabia, por exemplo, que o portuense Mário Figueiredo, novo presidente da Liga, faz parte (vai sair agora) da sociedade de advogados de Gil Moreira dos Santos - o advogado que o defendeu, a ele, Pinto da Costa, no processo Apito Dourado - e que também integra Adelino Caldeira, administrador da SAD do FC Porto.
Pinto da Costa perdeu? Não creio. O velho sabe-a toda.

Lisboa, não tomes juízo!

Depois do chantagista-mor, a vez do chega-me-isso de serviço. Nas vésperas da mais que provável assinatura do programa de assistência financeira à Madeira, prevista para a próxima segunda-feira, um tal Gabriel Drumond, ex-deputado e dirigente do PSD regional, saiu a terreiro para ameaçar que ou Lisboa "toma juízo ou temos de ir para a independência". Drumond, que por acaso também é o presidente da FAMA, associação independentista de que Alberto João Jardim é sócio n.º 1, acusa o Governo da República de se ter tornado num "bando de malfeitores, a começar pelo primeiro-ministro e ministro das Finanças, que tem um padrinho que é o Presidente da República".
Pois faço votos para que Lisboa não tome juízo. E se Drumond e Jardim têm mesmo "de ir para a independência", que vão pela sombra.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Jardim, o inexequível

De "calças na mão" e a necessitar de dinheiro fresco "como de pão para a boca", Alberto João Jardim ameaça não assinar o plano de assistência financeira da Madeira se, na sua douta opinião, ele for "inexequível". "O resultado disto, se não assinar agora, é uma crise política", explicou o chantagista do Funchal, advertindo que não vai "demitir-se para fazer a vontade aos senhores de Lisboa, porque já lá foi o tempo em que Lisboa escolhia o governador da Madeira".
Claro que isto é só paleio. É o agarrem-me-senão-parto-tudo do costume. A inexequibilidade, de resto, é um conceito muito relativo e dado às mais cómodas interpretações. Às vezes basta desencravar um pentelho, na catroguiana expressão, para que tudo se componha. O próprio Jardim também é democraticamente inexequível, como todos sabem e alguns têm vergonha de dizer, e no entanto está lá no poleiro desde o século passado. Quer-se dizer: é só paleio, mas tem rendido.
Havia de ter piada se desta vez, pelo menos uma vez em trinta e tal anos, os senhores de Lisboa o deixassem arriar completamente as calças e depois... agissem em conformidade.

Vertebrados e invertebrados

O vertebrado mais pequeno de sempre é uma pequena rã que não alcança os oito milímetros de comprimento e vive nas folhas caídas no chão da floresta na Nova Guiné. A novidade é dada hoje em Portugal pelo jornal Público, citando a revista Public Library of Science One. A rã, chamada Paedophryne amauensis, é mostrada em cima de uma moeda.
Já o maior invertebrado de sempre é uma espécie de político português que vive aos caídos de moedas na selva nacional. Tem o nome científico de Destesthiculadum amanuensis, mas é também conhecido como sabujo, sim-senhor, chega-me-isso, moina, lambe-botas, troca-tintas ou voz do dono. Animal ginasticado, esta espécie de político português, que pode ser encontrada também nos jornais e outras empresas, caracteriza-se por saltar facilmente de tacho em tacho, sempre para o maior.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Lunáticos

Manuela Ferreira Leite (MFL) defendeu ontem, na SIC Notícias, que "quem tem mais de 70 anos, e quer fazer hemodiálise, tem de pagar". A antiga ministra das Finanças e ex-líder do PSD disse que não é possível continuar com o serviço de saúde universal e gratuito, atendendo à situação do País e da Europa.
Ora bem: eu não sei em que país é que esta gente vive, não sei onde é que esta gente tem a cabeça. Em Portugal é que não é, de certeza. Primeiro aparece-me o Soares dos Santos (SS) com a lengalenga de que andámos anos e anos a viver "acima das nossas possibilidades" e agora só estamos a pagar o patau. Mas de quem fala SS? Da sua família rica? Do seu círculo de amigos ricos? Ou dos pobres trabalhadores do Pingo Doce, aos quais impõe condições de escravos e salários de miséria? Quem é que pôs o País a viver "acima das suas possibilidades"? Fui eu? Foram os operários dos Estaleiros de Viana do Castelo? Mas é mesmo do Portugal onde eu vivo que SS fala?
Agora vem a Manuela Ferreira Leite, que, verdade seja dita, não costuma ter muita sorte cada vez que abre a boca. E voltou a entrar mosca. Portugal tem 800 mil desempregados e mais de dois milhões de pobres, abaixo e acima dos 70 anos. E até 2013 vão desaparecer mais de 116 mil empregos e o rendimento real das famílias vai cair mais de dez por cento. Este é o país real, que MFL desconhece de todo. Este é o país das pessoas, das ruas, dos autocarros e do metro, que MFL obviamente não frequenta. É o país da sopa dos pobres, dos sem-abrigo, dos sem-saúde, dos sem-futuro, que MFL comodamente ignora.
De uma ex-conselheira de Estado, ex-ministra e ex-líder da oposição, eu esperava que ela tivesse rasgo e indicasse o caminho para que, apesar da situação do País e da Europa, Portugal - este Portugal desempregado, pobre e doente - pudesse continuar a ter, pelo menos, um serviço nacional de saúde universal e tendencialmente gratuito. Mas não. A sentença de Manuela Ferreira Leite está dada: hemodiálise para quem tem dinheiro, a morte para quem não tem.

Os felizes contemplados

Assunção Cristas, ministra da Agricultura e Etc., nomeou dois autarcas, um do PSD e outro do CDS, para a administração da empresa Águas de Portugal. A taluda saiu desta vez ao social-democrata Manuel Frexes, presidente da Câmara do Fundão, e ao democrata-cristão Álvaro Castello-Branco, vice-presidente da Câmara do Porto. E logo se levantou novo alarido contra esta espécie de é-fartar-vilanagem que na verdade não é: trata-se apenas, como sempre se tratou, de dividir os despojos da vitória e do País entre os vencedores, e a coisa aqui nas Águas até nem podia ter sido mais democrática, 50-50, como qualquer treinador ou comentador de futebol poderia explicar muito melhor do que eu.
Eu já disse: acho bem. Tivesse eu por onde, estivesse eu na mama da Assunção Cristas (é uma força de expressão), e fazia o mesmo, dava o melhor aos meus amigos. De resto, este Governo só se enganou quando prometeu, antes de ser Governo e para ser Governo, que nunca iria fazer isto, dar tachos à sua rapaziada. Porque, desde que se fez Governo e começou a distribuir os envelopes pela família, tem sido de uma coerência inatacável. Só nos últimos dias, foram os da luz, agora os da água, e estou mortinho por ver quem é que eles vão meter nos esgotos.

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Temos de ser uns para os outros

D. José Policarpo, cardeal patriarca de Lisboa, defendeu hoje em Fátima que os políticos não têm de assumir a sua ligação à maçonaria. Eu não previ que a Igreja tinha uma palavrinha a dizer sobre o assunto? Também não era difícil de adivinhar.

Tabaco, pecado e crime

Foto Hernâni Von Doellinger

Um estudo coordenado pela Faculdade de Medicina de Lisboa e pago pela Direcção-Geral de Saúde determina o fim das excepções no combate ao consumo de tabaco, apontando para a proibição de fumar à porta de cafés, bares, discotecas e restaurantes.
Quem sou eu para pôr em causa os fundamentos científicos e a sensatez das conclusões da maior investigação realizada em Portugal sobre o impacto da chamada lei do tabaco no sector da restauração e similares? Afinal, eu sou aquele que, pelos nove-dez anos, ia fumar para trás do Jardim do Calvário, o sítio de Fafe onde se faziam as coisas feias, e não me queixava dessa segregação auto-imposta. Também não me queixava porque não era eu quem pagava o meio maço de Definitivos que ali queimávamos num instante, antes que alguém nos visse. Depois ia-me confessar. Porque Deus vê tudo e fumar era um pecado muito grande, um dos maiores logo a seguir à punheta.
Não fiquei com o vício. Do cigarro, quero dizer. E sei e sinto que os restaurantes estão muito melhores desde que proibiram a entrada ao fumo. Até a comida é mais saborosa. Mas incomoda-me solenemente todo o tipo de fundamentalismo. O fundamentalismo que nunca pára e que, neste caso, já leva o restaurante até ao outro lado da rua, onde se calhar há outro restaurante, o que lhe dá pé para criar na cidade enormes "zonas livres de tabaco". Por este andar, os fumadores, adultos e pais de família, acabarão por ser corridos para os sítios onde se fazem as coisas feias. Se se quiserem agarrar ao SG Ventil sem irem presos, lá terão que marcar encontro no Monsanto ou no Parque Eduardo VII, sendo da capital, ou nos arredores do Parque da Cidade ou da Câmara do Porto, se forem cá de cima. No resto do País, cada um que se amanhe na quelha mais próxima. Mas depois todos têm que se ir confessar.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

A família Oliveira

Em finais de 2010, António Oliveira anunciou que ia processar o filho, Vasco Oliveira, por declarações feitas pelo rapaz após a expulsão da Casa dos Segredos da TVI. Declarações "gravíssimas", que "ofendem" a "honra e a consideração" da família Oliveira, explicou então, em comunicado, o antigo seleccionador nacional.
Na resposta, obviamente que ao jornal Correio da Manhã, Vasco disse: "Se ele [o pai] pensa que é o rei do mundo, está enganado. Tudo o que ele fez, os podres, serão divulgados". E três meses depois avisou que estava a escrever o "livro do ano". "Vou contar o que ninguém sabe. Novos segredos que vão deixar todos de boca aberta. Os podres do meu pai virão ao de cima", voltou a ameaçar, mais uma vez através do CM.
Não sei se o processo foi em frente, não sei se o livro saiu.
Sábado à noite, António Oliveira foi à RTP-N e acusou o irmão e ex-sócio Joaquim Oliveira de controlar o futebol português através da Olivedesportos. "O presidente da Federação é colocado por um lóbi fortíssimo que existe em Portugal. O presidente da Liga é colocado na Liga por interesses do lóbi que domina o futebol em Portugal, que é a Olivedesportos, obviamente. Mas eu já o disse publicamente. Sem o ‘São Martinho’ de Penafiel [terra natal dos manos Oliveira], alguma vez o Fernando Gomes iria para presidente da Liga?", questionou o ex-treinador, admitindo também ter sido chamado para a selecção nacional por influência da Olivedesportos.
Não sei se estas declarações são "gravíssimas" e "ofendem" a "honra e a consideração" da família Oliveira. Não sei se Joaquim Oliveira vai processar o irmão e ex-sócio.
Decerto não. O profile de Joaquim é demasiado low. Ademais, ele e os filhos andam ocupadíssimos a dar cabo de jornais e da vida de centenas de trabalhadores.

Se calhar sou mação

Este folhetim sobre a maçonaria anda a desassossegar-me a alma. Os dias das revelações estão a empurrar-me ao encontro dos meus segredos mais profundos. Eu não sabia, mas se calhar também sou mação. Eu cuidava que sim, mas o mundo profano decerto não é o meu mundo. Foi o que descobri. É o que me atormenta. Também eu, tal como os tais, reivindico, prego e não pratico valores morais de alto coturno como a virtude, o universalismo, a honestidade, a tolerância, a humanidade, o trabalho, a fraternidade e outros ou outras ades, âncias e ismos.
É certo que, ao contrário dos tais, me fico por aí: pela hipocrisia sem consequências. De resto, sou incapaz de vigarizar, mentir, trair, armadilhar, conspirar, destruir ou provocar e cavalgar a desgraça dos outros para atingir... a virtude, o universalismo, a honestidade, a tolerância, a humanidade, o trabalho, a fraternidade e outros ou outras ades, âncias e ismos. Por outro lado, uso avental pelo menos duas vezes por dia e só o tiro quando vamos para a mesa ou acabo de lavar a louça. É. Se calhar também sou mação.

domingo, 8 de janeiro de 2012

É preciso ter lata 2

A coligação PSD-CDS vai meter seis dos seus no tacho da EDP. Faz bem. Eu, se tivesse por onde, fazia o mesmo, dava o melhor aos meus amigos. Mas António José Seguro, o inseguro líder do PS, ficou escandalizado. E disse que se trata de uma demonstração da "apropriação por parte das clientelas dos partidos do Governo". Pois trata. É a vida!
Porém, Seguro não ousou criticar os nomes nem a competência dos nomeados. O que ele se limitou a dizer foi que isto "é um mau sinal" e que "é preciso pôr travão" a este tipo de situações. Pois é. Principalmente agora que são o PSD e o CDS a distribuir dinheiro pela família. Quando era o PS era sempre na prise.

O Relvas é um patarata

Quero pedir desculpa. Ao contrário do que eu pensava e aqui escrevi, afinal o primeiro-ministro Miguel Relvas não percebe nada da poda. Vir outra vez falar do processo de emigração em curso, quando estávamos agora todos entretidos com o folhetim da maçonaria e das secretas, é de um sentido de oportunidade apenas comparável ao do palhaço que se enganou no número da porta e actuou num funeral. Só se percebe se for para mudar de assunto. Será?

sábado, 7 de janeiro de 2012

Podiam ter-me perguntado

Um estudo avaliou três vezes as capacidades cognitivas de mais de sete mil funcionários públicos ingleses num período de dez anos, concluindo que, afinal, o declínio do cérebro não começa aos 60 anos, mas logo aos 45. Estudo redundante e desnecessário. Obliterando a especificidade do cérebro de funcionário público, podiam ter-me perguntado e ficavam logo a saber o mesmo, sem mais trabalho. Sou uma prova viva! De resto, o Governo e o patronato de Portugal já há muito que também têm conhecimento desta realidade científica, provavelmente através de estudos secretos, ou vocês pensavam que é por pura maldade que um e outro mandam para o caixote do lixo os trabalhadores portugueses acima dos 50?
Tinha mais duas ou três coisas para dizer sobre este assunto, mas, cá está, não me vêm à cabeça, não me lembro.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Afinal havia outro

Afinal são três e não dois os líderes parlamentares que pertencem à maçonaria. É o que conta hoje o DN, acrescentando Nuno Magalhães, do CDS, aos já sabidos Luís Montenegro, do PSD, e Carlos Zorrinho, do PS. Este trio controla, ao todo, 206 deputados. Isto é: quase 90 por cento do plenário da Assembleia da República. Dito de outra maneira, como se fosse o reclame a um sabonete: nove em cada dez deputados são dirigidos por mações.
Ainda de acordo com o DN, Nuno Magalhães integra, tal como Carlos Zorrinho, a maior obediência maçónica portuguesa, o Grande Oriente Lusitano, enquanto Luís Montenegro pertence à segunda maior, a Grande Loja Regular de Portugal, fazendo parte aqui da Loja Mozart, a mesma de personalidades como Jorge Silva Carvalho (ex-director das secretas e actual quadro da Ongoing) e Nuno Vasconcelos (o patrão da Ongoing).

O Sporting? Não acredito!

Há quem diga que as claques de futebol têm um lado bom. Eu nunca o vi. Mas a verdade é esta: as claques chegaram e eu deixei de ir aos estádios como espectador. O que conheço é o lado mau - imbecil, arruaceiro e perigoso -, que passa a péssimo se for reconhecido e premiado pelos clubes. O Sporting resolveu exaltar o lado mais violento das suas claques, distinguindo-as com um corredor da fama repleto de imagens agressivas e intimidatórias. As imagem, conta o jornal Público, que as viu, foram estrategicamente colocadas, esta época, no acesso aos balneários da equipa visitante, no Estádio de Alvalade.
O caminho que os jogadores visitantes têm de percorrer para se equiparem e depois para irem e virem do relvado tem as paredes forradas com fotografias gigantes de adeptos das claques em poses hostis, desafiando os seguranças. Outros de cara tapada e com tochas na mão. Outro numa pose que sugere uma saudação fascista. Outro ainda com um tatuagem com a cruz de ferro, um símbolo que, não sendo exclusivo do nazismo, está muito associado a movimentos da extrema-direita.
O Sporting! O clube diferente. O clube dos viscondes e outros aristocratas. O clube dos doutores e engenheiros. O clube de um ex-polícia.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Ligações perigosas?

Luís Montenegro, líder parlamentar do PSD, e Carlos Zorrinho, líder parlamentar do PS, pertencem à Maçonaria. Juntos controlam 182 deputados, quase 80 por cento do plenário da Assembleia da República. Segundo o semanário Expresso, da loja de Luís Montenegro fazem também parte um dos seus números dois no Parlamento, o deputado Miguel Santos, o ex-espião Jorge Silva Carvalho, cinco administradores da Ongoing e ex-deputados sociais-democratas e socialistas. Um destes dias se saberá certamente quem são os figurões que pertencem à loja de Carlos Zorrinho.
Mas, com o que se sabe, já há quem pergunte se somos governados por partidos ou pela Maçonaria e se tanto faz votar no PS como no PSD. E, uma vez que a Maçonaria não vai a votos, já há também quem pergunte se Portugal tem mesmo uma democracia. E já há quem defenda que a alternância dita democrática não deve funcionar entre direita e esquerda, mas entre Maçonaria e Opus Dei.
Aposto que a hierarquia da Igreja portuguesa vai ter uma palavrinha a dizer sobre o assunto.

Sempre contra os trabalhadores

João Almeida, porta-voz do CDS e vice-presidente da bancada do partido, sugeriu ontem no Parlamento que os consumidores portugueses deveriam boicotar o Pingo Doce, como castigo pela deslocalização do principal accionista da Jerónimo Martins para a Holanda. "Se é legítimo a um empresário fazer essa opção - ainda que possa ser criticável -, também os consumidores podem retirar consequências dessa opção e adaptar o seu comportamento. Qualquer consumidor, perante esta opção do empresário, pode adaptar o seu perfil de consumo", disse o deputado.
Dei-lhe até à abertura do horário de expediente de hoje para vir explicar que o que disse não era o que queria dizer, que as suas declarações tinham sido retiradas do contexto, etc. e tal. Mas nada! E tomem nota que, a mim, não me pareceu que João Almeida estivesse a atacar o patronato (como se isso fosse possível!). O que eu percebi foi o CDS a virar-se mais uma vez contra os trabalhadores.
Explico: descontado o facto de outros grupos nacionais já andarem lá por fora a fazerem pela vida com os seus supermercados, o que eu pergunto é:
- Ok, liquidamos o Pingo Doce cá em Portugal. E o que é que fazemos com os seus trabalhadores?
- Ok, deixamos de comprar no Pingo Doce. E vamos comprar onde, nas lojas gourmet?

Eugénio de Andrade não merecia

A Fundação Eugénio de Andrade, no Porto, foi extinta. Fechou, em Setembro, por falta de apoios e de dinheiro, e já não vai a tempo de emigrar para a Holanda, como o Pingo Doce, ou fugir para o Brasil, como a Leya, em busca de uma cidade e de um país que a mereça. Creio que a questão que nos deve fazer pensar é exactamente esta e não outra: a Fundação Eugénio de Andrade, no Porto que salvou o Coliseu, teve que fechar portas, apenas seis anos após a morte do poeta; como foi isto possível, nas nossas barbas?
Fala-se de despejos, de intrigas, de mentiras e conveniências mais ou menos declaradas, atiram-se culpas de ida e volta, há conferências de imprensa e ameaças com tribunal. Recuso-me a nomear esta gente, não me interessa quem é quem em cada lado da barricada ou barricadas - autarquia, ex-directores da fundação ou herdeiros de Eugénio de Andrade. Pergunto: em nome de quê ou de quem foram levantadas as barricadas que deram nisto, nesta barracada? Como pode esta gente, agindo de formas tão diferentes e contrárias, dizer toda que está a respeitar "a vontade do escritor"?
O espólio de Eugénio de Andrade pertence, por testamento, à cidade do Porto e está à guarda da Câmara Municipal. Os ex-directores defenderam ontem que o melhor destino a dar ao imóvel que durante 19 anos acolheu a fundação seria criar uma casa-museu dedicada ao poeta, uma Casa da Poesia.
Confesso que, de momento, o futuro do legado físico de Eugénio de Andrade é o que menos me inquieta. O espólio é certamente importante, vale dinheiro, e portanto alguém lhe há-de dar rumo e uso, mal nos desprecatemos. E a casa, palavra de honra que não acredito que a insensibilidade cultural de Rui Rio chegue ao cúmulo de ele não arranjar uma solução que a ligue de modo efectivo e digno ao grande poeta, logo que a poeira assente.
O que me incomoda, de momento, é o circo desnecessário e maldizente montado à volta e em nome do nome e da memória-memória de Eugénio de Andrade. Ele não merecia isto. E merecia mais de nós todos que não fizemos nada.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Leya faz as malas para o Brasil

O grupo editorial Leya está a despedir em Portugal para investir no Brasil. O editor da Teorema e a editora da Estrela Polar, assim como os dois gestores de marca, o da Dom Quixote e o da Asa, estão entre as mais de 30 pessoas de diversos sectores que o eucalíptico grupo de Miguel Paes do Amaral está a mandar embora desde terça-feira, no Porto e em Lisboa, alegando extinção de postos de trabalho. Depois de ter posto o mercado livreiro português a pão e água, a Leya deixa-o agora a soro. À espera do fim?

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Não mexer, por favor!

O PSD apagou do relatório preliminar sobre as audições relativas aos serviços secretos, realizadas na 1.ª comissão parlamentar, as referências que indiciavam ligações de titulares de cargos de chefia e de direcção das "secretas" à Maçonaria. De acordo com o jornal Público, na primeira versão do relatório, assinada a 28 de Outubro de 2011 pela deputada Teresa Leal Coelho, vice-presidente da bancada do PSD, pode ler-se que os "incidentes verificados nos últimos meses" (as notícias sobre as fugas de informações para a empresa Ongoing e o acesso ilícito aos registos telefónicos do jornalista Nuno Simas) "sugerem indícios e lançam suspeitas de ligações" de Jorge Silva Carvalho [que, até finais de 2010, dirigiu o Serviço de Informações Estratégicas de Defesa] a "conluios de poder", "pretensamente com a ambição de ocupar cargos dirigentes, incluindo nos Serviços de Informações". Neste documento, a deputada escreveu ainda que as audições realizadas à porta fechada resultaram também em "indícios e suspeitas do envolvimento" de Silva Carvalho "com grupos de pressão pretensamente instalados na sociedade portuguesa, nomeadamente a ramos da Maçonaria".
Parece-me correcta a opção do PSD, que retirou a mão a tempo e voltou a sentar-se em cima da caixa de Pandora. Mexer com os ramos da Maçonaria é um perigo! Outra coisa seria se se tratasse do Ramos da mercearia.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Santa ingenuidade

O PSD/Porto quer meter o eurodeputado Paulo Rangel na administração da Casa da Música. Consta que é uma jogada de Rui Rio para, a dois anos das eleições autárquicas, colocar Rangel na rampa de lançamento para a sua própria sucessão na Câmara Municipal, numa tentativa de esvaziamento da mais que provável candidatura do inimigo do lado de lá do rio, Luís Filipe Menezes.
Quanto ao tacho propriamente dito, o jornal i conta que o secretário de Estado Francisco José Viegas terá algumas reservas sobre a nomeação, devido à falta de ligação de Rangel à área da cultura. O Francisco é mesmo um puro! Então o que conta não é a ligação ao PSD?