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quinta-feira, 23 de março de 2023

Singela mas cheia de significado

Foto Hernâni Von Doellinger

Usavam-se muito, antigamente, no tempo da outra senhora, as homenagens "singelas mas cheias de significado". Bordão irrelevante do velho regime, ao nível do "até quando, senhor presidente?" ou do "é o país que temos!", que agora também se gastam. Cinzentices. Seja como for, aquela imitação de placa toponímica, impressa a maiúsculas numa folha de papel A4 colada num pedaço de cartão e revestida a plástico, proclamando tributo a Durval Martins, é isso mesmo, uma homenagem singela mas cheia de significado. E também, suspeito, uma reclamação. A pancarta, que ninguém ousa retirar, foi colocada no Passeio Atlântico, exactamente no tubo que sustenta a indicação oficial, municipal, de que aquela é a "Avenida General Norton de Matos", na beira-mar matosinhense, como que reivindicando a troca. E eu assino por baixo. Tanto quanto sei, Norton de Matos, o general e político, não fez a ponta de um corno pelo futebol de Matosinhos...

Já agora: José Maria Mendes Ribeiro Norton de Matos nasceu no dia 23 de Março de 1867. Em Ponte de Lima.

domingo, 27 de novembro de 2022

Nenucos, praticamente...

Foto Hernâni Von Doellinger

Aos domingos de manhã eles lá estão. Jogam à bola porque gostam, são amigos e compinchas, para além disso dá-lhes imenso jeito ganhar apetite para o almoço, Deus os farture e lhes mantenha a figura. Jogam a sério, com árbitro, capitães de equipa, minuto de silêncio, massagista, minis frescas e tudo. Há os da praia seca e lá ao fundo, no beijo das ondas, os da praia molhada. A paixão pelo futebol é a mesma, tremenda e pura. São amadores como quer dizer a palavra. Eles são o meu Mundial e jogam futebol na praia - não confundir com futebol de praia. Na Praia de Matosinhos, fora da época balnear, e ali nasceram heróis.

Dos "bebés do Leixões", já ouviram falar? Dessa ínclita geração de jovens génios da bola, conta a lenda que descobertos exactamente ali naquele areal, miúdos campeões do muda-aos-cinco-e-acaba-aos dez, pelo primeiro e mais competente olheiro do mundo e de todos os tempos, mestre Óscar Marques, que depois os entregava trabalhadinhos e já no ponto ao treinador António Teixeira? Anos sessenta-setenta do século passado: Adriano, Barros, Chico (Faria), Fonseca, Horácio, Neca, Nicolau (Vaqueiro), Praia - jogadores do melhor que Portugal teve ou alguma vez terá. E a seguir vieram os Albertinos, os Frascos e outros que tais. Estão a ver?
Pois os das manhãs dos meus domingos não são nada disso e tampouco lhes sei os nomes. Afinfam-lhe com assinalável pertinácia quando acertam na bola, há que dizê-lo com toda a frontalidade, mas vê-se logo que não passaram ao lado de uma grande carreira. Os outros, baptizados pelo famoso jornalista Alfredo Farinha, eram os "bebés do Leixões" e quando cresceram saltaram para o Benfica, para o Sporting e para o Porto (assim ordenados naquele tempo, a bem da Nação). Estes, os meus, notoriamente não são bebés, não sei de onde vêm nem para onde vão - mas juro que também são uma coisa bonita de se ver. E são nenucos, praticamente...

sábado, 28 de novembro de 2020

Estou mesmo a ver o filme 114

Foto Hernâni Von Doellinger

O Leixões SC foi fundado no dia 28 de Novembro de 1907. Faz hoje vetustos e honrados 113 anos. E os adeptos marcaram a data na cidade.

sábado, 11 de fevereiro de 2017

Crónicas de Matosinhos (para rasgar antes de ler) 11

Foto Hernâni Von Doellinger

Anda um melro na minha rua
A minha rua adoptiva, em Matosinhos-sur-Mer, é território de gatos e gaivotas. De umas pombas, vá lá, de uns pardejos lingrinhas e de uns cães cagões e felizmente sem asas. Mas sobretudo, e historicamente, a minha rua é território de gatos e gaivotas, que vêm ao cheiro da comida que a minha vizinha lhes manda da varanda, besuntando de espinhas, patas de frango e nojo a estrada e o passeio, mesmo por baixo do meu nariz. (Na minha rua passa bissextamente o Senhor de Matosinhos e estabeleceu-se há uns meses, colado aqui a casa, o Núcleo do Sporting - exigia-se portanto outro asseio.) A minha vizinha foi quem chamou as gaivotas, mas agora enxota-as a baldes de água fria, porque, não sei se mudou de religião, só quer conversa com os gatos.
Ora bem: há quase trinta anos que moro na minha rua e foram precisos quase trinta anos para que me aparecesse na rua um melro. Sim, um melro efectivamente, e apresenta-se todas as manhãs. Melro cantor que dá gosto, e lambão benza-o Deus, também vai à marmita dos gatos, um destes dias desaparece corrido a encharcado pela minha vizinha, se não for cozinhado para alimentar os bichanos.
E eu, perante isto? Eu gostei muito que o melro tivesse dado com a minha rua e com a frente da minha casa. Grande melro! É porreiro porque assim já somos dois...

P.S. - O melro da minha rua canta sem parar o hino do FC Porto. Juro que não fui eu. Os melros, é o que têm, já nascem ensinados.

Matosinhos perdeu a bandeira, e depois?
A Praia de Matosinhos perdeu a Bandeira Azul. A Praia de Angeiras Sul também, mas a mim interessa-me mais a de Matosinhos propriamente dita, por ser no meu quintal. Aviso já que não sou praieiro, não compreendo os praieiros e nunca liguei à treta da Bandeira Azul. Os praieiros também não ligam. O que eles querem é água com coliformes, a pele a derreter, areia nos olhos e boladas nos tomates. E são felizes assim. Eles gostam de sofrer.
A Bandeira Azul não é importante, não faz diferença nenhuma às pessoas, podem crer. Nesse aspecto, a autarquia tem razão. Matosinhos perdeu a bandeira, e depois? Ainda por cima era azul (e branca). Até eu, que sou portista, achava que aquele farrapo esvoaçante era uma espécie de provocação e até insulto aos matosinhenses em geral. Vamos mas é pôr lá a bandeira do Leixões.
 
E o resto do Antunes?...
Era um cãozico, um miniminicão, adereço de porta-chaves, um daqueles fraldiqueiros alegres que correm, guincham e cabriolam no meio metro quadrado que lhes basta como mundo. Ia pela trela, suspeito que para não cair de cangalhas e desfazer-se, e o dono era só orgulho, sorria aos sorrisos dos que passavam e achavam graça ao estupor do bicho, que realmente.
Um transeunte mais dado aproximou-se, fez uma festinha ao canídeo e perguntou ao dono:

(O dono tinha a resposta na ponta da língua, quantas e quantas vezes isto já lhe tinha acontecido. "Ora portanto, o cão é de raça chihuahua e assim tão diminutos só talvez os da raça pequeno cão russo. Chama-se chihuahua porque, como o próprio nome indica, esta raça teve origem no estado mexicano de Chihuahua, cá está, embora haja quem diga que os viu já no Egipto do tempo dos faraós, ou em Cuba, no tempo de não sei quem. Os chihuahuas são considerados cães de luxo, de colo, e, de tão franzinos, sofrem dos ossos. Pesam entre quilo e meio e dois quilos e setecentos e medem, geralmente, entre quinze e vinte e três centímetros, o que faz lembrar outras malandrices, não sei se me estou a fazer entender. São cães amáveis, afectuosos e possessivos. São excelentes companheiros. Este chama-se Antunes".)

Mas íamos aqui: um transeunte mais dado aproximou-se, fez uma festinha ao canídeo e perguntou ao dono:
- E o resto?
- O resto? - assarapantou-se o dono, perante uma questão assim tão extraordinarimente fora da ordem do dia.
- Sim. O resto do cão, que é dele?...

domingo, 5 de fevereiro de 2017

Crónicas de Matosinhos (para rasgar antes de ler) 5

     Foto Hernâni Von Doellinger

O futebol realmente
Aos domingos de manhã eles lá estão e são os meus ídolos. Jogam à bola porque gostam, são amigos e compinchas, para além disso dá-lhes imenso jeito ganhar apetite para o almoço, Deus os farture e lhes mantenha a figura. Jogam a sério, com árbitro, estão organizados, tenho visto assembleias gerais antes dos prélios. Há os da praia seca e, no beijo das ondas, os da praia molhada. A paixão pelo futebol é a mesma, tremenda e pura. São amadores como quer dizer a palavra.

Dos "bebés do Leixões", já ouviram falar? Dessa ínclita geração de jovens génios da bola, conta a lenda que descobertos exactamente ali naquele areal, miúdos campeões do muda-aos-cinco-e-acaba-aos dez, pelo primeiro e mais competente olheiro do mundo e de todos os tempos, mestre Óscar Marques, que depois os entregava trabalhadinhos e já no ponto ao treinador António Teixeira? Anos sessenta-setenta do século passado: Adriano, Barros, Chico (Faria), Fonseca, Horácio, Neca, Nicolau (Vaqueiro), Praia - jogadores do melhor que Portugal teve ou alguma vez terá. E a seguir vieram os Albertinos, os Frascos e outros que tais... Estão a ver?...
Pois os das manhãs dos meus domingos não são nada disso e tampouco lhes sei os nomes. Afinfam-lhe com assinalável pertinácia quando acertam na bola, há que dizê-lo com toda a frontalidade, mas vê-se logo que não passaram ao lado de uma grande carreira. Os outros, baptizados pelo famoso jornalista Alfredo Farinha, eram os "bebés do Leixões" e quando cresceram saltaram para o Benfica, para o Sporting e para o Porto (assim ordenados naquele tempo, a bem da Nação); estes, os meus, não sei de onde vêm nem para onde vão - mas juro que também são uma coisa bonita de se ver...

Também não exagéremos
O casal passeava o cãozinho de quarto de quilo pela manhã criança e ventosa da marginal de Matosinhos. Nisto, o fraldiqueiro, que é como as pessoas, só lhe falta falar, apertou-se-lhe a vontade e urinou com grande pertinácia no famoso passeio mandado construir no reinado de D. Narciso Miranda e que já está bom para ser deitado ao lixo.
O pai do cão, quero dizer o homem, olhou ao redor e resolveu dar uma lição de civilidade a quem por ali passava àquela hora de quem não tem palha no ninho. Quer-se dizer: a mim. E mandou à mulher, quero dizer à mãe do cão - Trazes o saquinho?, limpa aí o chichi!
- O chichi? - chispou a madama. - Então eu vou andar ali com as mãos a apanhar o mijo? Também não exagéremos!
Suspeito que estou de acordo com a pragmática senhora. Realmente, também não exagéremos...

quinta-feira, 16 de junho de 2016

Estou mesmo a ver o filme 20

                                                                                                                Foto Hernâni Von Doellinger

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Muitíssimos parabenzíssimos

                                                                                     Foto Hernâni Von Doellinger

O Leixões Sport Clube faz amanhã 106 anos. É Matosinhos que está em festa. Programa das comemorações e mais informação, aqui.

sábado, 21 de janeiro de 2012

Guilhermeville

Foto Hernâni Von Doellinger

Vamos lá ver se é desta que a Câmara de Matosinhos consegue acabar de vez com a praga dos tão descaracterísticos fogareiros a carvão à porta dos restaurantes. A coisa está bem encaminhada, e Guilherme Pinto, o presidente da autarquia, já tem outras na manga para pôr a cidade que nem um brinco. Querem saber? O mar vai ser despejado. Cheira a esgoto e é um esgoto, rua com ele! Rua, é como quem diz, que a rua é para os cagalhões de cão. Puxa-se é o autoclismo no gabinete presidencial e bye, bye, Atlântico, que um destes dias a gente vê-se lá do outro lado do mundo. Quanto à areia da praia, segue em camionetas para os cofres do município. Nunca se sabe quando é precisa para atirar aos olhos dos munícipes.
Mais? O Porto de Leixões passará a acolher apenas barquinhos de papel, higiénico, e bicicletas com matrícula estrangeira, bandeira de conveniência e campainhas de trrim-trrim. A fedorenta lota vai abaixo, para dar lugar à exclusivíssima e perfumada zona residencial Matosinhos Sul-Sul, construída só de recuados e para edis. O bife tártaro será proclamado peixe oficial de Matosinhos, porque onde não há fogo não há fumo, e quem quiser comer bem que vá à merda!
Está também a ser pensada uma permuta de população com o pessoal da Quinta da Marinha. Uma permuta total, troca por troca: a gente fina vem para cá e o povo daqui vai todo para lá. São tios por tios.
Por decreto presidencial, o Leixões SC fechará portas, derivado a excesso de alma e falta de dinheiro, e o pessoal de cabina do Metro do Porto fundará o Lokomotiv da Cruz de Pau, que dará uso ao Estádio do Mar, entretanto vendido aos Gelados Olá, sob ordens expressas do Tribunal de Contas. Para que no futuro não haja confusões, Matosinhos mudará o nome para Guilhermeville. Das memórias do passado malcheiroso e fumarento, para recordar aos vindouros a desgraça que era a cidade antiga, fica apenas o presidente. Ele e os cagalhões de cão.