domingo, 5 de fevereiro de 2017

Crónicas de Matosinhos (para rasgar antes de ler) 5

     Foto Hernâni Von Doellinger

O futebol realmente
Aos domingos de manhã eles lá estão e são os meus ídolos. Jogam à bola porque gostam, são amigos e compinchas, para além disso dá-lhes imenso jeito ganhar apetite para o almoço, Deus os farture e lhes mantenha a figura. Jogam a sério, com árbitro, estão organizados, tenho visto assembleias gerais antes dos prélios. Há os da praia seca e, no beijo das ondas, os da praia molhada. A paixão pelo futebol é a mesma, tremenda e pura. São amadores como quer dizer a palavra.

Dos "bebés do Leixões", já ouviram falar? Dessa ínclita geração de jovens génios da bola, conta a lenda que descobertos exactamente ali naquele areal, miúdos campeões do muda-aos-cinco-e-acaba-aos dez, pelo primeiro e mais competente olheiro do mundo e de todos os tempos, mestre Óscar Marques, que depois os entregava trabalhadinhos e já no ponto ao treinador António Teixeira? Anos sessenta-setenta do século passado: Adriano, Barros, Chico (Faria), Fonseca, Horácio, Neca, Nicolau (Vaqueiro), Praia - jogadores do melhor que Portugal teve ou alguma vez terá. E a seguir vieram os Albertinos, os Frascos e outros que tais... Estão a ver?...
Pois os das manhãs dos meus domingos não são nada disso e tampouco lhes sei os nomes. Afinfam-lhe com assinalável pertinácia quando acertam na bola, há que dizê-lo com toda a frontalidade, mas vê-se logo que não passaram ao lado de uma grande carreira. Os outros, baptizados pelo famoso jornalista Alfredo Farinha, eram os "bebés do Leixões" e quando cresceram saltaram para o Benfica, para o Sporting e para o Porto (assim ordenados naquele tempo, a bem da Nação); estes, os meus, não sei de onde vêm nem para onde vão - mas juro que também são uma coisa bonita de se ver...

Também não exagéremos
O casal passeava o cãozinho de quarto de quilo pela manhã criança e ventosa da marginal de Matosinhos. Nisto, o fraldiqueiro, que é como as pessoas, só lhe falta falar, apertou-se-lhe a vontade e urinou com grande pertinácia no famoso passeio mandado construir no reinado de D. Narciso Miranda e que já está bom para ser deitado ao lixo.
O pai do cão, quero dizer o homem, olhou ao redor e resolveu dar uma lição de civilidade a quem por ali passava àquela hora de quem não tem palha no ninho. Quer-se dizer: a mim. E mandou à mulher, quero dizer à mãe do cão - Trazes o saquinho?, limpa aí o chichi!
- O chichi? - chispou a madama. - Então eu vou andar ali com as mãos a apanhar o mijo? Também não exagéremos!
Suspeito que estou de acordo com a pragmática senhora. Realmente, também não exagéremos...

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