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sábado, 18 de fevereiro de 2017

Crónicas de Matosinhos (para rasgar antes de ler) 18

Foto Hernâni Von Doellinger

Fábula em 152 caracteres (com espaços)
No tempo em que os animais falavam, o cão disse: ão, ão, ão. E o gato perguntou: és gago ou quê, ó chien de merde? O gato era, com efeito, poliglota.

Era uma vez um cão
Havia um cão que tinha um dono muito bem mandado. Obediente, brincalhão, carinhoso, esperto - só lhe faltava ladrar...

Quem me dera ser cão
"Portugueses já gastam mais com cães do que com bebés", dizia a capa do semanário Expresso. Acontece no país certo.
 
Vida de cão, vida de cão
"Cão deixado no lixo dentro de um saco gera onda de solidariedade em Vila Real", anunciava o jornal Público, em título fim-de-semaneiro. E acrescentava: "Plataforma Proanimal alerta que nesta altura do ano há mais animais abandonados e menos pessoas disponíveis para os acolher."
Verdade como punho, ontem como hoje. Embora não gere nenhuma "onda de solidariedade", está curiosamente a acontecer o mesmo com os velhos e com os recém-nascidos, por assim dizer, humanos - cada vez mais abandonados e com cada vez menos pessoas disponíveis para os acolher. É. Vivemos realmente uma "altura do ano" filha da puta. Mas os cãezinhos, Senhor...

Meia dose de xenofobia
A chinesinha descia a rua em direcção à praia, e levava o cão pela trela. Achei aquilo tão esquisito. Como se eu levasse a passear um frango de churrasco.

O meu cão
Eu tenho um cão imaginário. Chama-se Parkinson, porque quando quero chamar por ele nunca me lembro do nome Alzheimer. A raça do meu cão tem dias, vantagem de ser imaginário: às segundas é perdigueiro, às terças é labrador, às quartas é são bernardo, às quintas é pastor alemão, às sextas é dálmata e aos fins-de-semana é sobretudo rafeiro. O meu cão nasceu no país certo.
O meu cão fica-me muito em conta. Não come mas cala, dispensa vacinas e vitaminas, nunca vai ao veterinário, não precisa de casota nem de agasalhos para o Inverno, e só me custa o preço da trela. O meu cão conhece o dono e não morde a mão que não o alimenta. Se todos fôssemos cães assim, vínhamos mesmo a calhar por exemplo aos senhores do PSD e do CDS.
O meu cão faz-se muito bem de morto e corre atrás de qualquer bugiganga que lhe atire. Só lhe falta falar. O meu cão não ladra às pernas das pessoas nem fornica com as pernas do dono, não abocanha, não caga no passeio, não mija nos pneus do carro do vizinho, não tem pulgas nem chatos, nem anda por aí a emprenhar cadelas mais ou menos oferecidas. É como se não existisse. O meu cão é um exemplo de cidadão.
Já mo quiseram comprar e eu não o vendi. Foi um vendedor de empregos imaginários: dava-me dois-extraordinários-empregos-dois em troca do meu cão simplesmente. Nã!... Antes quero o cão.

A realização do homem no século XXI
Adoptar um cão, comprar um bonsai e escrever no Facebook.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Crónicas de Matosinhos (para rasgar antes de ler) 17

Foto Hernâni Von Doellinger

Diz que o Metro do Porto está entregue aos bichos
Contam-me que a Linha Azul (A) do Metro do Porto (Estádio do Dragão-Senhor de Matosinhos) é cada vez mais o Expresso do Drogódromo do Viso. Porto, 1 - Lisboa, 0. Nem o Casal Ventoso, nos seus tempos de glória, esteve assim tão bem servido de transportes públicos.
A fauna toxicodependente tem de tudo, como as farmácias e as lojas dos chineses. Há os mansos, que vão no seu canto e querem é que os deixem em paz, e ninguém tem nada com isso, mas também há uma perigosa corja de rufias, provocadores e ameaçadores em plena luz do dia e em horas de ponta e mola. Dizem-me que a minoria não toxicodependente dos passageiros da Linha Azul (A) anda cheia de medo desta gente.
E os seguranças também. Consta que ninguém os vê, aos seguranças, na Linha Azul (A) do Metro do Porto desde o princípio do ano. Será um exagero, mas quer-se dizer: os drogados tomaram conta, e a segurança desertou.
Atenção, esta parte eu não critico. Eu se fosse segurança também me fazia de ceguinho, ou pelo menos olhava para o outro lado, ou saía quando eles entrassem, porque sou cobarde e não tenho músculos que se vejam nem corte de cabelo nazi, e por isso é que não sou segurança. Eu se fosse segurança, palavra de honra, nem sequer me metia com os gandulos que agora viajam na esplanada das traseiras do metro sem que uma farda qualquer os arranque dali para fora pelas orelhas e, já agora, com um par de estalos.

Os médicos, as farmácias e o sistema
Fui à farmácia comprar o antibiótico. A senhora doutora farmacêutica perguntou-me:
- Marca ou genérico?
- O mais barato, se faz favor. Pode ser de saldo, se tiver, ou mesmo em segunda mão, se for em conta - respondi.
Veio o antibiótico. Genérico.
- São seis euros e setenta e nove - informou-me a senhora doutora farmacêutica.
- Seis euros e setenta e nove? - espantei-me. - Mas o senhor doutor médico escreveu aqui na receita que, e passo a citar, "esta prescrição custa-lhe, no máximo, 77 cêntimos, a não ser que opte por um medicamento mais caro"...
- Pois, mas não ligue a isso. É o que eles têm lá no sistema. O preço muda ao fim de três meses - disse-me a senhora doutora farmacêutica.
- Mas a receita é de hoje, fresquíssima - atalhei.
- Pois, mas é o sistema - reiterou a senhora doutora farmacêutica.
- E o sistema "deles" não é o mesmo sistema das farmácias? Entre 77 cêntimos e seis euros e setenta e nove vai uma diferença de quase dez vezes mais, como é que isto é possível? - inquiri e tornei a inquirir.
- Faça o favor de ver aqui no computador. Na verdade há mais barato, este de três euros e quinze, mas que hoje, por acaso, até já custa cinco euros e trinta e sete, e não temos - explicou-me a senhora doutora farmacêutica.
- Mas a custar 77 cêntimos é que nada - insisti.
- Nem de perto nem de longe, é o sistema - insistiu, por seu lado, a senhora doutora farmacêutica.
- E os senhores doutores médicos sabem? - eu.
- Sabem, sabem - a senhora doutora farmacêutica.
- Desculpe voltar ao mesmo: mas então porque é que os senhores doutores médicos escrevem estes preços nas receitas se sabem que estão a enganar os doentes?
- É para pressionar as farmácias - segredou-me a senhora doutora farmacêutica, chegando-se-me ao ouvido.
- E tem resultado, não tem? - devolvi-lhe eu, no mesmo tom confidencial.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Crónicas de Matosinhos (para rasgar antes de ler) 16

Foto Hernâni Von Doellinger

O cão, essa espécie de Facebook
O cão é, desde tempos imemoriais, uma das mais consistentes artimanhas do homem para a queca. Está cientificamente provado, todos os dias vejo disso.
Quem tem tesão compra um cão, diz o povo e com razão. Porque o animal - aflito, ziguezagueante, ganinte, de orelhas, rabo e tudo arrebitado -, parecendo embora que sai à rua em busca desesperada por parceira ou parceiro de quatro patas onde possa alivar o stresse, vem mas é tratar do cio do dono. Ou da dona. Por procuração.
Largado à frente, sem trela, "Vai, Corisco, vai, arranja-me uma gaja! Um gaja boa!", o cão é um batedor sexual para prazeres alheios. Evidentemente tem de se entender com o outro animal, mas isso é truque, pretexto para o dono chegar à dona, como todos sabemos, e depois eles, dona e dono, ou dono e dono, ou dona e dona, depois de conversarem resumida ou detalhadamente sobre raças e rações, que se entendam e se acamem. E muitas vezes entendem-se e acamam-se. Olhemos à nossa volta, sem falsos pudores: quantos namoros e casamentos, que nós tenhamos conhecimento ou desconfiemos, não foram intermediados por cães? Quantos engates e quantas pinocadas avulsas?!...
Passear o cão, é assim que se diz, mas querendo dizer outra coisa. Há até quem dê treino específico ao cão, para loiras ou morenas, gordas ou magras, inteligentes ou burras, e assim sucessivamente e vice-versa. É verdade, ele há cães especialistas. Cães de um certo tipo de caça.
O cão é, portanto, um alcoviteiro. Mas já foi mais, no tempo em que não havia Facebook. No tempo em que se mandava uma cadela ao espaço e a cadela chamava-se Laika. Hoje chamar-se-ia Like. É. As chamadas redes sociais na internet são agora, particularmente para casados, o principal móbil do engate, o menu do sexo à mão de semear, e esta nova realidade veio prejudicar sobremaneira os cães, cada vez mais substituídos, abandonados e abatidos, por aparentemente já não serem precisos.
Correndo o risco de fazer um título à Correio da Manhã, eu diria que o Facebook está a matar o cão. Aos poucos. E, todavia, acho que compreendo esta paulatina porém irreversível substituição do "animal doméstico" pela "aplicação social", porque a verdade é só uma: comprar ou adoptar um cão dá provavelmente mais trabalho e despesa do que criar um perfil no Facebook, sendo que o resultado final é o mesmo. Nestes tempos conturbados, o meu mais descarado elogio vai, pois, para as almas caridosas, afogueados adúlteros, que acumulam cão e Facebook, pelo sim e pelo não, e só temos de lhes agradecer, em nome dos animais.
Salvemos o cão! Porque ainda há algumas diferenças a considerar entre o cão e o Facebook - a não ser que Facebook seja o nome do cão. Para além de que o Facebook, o da internet, tem aquele perigo (há casos!) de a mulher andar a pôr os cornos ao marido e o marido andar a pôr os cornos à mulher - cada qual com o seu perfil secreto, mais ou menos falso e sobretudo "criativo" -, até ao dia em que se engatam como desconhecidos e depois se encontram para o que já sabemos. É então que marido e mulher reciprocamente infidelíssimos descobrem que realmente... foram feitos um para o outro.

Gosto da minha rua assim
O dia apresentou-se-me com cara de boa pessoa. Acordei à pala do relógio de sala do vizinho, que me madruga pela casa dentro sem pedir licença, e fui à varanda com vista para o mar se me puser de lado. Pontual, pendurado no sítio do costume, o Sol brilhava que era uma categoria. Navegando num céu perfeito, desanuviado, gaivotas de torna-viagem exibiam credenciais, cagando de alto. Nas funduras da rua eternamente em obras, desviando-se em ziguezagues milagrosos a cada nova vaga do merdoso ataque aéreo, um barulhento gangue de cães vadios tentava organizar-se para a sessão de boas-vindas ao novo elemento. Como é do conhecimento geral, os cãos organizam-se sobretudo cheirando o cu uns aos outros e ganindo, tal qual como na política. O novo elemento era um velho cão-polícia reformado da Brigada de Combate ao Narcotráfico e acabado de sair do canil municipal após prolongada cura de desintoxicação segundo o Modelo Minnesota.
Em respeito pelo ritual iniciático, a canzoada alçava a perna uma vez atrás da outra em pneus de estimação marcados de véspera, aliviando-se com evidente prazer dos excessos de uma noitada de copos e cadelas. Percebe-se: agora que lhes gamaram as árvores, é para aquilo que os cães precisam dos pneus dos automóveis, para a ancestral cerimónia. Uma espécie de baptismo mas ao contrário.
Mesmo por baixo do meu nariz, um casal de gatos gordos e somíticos barafustava contra um bando de jovens pardais por causa do esqueleto de um carapau encravado entre os paralelipípedos levantados da rua recém-requalificada. Não era arqueologia, era fome. Mandei um berro cá de cima e prevaleceu o bom senso: gatos e pardais resolveram-se enfim pela partilha, ordens minhas, a metade da cabeça para os pardais, que têm melhores dentes.
É assim que eu gosto da minha rua, madrugadora, límpida, cheia sem gente, barcos no quintal. Todos nos entendemos a estas horas temporãs - eu, os pardais, os gatos, as gaivotas, os barcos, ainda que espanhóis, os cães, mesmo que ex-polícias. Olho-nos de fora de mim e vejo um comovente quadro de harmonia irracional. E o mar de Matosinhos fede como não há memória. Que mais se pode desejar como alento matinal?...

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Crónicas de Matosinhos (para rasgar antes de ler) 14

Foto Hernâni Von Doellinger

Sardinhamente falando
Foi um mau ano. Mais um. Em tempo de balanço, há que dizer com toda a frontalidade que as sardinhas, em 2016, foram uma merda. Eu ainda tive a sorte de as apanhar três ou quatro vezes mais ou menos ajeitadas (uma dessas vezes, felizmente, pelo São João), mas de resto foi um annus horribilis sardinhamente falando. Nem durante os famosos meses sem "r" as sardinhas assadas alcançaram o patamar de excelência exigido pelo apreciador, apresentando-se, mesmo nessa época, tendencialmente secas e desenxabidas, como se fossem o Cavaco Silva. Uma desgraça, portanto.
É. A sabedoria popular ensina, e bem, que Maio, Junho, Julho e Agosto são os melhores meses para comer sardinha assada. É quando ela pinga no pão. Mas a Dona Dina, que Deus tem, dizia-me que de Junho a Dezembro eu podia comer as suas sardinhas à confiança, e eu comia e ela tinha razão. A Dona Dina era uma pessoa muito boa e a melhor assadeira de sardinhas do mundo. As sardinhas assadas da Dona Dina eram não mais do que douradas e traziam sempre o mar dentro.

Uma vez, na peixaria, seria mês de Abril, uma senhora perguntava se "As sardinhas..." e foi logo interrompida pela minha peixeira, que lhe respondeu "Estão muito boas, as sardinhas ainda estão boas". É claro que não estavam, e logo em ano de colheita medíocre, mas a peixeira tem de fazer pela vida. Eu trouxe biqueirão.
Já experimentaram, decerto já, tirar a cabeça aos biqueirões, abri-los pela barriga retirando-lhes a espinha, que sai muito facilmente, temperar estas "costeletas" com sal, pimenta preta moída na hora, limão e um quase-nada de alho picado, e deixá-los neste preparo aí umas quatro horas, duas para cada lado? E depois passá-los por ovo e pão ralado e fritá-los sem deixar queimar? E fazer entretanto um arrozinho de bacalhau com trocinhos de tronchuda? Arroz carolino, já se sabe, que se transforma com o peixinho num verdadeiro manjar de deuses. Mas decerto já experimentaram.
Dica: as espinhas saem ainda mais facilmente se os biqueirões forem do dia anterior. Mas, para mim, peixe ou é do dia ou já não é peixe. Em miúdo, muito gostava eu de ouvir às peixeiras de Fafe o pregão "É da biba, olha a bibinha", e ficava-se logo também a saber que as sardinhas nesse dia seriam mais caras. Mas eram "como prata". Hoje tenho a sorte de morar em Matosinhos, a dois passos do porto de pesca e da lota. O mais das vezes trago para casa peixe vivo, literalmente vivo, que os pescadores dos barcos pequenos estão a acabar de entregar. O que me levanta alguns problemas, operacionais e... de consciência. Um dia tive com uma solha uma luta cujos pormenores não conto nem quero lembrar. Ganhei, mas portei-me mal. E só à mesa é que me perdoei.

Fanecamente falando
Bem boas que elas andam, as fanecas. Já repararam? Se calhar a mãe Natureza resolveu chamar à razão a nem sempre atinada lei das compensações, mas a verdade é que, a seguir a uma época de sardinha que foi uma desgraça, a faneca apareceu-me este ano com uma categoria de que eu já nem me lembrava. Tenho-me regalado.
Gosto delas fritas. Só com sal e passadas por farinha milha, à tasco, ou então mais à minha moda, tratadas também com pimenta e limão e depois envolvidas com farinha triga e ovo. Sem outros truques ou invenções. Há derivas que aceito e como, mas estão longe de me satisfazer. Insisto: a faneca só me enche as medidas quando na sua pureza original. Frita.
Uma vez há muitos anos, pela madrugada, deixei que me metessem num barco e fui à pesca da faneca com o grupo do meu saudoso amigo Adélio Santos. Quer-se dizer: eles foram à pesca e eu fui vomitar uma noite de copos e sem passagem pela cama. Não sei se serviu de engodo, mas o certo é que aquilo era peixe até dar com um pau. Seríamos uns seis ou sete naquela companha de ocasião e toda a gente teve direito a um ou dois baldes cheios de fanecas e cavalas, até eu, que pelos vistos também tinha feito a minha parte e não sabia. Estava na idade da toléria e tão tolo era que desprezei então as cavalas, hoje em dia com lugar cativo na minha lista de pitéus.
Mas voltemos às fanecas. O meu amigo Lopes, que é tão fanequeiro como eu, diz, no seu mar de sabedoria, que "a faneca é um peixe muito honesto". E é. Em diversos sentidos e apesar de já ter andado por aí na boca da malandragem armada em carapau de corrida. A este respeito (ou a respeito da falta dele), torno a Fafe, à década de setenta do século vinte: quem é desse tempo e não se lembra de aproveitar a barafunda das quartas-feiras para passar por elas, pelas gajas, em Cima da Arcada, roçar-lhes o cotovelo pelas mamas como quem não quer a coisa, dizer-lhes entredentes "Ah, faneca, comia-te toda!" e levar um estalo na cara que acabava logo ali com todos os tesões? Quem não se lembra, nem era homem nem era nada. Ou então sofre de Alzheimer e está desculpado.
O Lopes tem razão: a faneca é um peixe muito honesto. Depois, há fanecas mais honestas do que outras. Em minha casa, por exemplo, só entram fanecas do alvor, pescadas já dentro da manhãzinha, como daquela vez com o Adélio mas agora por mãos que sabem. Um luxo. Mordomia matosinhense. São fanecas do mar que eu vejo da minha varanda. Madrugo também, compro-as vivinhas da silva, ainda sem terem passado pelo castigo do gelo e isentas de outras burocracias normalizadoras e estragativas, amanho-as eu, eu é que sei. Não menos importante: comemo-las no próprio dia. Exactamente. Elas andam bem boas, mas é preciso saber dar-lhes as voltas.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Crónicas de Matosinhos (para rasgar antes de ler) 13

Foto Hernâni Von Doellinger

Deixei o cego a falar sozinho
Era um cego que andava pelas melhores ruas da cidade a vender lotarias e tinha dois curiosos predicados que saltavam logo à vista: era um inflamado benfiquista, ofensivo, quero dizer, ofensivo para quem por ali passasse sem querer, e dizia palavrões atrás de palavrões como se fosse esse o seu verdadeiro modo de vida. A cegueira poderá explicar o primeiro curioso predicado, mas suponho que já não conseguirá justificar convenientemente o segundo. Em todo o caso, era um cego bem-posto, independente, pequeno empresário do retalho cauteleiro, e se fosse hoje ainda estaria melhor, já nem sequer seria cego, graças a Deus, porque as condições são realmente outras, seria, quando muito, invisual, e isso, como toda a gente sabe, faz toda a diferença.
Para além de ser pelo Benfica, vendedor de lotaria e campeão da malcriadez, o cego ouvia as notícias num transístor em altos berros, próprio certamente para surdos, e aqui atrasado, já lá vai um tempinho, estávamos na paragem de autocarro, o aparelho falava da Grécia, da tentativa de primavera grega que agitou a Europa durante mais de cinco anos. A reportagem ainda ia a meio, mas o cego, sem que eu lho pedisse, resumiu-me imediata e cientificamente a questão: "Se se fossem mas é foder, filhos da puta do caralho, se querem chupar que chupem piças, era fodê-los, era fodê-los"...
Eu, para não mandar o cego àquela parte, que não se faz, pelo menos sem indicações precisas e talvez levado pelo braço, ia-lhe debitando os números dos autocarros que se aproximavam da paragem, como se estivesse a "cantar o quino" no café Peludo por alturas do Natal, marcando com milho os cartões escarrapachados em cima das mesas de bilhar cobertas com lençóis sebentos e felizmente fora de uso. Informei-o do 111. "A mim só me interessam o 500 e o 502", respondeu-me, com maus modos, como se a culpa fosse minha. Já agora, culpa de quê? "O 502 passou há um bocadinho, perdi-o por pouco", expliquei eu, a ver se amenizava a coisa. "Há um bocadinho não, que eu estou aqui há um pedaço e ele não passou", atirou-me o cego, mais ríspido era imposível. Acreditai em mim, por favor: eu tinha chegado à paragem há cinco minutos, não mais, o cego chegara há três minutos. Fiquei invisual com a desconfiança e com a falta de educação do homem, e então afastei-me, amuado, para não ter de lhe responder torto.
Deixei-o a falar sozinho, literalmente a falar sozinho, porque ele continuou a comentar as notícias, caralho acima, quem os fodesse abaixo, aparentemente virado para mim, imaginando-me ao seu lado, mas eu estava a mais de quinze metros de distância e, confesso, a começar a sentir-me mal com a situação, comigo. Não se faz, deixar um cego a falar sozinho.

(Lembrei-me do "meu" cego das quartas-feiras em Fafe, lá longe na infância, o que cantava tragédias tão bonitas naquele ponto estratégico entre o tasco do Zé Manco e as portas enormes da velha loja das Turicas, na Rua Monsenhor Vieira de Castro, quase em frente ao Palacete. Funcionávamos a meias: ele cantava e eu ouvia. Eu era o seu melhor espectador, embora raramente contribuinte. Conversávamos às vezes, éramos quase amigos. Eu respeitava-o muito, admirava-o tanto! E tive vergonha de mim, do que estava a fazer a "este"...)

Reaproximei-me quando chegava mais um autocarro. Um rapazinho avisa o cego, "É o 523". O rapaz confundiu-se, era o 123, o 523 não existe, e o cego, que sabe os autocarros de cor e salteado, aproveita para dar uma desanda ao miúdo. Vem finalmente o 500 e o jovem, ainda cheio de boas intenções apesar do raspanete, alerta, satisfeitíssimo, "É o 500, é o 500". O autocarro pára e abre a porta. O cego pergunta lá para dentro, ao motorista, "É o 500?", "É o 500", confirma o motorista. Da paragem, corado de vergonha e tristeza, o rapazinho queixa-se ao cego, "Não acredita em mim?", e o cego responde, "Acreditar em quem, caralho, tu até inventas números..."
Não renego o meu fardo judaico-cristão, mas os remorsos passaram-me ali de repente. Sim, deixei o cego a falar sozinho - e, sabeis que mais, não me arrependo!

A visita das duas cagonas
Que sou especialista na matéria, deixei-o bem explicado em "A verdade sobre as gaivotas", ensaio escrito e publicado pela primeira vez na edição do Tarrenego! de 10 de Junho de 2013 e que, em 2014, viria a valer-me o Prémio Príncipe das Astúrias de Investigação Científica e Estampilhas Fiscais relativo ao ano de 1971. Estudo-as há mais de um quarto de século, sei tudo sobre gaivotas. A rotina ou o hábito, consoante o que acontecer primeiro, dão nisto: criou-se-nos uma certa intimidade, e a bem dizer eu e elas já não passamos um sem as outras. Elas ainda não vêm comer-me à mão, isso é verdade, mas vêm cagar-me à varanda. E com a maior das descontracções e acrisolada acutilância. Temo até que uma certa e determinada gaivota esteja a abusar da confiança - e sei que é gaivota e não gaivoto porque a criatura trouxe ontem uma amiga, e as gajas é que vão aos pares arriar o calhau, isso também está provado. As duas cagonas visitaram-me ontem e borraram-me as cuecas. Entre sessenta e seis peças de roupa na seca do estendal, as badalhocas apontaram às minhas cuecas e ainda por cima à parte da frente, parecia um ovo estrelado muito bem passado, mas com merda em vez de ovo. Pontaria filha da puta. A minha mulher afina com estas coisas e eu... rio-me.
Mas o caso não é para rir. A gaivota anda a escangalhar-me o lar derivado à assiduidade com que ultimamente me caga em cima. A minha mulher começa a desconfiar, e agora já são duas gaivotas, mas eu defendo-me e digo: não é nada comigo, elas devem é estar na época de acagamento. Ou, como diz o povo, e com razão: quando caga uma gaivota, logo outra saralhota. O que é que eu posso fazer? Não fui eu que comecei...

P.S. - Por favor não me venham ensinar que eu deveria ter escrito "Não fui eu quem começou"...

domingo, 12 de fevereiro de 2017

Crónicas de Matosinhos (para rasgar antes de ler) 12

Foto Hernâni Von Doellinger

Podia acontecer
A madama tinha um cão ao colo e, entre as pernas mas ao nível dos sapatos de tacão altíssimo, uma bolsa com rede e design. Era uma madama jovem, bela e produzida, esperável ao volante de um Porsche Cayenne e a lamber o telemóvel, e não ali, no banco do autocarro e a ser lambida pelo cão. O cão era a condizer: sucinto, peludo, de marca, transpirando pedigree por todos os poros. Uma fofura.
Sentia-se-lhes um orgulho mútuo, percebia-se uma relação muito bonita. Que ternura! A madama babada beijava o lingrinhas barbudo e o lingrinhas barbudo e babado beijava a madama babada. Beijavam-se na boca. Lambiam-se, se não me engano. A madama falava xi-qui-pi-ri-qui-ti-nhu-nhu-nhu-meu-querido-mais-beijinho-mais-beijinho-mais-beijinho-da-mamã e o xi-qui-pi-ri-qui-ti-nhu-nhu-nhu-meu-querido-mais-beijinho-mais-beijinho-mais-beijinho-da-mamã não dizia nada mas apenas por ser cão e por gostar de festas nos genitais e não querer interromper a coisa. Realmente só lhe faltava falar, ao cão, como muito bem observou o autocarro em coro, era o 500, e até eu me comovi, eu que, como sabem, mantenho um ancestral e desagradável contencioso com os canídeos de uma forma geral, e cuido que a culpa não é minha. A cena deu-me também um bocado de tesão.
A madama apeou-se na paragem de Matosinhos Praia, sempre com o cão ao colo, sempre xi-qui-pi-ri-qui-ti-nhu-nhu-nhu-meu-querido-mais-beijinho-mais-beijinho-mais-beijinho-da-mamã. Com a mão de vago, pousou no passeio a bolsa com rede e design, abriu-a e retirou de lá de dentro um bebé de meses. Menino, vestia azul. Também era giro.

O motorista da STCP que era um número de circo
O motorista do 500 era um três-em-um: conduzia, falava ao telemóvel e comia uma sandes - tudo ao mesmo tempo. O que é extraordinário, praticamente número de circo. Eu, que até me tenho em boa conta, se como, não consigo falar ao telemóvel, e, se falo ao telemóvel, não consigo comer. Para além disso, não sei conduzir nem um carrinho de linhas, quanto mais um dúplex de três rodados. O 500 é, com efeito, o autocarro da STCP que faz bissextamente a ligação do Porto a Matosinhos (e vice-versa) pela marginal, e note-se que digo bissextamente porque, numa mesma manhã, um 500 passa pela tabela de Inverno, outro 500 passa pela tabela de Verão, e pelo meio há pelo menos dois ou três 500 que não passam por tabela nenhuma, pura e simplesmente não passam, o que significa mais de uma hora à espera e é para quem quer. Os horários da STCP afixados nas paragens e publicitados na Internet são uma anedota, e a boa disposição faz falta nos tempos que correm. Está certo.
Por definição, os motoristas da STCP conduzem e falam ao telemóvel. Ui, o que eles falam ao telemóvel! E quando raramente relapsam e não falam ao telemóvel, é porque estão à conversa com um estorvador profissional, amigo da corda, geralmente mirone de praia, que se lhes planta ao lado, atravancando a entrada dos passageiros e distraindo a condução. E blá blá, blá blá, blá blá, lá vão ambos todos contentes nos seus ofícios, gajas acima e gajas abaixo, como se não fosse nada com eles.
O meu motorista três-em-um conduzia, portanto, um 500 de rés-do-chão e 1.º andar - a bem dizer, um mil -, o que é ainda mais extraordinário. E, verdade seja dita, sem o estorvador da ordem, falava simplesmente ao telemóvel. E almoçava, o que até se compreende, uma vez que já eram quase duas da tarde.
Os trabalhadores da STCP entram assiduamente em greve e então não há 500 para ninguém. Quer-se dizer que nesses dias ando duas horas a pé, nada de grave e até me faz bem. Que fique registado, eu sou pelas greves. No meu tempo de grevista, grevei com reconhecida competência e indesmentível pertinácia - quem me conhece não me deixa mentir. Quantas vezes me disseram, uns e outros, mais outros do que uns: é pá, camarada, nunca vimos ninguém grevar com tanta categoria como tu! Eu, modesto, limitava-me a dar um jeito ao guarda-sol e a pedir mais um fininho, se faz favor. E ainda não tínhamos descoberto a comodidade das greves às segundas e sextas-feiras.
Confesso que tenho uma certa simpatia pelos motoristas da STCP e pelas suas greves tão dia sim, dia não. O que eles querem, o que eles querem mesmo, é que os deixem ficar no quentinho do "serviço público", porque trabalhar para o privado fia mais fino. Mas, à boleia da única verdadeira "reivindicação", fica-se também a saber que a STCP precisa de mais 150 motoristas e não os mete, que há motoristas que trabalham catorze horas por dia (daí a sandes, depreendo eu) e que realmente os utentes andam a levar um grandessíssimo baile.
Voltando ao meu motorista três-em-um, o tal que conduzia, falava ao telemóvel e comia uma sandes - tudo ao mesmo tempo. Poderão dizer-me que é homem pouco cuidadoso, ainda por cima ao volante de uma bisarma daquele tamanho. Não é essa, porém, a minha opinião. Pelo contrário. Dei-me ao trabalho de reparar: a sandes era de pão integral e tinha folhinha de alface...

P.S. - O episódio do motorista, do telemóvel e da sandes é verdadeiro. Mas não se passou no autocarro da fotografia, nem naquele dia, nem naquele sítio alternativo. O 500 do retrato é apenas um por exemplo.

sábado, 11 de fevereiro de 2017

Crónicas de Matosinhos (para rasgar antes de ler) 11

Foto Hernâni Von Doellinger

Anda um melro na minha rua
A minha rua adoptiva, em Matosinhos-sur-Mer, é território de gatos e gaivotas. De umas pombas, vá lá, de uns pardejos lingrinhas e de uns cães cagões e felizmente sem asas. Mas sobretudo, e historicamente, a minha rua é território de gatos e gaivotas, que vêm ao cheiro da comida que a minha vizinha lhes manda da varanda, besuntando de espinhas, patas de frango e nojo a estrada e o passeio, mesmo por baixo do meu nariz. (Na minha rua passa bissextamente o Senhor de Matosinhos e estabeleceu-se há uns meses, colado aqui a casa, o Núcleo do Sporting - exigia-se portanto outro asseio.) A minha vizinha foi quem chamou as gaivotas, mas agora enxota-as a baldes de água fria, porque, não sei se mudou de religião, só quer conversa com os gatos.
Ora bem: há quase trinta anos que moro na minha rua e foram precisos quase trinta anos para que me aparecesse na rua um melro. Sim, um melro efectivamente, e apresenta-se todas as manhãs. Melro cantor que dá gosto, e lambão benza-o Deus, também vai à marmita dos gatos, um destes dias desaparece corrido a encharcado pela minha vizinha, se não for cozinhado para alimentar os bichanos.
E eu, perante isto? Eu gostei muito que o melro tivesse dado com a minha rua e com a frente da minha casa. Grande melro! É porreiro porque assim já somos dois...

P.S. - O melro da minha rua canta sem parar o hino do FC Porto. Juro que não fui eu. Os melros, é o que têm, já nascem ensinados.

Matosinhos perdeu a bandeira, e depois?
A Praia de Matosinhos perdeu a Bandeira Azul. A Praia de Angeiras Sul também, mas a mim interessa-me mais a de Matosinhos propriamente dita, por ser no meu quintal. Aviso já que não sou praieiro, não compreendo os praieiros e nunca liguei à treta da Bandeira Azul. Os praieiros também não ligam. O que eles querem é água com coliformes, a pele a derreter, areia nos olhos e boladas nos tomates. E são felizes assim. Eles gostam de sofrer.
A Bandeira Azul não é importante, não faz diferença nenhuma às pessoas, podem crer. Nesse aspecto, a autarquia tem razão. Matosinhos perdeu a bandeira, e depois? Ainda por cima era azul (e branca). Até eu, que sou portista, achava que aquele farrapo esvoaçante era uma espécie de provocação e até insulto aos matosinhenses em geral. Vamos mas é pôr lá a bandeira do Leixões.
 
E o resto do Antunes?...
Era um cãozico, um miniminicão, adereço de porta-chaves, um daqueles fraldiqueiros alegres que correm, guincham e cabriolam no meio metro quadrado que lhes basta como mundo. Ia pela trela, suspeito que para não cair de cangalhas e desfazer-se, e o dono era só orgulho, sorria aos sorrisos dos que passavam e achavam graça ao estupor do bicho, que realmente.
Um transeunte mais dado aproximou-se, fez uma festinha ao canídeo e perguntou ao dono:

(O dono tinha a resposta na ponta da língua, quantas e quantas vezes isto já lhe tinha acontecido. "Ora portanto, o cão é de raça chihuahua e assim tão diminutos só talvez os da raça pequeno cão russo. Chama-se chihuahua porque, como o próprio nome indica, esta raça teve origem no estado mexicano de Chihuahua, cá está, embora haja quem diga que os viu já no Egipto do tempo dos faraós, ou em Cuba, no tempo de não sei quem. Os chihuahuas são considerados cães de luxo, de colo, e, de tão franzinos, sofrem dos ossos. Pesam entre quilo e meio e dois quilos e setecentos e medem, geralmente, entre quinze e vinte e três centímetros, o que faz lembrar outras malandrices, não sei se me estou a fazer entender. São cães amáveis, afectuosos e possessivos. São excelentes companheiros. Este chama-se Antunes".)

Mas íamos aqui: um transeunte mais dado aproximou-se, fez uma festinha ao canídeo e perguntou ao dono:
- E o resto?
- O resto? - assarapantou-se o dono, perante uma questão assim tão extraordinarimente fora da ordem do dia.
- Sim. O resto do cão, que é dele?...

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Crónicas de Matosinhos (para rasgar antes de ler) 10

Foto Hernâni Von Doellinger

Até para se ser pega é preciso ter sorte
A notícia espalhou-se como fogo em mato seco: um automobilista acabara de atropelar mortalmente uma pega, toda esmigalhadinha. Assassino! Juntaram-se imediatamente a Quercus, o PAN, a Protectora dos Animais, a Greenpeace, dois dirigentes dos Super Dragões e vários elementos do movimento cívico e espontâneo SOS Grilo Careca de Asa Redonda e Perna Curta, que está muito bem organizado para estas emergências. Rodearam o carro, arrancaram o automobilista cá para fora e encheram-no de carolos e caneladas, para ele aprender. Só não chegaram ao linchamento porque, regra geral, desconheciam a palavra, e os poucos que a conheciam de vista confundiam-na com lixamento e achavam que, para lixar o energúmeno, os carolos e as caneladas já estavam bem.
Acorreu o INEM. Vieram os bombeiros de Leixões, Matosinhos Leça, São Mamede de Infesta com fanfarra e os Sapadores do Porto, que andavam a fazer ginástica na praia. Apareceu a GNR. A autoridade aproveitou para também molhar a sopa, quer-se dizer, o automobilista caiu sozinho sobre duas secretárias e esbarrou-se sem ninguém lhe tocar num armário ali no meio da via, e, posto isto, foi intimado a explicar-se. O automobilista explicou-se. E convenceu. A Quercus, o PAN, a Protectora dos Animais, a Greenpeace, os dirigentes dos Super Dragões, os espontâneos do SOS Grilo Careca de Asa Redonda e Perna Curta, o INEM, os bombeiros a própria GNR fartaram-se de pedir desculpas ao homem e até lhe deram os parabéns. A fanfarra tocou "Obladi, obladá". Tudo não passara de um pequeno mal-entendido, erro de comunicação. Afinal o automobilista não tinha morto uma pega ou Pica pica melanotos, seria uma tragédia matar uma ave assim, tinha apenas atropelado mortalmente uma pega meretriz de beira de estrada, mulher solteira e mãe de três filhos, toda esmigalhadinha. São coisas que acontecem...

Follow me ou o fado do desgraçadinho
Foi em Setembro que te conheci, òs anos, quando o aeroporto de Pedras Rubras ainda nem se chamava aeroporto Praça Velásquez, o Victor Espadinha só tinha ido à "Cornélia" e nem suspeitávamos que viríamos morar aqui para Matosinhos, no rés-do-chão do barulho dos aviões. Não havia chopingues como agora, o FC Porto jogava na Madeira, com o Marétimo, e a gente, eu mais o Sarafim, íamos passar um domingo de categoria a ouvir o relato no tijolo do Sarafim e a esgravatar engate nas Departures e Arrivals ou no terraço das excursões de nariz para o ar a verem aterrar e levantar as aeronaves. Tu também lá ias com os parolos dos teus pais, que por acaso até me resultaram boas pessoas, e trazias a tua inseparável amiga Benilde, em quem o Sarafim se pôs numa fervurinha e como quem não quer a coisa. Adiante. Foi lá que te vi pela primeira vez em toda a tua excelsa Glória - Glória da minha terra, Glória de Sousa, Glória efémera -, no bar do aeroporto, que era só um e parecia um tasco. Foi tiro e queda: entrei caçador e saí caçado, apanhadinho de todo. Se calhar foi amor aquilo. Lembro-me como se fosse hoje: eras linda, num vestido justinho de chita às ramagens verdes estampadas, com umas sandálias rasas, pois, talvez estivesses de calças de ganga e botas de cano alto, mas toda coradinha e tão fresquinha. Tinhas uns olhos, uns olhos cor de, de que cor são os teus olhos, Glória? Eu bebia uma Super Bock e tu olhaste para mim mas eu não tive a certeza. Confirmaste-mo oito dias depois, eu sozinho, o Sarafim nas Antas e ver o jogo contra o Beira Mar e com a mão enfiada na parreca da Benilde, e eu para ali, aos caídos, abandonado como um cãozito sarnento, à espreita de um sinal, de um sorriso, perdoa-me a poesia. Deste-me ambos os dois, e confirmaste-mo. Mas nada de avanços, parte a parte, o respeito é muito bonito e os parolos dos teus pais, sem ofensa, gostavam muito, atenta e vigilantemente. Levava eu já perdida quase toda a primeira volta do campeonato, confortado pelos relatos do tijolo do Sarafim, "alô, Nuno!", quando te dignaste, muito dissimulada, num aceno de cabeça, dar-me sinal de Follow me. Alvorocei-me para vos levar as gasosas à mesa, a ti, minha riqueza, e aos lerdos dos teus pais, não desfazendo.
Perguntaste-me o meu nome e eu disse-te a verdade, mostrando-te o cartão de sócio do FC Porto: Joaquim Maria dos Passos Eleutério, isto é, Quitério. Admiraste-te: Joaquim Maria dos Passos Eleutério, isto é, Quitério, que nome tão esquisito? E eu expliquei: quer-se dizer, o meu pai era Eleutério, minha mãe era dos Passos, o padrinho Joaquim e a madrinha Maria. Resulta realmente um nome de merda, desculpa-me a expressão, e confesso que tentei esconder o enxovalho onomástico assinando Joaquim Eleutério, tinha esse direito, mas nem assim me convenci. Que se segue, agarrei no Joaquim e no Eleutério, espremi-os a ver o que davam, experimentei todas as combinações possíveis e imaginárias (Eleuquim, Joatério, Quinleutério, Eleujoa e assim sucessivamente e vice-versa), mas optei pela criação, inventei-me: aproveitei as sobras, casei-as e rebaptizei-me Quitério, que sempre é um nome assim mais coisa e tal. Mas chama-me Quim e beija-me na boca. Não, não ligues, é uma brincadeiras cá das minhas. Quê? O Sarafim e a Benilde, nunca mais os vi. Sim, fiquei com o tijolo do Sarafim, ainda dá, e o que é que essa merda interessa para a nossa conversa?...

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Crónicas de Matosinhos (para rasgar antes de ler) 9

Foto Hernâni Von Doellinger

E um grande tenkiu para ti também, pá!
De manhã eu vou ao peixe. Cada vez mais de manhãzinha. E ontem de manhã, de manhãzinha, estava um camone numa das duas mesas de passeio de um daqueles pequenos cafés à beira da lota de Matosinhos. Vi que era camone à distância, por causa da enorme mochila que lhe descansava ao lado e do mapa na mão que ele olhava e revirava, e percebi logo que não me ia safar. Tenho cara de posto de turismo encerrado para obras, não é para me gabar, e eu que ia ao carapau, saiu-me o bife, se me permitem o chiste de carregar pela boca.

(A marginal de Matosinhos, do princípio do Passeio Atlântico até lá aos fundos do Porto de Leixões, é hoje em dia um dos mais frequentados corredores do Caminho de Santiago, palmilhado a solo ou aos magotes por camones de várias línguas e feitios. A passagem pelo Senhor do Padrão é - devia ser - obrigatória.)

Mas que se passou: o camone viu-me sem mapa e também de mochila às costas (e eu não sei andar sem mochila, parece que me desequilibro sem ela) e portanto achou que eu é que sabia. Perguntou-me então du iu spikinglixe? E eu respondi-lhe o que sempre respondo aos gringos em Portugal: e tu, sabes falar português?

A verdade sobre as gaivotas
Gaivotas é comigo. Tenho até uma que faz questão de me vir cagar à varanda. Estou agora a escrever e estou a ouvi-las, a vê-las à minha frente, do lado de lá da janela. Eu e as gaivotas somos inseparáveis. Cúmplices. Somos um para as outras. Fui o primeiro a alertar para os perigos que corre o extraordinário gaivotal da Riguinha e Carcavelos, orgulho e emblema da Praia de Matosinhos. As gaivotas interessam-me. Cagam-me em cima, é certo, mas muito menos do que me cagavam em cima o Paulo Portas e o Passos Coelho, e eu não os conheço de lado nenhum e não me interessam para nada.
Gaivotalmente falando, levo já mais de 25 anos de trabalho no terreno, eu e elas, contra a vontade da minha mulher, por causa da limpeza da varanda. Estou portanto em condições de afirmar, sem temer desmentidos, que sei de gaivotas como se fosse gaivoto. Houvesse um presidente da república das gaivotas e seria eu. E note-se que já tivemos um presidente da república das cagarras...
Ora bem. Outro especialista, mas este da Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves, disse às notícias que as gaivotas andam a mudar-se do mar para a cidade. Pois andam. O caro colega afiança também que o "fenómeno" começou exactamente há dez anos, mas que, atenção, está a aumentar com "o calor elevado que se faz sentir neste momento". Era Verão quando falou.
Não sei se o "fenómeno" começou mesmo há dez anos - não os contei, não sei sequer se o "fenómeno" é fenómeno realmente, mas afirmar que a vaga de calor daqueles dias puxou as gaivotas ainda mais para terra é ciência de atirar à sorte a ver se acerta. E não acertou. Ou então as gaivotas de Matosinhos são umas desalinhadas, só para chatear.
Explico. Hoje há um nevoeirinho manso ali na praia, uma brisazinha de norte passa aqui pela rua como quem não quer a coisa, e elas aí andam, as minhas gaivotas, nos telhados, na varanda, conversadeiras e cagonas, aproveitando a aragem como eu. Mas no pino do Verão, em dias de brasa, não. Pelo contrário. A canícula devolve as gaivotas ao mar e escangalha em duas penadas a teoria de sofá do ilustre ecologista. Quem as quiser ver é na água, bandos imensos, uns cem metros para dentro da linha de rebentação, refrescando consoladamente as nalgas. Porque não são parvas. É. Já escrevi e repito: as gaivotas têm merda na barriga, não na cabeça.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Crónicas de Matosinhos (para rasgar antes de ler) 8

Foto Hernâni Von Doellinger

O azar da gaivota é não ter nascido lince (ou lagarto de água, vá lá)
"As câmaras do Porto, Matosinhos e Gaia colocaram em curso medidas para travar a proliferação de gaivotas naquelas cidades, com destaque para a proibição de alimentar as aves, colocação de pinos em edifícios e falcões no rio Douro", contava-me a agência Lusa num domingo de Páscoa, rapidamente copiada urbi et orbi pelos jornais de redacções vazias.
Duas das medidas a aplicar pelo Porto - que, entre Gaia e Matosinhos, é sempre o paradigma - são "a georreferenciação de pedidos de intervenção relacionados com gaivotas para estabelecer um plano de controlo do sucesso das medidas preventivas e a realização de acções de sensibilização quando se identificam situações irregulares de alimentação dos animais com entrega de brochuras". Não percebo o que este palavreado quer dizer, mas gosto muito da "georreferenciação", gosto sobretudo de "brochuras" e... cheira-me a Eichmann.
A Protectora terá decerto uma salomónica palavra a dizer sobre o assunto. E a inefável Quercus também. Talvez: devemos amar e respeitar os animais; se forem muitos (e mesmo animais) é que não. Que se lixem os garranos de Paredes de Coura, salvemos os gatos lambe-cricas e os cães zicos, choremos os simbas, acorrentemo-nos à porta do Coliseu pelos lagartos de água. Ou então paguem! Orwell já tinha avisado: todos os animais são iguais, mas alguns são mais iguais do que os outros.
Como os meus caros três leitores sabem, eu tenho duas gaivotas. Era uma mas agora são duas, tal qual os amores do Marco Paulo eram dois.
Um destes dias a minha mulher põe-me fora de casa por causa das gaivotas, que me cagam generosamente a varanda e enxovalham a roupa a secar. Porque a verdade é esta: apesar de cagonas, eu quero-as; mas a minha mulher enxota-as. Serão ciúmes? É preciso que se note que as minhas são as duas mais belas gaivotas de Matosinhos. E eu, por mim, ficava com elas...

Eu só queria ir à farmácia
17h15. Fui à farmácia e perguntaram-me "então o que é que o traz por cá" e eu expliquei "aconteceu-me isto assim assim e queria ver se me podiam dar qualquer coisa". O meu problema era no olho. Direito. "Ora mostre lá o olho", e eu mostrei, "ui, vai ter de ir ao médico", e eu fui. A pé, da Rua Brito Capelo até ao Centro de Saúde de Matosinhos, que é um pedaço acima da Câmara Municipal.
No centro de saúde fui atendido em menos de uma hora. Perguntaram-me "então o que é que o traz por cá" e eu expliquei "aconteceu-me isto assim assim, fui à farmácia, na farmácia mandaram-me ao médico, e eu vim". "Ora mostre lá o olho", e eu mostrei, "vai ter de ir imediatamente ao oftalmologista, mas, como no Hospital Pedro Hispano não há urgência da especialidade, pegue lá esta carta e vá ao Hospital de Santo António", e eu fui. A pé até à Avenida Serpa Pinto, apanhei o 500 até ao Castelo do Queijo, esperei uma hora pelo 200 e lá cheguei ao Santo António quando o trânsito me deixou.
Na urgência fui atendido em menos de um quarto de hora. Perguntaram-me "então o que é que o traz por cá" e eu expliquei "aconteceu-me isto assim assim, fui à farmácia, na farmácia mandaram-me ao médico, o médico mandou-me aqui, e eu vim". "Ora mostre lá o olho, encoste aí o queixo e olhe para esta luzinha", e eu mostrei, encostei e olhei. "Tome lá esta receita, são umas gotas para colocar de duas em duas horas, vá já à farmácia", e eu fui. Estava de volta à casa de partida, passava pouco das 21h45.
E tudo isto pelos cinco euros da taxa moderadora que paguei no centro de saúde, mais as viagens e os quase catorze euros das gotas, que afinal nem precisavam de receita médica, e que estou a pensar meter como despesas de representação.

Sei que tenho o melhor serviço nacional de saúde do mundo. Raramente lhe dou uso, mas frequento-o assiduamente e vivo de olhos abertos. Querem saber o que é o nosso Serviço Nacional de Saúde? Não são taxas e isenções. São as pessoas: os auxiliares, os médicos e os enfermeiros, que todos os dias trabalham no arame e sem rede, que já lhes tiraram há muito, e fazem funcionar uma coisa que na verdade já nem existe, ou, se quisermos ser bondosos, vai morrendo aos bocadinhos. A minha urgência pareceu-me uma desnecessidade, mas as pessoas quiseram fazer bem - são profissionais. E faço figas para que me tratem sempre assim mas palminhas. Em todo o caso, palavra de honra, eu só queria ir à farmácia. 

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Crónicas de Matosinhos (para rasgar antes de ler) 7

     Foto Hernâni Von Doellinger

O Verão da minha perplexidade
Um destes dias aparece aí o Verão, esse inconsequente espalha-brasas. Se não chover, contamos com ele cá em casa no próxima dia 21 de Junho, ainda a tempo do São João, temos tudo preparado, e espero que venha de maiúscula como lhe fica bem. Mas com o Verão nunca se sabe - quero dizer, às vezes diz que vem mas não vem, ou chega só quando lhe apetece...
O Verão dá-me cabo da cabeça, perplexa-me. Enche-me o areal ali em baixo com milhares e milhares de pessoas que não têm dinheiro para alugar meia hora numa máquina de assar frangos, e portanto vêm para a praia. Atenção: eu até gosto de praia, nem sequer me imagino agora a viver sem ter o mar debaixo de olho, e à praia passeio-a todas as manhãs, só eu e ela, de braço dado, as ondas a desmaiarem-me aos pés, o silêncio (aquela espécie de silêncio) a lavar-me a alma. Isto é - eu namoro a praia, mas não a "faço".
Os que "fazem praia" é que me espantam. Na fornada das duas da tarde, espreito da minha varanda e não há maneira de conseguir compreender o que vejo no meu quintal. O que estão a fazer ali aqueles milhares de pessoas quase nuas? Foram obrigadas? É um castigo? Promessa? Vieram de livre vontade? Porquê? E porque trouxeram as crianças e os velhos? Palavra de honra, não percebo, não percebo, não percebo. Se ao menos houvesse a sombra de uma árvore, a frescura da erva verde, um regato cristalino e gelado onde demolhar os pés e meia dúzia de garrafas de vinho, ainda vá que não vá. Mas não, é só areia, areia e mais areia, areia demais para a minha camioneta.

Areia a escaldar e a voar, um sol a pique e impiedoso, o ar parado, pesado.
Sua-se em bica, sufoca-se, leva-se com boladas no nariz e nos tomates, a pele derrete e dói, a cabeça estala, a areia cega, pica, mete-se nos dentes, incomoda o rego do cu. E aquela gente parece que gosta, guincha de prazer. Gente esquisita. O que a praia lhes faz...
Desisto. Não entendo. Mas talvez Sacher-Masoch explique.

Salvemos o gaivotal da Praia de Matosinhos!
O estuário da ribeira da Riguinha e Carcavelos é a principal atracção turística da Praia de Matosinhos. E tem um valor ecológico incalculável. Mas não está legalmente protegido e essa omissão é um perigo. Vamos admitir que, por absurdo, algum maluco episodicamente com poder se lembrava de subterrar o curso de águas, introduzindo-o directamente no oceano: assim se destruiria um dos mais interessantes e bem frequentados gaivotais da costa portuguesa. Estão a ver o desastre?
Mais uma pergunta, já agora, e esta dirigida a quem manda, mas upa upa: para quando a criação da Reserva Natural do Gaivotal da Praia de Matosinhos? Era uma garantia, ficava o assunto resolvido.
A este santuário, estrategicamente localizado mesmo aos pés da famosa Anémona da Olá, as gaivotas acorrem aos milhares e ao cheiro. Porque a Riguinha cheira. O estuário da Riguinha e Carcavelos parece a desembocadura de um esgoto. A Riguinha tem tudo para ser um bom esgoto, mas é uma ribeira de papel passado. Quando chove, a ribeira alimenta-se das sarjetas das ruas e as gaivotas agradecem. As águas são gordurosas e amiúde recheadas, são ora pretas ora castanhas, sobretudo castanhas. E as gaivotas apreciam. E todo este património não se pode perder.
As gaivotas, que têm merda na barriga mas não na cabeça, não se acreditam que a Riguinha é uma ribeira. Acham que é um esgoto. E eu até as compreendo.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Crónicas de Matosinhos (para rasgar antes de ler) 6

      Foto Hernâni Von Doellinger

Esta gente não gosta de Matosinhos
Moro em Matosinhos e gosto de pensar que também sou de Matosinhos. Moro num prédio de ex-remediados com vista para o mar, se me puser de lado. E como eu gosto do mar. Levei com o fedor da fábrica da tripa, habituei-me ao chulé da estilha e gramo com os saralhotos de cão que abrilhantam metro sim metro não os passeios da cidade. Gosto do sítio onde moro e gosto das pessoas a quem digo e que me dizem bom-dia, todos os dias, na lota, na peixaria, no mercado, na praia, no passeio marginal, nas portas dos cafés e lojas. Gosto dos pescadores, gosto das peixeiras, gosto do peixe fresco que me vendem por especial atenção, gosto da franqueza e da valentia deste povo, gosto do cheiro da sardinha assada que me entra pela casa dentro nem que eu não queira, gosto das esplanadas que no Verão estorvam ruas e pessoas e quem estiver mal que se mude, gosto do Leixões e gosto dos leixonenses apesar de eles odiarem visceralmente o meu FC Porto.
Aqui atrasado, uns políticos da treta andaram (parece que ainda andam) por Matosinhos a incendiar infelizmências, numa vergonhosa luta pelo poder local e pessoal que acabou em tragédia. A morte de um ser humano, seja em que condições for, é uma tragédia. E desde então que não faltam onzeneiros da escrita que passam a vida à espera de uma pequena aberta, uma pequenina assim, do tamanho do tremoço que lhes ocupa o espaço alegadamente reservado ao cérebro, para rasgarem as vestes e gritarem aos céus que os matosinhenses mataram Sousa Franco. Os onzeneiros de serviço estão permanentemente à espreita, e o PS, esse saquíssimo de gatos que é o PS de Matosinhos, heteróclito caso de estudo para as melhores universidades internacionais, põe-se sempre a jeito, num parolismo sem emenda.
E no entanto: sei que protestar, vaiar, insultar, empurrar, esmurrar, se for em Lisboa, é fino, é debate acalorado, indignação democrática; mas se for em Matosinhos, cheira mal, é tentativa de homicídio...

O meu barbeiro falou-me de barcos
O meu barbeiro atacou-me à traição: falou-me de barcos. Tínhamos uma combinação tão antiga e cómoda de só comunicarmos um com o outro por sinais, e ele apanha-me o ponto fraco e obriga-me à conversa: barcos. Nós sabíamos que, portismos à parte, tínhamos também isto em comum, os barcos, mas era como se não soubéssemos, disfarçávamos silenciosamente, numa cumplicidade camarada, coisa de velhos embarcadiços. O Sr. Fernando, que é um artista de mão cheia, foi, no seu tempo, escanhoador-mor a bordo do navio-escola Sagres; e eu há 3.153 dias que sou contador de navios a bordo da minha varanda com vista para o mar (se me puser de lado).
Foi assim. Diz-me o meu barbeiro, sem mais nem menos, "Aquilo agora em Leixões os cruzeiros são uns atrás dos outros". Parece coisa de nada, não é?, apenas deixada no ar, mas ó palavras que me disseste: Leixões e cruzeiros, senha e contra-senha. Ao ataque!, pensei eu mais com a língua do que com a cabeça, esquecendo-me de que queria estar calado. Esqueci-me também da bóia e afoguei-me no relambório. Que "Pois de facto, só no ano passado foram 84" e que "Eu é que os vejo passar, estou lá em cima a tomar conta" e que "Até os fotografo" e que "Até já conheço alguns ao longe, como por exemplo o Albatroz, o Aurora, o Azura que é irmão do Ventura, o Boudica, o Crystal Symphony, o Queen Victoria, o Marina, o Celebrity Constellation ou o Costa Pacifica", rasam-me aqui a porta de casa, e que "O Porto de Leixões é um sucesso, um batedor de recordes que despeja milhares de turistas nas cidades de Matosinhos e Porto (71.799 em 2016) e milhões de toneladas de mercadorias para o país inteiro, e que para este ano já estão confirmados 107 cruzeiros e 105 mil passageiros,e dei-lhe mais números, e comparei-lhe períodos homólogos, e disse mesmo "períodos homólogos", que nunca na minha vida tinha dito, e meti-lhe percentagens entre parênteses, e desenhei-lhe gráficos com setas a apontarem para cima, e desabafei que "Um dia destes um filho da puta qualquer vai foder isto tudo, sentado numa secretária em Lisboa". E foi assim que eu falei. Mas em ponto grande.
O meu barbeiro, que aqui atrasado não acreditou em mim quando eu lhe disse que não sou mudo, estava o barbeiro mais feliz do mundo. Pasmado, de pente e tesoura suspensos no ar, como bailarina sevilhana pronta a tocar castanholas. O paleio ia de vento em popa. O meu barbeiro servia à pinta. Os barbeiros são óptimos a servir à pinta. Que "Sim" e que "Sim" e que "Sim" e que "Sim", "Sim senhor", "Não me diga", "Parece impossível". Falámos por quase 30 anos de silêncio. Mas conversa sobre barcos leva longe: já íamos nos fados, vejam bem. Olhei para trás e não vi terra, a minha varanda. Tive medo e parei ali. Levantei a mão direita numa saudação índia atabalhoada, fiz "Ugh!", paguei e nadei até casa.

Da tesoura do meu barbeiro começavam a sair os primeiros acordes de La Boda de Luis Alonso, e Lucero Tena castanholando...

domingo, 5 de fevereiro de 2017

Crónicas de Matosinhos (para rasgar antes de ler) 5

     Foto Hernâni Von Doellinger

O futebol realmente
Aos domingos de manhã eles lá estão e são os meus ídolos. Jogam à bola porque gostam, são amigos e compinchas, para além disso dá-lhes imenso jeito ganhar apetite para o almoço, Deus os farture e lhes mantenha a figura. Jogam a sério, com árbitro, estão organizados, tenho visto assembleias gerais antes dos prélios. Há os da praia seca e, no beijo das ondas, os da praia molhada. A paixão pelo futebol é a mesma, tremenda e pura. São amadores como quer dizer a palavra.

Dos "bebés do Leixões", já ouviram falar? Dessa ínclita geração de jovens génios da bola, conta a lenda que descobertos exactamente ali naquele areal, miúdos campeões do muda-aos-cinco-e-acaba-aos dez, pelo primeiro e mais competente olheiro do mundo e de todos os tempos, mestre Óscar Marques, que depois os entregava trabalhadinhos e já no ponto ao treinador António Teixeira? Anos sessenta-setenta do século passado: Adriano, Barros, Chico (Faria), Fonseca, Horácio, Neca, Nicolau (Vaqueiro), Praia - jogadores do melhor que Portugal teve ou alguma vez terá. E a seguir vieram os Albertinos, os Frascos e outros que tais... Estão a ver?...
Pois os das manhãs dos meus domingos não são nada disso e tampouco lhes sei os nomes. Afinfam-lhe com assinalável pertinácia quando acertam na bola, há que dizê-lo com toda a frontalidade, mas vê-se logo que não passaram ao lado de uma grande carreira. Os outros, baptizados pelo famoso jornalista Alfredo Farinha, eram os "bebés do Leixões" e quando cresceram saltaram para o Benfica, para o Sporting e para o Porto (assim ordenados naquele tempo, a bem da Nação); estes, os meus, não sei de onde vêm nem para onde vão - mas juro que também são uma coisa bonita de se ver...

Também não exagéremos
O casal passeava o cãozinho de quarto de quilo pela manhã criança e ventosa da marginal de Matosinhos. Nisto, o fraldiqueiro, que é como as pessoas, só lhe falta falar, apertou-se-lhe a vontade e urinou com grande pertinácia no famoso passeio mandado construir no reinado de D. Narciso Miranda e que já está bom para ser deitado ao lixo.
O pai do cão, quero dizer o homem, olhou ao redor e resolveu dar uma lição de civilidade a quem por ali passava àquela hora de quem não tem palha no ninho. Quer-se dizer: a mim. E mandou à mulher, quero dizer à mãe do cão - Trazes o saquinho?, limpa aí o chichi!
- O chichi? - chispou a madama. - Então eu vou andar ali com as mãos a apanhar o mijo? Também não exagéremos!
Suspeito que estou de acordo com a pragmática senhora. Realmente, também não exagéremos...

sábado, 4 de fevereiro de 2017

Crónicas de Matosinhos (para rasgar antes de ler) 4

    Foto Hernâni Von Doellinger

Minha varanda, meu castelo
No prédio onde eu moro, o meu apartamento é o único que não tem marquise ou paramarquise na varanda. Dá nas vistas, é verdade, destoa, e todos os dias tenho a caixa de correio assediada por uns quantos panfletos em quadricromia e papel couché que me oferecem o sufoco a xis euros o metro quadrado. Muito agradecido, mas passo: a varanda faz-me falta tal qual está.
(É. As pessoas vivem fechadas em caixotes. Em caixinhas dentro de caixotes. E cada caixinha tem um respiradouro chamado varanda. E as pessoas fazem marquises...)
Gosto de correntes de ar, que hei-de fazer? Gosto de terra e gosto de mar. E gosto de levar com a terra e com o mar nas ventas. Gosto dos cheiros. Gosto de pensar (ou de pensar que penso), gosto de refrescar ideias. A minha varanda é o meu retiro. E é o meu quintal, a minha esplanada, o meu posto de vigia. Gosto de semear, de regar os vasos, de espreitar o nanocrescimento dos coentros, da salsa e do tomilho, gosto de fumar a minha cachimbada e beber o meu CRF "em balão previamente aquecido", gosto de ver passar navios. Condenaram-me a isso, a ver navios, mas eu gosto. Sou um gajo cheio de sorte.
Estão a ver a cabeça daquele cromo assamarrado e de chapéu enfiado até às orelhas, sentado na varanda, ignorante da chuva e do frio, de braço de fora, cachimbando e olhando o mar? A cabeça é minha, o cromo sou eu. Não podem ver, mas tenho uma manta a agasalhar-me as pernas. Estou muito bem, não se preocupem.
E estão a ver a gaivota, empoleirada no parapeito e quase em cima de mim? É a tal, a cagona que não me larga. A gaivota também sabe que ali é santuário, lugar de pensamento e liberdade. Somos cúmplices, praticamente almas gémeas. Mas a gaivota abusa, caga na varanda propriamente dita, o que enfurece a minha mulher. E eu? Eu, enquanto tomo nota de mais um barco que entra no Porto de Leixões, limito-me a cagar para os filhosdeputa que nos puseram assim...


Elogio ao génio humano (ou uma questão de cus)
Ontem estacionou-me ali em baixo o Costa Pacifica. São mais de 290 metros de navio para 3.780 passageiros. Os cruzeiros que me batem à porta têm-me dado que pensar, suscitam-me reflexões de pequena e média profundidade que aqui humildemente partilho com os meus queridos leitores. E ontem vieram-me à cabeça os cus. Os cus que os cruzeiros descarregam.
Cu de turista não é brincadeira, já repararam? É cu de bitola larga e se for cu americano então ocupa o mundo inteiro, incluindo o México, menos a Alemanha. Até parece que para se ser turista - turista encartado - é preciso ter um cu daqueles. E o cu alemão também para lá caminha, não quer ficar atrás. O que diz tudo a respeito de um cu.
Imagino que sejam muito ricos os camones com que me cruzo nas bordas do Porto de Leixões - eles a saírem todos cheios de good morning e eu, de passagem, "desculpem lá a shit de dog na sola da sandália, é good luck, com os cumprimentos de Matosinhos City
". Tão turistas e tão prendados de cu, têm de ser muito ricos. Engordam e viajam porque podem. Se calhar até têm ordenados, subsídios e reformas.
Chegam e parece-me sempre um congresso de cus, com sala de espera no Passeio Atlântico, que se vê à rasca para aguentar. Toneladas e toneladas de bagagem extra em traseiros colossais e gingões mesmo à frente do meu nariz. Confesso: é um espectáculo que não pára de maravilhar-me. Olho para os cus e olho para o barco, e só me apetece elogiar o génio humano, os avanços da ciência, os milagres da indústria, a arte e o engenho dos modernos fazedores de navios, supremos desafiadores das leis da física. Fascina-me aquilo que não consigo compreender. Para os cus e para o barco - olho para o barco e penso: como é que aquilo não vai ao fundo?...

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Crónicas de Matosinhos (para rasgar antes de ler) 3

     Foto Hernâni Von Doellinger

Animais de tiro, como manda a sapatilha
Animal ou besta de tiro: animal que puxa um carro, na definição simplificada do dicionário. Ou, melhor explicado, animal utilizado como tracção para o transporte de pessoas e mercadorias, aparelhos agrícolas como, por exemplo, o arado, ou como motor de noras e moinhos (chamam-se em Espanha moinhos de sangue).
Os principais animais de tiro são os cavalos, as mulas e os burros, os bois e as vacas, os ónagros, os camelos e dromedários, os iaques, os búfalos de água, os lamas, os alces e as renas do Pai Natal, os elefantes, os portugueses, as avestruzes e... os cães. Os cães: que antigamente tiravam só praticamente no Alasca e para o cinema, e agora também puxam em Matosinhos por jovens ciclistas e skaters radicais e talvez preguiçosos.

Outros animais de tiro, mas por diversa razão, são, aqui que ninguém nos ouve: o coelho-bravo, a lebre, a raposa e o saca-rabos; a perdiz-vermelha, o faisão, o pombo-da-rocha, o gaio, a pega-rabuda e a gralha-preta; o pato-real, a frisada, a marrequinha, o pato-trombeteiro, o marreco, o arrabio, a piadeira, o zarro-comum, a negrinha, a galinha-d´água, o galeirão, a tarambola-dourada, a galinhola, a rola-comum, a rola-turca, a codorniz, o pombo-bravo, o pombo torcaz, o tordo-zornal, o tordo-comum, o tordo-ruivo, a tordeia, o estorninho-malhado, a narceja-comum e a narceja-galega; o javali, o gamo, o veado, o corço e o muflão.
Para não saberem que vão morrer, a estes animais de tiro chamam-lhes espécies cinegéticas. É preciso que se note que o melro saiu da lista dos abatíveis em 2011, por ordem de Daniel Campelo, então secretário de Estado das Florestas e do Desenvolvimento Rural. Uma medida que seguramente marcou um extraordinário mandato, posto que breve.

Em balão previamente aquecido 
(Aviso: o que se segue é um texto de merda.) 
Moro mesmo em frente ao mar se me puser de lado na varanda. E é na varanda que, depois de um jantar mais coisa e tal como o de ontem, eu gosto de fumar a minha cachimbada e beber um fundinho de CRF em balão previamente aquecido. "Em balão previamente aquecido". Não sei quem foi o génio que inventou a frase e o conceito, mas, já repararam?, sabe quase tão bem dizê-lo como bebê-lo.
E balão, para mim, é mesmo balão. Não um balãozinho ou um balo. É balão, bojudo e de boca larga, tipo Alberto João Jardim. O conteúdo até poderá ser pouco, e é, um dedo apenas e medido pela minha mulher, mas o continente quero-o pela medida grande.
Moro em Matosinhos, em frente ao mar, dizia eu, e tenho uma vizinha que dá de comer às gaivotas. A sério, dá de comer aos gatos e às gaivotas. E as gaivotas, que vêm ao cheiro, não me largam a varanda. De dia e de noite. Todos os dias e todas as noites. Creio que ainda ninguém explicou a estas gajas que só me deveriam bater à porta em caso de tempestade marítima.
Ora, a gaivota é um bicho que, como a maioria dos portugueses, come qualquer merda e anda quase sempre de soltura. Resultado: quando abre a cloaca, e aquilo é um porto franco, só de saída, chovem cagadas de alto lá com elas. Quem tinha capacete, tinha; quem não tinha, que tivesse. Isto é ciência.
Portanto, moro praticamente em frente ao mar e estava na varanda à conversa com o CRF em balão previamente aquecido, deitando um olho, de quando em vez, ao Gil Vicente-Olhanense, e isto é que eu ainda não tinha dito. Foi num desses momentos, no exacto momento em que eu disponibilizei o meu olho esquerdo para mais um fora-de-jogo mal assinalado, ainda por cima, que a puta da gaivota do costume - já te conheço a fronha, ó cagona - resolveu aliviar lastro, com uma pontaria tamanha que me acertou em cheio no indefeso balão de boca larga.
Antes de ficar realmente fodido, pensei: isto é uma metáfora do pobre país que somos, todos nos cagam em cima, até as gaivotas, e pela boca morre o peixe. Bebi um golo e não era metáfora nenhuma, era merda. Para a próxima vou beber o CRF num balãozinho, de boquinha apertadinha. Com menos merda, e previamente aquecido, não há-de saber tão mal.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Crónicas de Matosinhos (para rasgar antes de ler) 2

Foto Hernâni Von Doellinger

Óculos há muitos, ó camone!...
(O Passeio Atlântico de Matosinhos é um mundo. Pelos menos, em dias de tempo bondoso, uma razoável amostra de mundo.)
O turista estrangeiro aproximou-se do vendedor de óculos de sol de beira de praia. Era obviamente um turista estrangeiro, só eu e os turistas estrangeiros é que sabemos malvestir assim, nunca me engano a esse respeito. O vendedor de óculos de sol de beira de praia é português dos quatro costados, conheço-o muito bem, há anos, monta banca todos os dias ali em baixo e quando chove é vendedor de guarda-chuvas de beira de praia. É, além disso, ambulante, mas apenas para fugir aos fiscais e à polícia. Ele também percebeu logo que o freguês que tinha pela frente era estrangeiro. Mas pensam que se atrapalhou?, era o que faltava! Nós os portugueses temos connosco esta habilidade extraordinária de nos desenrascarmos sempre, seja em que situação for, cá em casa ou lá fora, mesmo debaixo de água, aprendemos línguas, copiamos hábitos, possuímos este poder de desembaraço, improvisação e adaptação, que tomaram muitos, até os Alemães, e que fez de nós um povo das sete partidas do mundo por excelência. Bem, com estas tretas todas, esqueci-me do que queria contar...
Ah!, já sei: o turista estrangeiro. Portanto, o turista estrangeiro abeirou-se do vendedor de óculos português e perguntou: - The glasses, how much?... (Estão a ver como eu tinha razão?).
Foi um clique, um cagagésimo de segundo bastou para que o rapidíssimo cérebro do nosso vendedor formatasse "é inglês, pois então vamos a isso" e mudasse imediatamente de registo, fazendo um entre parênteses na língua do Camões. Cheio de segurança e poliglotismo, respondeu ao camone, marcando ostensivamente as sílabas no mais escorreito acento cockney: - Quali? Quali qui quieres?...

Matosinhos, sol e saralhotos
Matosinhos à tarde. Sol que era um consolo. O casal descia a rua, a minha, em direcção ao mar, puxado pela trela do pequeno cocker. Eis senão quando, porventura desarranjado pelo strogonoff de vitela e leite-creme do almoço, o aflito canídeo arriou as calças e cagou ali mesmo em pleno passeio, com evidente alívio pessoal e grande satisfação dos babados papás. Acabada a obra, a madama, higiene e civismo acima de tudo, foi à carteira e retirou um lenço de papel de um branco imaculado, abriu-o, ao lenço casto, e voltou a dobrá-lo, liturgicamente, agora apenas em dois, baixou-se, quase que me pareceu que se benzia, e... limpou o cu ao cão. Depois amarrotou o papel e lançou-o para junto do saralhoto. No meio do passeio. Do meu. E lá seguiram os três para o mar e para o sol, dois deles puxados pela trela.
A autarquia agradece: faz colecção. No brasão de Lisboa figuram corvos, no de Matosinhos deveriam desenhar saralhotos.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Crónicas de Matosinhos (para rasgar antes de ler)

Foto Hernâni Von Doellinger

O homem e o cão (e vice-versa)
Todas as manhãs o homem e o cão passeiam pela praia, naquela incerta linha de sobe e desce onde o mar enrola na areia e acaba Portugal. Par pândego, haviam de ver. O homem atira a bola de ténis e o cão, dez-réis de cão, rasteirinho e de raça que não sei, corre e salta, como uma bala, como uma mola, abocanhando-a, à bola, ainda no ar. Cão danado para a brincadeira. E habilidoso. "Bem, muito bem, espectáculo", diz o homem. E o cão regressa e larga a bola, e corre e salta à volta do homem, e ladra no verdadeiro ladrar que não morde, e abana o rabo, abana, que quer dizer "Obrigado, estou muito contente, mais, quero mais", e põe a língua de fora, que quer dizer "Ainda havemos de fazer isto ao contrário".
Um quadro enternecedor. Homem e cão, numa simbiose perfeita. O amigo dos animais e o melhor amigo do homem. Fossem eles polícias, o homem e o cão da bola de ténis, e estaríamos na presença de um binómio exemplar e definitivo. Decerto já viram nas notícias: binómio é um polícia e um cão que são colegas de trabalho. Já um carteiro e um cão são um perónio. Um perónio partido e o fundilho das calças esgaçado.

Todas as manhãs, portanto. Eu também por ali ando comigo pela trela e por isso é que sei o que estou a contar. Ontem desatei a rir com o raio do cão, que realmente tem jeito, parece do circo o lingrinhas. (Não é que isto interesse, mas fez-me lembrar o Kelvin, o outro brinca-na-areia, e se calhar por isso é que me ri). Entre uma acrobacia e outra, o cão tendia a enfiar-se na água, coisa de cão certamente, e o homem dizia "Sai daí, Rex, anda cá, Rex, já vais levar, Rex", nem de propósito Rex, eu seja cão se estou a inventar. O homem, que tomara nota do meu riso, resolveu pôr-me ao corrente, "É todos os dias a mesma merda, ele gosta, o caralho do cão mete-se no mar e eu depois é que tenho de lhe dar banho, secar e escovar, trabalho filho da puta, olha, lá vai ele outra vez, ó corno!, fode-me sempre..."

O cão resolveu apanhar a última, mas sem boca. Estava-se a armar para mim. Dominou a bola com o peito e, sem deixar cair, rematou em grande estilo e foi golo, palavra de honra que foi golo. Depois colocou o açaime ao homem e levou-o para casa.

Elas e os "maridos"
Andavam as duas, como eu, a solhar no passeio marginal de Matosinhos, que deve ter custado um dinheirão e está mais perigoso do que picada africana em tempo de guerra. Elas falavam e falavam e falavam, como só elas sabem falar, as duas ao mesmo tempo e a uma velocidade que as suas curtas pernas não conseguiam acompanhar. Têm as línguas muito mais compridas e ginasticadas. Eu, que sou mais alto, olhava para o chão cheio de cuidado, a ver onde punha os pés, para não acabar no hospital, e elas falavam, falavam, falavam. Falavam de despesas, de compras, de casa, dos filhos e dos cães, da crise, de dinheiro mal gasto e de dinheiro bem gasto.
Até que a voz de uma se sobrepôs à voz da outra e eu ouvi claramente ouvido: "Sabes que não se pode dizer tudo aos maridos". Foda-se!..., disse eu mais do que pensei, como se tivesse sido atingido por um raio que as parta. Será possível? Elas não contam tudo aos maridos? Terei sido e andado enganado durante estes anos todos, mais de trinta? Não pode ser, eu não sou assim tão ingénuo. As mulheres não dizem tudo aos maridos? Deixa estar, que até vou perguntar à minha quando chegar a casa...