quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Crónicas de Matosinhos (para rasgar antes de ler) 9

Foto Hernâni Von Doellinger

E um grande tenkiu para ti também, pá!
De manhã eu vou ao peixe. Cada vez mais de manhãzinha. E ontem de manhã, de manhãzinha, estava um camone numa das duas mesas de passeio de um daqueles pequenos cafés à beira da lota de Matosinhos. Vi que era camone à distância, por causa da enorme mochila que lhe descansava ao lado e do mapa na mão que ele olhava e revirava, e percebi logo que não me ia safar. Tenho cara de posto de turismo encerrado para obras, não é para me gabar, e eu que ia ao carapau, saiu-me o bife, se me permitem o chiste de carregar pela boca.

(A marginal de Matosinhos, do princípio do Passeio Atlântico até lá aos fundos do Porto de Leixões, é hoje em dia um dos mais frequentados corredores do Caminho de Santiago, palmilhado a solo ou aos magotes por camones de várias línguas e feitios. A passagem pelo Senhor do Padrão é - devia ser - obrigatória.)

Mas que se passou: o camone viu-me sem mapa e também de mochila às costas (e eu não sei andar sem mochila, parece que me desequilibro sem ela) e portanto achou que eu é que sabia. Perguntou-me então du iu spikinglixe? E eu respondi-lhe o que sempre respondo aos gringos em Portugal: e tu, sabes falar português?

A verdade sobre as gaivotas
Gaivotas é comigo. Tenho até uma que faz questão de me vir cagar à varanda. Estou agora a escrever e estou a ouvi-las, a vê-las à minha frente, do lado de lá da janela. Eu e as gaivotas somos inseparáveis. Cúmplices. Somos um para as outras. Fui o primeiro a alertar para os perigos que corre o extraordinário gaivotal da Riguinha e Carcavelos, orgulho e emblema da Praia de Matosinhos. As gaivotas interessam-me. Cagam-me em cima, é certo, mas muito menos do que me cagavam em cima o Paulo Portas e o Passos Coelho, e eu não os conheço de lado nenhum e não me interessam para nada.
Gaivotalmente falando, levo já mais de 25 anos de trabalho no terreno, eu e elas, contra a vontade da minha mulher, por causa da limpeza da varanda. Estou portanto em condições de afirmar, sem temer desmentidos, que sei de gaivotas como se fosse gaivoto. Houvesse um presidente da república das gaivotas e seria eu. E note-se que já tivemos um presidente da república das cagarras...
Ora bem. Outro especialista, mas este da Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves, disse às notícias que as gaivotas andam a mudar-se do mar para a cidade. Pois andam. O caro colega afiança também que o "fenómeno" começou exactamente há dez anos, mas que, atenção, está a aumentar com "o calor elevado que se faz sentir neste momento". Era Verão quando falou.
Não sei se o "fenómeno" começou mesmo há dez anos - não os contei, não sei sequer se o "fenómeno" é fenómeno realmente, mas afirmar que a vaga de calor daqueles dias puxou as gaivotas ainda mais para terra é ciência de atirar à sorte a ver se acerta. E não acertou. Ou então as gaivotas de Matosinhos são umas desalinhadas, só para chatear.
Explico. Hoje há um nevoeirinho manso ali na praia, uma brisazinha de norte passa aqui pela rua como quem não quer a coisa, e elas aí andam, as minhas gaivotas, nos telhados, na varanda, conversadeiras e cagonas, aproveitando a aragem como eu. Mas no pino do Verão, em dias de brasa, não. Pelo contrário. A canícula devolve as gaivotas ao mar e escangalha em duas penadas a teoria de sofá do ilustre ecologista. Quem as quiser ver é na água, bandos imensos, uns cem metros para dentro da linha de rebentação, refrescando consoladamente as nalgas. Porque não são parvas. É. Já escrevi e repito: as gaivotas têm merda na barriga, não na cabeça.

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