segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Crónicas de Matosinhos (para rasgar antes de ler) 6

      Foto Hernâni Von Doellinger

Esta gente não gosta de Matosinhos
Moro em Matosinhos e gosto de pensar que também sou de Matosinhos. Moro num prédio de ex-remediados com vista para o mar, se me puser de lado. E como eu gosto do mar. Levei com o fedor da fábrica da tripa, habituei-me ao chulé da estilha e gramo com os saralhotos de cão que abrilhantam metro sim metro não os passeios da cidade. Gosto do sítio onde moro e gosto das pessoas a quem digo e que me dizem bom-dia, todos os dias, na lota, na peixaria, no mercado, na praia, no passeio marginal, nas portas dos cafés e lojas. Gosto dos pescadores, gosto das peixeiras, gosto do peixe fresco que me vendem por especial atenção, gosto da franqueza e da valentia deste povo, gosto do cheiro da sardinha assada que me entra pela casa dentro nem que eu não queira, gosto das esplanadas que no Verão estorvam ruas e pessoas e quem estiver mal que se mude, gosto do Leixões e gosto dos leixonenses apesar de eles odiarem visceralmente o meu FC Porto.
Aqui atrasado, uns políticos da treta andaram (parece que ainda andam) por Matosinhos a incendiar infelizmências, numa vergonhosa luta pelo poder local e pessoal que acabou em tragédia. A morte de um ser humano, seja em que condições for, é uma tragédia. E desde então que não faltam onzeneiros da escrita que passam a vida à espera de uma pequena aberta, uma pequenina assim, do tamanho do tremoço que lhes ocupa o espaço alegadamente reservado ao cérebro, para rasgarem as vestes e gritarem aos céus que os matosinhenses mataram Sousa Franco. Os onzeneiros de serviço estão permanentemente à espreita, e o PS, esse saquíssimo de gatos que é o PS de Matosinhos, heteróclito caso de estudo para as melhores universidades internacionais, põe-se sempre a jeito, num parolismo sem emenda.
E no entanto: sei que protestar, vaiar, insultar, empurrar, esmurrar, se for em Lisboa, é fino, é debate acalorado, indignação democrática; mas se for em Matosinhos, cheira mal, é tentativa de homicídio...

O meu barbeiro falou-me de barcos
O meu barbeiro atacou-me à traição: falou-me de barcos. Tínhamos uma combinação tão antiga e cómoda de só comunicarmos um com o outro por sinais, e ele apanha-me o ponto fraco e obriga-me à conversa: barcos. Nós sabíamos que, portismos à parte, tínhamos também isto em comum, os barcos, mas era como se não soubéssemos, disfarçávamos silenciosamente, numa cumplicidade camarada, coisa de velhos embarcadiços. O Sr. Fernando, que é um artista de mão cheia, foi, no seu tempo, escanhoador-mor a bordo do navio-escola Sagres; e eu há 3.153 dias que sou contador de navios a bordo da minha varanda com vista para o mar (se me puser de lado).
Foi assim. Diz-me o meu barbeiro, sem mais nem menos, "Aquilo agora em Leixões os cruzeiros são uns atrás dos outros". Parece coisa de nada, não é?, apenas deixada no ar, mas ó palavras que me disseste: Leixões e cruzeiros, senha e contra-senha. Ao ataque!, pensei eu mais com a língua do que com a cabeça, esquecendo-me de que queria estar calado. Esqueci-me também da bóia e afoguei-me no relambório. Que "Pois de facto, só no ano passado foram 84" e que "Eu é que os vejo passar, estou lá em cima a tomar conta" e que "Até os fotografo" e que "Até já conheço alguns ao longe, como por exemplo o Albatroz, o Aurora, o Azura que é irmão do Ventura, o Boudica, o Crystal Symphony, o Queen Victoria, o Marina, o Celebrity Constellation ou o Costa Pacifica", rasam-me aqui a porta de casa, e que "O Porto de Leixões é um sucesso, um batedor de recordes que despeja milhares de turistas nas cidades de Matosinhos e Porto (71.799 em 2016) e milhões de toneladas de mercadorias para o país inteiro, e que para este ano já estão confirmados 107 cruzeiros e 105 mil passageiros,e dei-lhe mais números, e comparei-lhe períodos homólogos, e disse mesmo "períodos homólogos", que nunca na minha vida tinha dito, e meti-lhe percentagens entre parênteses, e desenhei-lhe gráficos com setas a apontarem para cima, e desabafei que "Um dia destes um filho da puta qualquer vai foder isto tudo, sentado numa secretária em Lisboa". E foi assim que eu falei. Mas em ponto grande.
O meu barbeiro, que aqui atrasado não acreditou em mim quando eu lhe disse que não sou mudo, estava o barbeiro mais feliz do mundo. Pasmado, de pente e tesoura suspensos no ar, como bailarina sevilhana pronta a tocar castanholas. O paleio ia de vento em popa. O meu barbeiro servia à pinta. Os barbeiros são óptimos a servir à pinta. Que "Sim" e que "Sim" e que "Sim" e que "Sim", "Sim senhor", "Não me diga", "Parece impossível". Falámos por quase 30 anos de silêncio. Mas conversa sobre barcos leva longe: já íamos nos fados, vejam bem. Olhei para trás e não vi terra, a minha varanda. Tive medo e parei ali. Levantei a mão direita numa saudação índia atabalhoada, fiz "Ugh!", paguei e nadei até casa.

Da tesoura do meu barbeiro começavam a sair os primeiros acordes de La Boda de Luis Alonso, e Lucero Tena castanholando...

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