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terça-feira, 17 de abril de 2012

SIEV, o outro serviço secreto

O SIEV (Sistema de Identificação Electrónica de Veículos) é o segredo mais bem guardado do Estado português. Não se sabe para que serve, embora se suspeite que não serve para nada. Não se sabe o que faz, embora seja quase certo que não faz nada. Se faz alguma coisa, é de morto. Faz com que não se dê por ele. Faz que não existe. E foi assim, usando esta eficaz técnica de camuflagem, que o SIEV se safou da extinção que o Governo acaba de decretar para umas dezenas de organismos e institutos igualmente públicos e notoriamente inúteis.
O SIEV foi criado em 18 de Maio de 2009, no reinado de José Sócrates. O Ministério da Obras Públicas, Transportes e Comunicações atribuiu-lhe "o exclusivo de exploração e gestão do sistema de identificação de veículos" para pagamento de portagens. Mas isto é só fachada. Já em Junho de 2010, nas vésperas de começarmos a ser obrigados a pagar as auto-estradas gratuitas, o semanário Expresso se referia ao SIEV, em título, como "a empresa fantasma que gere as portagens". "A sociedade pública criada em Maio do ano passado pelo Governo para autorizar, gerir e fiscalizar todo o sistema de chips de matrículas e de portagens nas SCUT é uma pequena sala vazia no Paço do Lumiar", escrevia então o jornalista Micael Pereira.
E pouco deve ter mudado desde então. O site do SIEV, tal como naquela altura, continua "sem um número de telefone para onde se possa ligar" ou sem nomes de directores a quem nos possamos dirigir. É um serviço secreto. Há apenas uma "morada provisória" e um endereço de e-mail que, como se verá a seguir, também não serve para nada.

Há quase meio ano que me dirijo ao SIEV, por e-mail, solicitando uma simples informação. Tão simples, que a resposta até pode ser resumida a um sim ou a um não. Fiz o primeiro contacto no dia 5 de Abril de 2011 e procedi ao reenvio da minha missiva a 14 de Abril, 5 de Maio, 2 de Junho, 5 de Julho, 22 de Julho, 1 de Agosto, 7 de Agosto, 16 de Agosto, 22 de Agosto, 29 de Agosto, 5 de Setembro, 12 de Setembro e hoje. Sim, há dois meses que contacto o SIEV todas as segundas-feiras. Contacto, é uma forma de dizer, porque fico sempre a falar sozinho. O fantasma do SIEV não se digna sequer acusar a recepção dos meus e-mails ou mandar-me bater a outra porta.
Eu e o SIEV estamos, portanto, praticamente a festejar o nosso primeiro meio aniversário. Se vou desistir? Não! Se este é o texto da minha capitulação? Não! De hoje a oito há mais.

(Publiquei este texto no passado dia 19 de Setembro de 2011. E continuei a escrever ao SIEV. Escrevi nos dias  26 de Setembro, 3 de Outubro, 10 de Outubro, 17 de Outubro, 31 de Outubro, 7 de Novembro, 14 de Novembro, 21 de Novembro, 28 de Novembro, 5 de Dezembro, 12 de Dezembro, 19 de Dezembro e 26 de Dezembro, 2 de Janeiro de 2012, 9 de Janeiro, 16 de Janeiro, 23 de Janeiro, 30 de Janeiro, 6 de Fevereiro, 13 de Fevereiro, 20 de Fevereiro, 27 de Fevereiro, 5 de Março, 12 de Março, 19 de Março, 26 de Março e 5 de Abril, na comemoração do nosso primeiro aniversário. E nada se alterou. Portanto, há um ano e quarenta e uma tentativas que espero por um sinal de vida do SIEV! Voltarei ao assunto proximamente, para falar também da Via Livre, concessionária da A28).

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Assaltos na A28, agora é oficial!

Denunciei-o aqui em Setembro do ano passado. Os automobilistas aderentes às isenções e descontos na A28, entre Viana do Castelo e o Porto, andavam a ser roubados por um sistema de controlo de portagens que era tudo menos de confiança. Os assaltos eram uns atrás dos outros. Mais de meio ano depois, a Estradas de Portugal veio hoje confirmar a "anomalia".
Diz a Estradas de Portugal que a Via Livre, concessionária da A28, já terá "resolvido" o problema e estará "neste momento a analisar a forma mais célere e eficaz de rectificar as incidências ocorridas".
Lamento informar a Estradas de Portugal de que, infelizmente, não é bem assim. Neste mal contado caso há ainda muitas pontas soltas, diversos esclarecimentos a fornecer, algumas contas a acertar. A ele voltarei, e à Via Livre, mas deixemos primeiro passar a Páscoa.

segunda-feira, 5 de março de 2012

É um perigo ter tanto cuidado

Nevoeiro no alto da A28, entre Viana do Castelo e Caminha. Um jovem casal pára o carro, sai com toda a calma, cada um por sua porta, e troca de lugares: ele toma conta do volante e ela vai para pendura. O carro arranca, anda pouco mais de um quilómetro, deixa o nevoeiro para trás e torna a parar. O jovem casal sai novamente com toda a calma, cada um por sua porta, e volta à primeira forma: ela ao volante e ele ao lado. Realmente, em plena auto-estrada todos os cuidados são poucos...

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Cuidado com o que se deseja!

Há 14 anos que Paredes de Coura espera e desespera pela prometido ligação à A3, que nem dista mais do que 12 quilómetros da sede do concelho. Desde Guterres, ainda a auto-estrada que vai de Valença ao Porto não tinha sido construída. O então ministro João Cravinho chegou a comprometer-se com a autarquia, assegurando que, até 2000, as nove mil almas courenses ficariam "ligadas ao mundo". Mas 2000 passou, o mundo não acabou e o anterior Governo, de José Sócrates, meteu o assunto na gaveta avisando a Câmara presidida pelo também socialista António Pereira Júnior de que afinal a obra não poderia avançar, "por falta de dinheiro".
Do actual Governo é que Pereira Júnior ainda não obteve respostas. Hoje, no jornal Público, o autarca lamenta e diz temer que os actuais "12 quilómetros de más ligações" entre o nó de Sapardos e a vila sejam um entrave à instalação de novas indústrias no concelho. E garante que vai continuar à espera, "não pacientemente, mas a contragosto", até porque está seguro de que a ligação à A3 acabará por se concretizar: "Temos a certeza, só não sabemos quando".
Compreendo os anseios de António Pereira Júnior, que muito provavelmente até serão comungados pela esmagadora maioria dos courenses. Afinal, hoje em dia já são poucas, e consideradas esquisitas, as pessoas que não querem ficar "ligados ao mundo". Eu, no entanto, gosto de Paredes de Coura tal qual é e está. Eu, se fosse presidente da Câmara, nunca falaria de "12 quilómetros de más ligações", mas realçaria a beleza incomparável das várias estradas (incluindo os tais 12 quilómetros) que levam até àquele paraíso. Porque Paredes de Coura é um paraíso. Tal qual é e está. Tal qual como eu gosto: pacato, quase deserto, quase só para mim. Mas eu não sou presidente da Câmara. Sou apenas uma visita e, por isso, posso dar-me ao luxo destes egoísmos. E, sim, sou esquisito: gostava bem de ir para lá morar, mas só se me garantissem que poderia ficar desligado do mundo.
O desejo do presidente da Câmara de Paredes de Coura é, porém, a ligação à A3 e mais fábricas. Pereira Júnior diz que tem muito espaço de vago e quer industrializá-lo. Assim seja! Certamente que o autarca tem também bem ponderado tudo o que o concelho poderá vir a perder quando (e se) ganhar os seus 12 quilómetros de auto-estrada. Espero que a troca valha a pena! Porque é preciso ter sempre muito cuidado com o que se deseja. É que, às vezes, os desejos concretizam-se. E convém não esquecer que foi por causa de um desejo que Adão e Eva deram cabo do paraíso original.