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quinta-feira, 18 de outubro de 2018

Anjo da guarda, minha companhia

Foto Hernâni Von Doellinger

As pancadas de Jean-Baptiste Poquelin
O francês Jean-Baptiste Poquelin inventou as famosas pancadas de Jean-Baptiste Poquelin, as quais, secas e consecutivas, batidas no piso do palco, anunciavam ao público o início de um espectáculo teatral. Alguém alvitrou, no entanto, que chamar pancadas de Jean-Baptiste Poquelin às pancadas de Jean-Baptiste Poquelin não tinha jeito nenhum, até soava mal ao ouvido, e que chamar-lhes, por exemplo, pancadas de Molière seria muito mais engraçado. Tinha razão o alvitrador. As pancadas mudaram então o nome para Molière e Jean-Baptiste Poquelin também. Assim se passaram as coisas.

Todas as noites. A nossa mãe pegava em nós - na Nanda, no Nelo e em mim - e colocava-nos de joelhos e mãos postas, virados para a parede. Não era castigo, era amor. Na parede do quarto da nossa mãe, por cima da cama de casal, estava pendurada uma daquelas gravuras do anjo da guarda à la menino da lágrima. Rezávamos: "Anjo da guarda, minha companhia, guardai a minha alma de noite e de dia."

(Morávamos na casinha amarela do Santo Velho. O quarto da nossa mãe, logo à entrada, era também a sala, a urgência, o consultório das aflições e desgraças da rua inteira. A minha mãe curava. Eu era então o mais novo e os mimos eram todos para mim. Os mimos que a pobreza honrada permitia. Éramos remediadamente felizes, mas ríamo-nos muito, graças a Deus. Umas senhoras da Granja que trabalhavam no Posto Médico e passavam pelo nosso largo diziam que eu "até a chorar era bonito" - contava-me a minha mãe, cheia de vaidade, fazendo-me festinhas nos caracóis, e eu gostava. Quando a minha mãe se zangava comigo - e eu às vezes, realmente, mijava fora do penico -, dizia-me que eu tinha sido deixado lá em casa pelos ciganos...
Depois nasceu o Lando e acabaram-se-me as mordomias.)

Todas as noites. Após a oração ao anjo da guarda e o sinal da cruz feito "sem aldrabices" por ordem expressa e vigilante da nossa mãe, íamos para o nosso quartinho de duas camas, uma cama para a Nanda e a cama maior para o Nelo e para mim. A nossa mãe deitava-se enfim, exausta e nós não sabíamos, e ligava o rádio na Emissora Nacional. Dava teatro. Dramalhão. Mas tudo dentro dos conformes, pela moral e pelos bons costumes, tudo muito a bem da Nação. Do lado de cá do tabique, eu, o Nelo e a Nanda pedíamos "mais alto". Também queríamos. (Ou)víamos silentes e na maior das comoções, porque aquelas histórias não eram para brincadeiras. Interrompíamos apenas para um que outro pedido de esclarecimento acerca da senhora má e ciumosa que fazia a vida negra ao senhor viúvo e bom que gostava da menina tísica e bela que tomava conta dos quatro filhinhos dele, senhor viúvo e bom, a qual senhora má e ciumosa, todos concordávamos com a nossa mãe, era realmente "uma grande cabra", embora eu não visse nisso grande defeito. Na escola já tinha feito algumas redacções sobre "A cabra" e por isso sabia que a cabra é um animal doméstico e serve, nomeadamente, para a nossa alimentação, que era assim que a coisa se rematava.

O teatro terminava, vinha a ficha técnica - porventura autoria ou adaptação de Alice Ogando ou Odette de Saint-Maurice, certamente as vozes de Jorge Alves, Manuel Lereno, Carmen Dolores, Rui de Carvalho, Eunice Muñoz ou Canto e Castro... nos papéis de -, mas a nossa mãe só desligava depois do "Samuel Dinis ensaiou", que era mesmo o fim, e o rádio dizia "Denis", que ainda era mais mágico. Trocávamos boas-noites dum lado para o outro do tabique. "Agora vamos dormir", mandava a nossa mãe, e nós apertávamo-nos aos cobertores, contentes pela soirée e mortinhos por obedecer, que de manhã havia escola.

Todas as noites. Cinco ou dez minutos passados, a minha mãe dava um toquezinho na parede e perguntava, numa voz de embalar:
- Estais a dormir?
- Eu estou - respondia sempre eu.
- Lindo menino - dizia a minha mãe. E eu adormecia feliz.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe)

segunda-feira, 27 de março de 2017

Quando o teatro era na rádio

Foto Hernâni Von Doellinger

Todas as noites. A nossa mãe pegava em nós - na Nanda, no Nelo e em mim - e colocava-nos de joelhos e mãos postas, virados para a parede. Na parede do quarto da nossa mãe, por cima da cama de casal, estava pendurada uma daquelas gravuras do anjo da guarda. Rezávamos: Anjo da guarda, minha companhia, guardai a minha alma de noite e de dia.

(Morávamos na casinha amarela do Santo Velho. O quarto da nossa mãe, logo à entrada, era também a sala, o consultório da rua inteira. Eu era então o mais novo e os mimos eram todos para mim. Os mimos que a pobreza honrada permitia. Umas senhoras da Granja que trabalhavam no Centro de Saúde e passavam pelo Santo diziam que eu "até a chorar era bonito" - contava-me a minha mãe, cheia de vaidade, fazendo-me festinhas nos caracóis, e eu gostava. Quando a minha mãe se zangava comigo - e eu enchia-a de razões para isso -, dizia-me que eu tinha sido deixado lá em casa pelos ciganos...
Depois nasceu o Lando e acabaram-se-me as mordomias.

Todas as noites. Após a oração ao anjo da guarda e o sinal-da-cruz feito "sem aldrabices", íamos para o nosso quartinho de duas camas, uma para a Nanda e a maior para o Nelo e para mim. A nossa mãe deitava-se enfim, exausta e nós não sabíamos, e ligava o rádio na Emissora Nacional. Dava teatro. Do lado de cá do tabique, eu, o Nelo e a Nanda pedíamos "mais alto". Também queríamos. (Ou)víamos silentes e na maior das comoções, porque aquelas histórias não eram para brincadeiras. Interrompíamos apenas para um que outro pedido de esclarecimento acerca da senhora que fazia a vida negra ao senhor e que, todos concordávamos, era "uma cabra".
O teatro terminava, vinha a ficha técnica, mas a nossa mãe só desligava depois do "Samuel Dinis ensaiou", que era mesmo o fim, e o rádio dizia "Denis". Trocávamos boas-noites dum lado para o outro do tabique. "Agora vamos dormir", mandava a nossa mãe, e nós apertávamo-nos aos cobertores, contentes pela soirée e mortinhos por obedecer.

Todas as noites. Cinco ou dez minutos passados, a minha mãe dava um toquezinho na parede e perguntava, numa voz de embalar:
- Estais a dormir?
- Eu estou - respondia sempre eu.
- Lindo menino - dizia a minha mãe. E eu adormecia feliz.

(Texto já publicado, sob o título "Anjo da guarda, minha companhia")

sábado, 25 de agosto de 2012

António Borges, o precursor

Se o coro dos surpreendidos pensa que consegue calar António Borges, bem pode tirar o cavalinho da chuva. O dom sebastião residente do PSD não falou de mais nem sequer antes do tempo quando foi à TVI anunciar o fim da RTP. Foi apenas competente. Borges é uma espécie de João Baptista deste Governo cobarde e incapaz. É pago e bem pago para preparar o caminho de Passos Coelho e Miguel Relvas. Ele diz mata, a gente habitua-se à ideia, e os outros dois esfolam. Porque tem que ser, foi o senhor doutor que mandou, desculpam-se.
PS, Bloco de Esquerda, PCP, trabalhadores da RTP, Nuno Santos e até o CDS dizem-se apanhados de surpresa por este "ovo de Colombo" posto por quem sabe. Eu não fiquei admirado. E também não estranharei se António Borges for hoje à SIC anunciar o aumento do preço do cartão canelado a granel e se amanhã, num acto de grande coragem, aparecer na RTP a baixar o preço da arroba de alpista. Manda quem pode.

quarta-feira, 11 de abril de 2012

O foguetão e o peido-mestre

Foto Hernâni Von Doellinger

A Coreia do Norte prepara-se para comemorar o centenário do nascimento do fundador do país, Kim il-Sung, lançando nos próximos dias um foguetão - dizem as notícias. É um claro desafio à comunidade internacional, mas não tem data marcada. Depende do tempo. Até a Rússia e a China estão contra: os de Moscovo afirmam que Pyongyang "despreza" as resoluções do Conselho de Segurança das Nações Unidas e os de Pequim exigem "calma e moderação". Juntemos-lhes a igualmente pacífica América, e a coisa fica ainda mais hilariante.
As notícias dizem também que a iniciativa norte-coreana está a "gerar tensão elevada em toda a Ásia", com vários países a prepararem-se para a eventualidade de algo correr mal. Três companhias aéreas vão mesmo desviar alguns voos para evitarem o aprazado foguetão, que, se não chover, poderá ser lançado entre esta e a próxima semana. A Philippine Airlines, a Japan Airlines e a All Nippon Airways anunciaram mudanças em 20 rotas, a partir de amanhã e até à próxima segunda-feira. Se o caro leitor vai para a zona, faça o favor de apontar esta importante informação.

Não sei se se lembram: Eurico da Fonseca (1921-2000) foi o principal especialista português em astronáutica. Praticamente autodidacta, nomeado investigador por decreto-lei e oficialmente equiparado a professor catedrático, colaborou com a NASA e conheceu os principais responsáveis pelo Programa Apollo. Notabilizou-se, entre nós, como divulgador de assuntos científicos. Na rádio, acompanhou em directo, na então Emissora Nacional, a chegada do homem à Lua e comentou os voos espaciais norte-americanos e soviéticos. Mas era na RTP que eu gostava de o ouver. Ouver, escrevi bem.
Foi com Eurico da Fonseca na televisão que eu aprendi que se deve dizer foguete e não foguetão. Ele explicava, apenas insinuando, que foguetão é outra coisa, por exemplo coisa gasosa, eventualmente sonora e por norma fedorenta. E portanto percebo o à-rasquismo em que estão metidos todos "em toda a Ásia". Sim, e se algo corre mal? E se o querido foguetão (chama-se Unha-3) não for tão seguro como os foguetões americanos, russos e chineses, que correm sempre bem? E se o foguetão norte-coreano encrava e dá o grandessíssimo peido-mestre mesmo em cima da cabeça, para não ir mais longe, dos vizinhos do sul? Já viram a merda que vai ser?

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

O valor da palavra 2

O jornalista Ricardo Alexandre, ex-director de Informação da RDP, prestou hoje declarações ao Parlamento sobre o "caso Pedro Rosa Mendes". Sem novidades. O que é que se podia esperar de um homem sério?

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Luís Filipe Barros vai voltar

Uma boa notícia para os amantes da música e da rádio de excelência. Luís Filipe Barros deixou a RDP, mas não disse adeus à telefonia. Estava apenas farto de trabalhar para outros e vai regressar dentro em breve, com um projecto próprio, para ser ouvido na região da Grande Lisboa e Santarém. Para além disso, quis também trazer o seu, enquanto ainda há.
Na verdade, já há mais de um ano que o icónico radialista tentava sair da RDP, aproveitando um primeiro programa de rescisões amigáveis levado a cabo pela empresa, mas não o deixavam vir embora. Não foi da primeira vez, foi da segunda, no final de 2011. "Sei lá se amanhã ainda há dinheiro para pagar indemnizações! Outros ficam sempre à espera do pior, mas eu não estava para desperdiçar 30 anos de trabalho. Além disso, tenho outros projectos, que não passam nem pela RDP nem pela RTP", explica Luís Filipe Barros ao Tarrenego!, sem sequer tentar dourar a pílula.
O homem do "Rock em Stock" faz notar, no entanto, que não tem razões de queixa da rádio pública. Pelo contrário: "Sempre fui bem tratado e sempre fiz o que quis". Mas já não está "interessado em trabalhar para outros", e por isso é que disse não a "uma série de rádios" que apareceram agora a chamar por ele.
Mas Luís Filipe Barros disse não também porque tem em mãos o seu próprio projecto de rádio, "uma coisa" com a qual já colabora, "em termos musicais, para aí há um ano". Levantando um pouco a ponta do véu, o que se pode dizer para já, enquanto decorrem "conversações", é que se trata de "um projecto novo, interessante, em Lisboa, mas que vai até Santarém".
De momento, Luís Filipe Barros dedica-se a cem por cento à recuperação de um familiar muito chegado e muito querido recentemente acometido por grave problema de saúde. Mas um destes dias voltará aos microfones e teremos então uma rádio com a sua marca, de uma ponta à outra. Vai ser bonito de se ouvir.

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Quem se mete com Angola...

Um jornalista fez uma crónica, na Antena 1, a criticar duramente Angola e o pornográfico programa da RTP Prós e Contras que o primeiro-ministro Miguel Relvas transmitiu a partir de Luanda. A RDP, que parece que não gostou, vai acabar com o espaço de opinião em causa e, na passada, corta o pio ao inconveniente jornalista.
Eu já estava informado de que é perigoso afrontar o regime de José Eduardo dos Santos, só não imaginava, ingénuo como sou, que o longo braço vingador do presidente angolano chegasse cá tão longe. Põe-te a pau, amigo Orlando Castro!