quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

O mais baixo magistrado da nação

Um homem bem apetrechado
Ele tinha uma panóplia de argumentos, uma panela de pressão, uma visão estratégica, uma caixa de pandora e carradas de razão. Era realmente um homem muito bem apetrechado.

De acordo com a constituição, o mais alto magistrado da nação deve medir para cima de 1,73 m, considerada a altura média dos portugueses homens. Se o mais alto magistrado da nação for por acaso uma mais alta magistrada da nação, então basta medir para cima de 1,63 m, considerada a altura média das portuguesas mulheres. Luís Marques Mendes, que é homem do sexo masculino, mede 1,61 m calçado e é candidato à Presidência da República, faz ele muito bem. António Vitorino, que também é homem do sexo masculino, medirá, talvez de palmilhas, mais um centímetro do que Marques Mendes, isto é, 1,62 m, e algum PS queria que ele se candidatasse à Presidência da República, mas ele fugiu. Foi pena. A campanha eleitoral prometia uma empolgante luta de titãs entre estes dois. É certo que, nas actuais circunstâncias, nem o nosso Luisinho nem o escapista Vitorino obedecem às normas. Mas era fácil de resolver. Fazia-se, a este propósito, uma revisão constitucional. Uma revisão à constituição dos portugueses. Nada de profundo ou trabalhoso, nada que implique força bruta ou possa dar ideias aos neofascistas mais ou menos hemiciclistas. Eu sugeria apenas um acerto, um ajuste directo, uma revisão constitucional por medida, por baixo. Uma revisãozinha, vá lá. Coisa talvez de doze ou treze centímetros...
Napoleão, que era Napoleão, media pouco mais de metro e meio, segundo os ingleses, ou um metro e setenta, para os franceses. Sem cunhas, saltos altos, sapatos de plataforma ou outras alcavalas, Silvio Berlusconi media 1,65 m, que é também a altura de Nicolas Sarkozy, Dmitry Medvedev mede 1,57 m, Vladimir Putin mede 1,67 m, Rishi Sunak, Emmanuel Macron, Olaf Scholz e Volodymyr Zelensky medirão todos 1,70 m, número redondo, e Kim Jong-il não se sabe bem, mas medirá entre 1,55 m e 1,65 m, sendo possível que na gloriosa versão oficial meça dois metros e quarenta, pelo menos.
Alto é o almirante. Alto e para o baile. Gouveia e Melo fez saber que mede 1,93 m bem esticadinho, mas que isso não lhe sirva de argumento, ou então que se meta com alguém do seu tamanho. Aliás, eu creio que entre nós, portugueses, o conceito de mais alto magistrado está desnecessariamente sobrevalorizado e tende até a promover uma mal disfarçada discriminação. Os tempos são outros, povo meu! Porque não aproveitarmos as próximas presidenciais para elegermos, pelo contrário, o mais baixo magistrado da nação?

(Versão revista, actualizada e aumentada, publicada originalmente no meu blogue Mistérios de Fafe. Este foi o texto mais procurado no Tarrenego! durante o ano de 2025, com uma vantagem colossal em relação aos seguintes.)

No país dos cotonetes 2

Foto Hernâni Von Doellinger

Dia de São Silvestre

Hoje é Dia de São Silvestre, derivado às inúmeras provas de atletismo que ocorrem nesta altura do ano em Portugal e por esse mundo fora.

P.S. - Hoje é Dia de São Silvestre.

Passagem do ano, segundo Drummond de Andrade

Passagem do ano

O último dia do ano
Não é o último dia do tempo.
Outros dias virão
E novas coxas e ventres te comunicarão o calor da vida.
Beijarás bocas, rasgarás papéis,
Farás viagens e tantas celebrações
De aniversário, formatura, promoção, glória, doce morte com sinfonia
E coral,

Que o tempo ficará repleto e não ouvirás o clamor,
Os irreparáveis uivos
Do lobo, na solidão.

O último dia do tempo
Não é o último dia de tudo.
Fica sempre uma franja de vida
Onde se sentam dois homens.
Um homem e seu contrário,
Uma mulher e seu pé,
Um corpo e sua memória,
Um olho e seu brilho,
Uma voz e seu eco.
E quem sabe até se Deus...

Recebe com simplicidade este presente do acaso.
Mereceste viver mais um ano.
Desejarias viver sempre e esgotar a borra dos séculos.

Teu pai morreu, teu avô também.
Em ti mesmo muita coisa já se expirou, outras espreitam a morte,
Mas estás vivo. Ainda uma vez estás vivo,
E de copo na mão
Esperas amanhecer.

O recurso de se embriagar.
O recurso da dança e do grito,
O recurso da bola colorida,
O recurso de Kant e da poesia,
Todos eles... e nenhum resolve.

Surge a manhã de um novo ano.

As coisas estão limpas, ordenadas.
O corpo gasto renova-se em espuma.
Todos os sentidos alerta funcionam.
A boca está comendo vida.
A boca está entupida de vida.
A vida escorre da boca,
Lambuza as mãos, a calçada.
A vida é gorda, oleosa, mortal, sub-reptícia.


"A Rosa do Povo", Carlos Drummond de Andrade

terça-feira, 30 de dezembro de 2025

Nos jardins de sua majestade

Foto Hernâni Von Doellinger

Bais à passage?

A ordem dos factores
Deitou as canas e apanhou os foguetes. Agora chamam-lhe Maneta.

A passagem de ano em Fafe era bem porreira no meu tempo. As motas juntavam-se e andavam sem escape à meia-noite, no Largo, como baratas tontas, sem rei nem roque, bebia-se Magos no velho café Peludo e, regra geral, vomitava-se abundantemente. Uma coisa verdadeiramente constada, uma festa inegavelmente de arromba! Vinha povo de fora, até de Guimarães como se fossem espanhóis, a Arcada enchia-se como um ovo, por baixo e por cima, por dentro e por fora. Era o delírio! Tremens. As motas eram sobretudo Zundapp e Sachs, faziam um cagaçal desgraçado e os tombos sem capacete eram saudados como se fossem golo do Benfica! Às vezes a festa metia também ambulância, num extraordinário espectáculo de som, luz e cor. O Magos era uma merda, mas naquela altura eu não sabia, faltava-me ainda o termo de comparação. Fazia também muito frio na rua, que era onde o ano passava, um frio literalmente de rachar, e já era uma sorte do caraças chegar a casa com o nariz e as orelhas inteiras, isto para não falar de outros acessórios corporais por norma mais recatados e indispensáveis. Na manhã do dia seguinte, que só começava, a bem dizer, à noite, o ano novo metia baixa.
Portanto, ia-se ao Largo ver o fim do ano, ia-se à "passage". O ano passava em Fafe apenas uma vez por ano, como no resto do mundo, embora no resto do mundo o ano não passe sempre à mesma hora, mas, não sei porquê, em Fafe parecia que o ano passava todos os dias, isto é, todas as noites. Os de agora podeis não acreditar, mas era assim a vida na nossa terra, e, garanto-vos, era de categoria.

A passagem de ano em Fafe actualmente chama-se Réveillon e é um certame, porque em Fafe hoje em dia tudo é certame, até uma festa profundamente religiosa como a Senhora de Antime, e se não é certame, pelo menos é evento e de certeza é icónica, a passagem de ano, porque em Fafe agora tudo é icónico. De acordo com os anúncios, o Réveillon 2025-2026 sucede no quentinho do Pavilhão Multiusos e apresenta uma série de peripécias com nomes estrangeiros, incluindo os artistas, tem área gold, área premium, área vip e área white, que deve ser o antigo peão, e todos os utentes, talvez prevenindo, devem usar pulseiras de cores diferenciadas como nas urgências dos hospitais. Motas a desbundar e ambulâncias em tinoni é que nada, em princípio, mas até pode ser que se arranje. Com efeito, está também prometida uma coisa chamada "pirotecnia de interiores", Deus queira que ninguém se aleije.

(Versão revista, actualizada e aumentada, publicada ontem no meu blogue Mistérios de Fafe)

segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

50 anos de independências africanas


O livro "50 Anos de Independências Africanas Vistos pelos Seus Cidadãos", de Eugénio da Costa Almeida e Rui Verde (coordenadores), será apresentado na Biblioteca Palácio Galveias, Lisboa, no próximo dia 9 de Janeiro de 2026, a partir das 18 horas. Testemunho plural e inédito, a obra reúne mais de 40 personalidades dos cinco PALOP, incluindo antigos chefes de Estado, políticos, diplomatas, académicos, escritores, artistas e representantes da sociedade civil. Mais informação, aqui.

Londres foi para parte incerta

Foto Hernâni Von Doellinger

Mulheres nuas no Vaticano

Mas que grande desgraça! Que tragédia! O dia mais negro daquela terra! O ambiente só aliviou um bocadinho quando os jornalistas encontraram o cadáver do sobrevivente...

Madeleine McCann desapareceu. E o desaparecimento da "pequena Maddie" foi o melhor que aconteceu ao meu jornal naquele ano de 2007. As notícias saíam que nem pãezinhos quentes, para delícia de um público ávido de drama, coscuvilhice e sangue cor-de-rosa. E se não havia notícias, "inventavam-se" notícias. O monstro precisava de ser alimentado e as vendas iam de vento em popa.
Uma vez o chefe mandou-me ligar ao Presidente da República, a todos os antigos presidentes da República vivos, ao primeiro-ministro, a todos os ex-primeiros-ministros vivos, ao presidente da Federação Portuguesa de Futebol, ao seleccionador nacional, que era o Scolari, aos presidentes e treinadores de FC Porto, Benfica e Sporting, ao Freitas do Amaral (já não me lembro como é que este apareceu na lista, mas ele aparecia sempre), ao cardeal-patriarca de Lisboa e... ao Papa. "Ao Papa?", perguntei eu, só para ter a certeza. "Sim, pá! Liga ao Papa! Queremos um depoimento do Papa sobre o desaparecimento da Maddie". Foi assim, palavra de honra, que o chefe me respondeu.
Portanto tinha de ligar ao Papa, que era Bento XVI. O resto era fácil, era como se já estivesse feito. Pelo prestígio, pelo rigor e seriedade, pela sua inatacável ética editorial, pelo respeito e admiração que impunha na sociedade portuguesa, o jornal onde eu trabalhava, e que só fazia merda, tinha praticamente linha directa com aquela gente toda. Agora, falar com Sua Santidade, isso, sim, seria um desafio, e ainda por cima eu estava muito mal visto no Vaticano, pelo menos desde 1987, quando lá fui com Cavaco Silva, no seu tempo de primeiro-ministro. É claro que eu podia enfiar-me no bar o dia inteiro a "tentar ligar ao Papa" e à hora do fecho da edição avisava o chefe, em Lisboa, de que "Não consegui, pá, desculpa, o gajo armou-se em difícil, não fala, eu ainda disse que ia da tua parte, mas nem assim o tipo se descoseu, sabes como são os alemães, teimosos do caralho". Porém, apesar da fama que faço render, eu não frequentava o bar.
Pensei então: o que é que há de mais parecido com o Papa e a que eu possa realmente chegar? E lembrei-me: o cardeal português D. José Saraiva Martins, que também estava em Roma como o outro, o Ratzinger, e creio que ainda era prefeito da Congregação para as Causas dos Santos. Meti as mãos ao caminho, fiz chamada atrás de chamada e ao fim da tarde consegui enfim falar com ele. Atendeu-me cheio de bondade e essessss nassss palavrassss. Conhecia o caso, sim, e deu-me a sua opinião numa conversa de quase um quarto de hora. Falou-me da menina desaparecida, disse-me que rezava por ela, mas lembrou, com lucidez e sabedoria, que é fundamental que os pais não se ponham a jeito (a expressão é minha) para que semelhantes tragédias aconteçam. Vós também percebeis, tal como eu percebi, para quem é que o nosso cardeal enviava este recado. Sim, para os estranhíssimos paizinhos da "pequena Maddie". E estranhíssimos também sou eu que digo.
No fim, D. José Saraiva Martins fez-me um pedido: "Olhe, depois mande-me o jornal, se faz favor". E eu mandei. O meu jornal era o 24horas. Exactamente. O jornal com fotografias de raparigas todas boas e as mamas ao léu. Deve ter sido um sucesso no Vaticano.

O jornal 24horas nasceu em 1998, com dinheiro suíço, muito, e morreu oficialmente em 2010, um ano depois de os seus alegados responsáveis terem liquidado a redacção do Porto, a sangue frio e pelas costas. Podem limpar as mãos à parede. Mas tinha piada o pasquim, que até chegou a ser bem feito e é a bíblia do jornalismo que hoje se faz em Portugal. No meu tempo, em 2004, o 24horas atingiu uma circulação de 60 mil exemplares por dia.
Há vinte anos, quando por lá suava as estopinhas esgravatando lixo, e os jornalistas de referência, gravata e fato às riscas faziam pouco de nós, eu dizia-lhes que se rissem baixinho, porque um dia todos os jornais portugueses seriam como o 24horas. E são. Todos. E as televisões também. Embora feitos e feitas evidentemente por jornalistas de referência, gravata e fato às riscas que trabalham pouco e agora já não têm vergonha nenhuma, nem do prejuízo que dão. O bom jornal 24horas de Alexandre Pais, que uma certa e determinada rapaziada depois estragou e descarregou sanita abaixo, está hoje em dia muito bem representado na imprensa nacional. "Je suis 24horas", dizem eles todos os dias, sem saberem que dizem, porque eles também não sabem o que fazem. Mas o 24horas, o genuíno, faz falta, e então nesta época tão asinina seria um mimo. Não fazeis ideia do que eu me rio ao ler os momentosos assuntos que saem agora nos jornais e a pensar no que nós teríamos feito com eles. Seria um sucesso, diariamente a malhar e a chusma e pedir bis, coisa para anos. A desgraça que nos caiu em cima foi ter-se-nos acabado o folhetim da "pequena Maddie", que era o nosso abono de família.
A mirabolante CMTV e respectivo jornal andam agora a desenterrar o assunto e devem estar a facturar que se fartam. Recensões disparatadas, notícias a martelo, falsas maddies ou novas buscas, velhos novos suspeitos ou nem por isso, vale tudo, é sempre a bombar, e depois ainda há a "grávida da Murtosa". Porque o público merece...

P.S. - Versão revista e aumentada, publicada no meu blogue Mistérios de Fafe. No dia 29 de Dezembro de 1864 foi posto à venda, em Lisboa, o primeiro número do Diário de Notícias, fundado por Eduardo Coelho.

domingo, 28 de dezembro de 2025

Aí, Benjamim! 2

Foto Hernâni Von Doellinger

Os Antigos

O lugar da mulher
Lá vão ligeiros, marido e mulher conversando pela rua, ele à frente e ela um passo atrás, coisa de antigos. Têm uma filha. Casou. Lá vai ela jovem e ligeira conversando pela rua com o marido a estrear, ela atrás, o homem um passo adiante, porque o respeito é muito bonito.

Os Antigos sabiam tudo. No tempo dos Antigos é que era. Havia respeito, havia educação, bondade, sabedoria, paz, saúde, velhice e emprego para todos. Havia Portugal.
Os Antigos eram sábios. Sabiam de laranjas - de manhã ouro, à tarde prata e à noite mata. Sabiam do tempo - em Abril, águas mil. Sabiam de horas e alturas - deitar cedo e cedo erguer dá saúde e faz crescer. Sabiam de curas e maleitas - o vinagre e o limão meio cirurgião são. Sabiam de tubérculos e famulagem - não comas caldo de nabos nem o dês aos teus criados. Sabiam de presigos e segurança pública - sardinha sem pão é comer de ladrão. Sabiam de magustos e viagras - a castanha excita o coito e alimenta muito. Sabiam de proporções - bom comer: três vezes beber. Sabiam de criação e divindades - ao menino e ao borracho põe Deus a mão por baixo. Sabiam de prestidigitação e utopias - mais vale um pássaro na mão do que dois a voar. Sabiam saltar a cerca - a galinha da vizinha é sempre melhor que a minha. E sabiam guardar um segredo - o corno é o último a saber.
Com tanta sabedoria, os Antigos morriam muito, mas morriam muito velhinhos, isto é, por volta dos cinquenta, sessenta anos.
Os Antigos não andavam por aí aos tiros. Andavam às pauladas, às facadas, às sacholadas - e aos tiros.
Os Antigos não matavam por dá cá aquele palha. Matavam por causa da água - e geralmente por causa do vinho.
Os Antigos não emprenhavam raparigas solteiras a torto e a direito. Os filhos de pai incógnito eram realmente mais que as mães, mas eram milagres.
Os Antigos não toleravam e até perseguiam os maricas, isto é, os paneleiros, porém consideravam razoável que o senhor padre fosse ao pito às moças da paróquia e brincasse com as pilinhas dos meninos da catequese.
Os Antigos achavam que melhor que um Salazar só dois Salazares. Melhor ainda, um Salazar em cada esquina. Entre Salazar e Fátima, é que os Antigos não sabiam bem...
Os Antigos sabiam como fazer homens. Pegavam nos rapazes e mandavam-nos para a tropa, se possível para a guerra. E o futebol não era para meninas.
Os Antigos eram puros. Não gostavam de pretos. Nem de monhés. Nem de ciganos. Nem de imigrantes. Nem dos outros em geral. E iam muito à missa e à sagrada comunhão.
Os Antigos faziam muitos filhos. E batiam-lhes. E também batiam nas mulheres, mas por amor. Os Antigos gostavam muito de bater. Batiam porque tinham razão, batiam para ter razão. Batiam por vontade de Deus. Os Antigos davam pão e também educação. A educação dos Antigos.
Os Antigos sabiam o lugar da mulher. Em casa. Na cozinha. A fazer croché. E se saíam juntos à rua, era marido à frente e mulher um passo atrás, como Nosso Senhor ensinou e está na Bíblia.
Os Antigos respeitavam muito as esposas. Por isso iam às putas.

P.S. - Versão revista, actualizada e aumentada, publicada no meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia da Sagrada Família.

sábado, 27 de dezembro de 2025

Era uma vez... a História

Foto Hernâni Von Doellinger

Os Sãos Joões

(Como toda a gente sabe - como ficou muito bem aprendido no filme "O Pai Tirano", o antigo, o verdadeiro, o de António Lopes Ribeiro que eu ainda conheci pessoalmente, o a preto e branco, o de 1941, o que tem mesmo piada -, como toda a gente sabe, dizia, há duas qualidades de botas de caça: as botas de caça pum e as botas de caça pim, Vasco Santana dixit. Pois, por estranho que possa parecer, com os Sãos Joões sucede exactamente o mesmo. Quer-se dizer.)

O azar do nosso São João, o Baptista, é não ter sido o outro, o Evangelista. O nosso São João era um bocado esquisito mas muito homem: profeta ambulante, vestia-se de peles de camelo, usava um cinto de couro, comia gafanhotos e mel e convivia muito bem com cabritinhos e cabritinhas. Clamava no deserto. Um deserto que inopinadamente tinha um rio chamado Jordão como o cinema de Guimarães, e foi ali mesmo, no rio que não no cinema, que João, o nosso, inventou o baptismo e baptizou o primo Jesus. O nosso São João era a Ana Gomes daquele tempo. Punha a boca no trombone sem pauta nem contenção e isso haveria de custar-lhe a cabeça, ainda nem chegara aos trinta anos. Os amigos do Baptista tinham uma certa vergonha dele e muito gosto na própria cabeça, e por isso deram-lhe o nome de código de O Precursor, para que não se soubesse de quem falavam quando falavam. Hoje em dia, o analfabetismo instalado chama-lhe "O Percursor".
O São João que não é nosso, o Evangelista, era mais manso e teve uma vida flauteada. Morreu velho e de morte natural. Filho de Zebedeu, irmão de Tiago Maior e eventualmente sócio de André e Pedro no negócio das pescas, seria o mais novo dos doze apóstolos do Nazareno, segundo consta. De pescador quiçá analfabeto, fez-se teólogo e escritor. De evangelho e epístolas, apocalíptico até mais não. Discípulo dilecto, João, o que não é nosso, era aquele a quem Jesus amava, o que se lhe aninhou no peito durante a Última Ceia, está nos retratos. E o assunto continua a prestar-se, ainda hoje, às mais diversas e variadas.

No meu tempo de Fafe, quanto a santos populares, o São João era um hospital muito grande no Porto, felizmente com a camioneta da João Carlos Soares a passar-lhe à porta. Tínhamos, isso sim, o Santo António da minha rua, o São Pedro da Recta, creio que ainda frequentei o São Pedro da Granja e, já de saída, talvez tenha presenciado os primeiros passos do que é hoje o famoso São João da Fábrica do Ferro. Quanto ao resto, deixai estar que está bem.
O mais que se sabia do São João eram uns versinhos muito antigos que certamente pertencem ao cancioneiro fafense e era de norma cantar à mesa na noite de passagem de ano, quando já estavam todos mais para lá do que para cá. Assim fazíamos na nossa família. Insisto, para quem não é de Fafe: fafense deve ler-se e dizer-se fafénsse. E os versinhos contavam mais ou menos assim:

O São João, ó dlindlindlim,
tem um carneiro, ó dlandlandlam,
com dois guizos no pescoço.
E quando toca, ó dlindlindlim,
o guizo fino, ó dlandlandlam,
também toca o guizo grosso.


Agora, quereis saber uma coisa sem pés nem cabeça, literalmente sem cabeça? É o seguinte: a 24 de Junho, com uma festa popular que começa logo a 23, o povo assinala em grande alegria o nascimento do santo, mas a Igreja Católica e outras tendências cristãs celebram a 29 de Agosto o Dia do Martírio de São João Baptista, ou a Decapitação de João Baptista, ou a Decapitação de São João Baptista, ou a Decapitação do Anunciador, ou a Decapitação do Precursor. Quer-se dizer: festeja-se a também chamada degolação do nosso São João. Valha-nos Deus! A Igreja faz da barbaridade uma festa, e não há maneira de ganhar juízo.

P.S. - Versão revista e aumentada, publicada no meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia de São João Evangelista.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

Londres em Tamisa 2

Foto Hernâni Von Doellinger

Caixa do Evaristo

Quando abriram a caixa de Pandora, saiu de lá de dentro o Evaristo. Pandora ia morrendo de vergonha...

P.S. - Hoje é Boxing Day.

De Pandora a Paulo Macedo

Pandora era a primeira mulher, a Eva lá deles, a mulher perfeita, criada por Hefesto e Atena, com a mãozinha de todos os outros deuses, cada qual conferindo-lhe um dom, sob régua e esquadro de Zeus. Pandora era "a que tudo dá", "a que possui tudo", "a que tudo tira". Pandora foi feita de encomenda para agradar aos homens. Depois tomou conta da Caixa, ou da Boceta, como dizem os cultos e alguns depravados, e hoje em dia é Paulo Macedo.

P.S. - Hoje é Boxing Day.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

Quero denunciar o meu pai

Foto Tarrenego!

Penso rápido
Pensei sobre o assunto. Eu penso muito, mas penso pouco. A minha é vida é feita de muitos assuntos, mas pequenos assuntos. Os meus assuntos sucedem-se uns atrás dos outros, breves, infindáveis. Por isso estou sempre a pensar, mas pouquinho de cada vez, com pensamentos curtos, instantâneos, diferentes, um para cada assunto. Isto é: penso muito, penso pouco, penso rápido.

Quero fazer uma denúncia: o meu pai era benfiquista e morreu quando eu tinha onze anos. Isso faz-se? Tem algum jeito? Não sei se a CMTV e a TVI vão pegar no caso, mas justificava-se. Porque desgraça tamanha é para dar na televisão. Há que tempos que eu sou mais velho do que o meu pai, e acho isso muito mal. E o meu pai ainda me faz falta, e tenho essa grande razão de queixa. E às vezes sinto-me órfão, como por exemplo hoje, e já não tenho idade para estas coisas. Na minha ideia, minhas senhoras e meus senhores, a Procuradoria-Geral da República, o SIS e a Polícia Judiciária também deviam andar da perna enquanto a têm. E o Chega tem obrigação de exigir e berrar e espernear e patear por uma comissão parlamentar de inquérito, dê por onde der, contra tudo e contra todos. Comissão Parlamentar de Inquérito à Morte do Pai Que Era Benfiquista e Morreu Quando o Filho Tinha Onze Anos. Gosto do nome, assim simples, parece-me bem.
O meu pai era portanto benfiquista e penso que só isso é mais do que suficiente para abrir um processo. Era benfiquista e, ao fim do dia de trabalho, levava-me a ver os treinos do Fafe no Campo da Granja, que também já não existe. O meu pai, apesar de breve, ensinou-me o futebol e outras coisas boas da vida, como, por exemplo, os pastéis. Uma vez levou-me às Festas Gualterianas a Guimarães, fomos a um tasco e eu pedi-lhe para comer feijão com tripas, que vi e nunca tinha provado, e gostei que eu sei lá. Se calhar por isso é que ainda hoje gosto tanto e faço tão bem. Outra vez trouxe-me de presente uma pistola Luger P08 de brincar, pesada e igualzinha às dos nazis dos filmes, e gostei que eu sei lá. Não sei o que me deu na cabeça, mas cresci e não gosto de armas. Continuo a gostar do meu pai.
Para além de benfiquista - repito, benfiquista -, o meu pai era também novo, malandro, bonito e bom, mas suponho que isso não interesse para os autos, e era excelente operário tecelão, músico, bombeiro e jogador de dominó. De bombeiro, levava-me ao cinema e ao circo à borliú, debaixo do braço, porque a pagantes seria impossível. E contava-se que no dominó, jogado na mesa do canto direito para quem entrava na sala das traseiras do café Peludo, o meu pai até escondia pedras na boca para enganar parceiros e ganhar mais uns tostões para casa. Eu ia chamá-lo, bem ensaiado pela minha mãe para que ele não ficasse malvisto perante os amigos. "A mãe manda dizer que a comida está pronta", era o que eu dizia, uma e só uma vez, baixinho, e ficava ao lado dele todo contente, à espera.
É preciso que se note: o meu pai, também conhecido como Lando Bomba ou Lando da Bomba, não era só dominó. Nas festas onde a Banda de Revelhe ia tocar, o meu pai, que tocava saxofone, tinha também sociedade com o homem da roleta de feira, artesanal e viciada. Nos intervalos dos concertos, fartava-se de ganhar canivetes, cintos, saca-rolhas, tesouras, baralhos de cartas e gaitas de beiços. O meu pai era o engodo. "Mais uma para o senhor músico. Está em dia de sorte, o raisparta o músico!", gritava o homem da roleta, feitos um com o outro, a chamar o povo. E o povo caía, ontem como hoje. No final, o meu pai devolvia tudo a troco de umas coroas ou de mais uma navalha para oferecer.
Calhava-me, de vez em quando, levar o almoço do meu pai à fábrica. Estando sol, o meu pai e outros operários da Fábrica do Ferro comiam num terreno muito jeitoso para o efeito, a caminho do rio. Do Comporte, e por favor não confundir com Comporta. Sentávamo-nos numas pedras à sombra de pinheiros geralmente mansos e eu adorava estar ali com o meu pai aquela meia hora. Era como se fosse um piquenique, mas eu ainda não conhecia a palavra.
O meu pai dizia "Lá estara?". "Lá estara?" era cumprimento, saudação tirada de ouvido entre amigos e compinchas, da rua, do café, da fábrica, dos bombeiros, da bola e da banda. "Lá estara?" queria dizer mais ou menos "Olá, tudo bem?" ou "Viva, como é que vai isso?". O meu pai fazia também questão (que se dizia "questã") de reinventar os nomes das pessoas, e por isso o nosso bom Berto Dantas era o Berteira, o monossilábico Augusto da esquina era o Gustaveira, e assim sucessivamente. O Berto Dantas foi certamente o melhor jogador de futebol de todos os tempos nascido em Fafe, e era um ser humano maravilhoso, uma verdadeira jóia, um coração que se dava.
O meu pai gostava muito de fazer rir a minha mãe e, de malandrice, lia-lhe o jornal metendo as expressões "pelo cu acima" e "pelo cu abaixo" entre as palavras das notícias. Se fosse hoje, ficaria, por exemplo, assim: "A atriz pornográfica, pelo cu acima, Stormy Daniels, pelo cu abaixo, descreveu, pelo cu acima, o pénis, pelo cu abaixo, do presidente, pelo cu acima, dos Estados Unidos, pelo cu abaixo, Donald Trump, pelo cu acima, comparando-o, pelo cu abaixo, a um cogumelo, pelo cu acima." Eu e os meus irmãos, que arranjávamos sempre maneira de ouvirmos aquela comédia, escangalhávamo-nos a rir. A minha mãe repreendia o meu pai, tentava tirar-lhe o jornal das mãos, pareciam dos filmes do Charlot mas a cores, e nós ainda nos ríamos mais. Éramos pobres, mas tínhamos o riso. E o riso é muito bom, é uma riqueza alternativa. Éramos, então, remediadamente felizes.
Como habilitações literárias, o meu pai tinha o "Exame do 2.º Grau do Ensino Primário Elementar (4.º Grupo), isto é, tinha o "Exame da 4.ª Classe" ou apenas "o Exame", como se dizia. O meu pai gostava de ler, o que não era muito normal no seu círculo de confianças conhecidas. Talvez fosse um homem culto à sua própria custa, sub-reptício, não sei. Sei é que tinha livros, seis ou sete, escondidos em cima do guarda-vestidos, alguns deles ainda com páginas intonsas, como se usava naquela altura. "Por Quem os Sinos Dobram", de Ernest Hemingway, da velhinha Coleção Dois Mundos, Livros do Brasil, lembro-me dele. Li-o precocemente. Os outros, quando os descobri, ainda miúdo, fiquei com a ideia de que não seriam romances, aventuras, mas coisa mais séria, chatices. O meu pai tinha discos de música clássica da Deutsche Grammophon, sete ou oito, dos maiores compositores, com grandes orquestras, os melhores intérpretes, peças imortais, a "Abertura 1812", de Tchaikovski, a "Gazza Ladra", de Rossini, a "Tannhäuser", de Wagner, sinfonias de Beethoven e uma extraordinária pianada que eu apreciava especialmente, mas de que agora não consigo desencravar o nome, que vergonha. Os discos também estavam escondidos e eram ouvidos pela calada, muito raramente, quase clandestinamente, num robusto gira-discos pedido emprestado não sei a quem. Haveríamos de ter um, nosso, pequeno, mais tarde, por desgraçada herança. Não sei se o meu pai era "comunista", não tive tempo de saber.
O meu pai foi para França, Belfort, resvés com a Suíça, e escrevia-nos cartas numa letra muito perfeitinha em papel quadriculado que nós líamos à nossa mãe. Cartas bonitas, cheias de "espero que ao receberes esta", "que eu bem graças a Deus", cartas contidas, subentendidas, cartas tristes. Nós também íamos para França, estávamos já de malas feitas, o "reagrupamento familiar" já tinha sido aprovado, mas acabámos por não ir, porque entretanto o nosso pai morreu à última da hora, meia dúzia de dias antes da viagem programada, e a minha vida deu então esta volta que só vista. O meu pai morreu, acredito que de saudades, numa gelada véspera de Natal. Em França. Sozinho. Não chegou a cumprir os 37 anos de idade. No dia seguinte nasceu o Menino Jesus, disseram-me que de propósito para tomar conta na minha mãe, de mim e dos meus três irmãos, todos crianças. Que Deus me perdoe, mas o velhote, que nunca pôde ser, ter-nos-ia dado muito mais jeito...

(Versão revista e bastante aumentada, publicada no meu blogue Mistérios de Fafe)

Este ano é assim

Foto Hernâni Von Doellinger

terça-feira, 23 de dezembro de 2025

Natal é como o homem quiser

Olhei para o céu, estava estrelado. Mandei para trás. Eu tinha pedido escalfado.

Piccadilly by night

Foto Hernâni Von Doellinger

A reinvenção das galochas

Quem vê caras
Quem vê caras também vê lux. E nova gente, vip, ana, maria, mariana e cristina, telenovelas, tv7dias, tv mais, tv guia e ¡hola, "por supuesto".

As mulheres do campo, as lavradeiras, sempre andaram de galochas. Era assim em Fafe, era assim o mundo. Antigamente, para os demais, uma mulher de galochas era de rir, era parola. Agora andar de galochas é moda, as mulheres vão de galochas para o escritório e para o café. Fico à espera do avental. Ainda hei-de ver as madamas a tomarem chá de mindinho esticado e com um molho de couves à cabeça.

(Versão revista e aumentada, publicada no meu blogue Mistérios de Fafe)

segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

No país dos cotonetes

Foto Hernâni Von Doellinger

Quem vê caras não vê orações

Branco mais branco
Deu o braço a torcer. E depois pô-lo a corar. Era uma pessoa muito limpa.

Um daqueles famosos restaurantes de peixe na brasa aqui ao lado, na Rua Heróis de França, Matosinhos à beira-mar, estais a ver, já vos chegou o cheiro? Ainda é cedo. Pouco passa das oito da manhã, uma velhinha varre cerimoniosamente a esplanada que por acaso é passeio ocupado com ordem municipal, os peões têm de andar pela estrada, toureando carros felizmente em sentido único. Asseada como se fosse domingo, como se fosse Natal, a velhinha, corpo franzino, cabelos brancos de neve, ajeitados à moda da televisão, da telenovela, uma carinha doce, redonda como um minúsculo sol resplandecendo bondade, olhos apontados ao chão, espertos, criteriosos, os olhos, a velhinha varre varre, vagarosa e competente. Varre varre vassourinha, se varreres bem dou-te um vintém, se varreres mal dou-te um real. Se os anjos varressem e fossem velhinhas, e competentes, eram ela certamente e varreriam assim mais ou menos. Lembro-me de velhinhas tais quais no meu tempo de criança, em Fafe, as saudades doem-me na zona do fígado, estou também a ficar velho. A rua naquele sítio àquela hora éramos a velhinha e eu. Eu, que venho de mercar sardinhas madrugadoras e vivas, eventualmente clandestinas, estremeço de comoção. Trauteio distraidamente a lengalenga mansa e antiga, brincada à rodinha no Santo Velho, de mãos estendidas, mãos dadas, meninas e meninos sem distinção, recordo-os a todos e a todas, componho-lhes as caras, dou-lhes os nomes, turva-se-me a vista de repente e, carago, são lágrimas...
Varre varre a velhinha doce e cerimoniosa, olhos espertos e belos. Olhos que não enganam. Bondosos. Cara de sol, de anjo. E, eu a passar-lhe pelas costas em pezinhos de lã, para não incomodar, para não estragar cena tão encantadora, diz a velhinha, completamente distraída de mim, como se fosse um mantra ou, vá lá, a recitação atabalhoada do terço, à tardinha, na nossa Igreja Matriz, antes da bênção do Santíssimo: - Filhos da puta! Era mas é fodê-los! Mandá-los a todos prò caralho! À puta que os pariu!...
É. Ninguém diga que está livre, amém!

(Versão revista e aumentada, publicada no meu blogue Mistérios de Fafe)

domingo, 21 de dezembro de 2025

Talvez não acredite


"Talvez não acredite" era o título de uma série de pequenos desenhos informativos publicada no jornal O Primeiro de Janeiro sobre bizarrias, estranhezas e outros impossíveis, na página das palavras cruzadas e das tiras de banda desenhada, nomeadamente ao lado do Zé do Boné, Andy Capp de nascença, do Reizinho, da Dona Gira, do Coração de Julieta, do Sr. Calisto e do Príncipe Valente. Era uma franquia americana criada por Robert Ripley e que no original de chamava "Believe it or not!", exactamente. Fez sucesso na rádio, na televisão e em livros aos quadradinhos. Na TV, chegou a passar em Portugal, na RTP, e o programa tinha por título, se bem me lembro, "Acredite se quiser!", acho que era isso. Parece que actualmente dá nome a uma cadeia de grandes atracções turísticas e de entretenimento familiar, mais de cem locais em onze países de quatro continentes.
A vinheta ali de cima é de 1972, uma década antes do meu tempo de Janeiro. Nessa altura, saía na enorme última página do jornal, junto ao famoso "Publicitário", a que tantas vezes fiz a revisão, anos mais tarde.

P.S. - As primeiras palavras cruzadas modernas foram publicadas no jornal New York World, no dia 21 de Dezembro de 1913. O autor foi Arthur Wynne, um inglês emigrado nos EUA. Hoje é Dia das Palavras Cruzadas.

Cinco estrelas de Natal

Foto Hernâni Von Doellinger

sábado, 20 de dezembro de 2025

A bisculeta (e o Chico Americano)

O aferidor de pesos e medidas
- Esta noite choveu a cântaros!
- A almudes, se faz favor...

A bisculeta é um utensílio doméstico com quatro rodas, no mínimo: a roda da frente, a roda de trás, a roda pedaleira e o pinhão. O Chico Americano, por exemplo, tinha uma bisculeta que estacionava à porta do velho tasco do Nacor às vezes em contramão mas sempre de vidros fechados, dizia ele, por causa da chuva que também podia aparecer sobretudo no tempo dela. O tempo da chuva antigamente chamava-se Inverno, pelo menos em Fafe, hoje é quando calha. Entre outras máximas filosóficas e mínimas musicais, o Chico costumava dizer, e muito bem, apresentando-se, "não subestimando o bom senso, sou uma pessoa concreta". A bisculeta do Chico era um aparelho de categoria, parece-me que até tinha mudanças e talvez farol. À bisculeta, vulgarmente conhecida como velocípede sem motor ou bicicleta, há também quem lhe chame automóvel derivado exactamente àquilo das quatro rodas. E é o que se me oferece dizer a este respeito.

(Versão revista e aumentada, publicada no meu blogue Mistérios de Fafe)

Está bem, abelha

Foto Hernâni Von Doellinger

Orgia (o princípio)

Alguém disse: temos de ser uns para os outros. E assim começou a orgia.

P.S. - Hoje é Dia Internacional da Solidariedade Humana.

Uns para os outros

José deu uma facada a António. António deu um tiro a José. É. Temos de ser uns para os outros. 

P.S. - Hoje é Dia Internacional da Solidariedade Humana.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

O caldo de couves puxa ao sentimento

Entre o equívoco e o paradoxo
O Natal é um paradoxo, alegra e deprime, e é também um equívoco: marcado para o dia 25, toda a gente sabe que é na noite de 24. 

O Natal comove-me. Ou por outra, comove-me, mas não é geral. As árvores com luzinhas bêbadas, indecisas, as músicas tão tlim-tlim-tlam, tão jingle bellso almoço ou jantar com os velhos amigos de uma vez por ano, o generoso pacote de meio quilo de esparguete no saco do Banco Alimentar à porta do supermercado, os sorrisos de orelha a orelha, as camisolas patetas, as bandoletes com hastes de renas, os votos de "boa continuação", os programas de televisão marca Uaitecristmas, o frio aconchegante, a serra da Estrela finalmente com neve mas fechada, o circo, tanta palhaçada, a mensagem de Sua Excelência o Senhor Presidente da República, as cerimónias religiosas, tão ricas, quase sempre tão hipócritas, a comida, a comida, a comida, tanta comida, tudo ajuda à missa da minha sazonal e imensa comoção. E o vinho também.
Vou-vos contar. No Natal de há meia dúzia de anos, mas é como se tivesse sido ontem, lembro-me de que até já estava a ficar agoniado de tanto me comover. Resolvi, para desenfastiar, fazer um caldo de couves. Isso, um caldo de couves à moda antiga, isto é, à nossa moda. Foi na noite de 25 exactamente. Uns olhinhos de couve-galega, feijão vermelho, batata mal desfeita com o garfo, uma tirinha de toucinho salgado, um cibo de vaca, azeite com fartura natalícia. A panela foi à mesa de gala, fumegante como a velha locomotiva que arrastava o comboio até Fafe nos tempos em que eu não me comovia por tudo e por nada e em que a minha memória ainda tinha futuro.
Foi o nosso jantar. O caldo estava iglantónico, poderoso, de repetir e lamber os beiços. Repeti e lambi. O calor, o sabor, o odor, o estupor, quero dizer, o estupor do caldo caiu que nem ginjas, sossegando-me o estômago mais a alma. E, como flashback de filme foleiro, tornou-me à casinha do Santo Velho, à roda da mesa com os meus irmãos, a minha mãe, talvez a Mila também, o meu pai e o Menino Jesus que ainda não tinha nascido. Tornou-me à Bomba e ao Lombo, na sacramental visita pós-jantar, para o petisco e a pinguinha da ordem. Tornou-me à minha avó de Basto, na cozinha de chão de terra da Casa do Carreiro que cheirava sempre ao meu caldo. Quem me dera lá, sem a sonsice da idade, sem o tempo a cair-me das mãos, quem me dera lá! Quem mos dera cá. E de repente topei-me de olhos humedecidos, turvos, uma vagarosa lágrima descompondo-me escandalosamente a cara. De cabeça enfiada na malga, desculpei-me da boca para fora que era do vapor, e pensei: caralho, estás a chorar por causa de um caldo de couves, não tens vergonha? Ainda por cima, este tem carne...
No ano seguinte fiz canja e não chorei. É curioso: a canja não puxa ao sentimento.

(Publicada no meu blogue Mistérios de Fafe)

terça-feira, 16 de dezembro de 2025

O meu pai foi dado à troca

Tristeza mole
A tristeza, é o que tem, só dói enquanto dura.

O Natal dá-me saudades do Menino Jesus e do meu pai. Não acredito na Popota nem na Leopoldina, mas também nunca acreditei no Pai Natal, embora que o há há, ou que o ho ho! O Menino Jesus, sim, diz-me respeito. O Menino Jesus e o meu pai deviam ser da corda, tu-cá-tu-lá um com o outro, porque era o meu pai quem me punha no sapatinho as avelãs, os chocolatinhos e o par de meias que o Menino Jesus me dava todos os anos, isso eu sabia. Tão unha com carne deveriam ser os dois que o Menino Jesus nasceu no dia 25 de Dezembro e o meu pai, tudo combinado lá entre eles, morreu de véspera, em França, provavelmente para nos doer menos, um pelo outro, e doeu ainda mais, que eu só tinha onze anos. Em França é onde nascem os meninos, e ainda hoje acho lamentável que o meu pai tenha sido dado à troca.

(Publicado no meu blogue Mistérios de Fafe)

domingo, 14 de dezembro de 2025

Hidráulico e exótico

Ele andava com um macaco no carro. Hidráulico, para mudança de pneus. Mas foi apanhado pela GNR numa operação stop à entrada de Fafe, quem vem de Felgueiras. A autoridade procedeu à competente identificação, tendo sido elaborado o respectivo auto de contraordenação por violação da Convenção sobre o Comércio Internacional de Espécies da Fauna e da Flora Selvagem Ameaçadas de Extinção, também conhecida como Convenção de Washington ou CITES.

P.S. - Hoje é Dia Mundial do Macaco.

Macaquinhos no sótão

Ele tinha macaquinhos no sótão. Denunciado pela vizinha bisbilhoteira, foi detido e investigado. Os animais, após vistoria veterinária, seguiram para o jardim zoológico. Ele, para o manicómio.

P.S. - Hoje é Dia Mundial do Macaco.

Cada macaco no seu galho

"Em que ramo é que trabalhas?", perguntaram-lhe. E o macaco respondeu: "No de baixo, derivado às vertigens..."

P.S. - Hoje é Dia Mundial do Macaco.

Pentear macacos

Mandaram-no pentear macacos e ele foi. Começou por baixo, evidentemente, mas já é cabeleireiro-chefe em Gibraltar.

P.S. - Hoje é Dia Mundial do Macaco.

O grande prestidigitador

Era um mágico extraordinário: em vez de coelhos da cartola, tirava macacos do nariz.

P.S. - Hoje é Dia Mundial do Macaco.

Absolutamente solista

Foto Hernâni Von Doellinger

sábado, 13 de dezembro de 2025

Cinco violinos

Claudio Monteverdi, Paganini, Samvel Yervinyan, Camille Berthollet e Hilary Hanh. Ou por outra: Jesus Correia, Vasques, Peyroteo, Travassos e Albano.

P.S. - Hoje é Dia do Violino.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2025

O Menino Jesus morreu sozinho. Tinha 84 anos.

E se o Natal for mentira?
Era uma vez a notícia: "Idoso morreu sozinho em casa com hipotermia. Morreu Fulano de Tal, 68 anos, deficiente motor, residente em Pombal, Alfândega da Fé, que há vários meses vinha pedindo a institucionalização num lar de idosos. Perdeu a vida, na sexta-feira, após ter dado entrada no hospital em situação de hipotermia."

O Menino Jesus morreu. Tinha 84 anos e era o mês de Maio de 2012. O corpo do indivíduo do sexo masculino foi encontrado por acaso, rodeado de solidão e lixo, na casa onde resolvera fechar-se ninguém soube dizer-me há quanto tempo. As autoridades sanitárias, que não têm culpa do nome que lhes puseram nem do vocabulário e da gramática que lhes deram, suspeitam que o óbito terá ocorrido pelo menos cinco dias antes da macabra descoberta. Azar do caraças: dois dias a mais. Ao terceiro safou-se o Outro.
Estais a ver? Estais a ver aquele senhor esquisito e careca que vestia sempre um casaco de cabedal preto quase até aos pés, tipo Gestapo, Deus lhe perdoe, pasta na mão e calças zangadas com os sapatos como agora se usam, mas eram à boca-de-sino? O senhor que apanhava o autocarro que vai do Castelo do Queijo até à Baixa do Porto? Estais a ver? Exactamente: era esse o Menino Jesus, que também ninguém sabe dizer-me porque se chamava assim, só se fosse por ser um bocado extraordinário como o Outro.
O Menino Jesus foi engenheiro e solteiro. Parecia-me uma figura de Fafe, um dos meus cromos antigos. Viveu sempre com a mãe, mas a mãe morreu antes dele e isso fez-lhe diferença. São tragédias a que raramente ligamos, porque, adultos como somos, achamos que as mães só fazem falta às criancinhas pequeninas, erro crasso. Quando passou a viver sozinho, durante mais de vinte anos, o Menino Jesus preferiu desviver até ao fim. Ali mesmo, em Nevogilde, num dos largos mais ruralmente nobres da cidade do Porto, zona de ricos.
Sou pobre, mas passava lá quase todos os dias, por deveres ou opções que não vêm aqui ao caso. Vi uma vez uma equipa da polícia a bater-lhe à porta. A PSP e a GNR andam a fazer um trabalho inestimável de identificação e encaminhamento dos idosos que moram sós e em risco. Acredito que têm salvo e melhorado muitas vidas e só peço que se lembrem de mim se chegar a minha vez. Mas sei que a porta do Menino Jesus nunca se abriu.
O Menino Jesus morreu no mês de Maio de 2012 e continua a morrer por aí. O Menino Jesus morreu sozinho. E não devia. Não por ser Menino Jesus e "rico", mas porque ninguém deve morrer sozinho, sem uma mão dada, uma palavra mansa ao ouvido, um céu com estrelas para olhar. Já basta o que basta: morrer, ainda que de velho, já deve ser fodido que chegue, regra geral. E confesso que não sei se o Menino Jesus tinha precisamente 84 anos, foi o que me constou. Os jornais do dia seguinte talvez tivessem dado a idade certa do homem, porque às vezes falam verdade nas notícias pequenas, breves. Ou então morreu apenas mais um octogenário, em contramão com a vida.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Versão revista e aumentada do texto escrito e publicado originalmente aqui no dia 9 de Maio de 2012.)

quinta-feira, 11 de dezembro de 2025

A montanha pariu um rato

A montanha pariu um rato. Que miséria, realmente. Se ainda ao menos parisse um elefante! Ou dois - que incomodam muito mais... 

P.S. - Hoje é Dia Internacional da Montanha.

terça-feira, 9 de dezembro de 2025

O verdadeiro Artista

O andar de John Wayne
O que ele queria mesmo era ter um andar como o do John Wayne. Aquele andar, estais a ver? O andar inteiro. Doze quartos, duas cozinhas, piscina com escorrega e, evidentemente, marquise.

Vem aí o Dia do Artista e eu não sei dele. Não sei do Artista, quero dizer. O Artista é de Fafe, do meu tempo, morava no Picotalho, à beira da velha casa do Sr. Armindo Bristol e do Carlos Frangueiro, andou comigo na escola, o Carlos também, o Artista é portanto rapaz da nossa idade. O Artista era Artista porque se identificava com os artistas da televisão e do cinema, dos livrinhos de cobóis, e estava bem visto, porque os artistas eram os galãs, os protagonistas, os que levavam a rapariga, os que nunca morriam, apenas desapareciam em direcção ao sol poente. Por isso, antes de começar a brincadeira, o Artista avisava logo, sem dar vez a mais ninguém: "eu é que sou o Artista". Uns diziam que eram Eusébio, outros que eram Adrião, o do hóquei em patins, uns diziam que eram Zorro, outros que eram Daniel Boone. O Carlos, apesar de Frangueiro, nome posto, até se safava como guarda-redes. O Artista era o Artista, e estava tudo dito.
Por razões talvez profissionais, o Artista gostava de frequentar a sala de bilhares do Café Império em vez do Peludo, ao contrário de nós todos, vestia sempre com grande categoria e tinha um andar estudado e falar nervoso, foi trabalhar para o Porto há quase cinquenta anos, depois disso encontrámo-nos em meia dúzia de fortuitas ocasiões, curiosamente sempre em Fafe, creio que por alturas de Natal, ele cada vez mais impecável, parecia um lorde, invariavelmente apressado, e a seguir perdi-lhe o rasto, nunca mais o vi. Alguém me sabe dizer o que é feito do Artista?

(Versão revista, actualizada e aumentada, publicada no meu blogue Mistérios de Fafe)

segunda-feira, 8 de dezembro de 2025

Lembro-me da voz do Nélson


Lembro-me da voz do Nélson. O Nélson tinha uma loja muito pequenina mesmo ao lado do consultório do Dr. Antunes, uma montra e pouco mais, e gostava de estar à porta a dizer bom dia ou boa tarde às pessoas que passavam, não por interesse de negócio, coisa rara, mas porque era assim do seu feitio, dado, gentil, bom. Vendia electrodomésticos. Foi no Nélson que eu comprei a primeira televisão para a minha mãe, foi do Nélson que eu, já casado, trouxe para o Porto a primeira varinha mágica da Mi, talvez no nosso primeiro Natal, palermices que os homens faziam antigamente, oferecerem instrumentos de trabalho às mulheres, como se fossem prendas. Hoje em dia, fôramos nós outra vez novos, dava-lhe um Porshe Panamera ou talvez um beijo, que é com o que nos temos governado. O Nélson, atenção, muita atenção!, sabia de amplificadores, sabia de altifalantes, era mestre de "instalações sonoras", tinha sido esse o seu princípio, e suponho que nem será preciso dizer mais nada para que saibais que ele era um dos meus heróis.
Coincidíamos às vezes no tasco. O Nélson, o Sr. Nélson, não era um bebedor, era um conversador, mas só falava se valesse a pena. E eu lembro-me da voz dele, tão respeitadora, tão amiga, tão mansa, como se pedisse desculpa por se fazer ouvir. E, no entanto, era sábio. O Nélson é certamente uma das pessoas mais decentes que eu tive a sorte de conhecer em toda a minha vida, e há séculos que não sabia dele. Soube hoje. Morreu.
Nélson Novais, 95 anos, o sócio n.º 2 do Grupo Nun'Álvares, faleceu há uma semana, acabei de saber, por acaso, numa passagem distraída pelo Facebook da colectividade fafense. O Nélson morreu e eu, caramba, foi como se me tivesse caído a noite, fiquei tão triste... Até que me lembrei da voz do Nélson, ouvi-a de repente, juro, sem palavras certas, numa espécie de relambório sem sentido, era apenas aquele som calmo, meigo, agradável, apaziguador, voz de anjo, pensei. Isso, se os anjos falassem, haveriam de falar com a voz do Nélson. Quer-se dizer, afinal o Nélson esteve cá em baixo apenas emprestado e agora finalmente regressa a casa, ao Céu, ao sítio aonde deveras sempre pertenceu. Que descanse em paz.

Alves da Costa, por Manuel Vitorino


O filme "Cinéfilo Inconformista", de Manuel Vitorino, será exibido na próxima sexta-feira, dia 12, pelas 18h30, na Casa Comum da Reitoria da Universidade do Porto. Segue-se debate moderado por Jorge Campos. Mais informações, aqui.

Como quem não quer a coisa

Foto Hernâni Von Doellinger

domingo, 7 de dezembro de 2025

Portugal campeão do mundo de F1

A portuguesa Margarida Corceiro acaba de sagrar-se campeã do mundo de fórmula 1. Parece que o jovem britânico Lando Norris também. De acordo com as primeiras notícias.
Margarida Corceiro será condecorada pelo Presidente Marcelo, evidentemente. Lando Norris decerto também.

Timor à vista

A menina dos altifalantes avisa-me, numa voz metálica e sincopada, de andróide: "Próxima paragem, Timor." Sobressalto-me, de repente o coração enche-se-me de egrégios avós, de coragem que nunca tive, às armas às armas, digo, maubere people, canto, emociono-me de mim, Ai Timor, os olhos afogados em lágrimas, olho pela vigia, o mar calmo e eu agoniado, faço as últimas orações, seja o que Deus quiser, dou o peito às balas... e dou também fé que estou no 500, o autocarro da STCP que faz a ligação entre o Mercado de Matosinhos e a portuense Praça da Liberdade pela marginal, viceversando. Para quem vai, Timor fica entre as paragens do Castelo do Queijo e do Homem do Leme, Avenida Montevideu, Foz, e antes assim.

P.S. - Hoje é Dia de Timor-Leste.

Os pés bem assentes na terra

Ele tinha um medo terrível de andar de avião. Porque não sabia nadar. E se o aparelho caísse ao mar?...

P.S. - Hoje é Dia Internacional da Aviação Civil.

sábado, 6 de dezembro de 2025

O papel e o papelão

O (des)interesseiro
- Eu quero é que o dinheiro se foda! - dizia. Acrescentando: - E que procrie, evidentemente...

O gestor de projectos instalou-se em Fafe, vindo ninguém sabe donde, e foi ao banco pedir um empréstimo. Quantia avultada. Pretendia construir e montar de raiz uma fábrica de cartão canelado e pós de perlimpimpim, exactamente no sítio onde fora outrora a velha Fábrica do Papelão, no rio Ferro, em Cavadas, a seguir ao extinto monte de Castelhão, entre as pontes de Ranha e de São José, investimento para cima de diversos milhões de euros e emprego garantido para cerca de 23 pessoas, talvez 24 ou 25, ainda não sabia ao certo, isto tudo, bem entendido, antes da chegada em barda das grandes superfícies, que entretanto tomaram conta do lugar. O senhor do banco pediu-lhe a identificação de gestor de projectos, e o gestor de projectos respondeu prontamente: "Não tenho. Ainda estou a começar. Este é o meu primeiro negócio, mas toco muito bem ocarina". O senhor do banco tomou devida nota e observou, arguto e rindo: "Fábrica de cartão canelado, nesta altura do ano? Vê-se logo que é golpe, vigarice das antigas". "Golpe, não, caríssimo senhor, e faça o favor de reparar que eu disse caríssimo sem saber sequer a taxa de juro que aqui se pratica. Em todo o caso, se eu fosse mesmo vigarista, e dos antigos, como vosselência fez questão de caracterizar, ter-lhe-ia indicado que precisava do dinheiro para abrir um banco e não uma fábrica", ripostou o gestor de projectos, sem se rir, e foi roubar carteiras para outro lado.

(Versão revista, actualizada e aumentada, publicada no meu blogue Mistérios de Fafe)

sexta-feira, 5 de dezembro de 2025

O banheiro e a banheira

Foto Hernâni Von Doellinger

Havia o banheiro. Que era um senhor geralmente concessionário de um pedaço de praia camarária e que, pelo Verão, na chamada época balnear, alugava barracas e cadeiras, e disso fazia modo de vida para o ano inteiro. É só ir à Póvoa de Varzim, à nossa Póvoa, a Póvoa que alimentamos e que nos chama "parolos", aos fafenses. Havia o banheiro. Que era um senhor robusto de calças arregaçadas que se embrulhava numa vestimenta de oleado de cor mais ou menos berrante, velho salva-vidas que levava ao banho de mar, a bem ou a mal, adultos enfermos e sem poder de locomoção ou crianças renitentes e ganintes, como no meu tempo de miúdo, na Colónia Balnear Doutor Oliveira Salazar, na Gala, Figueira da Foz, para pobres registados e sem piolhos, após vistoria relâmpago no Posto Médico de Fafe, ou ainda hoje em dia no ritual do banho santo de São Bartolomeu do Mar, Esposende. Havia o banheiro. Que era a retrete, a sentina, a latrina, a privada, o WC, a casa de banho, a casinha, o lavatório, a tina, o lavabo, o sanitário, a sanita, o toalete, sobretudo no Brasil. Portanto havia o banheiro. E havia a banheira. A banheira era a mulher do banheiro.

P.S. - Versão revista e aumentada, publicada no meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia da Banheira. Cuidado com o sabonete...

Um dia em cheio

É jovem e dinâmico. Divide a vida entre o campo e o ginásio. Chega 5 de Dezembro e ele celebra o seu próprio dia, feriado pessoal e intransmissível, dia santo e nem por isso. Dia Internacional do Ninja e Dia Mundial do Solo. Assinalando a dupla efeméride num satisfatório dois-em-um, todos os anos, no dia de hoje, ele anda à batatada.

P.S. - Hoje é Dia Mundial do Solo e Dia Internacional do Ninja.

Mais vale solo...

Foto Hernâni Von Doellinger

quinta-feira, 4 de dezembro de 2025

Quando o homem-estátua abriu a boca

As pombinhas da catrina
As pombinhas da catrina andaram de mão em mão. Acabaram por casar, é certo, mas da fama não se livram...

Porto, vésperas de mais um Natal. Ao fim de 35 anos de inabalável serviço na ex-libríssima Praça da Liberdade, o homem-estátua chamou o fiscal da Câmara num pst! muito bem disfarçado. Veio também um polícia municipal. "Ó colegas, isto aqui já não dá nada. Até o cavalo de D. Pedro IV leva mais do que eu ao fim do dia. Estou no ir, se calhar para Fafe, vou fazer de pedregulho no Largo ou talvez de árvore. Ou então vou para a Suíça trabalhar como boneco de neve ou vaca da Milka, que estamos na época. Lembrais-vos do Dr. Miguel Relvas? Sabíeis que sempre que os portugueses emigram têm uma visão universalista que lhes traz sucesso?", disse o homem-estátua ao fiscal camarário e ao polícia municipal, por entre dentes e sem perder a pose. Era efectivamente um homem-estátua aprumado, muito profissional e filósofo amiúde. "Além disso, estou farto de que me caguem em cima", acrescentou, descendo finalmente do banco de cozinha e arrumando os tarecos e o velho reumatismo em dois sacos plásticos do Pingo Doce do tempo em que os sacos plásticos eram de borla. "As pombas?", perguntou o fiscal da Câmara, que era um bocadinho lerdo de entendimento, porém presto para as multas. "O quê?", perguntou o homem-estátua, que já nem se lembrava do que tinha acabado de dizer. "Cagam-lhe em cima, as pombas?", interveio o polícia municipal, espaçando as sílabas e restabelecendo a ordem. "Os pombos. Os do Governo, os da Assembleia, os da Justiça, os da Saúde, os da TAP, os da CP, os da EDP, os dos Correios, os da Caixa, os da Igreja, os do Espírito Santo, esses pombos todos de gravata ou cabeção mas sem anilha, esses cagões", respondeu o homem-estátua, escarafunchando os bolsos profundos à procura dos apontamentos com a lista completa, nome a nome, a começar em Aníbal e a acabar em Ventura, à procura da lista imensa e do manguito do Bordalo, que também estava para ali metido, há que tempos há espera. Tinham sido realmente muitos anos de gesto suspenso e bico calado.

(Versão revista, actualizada e aumentada, publicada no meu blogue Mistérios de Fafe)

Phone... home... (como dizia o outro)

Foto Hernâni Von Doellinger