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domingo, 21 de dezembro de 2025

Talvez não acredite


"Talvez não acredite" era o título de uma série de pequenos desenhos informativos publicada no jornal O Primeiro de Janeiro sobre bizarrias, estranhezas e outros impossíveis, na página das palavras cruzadas e das tiras de banda desenhada, nomeadamente ao lado do Zé do Boné, Andy Capp de nascença, do Reizinho, da Dona Gira, do Coração de Julieta, do Sr. Calisto e do Príncipe Valente. Era uma franquia americana criada por Robert Ripley e que no original de chamava "Believe it or not!", exactamente. Fez sucesso na rádio, na televisão e em livros aos quadradinhos. Na TV, chegou a passar em Portugal, na RTP, e o programa tinha por título, se bem me lembro, "Acredite se quiser!", acho que era isso. Parece que actualmente dá nome a uma cadeia de grandes atracções turísticas e de entretenimento familiar, mais de cem locais em onze países de quatro continentes.
A vinheta ali de cima é de 1972, uma década antes do meu tempo de Janeiro. Nessa altura, saía na enorme última página do jornal, junto ao famoso "Publicitário", a que tantas vezes fiz a revisão, anos mais tarde.

P.S. - As primeiras palavras cruzadas modernas foram publicadas no jornal New York World, no dia 21 de Dezembro de 1913. O autor foi Arthur Wynne, um inglês emigrado nos EUA. Hoje é Dia das Palavras Cruzadas.

quarta-feira, 31 de janeiro de 2024

Tão perfeita que ela era, a ignorância

Eu trabalhava num jornal que tinha uma revista de fim-de-semana muito dada àqueles rankings da treta que só servem para meter as fotografias dos "famosos" no júri de faz de conta. Eu trabalhava no Porto e o jornal era chefiado a partir de Lisboa. Uma vez o assunto devia ser música, já não me lembro, e pedi a ajuda do Luís Filipe Barros. "Luís Filipe quê?..." - disse o meu chefe, especialista em Big Brother. "Luís quê? Quem é esse gajo? Não arranjas ninguém conhecido?..."
Passou-se o mesmo com o Tozé Brito, que o meu chefe (outro) também não fazia ideia de quem fosse: "Esse tipo jogou onde? O que é que ele percebe de música?...", atirou-me, com aquele risinho telefónico e condescendente tão próprio dos sábios de Lisboa. Pouco tempo depois (e nem digo que tenha sido por causa de eu lhe ter sacudido o pó), Tozé Brito foi para jurado num programa de televisão e o jornal onde eu trabalhava nunca mais lhe largou a braguilha. Até fechar. O jornal.
Outra vez havia cá em cima uma iniciativa qualquer relacionada com cartunes e política, algo do género. Eu tentava convencer Lisboa para o interesse da coisa e agarrei-me a este argumento de peso: a obra do grande Sam era o destaque do evento. "Qual Sam?", inquiriu o chefe de serviço, com o fastio de quem tem mais que fazer do que estar outra vez a ensinar-me o que é notícia e o que não é notícia. "Então, pá, o Sam, o famoso cartunista, o Sam do Guarda Ricardo, pá, estás farto de saber, não estás?, o Sam...", respondi-lhe eu, já mais perto do que longe de o mandar à merda.
A palavra "famoso" fazia milagres naquele jornal. "Ok. Vai lá então e aproveita para entrevistar o gajo, o Sam", decidiu finalmente o chefe. Estive para lhe dizer que sim, que era o que eles gostavam de ouvir, mas resolvi contar-lhe a verdade: "Esta se calhar é mesmo impossível, pá. O Sam já morreu há uns anitos. Mas a culpa não foi da redacção do Porto, palavra de honra."
Aquela rapaziada era assim, profissionais formidavelmente informados. Estão hoje todos muito bem colocados nas grandes redacções da capital. São chefes e fazem por isso. Deus os abençoe e lhes dê muito dinheiro.

P.S. - Publicado originalmente no dia 21 de Fevereiro de 2012, sob o título "Quando me mandaram entrevistar o morto". Hoje, dia do centenário do nascimento de Samuel Azavey Torres de Carvalho, o cartunista Sam, abre em Lisboa, no Museu Bordalo Pinheiro, a exposição "Não ria. O humor é um assunto muito sério: 100 anos de Sam".

sábado, 5 de dezembro de 2020

Acredite se quiser

O primeiro número do jornal O Primeiro de Janeiro saiu curiosamente com um mês de antecedência, ou com onze meses de atraso, no dia 1 de Dezembro de 1868.

"Acredite se quiser!" era, se bem me lembro, o título de uma série de pequenos desenhos informativos publicada no velho Janeiro sobre bizarrias, estranhezas e outros impossíveis, na página das palavras cruzadas e das tiras de banda desenhada, nomeadamente ao lado do Zé do Boné, Andy Capp de nascença, do Reizinho, da Dona Gira, do Coração de Julieta, do Sr. Calisto e do Príncipe Valente. Era uma franquia americana criada por Robert Ripley e que no original de chamava "Believe it or not!". Fez sucesso na rádio, na televisão e em livros aos quadradinhos. Parece que actualmente dá nome a uma cadeia de grandes atracções turísticas e de entretenimento familiar, mais de cem em onze países de quatro continentes.

P.S. - Publicado originalmente na passada terça-feira, dia 1 de Dezembro. Acrescento-lhe hoje, graças ao imprescindível Nestinho, uma vinheta de 1972, muito antes do meu tempo de Janeiro, chamava-se então a rubrica "Talvez não acredite" - e se calhar sempre se chamou assim... - , e saía na enorme última página do jornal, junto ao famoso "Publicitário", a que tantas vezes fiz a revisão, anos mais tarde.

terça-feira, 1 de dezembro de 2020

Acredite se quiser!

O primeiro número do jornal O Primeiro de Janeiro saiu curiosamente com um mês de antecedência, ou com onze meses de atraso, no dia 1 de Dezembro de 1868.

"Acredite se quiser!" era, se bem me lembro, o título de uma série de pequenos desenhos informativos publicada no velho Janeiro sobre bizarrias, estranhezas e outros impossíveis, na página das palavras cruzadas e das tiras de banda desenhada, nomeadamente ao lado do Zé do Boné, Andy Capp de nascença, do Reizinho, do Sr. Calisto e do Príncipe Valente. Era uma franquia americana criada por Robert Ripley e que no original de chamava "Believe it or not!". Fez sucesso na rádio, na televisão e em livros aos quadradinhos. Parece que actualmente dá nome a uma cadeia de grandes atracções turísticas e de entretenimento familiar, mais de cem em onze países de quatro continentes.

sexta-feira, 8 de maio de 2020

Quando me mandaram entrevistar o morto

Eu trabalhava num jornal que tinha uma revista de fim-de-semana muito dada àqueles rankings da treta que só servem para meter as fotografias dos "famosos" no júri de faz de conta. Eu trabalhava no Porto e o jornal era chefiado a partir de Lisboa. Uma vez o assunto devia ser música, já não me lembro, e pedi a ajuda do Luís Filipe Barros. "Luís Filipe quê?..." - disse o meu chefe, especialista em Big Brother. "Luís quê? Quem é esse gajo? Não arranjas ninguém conhecido?..."
Passou-se o mesmo com o Tozé Brito, que o meu chefe (outro) também não fazia ideia de quem fosse: "Esse tipo jogou onde? O que é que ele percebe de música?...", atirou-me, com aquele risinho telefónico e condescendente tão próprio dos sábios de Lisboa. Pouco tempo depois (e nem digo que tenha sido por causa de eu lhe ter sacudido o pó), Tozé Brito foi para jurado num programa de televisão e o jornal onde eu trabalhava nunca mais lhe largou a braguilha. Até fechar. O jornal.
Outra vez havia cá em cima uma iniciativa qualquer relacionada com cartunes e política, algo do género. Eu tentava convencer Lisboa para o interesse da coisa e agarrei-me a este argumento de peso: a obra do grande Sam era o destaque do evento. "Qual Sam?", inquiriu o chefe de serviço, com o fastio de quem tem mais que fazer do que estar outra vez a ensinar-me o que é notícia e o que não é notícia. "Então, pá, o Sam, o famoso cartunista, o Sam do Guarda Ricardo, pá, estás farto de saber, não estás?, o Sam...", respondi-lhe eu, já mais perto do que longe de o mandar à merda.
A palavra "famoso" fazia milagres naquele jornal. "Ok. Vai lá então e aproveita para entrevistar o gajo, o Sam", decidiu finalmente o chefe. Estive para lhe dizer que sim, que era o que eles gostavam de ouvir, mas resolvi contar-lhe a verdade: "Esta se calhar é mesmo impossível, pá. O Sam já morreu há uns anitos. Mas a culpa não foi da redacção do Porto, palavra de honra".
Aquela rapaziada era assim, profissionais formidavelmente informados. Estão hoje todos muito bem colocados nas redacções da capital. São chefes e fazem por isso. Deus os abençoe e lhes dê muito dinheiro.

P.S. Publicado originalmente no dia 21 de Fevereiro de 2012. O jornal 24horas nasceu em 1998 e morreu em 2010, um ano depois de os seus alegados responsáveis terem liquidado a Redacção do Porto, a sangue frio e pelas costas. Eram os primeiros dias de Maio quando nos despejaram no desemprego, e podem limpar as mãos à parede. Mas tinha piada o pasquim, que até chegou a ser bem feito, e é a bíblia do jornalismo que hoje se faz em Portugal.