quarta-feira, 31 de julho de 2013

Engana-me, que eu gosto

Sou fácil de contentar. Por exemplo:
Fiquei satisfeito com as explicações que Maria Luís Albuquerque foi dar ontem ao Parlamento, por causa das swaps. Para mim, está tudo resolvido. Claro que a senhora nunca mentiu. A senhora não mente.
E também se me acabaram as dúvidas acerca do negócio Roberto. Os esclarecimentos prestados pelo Benfica à CMVM colocaram uma pedra sobre o assunto, pelo menos para mim. Tudo limpo, tudo nos conformes. As coisas são claras como águia.
Sou português. Sou fácil de contentar.

terça-feira, 30 de julho de 2013

Mário Quintana

Poeminha sentimental

O meu amor, o meu amor, Maria
É como um fio telegráfico da estrada
Aonde vêm pousar as andorinhas...
De vez em quando chega uma
E canta
(Não sei se as andorinhas cantam, mas vá lá!)
Canta e vai-se embora
Outra, nem isso,
Mal chega, vai-se embora.
A última que passou
Limitou-se a fazer cocô
No meu pobre fio de vida!
No entanto, Maria, o meu amor é sempre o mesmo:
As andorinhas é que mudam.


"Preparativos de Viagem", Mário Quintana

(Mário de Miranda Quintana nasceu no dia 30 de Julho de 1906. Morreu em 1994.)

domingo, 28 de julho de 2013

Com licença do meu portismo

Gostei muito da apresentação do FC Porto. Coisa linda! O jogo a seguir é que era escusado.

A Afurada segundo Gaspar de Jesus

                                                                                        Foto GASPAR DE JESUS

Esta é uma oportunidade extraordinária: ver a Afurada pelos olhos do fotojornalista e artista fotógrafo Gaspar de Jesus - um dos melhores portugueses no seu ofício. E é também uma exposição que tardava. Gaspar e a Afurada são um mal disfarçado caso de amor e há que tempos. Ainda bem que agora é público.
"Um olhar sobre a Afurada" por Gaspar de Jesus inaugura no próximo sábado, dia 3 de Agosto, às 16 horas, no Centro Interpretativo do Património da Afurada, Vila Nova de Gaia. A exposição manter-se-á aberta até 31 de Novembro, todos os dias, das 10 às 12h30 e das 13h30 às 18 horas.
Gaspar de Jesus, fotojornalista e professor de Fotografia, trabalhou em A Capital, O Primeiro de Janeiro, A Bola, TV Guia, Notícias Magazine e Autores. Artista premiado, realizou 18 exposições individuais e participou em inúmeras exposições colectivas, dentro e fora do País. Foi formador em cursos do FAOJ e integrou o quadro de formadores do IPF-Porto. É co-autor dos livros "Portugal e o Ambiente", "Reencontros - Portugal em Fotografia", "Daqui Houve Nome Portugal", "21 Retratos do Porto para o Século XXI", "Porto Cidade com Alma" e "Porto sem Filtro". É autor do blogue Arte Fotográfica e promotor das tertúlias Com a Arte no Olhar.

sábado, 27 de julho de 2013

Lugares-comuns 87

                                                                                                               Foto Hernâni Von Doellinger

sexta-feira, 26 de julho de 2013

A ilha

                                                                                     Foto Hernâni Von Doellinger

quinta-feira, 25 de julho de 2013

As minhas divergências com o Papa 3

Francisco, de visita ao Brasil, alertou a juventude contra os "ídolos passageiros". Eu preferia que o Papa fosse contra os ídolos apenas - passageiros ou condutores. O Papa é um ídolo. E também gostava que não fosse preciso declarar estado de sítio para receber o homem da paz. Só em "segurança", a visita do presidente do Vaticano custa aos brasileiros onze mil militares e polícias e 30 milhões de euros. Se Jesus Cristo fosse vivo, rebentava com esta merda toda.

terça-feira, 23 de julho de 2013

Justiça de Fafe é outra coisa

Foto GASPAR DE JESUS

Um querido amigo pediu-me ajuda: se eu lhe conseguia "resumir em duas linhas o porquê" da expressão "Com Fafe ninguém fanfe". Eu disse que não. E resumi em quatro: 
"Com Fafe ninguém fanfe" quer dizer, tão-só, com Fafe ninguém se meta. Porque, quem se meter, leva! E tem a sua origem nas lendas da Justiça de Fafe, que muito boa gente confunde, hoje em dia, com fazer justiça pelas próprias mãos. Não é nada disso. A Justiça de Fafe deve ligar-se, antes, à defesa da honra.
É isto e mais nada. Nem luta de classes, nem administração de justiça privada, nem apologia da justiça popular, nem jogo do pau, nem fanfarronice, nem sacholadas, nem pistolas e navalhadas, nem Felizardos, nem bordoada por dá cá aquele copo. Tudo equívocos. As lendas têm costas largas, de toda a conveniência para o caso em apreço, mas saber ler antes de escrever também nunca fez mal a ninguém. A Justiça de Fafe é a metáfora folclórica de uma gente de paz que não gosta de levar desaforo para casa, ou que costumava não gostar. Nós, os fafenses. O resto é treta, mais ou menos erudita. Geralmente menos.

P.S. - Fafenses deve ler-se e dizer-se "fafénses". E os ésses devem ser lidos e ditos com um xis no fim. Agradecido.

(Mais sobre o assunto em "Fafe mata mas não esfola")

domingo, 21 de julho de 2013

A maior aula de judo do mundo 2

Foto Hernâni Von Doellinger

Sete mil eram esperados. Seis mil tiveram falta. "A maior aula de judo do mundo" em Matosinhos foi um enorme fiasco. Nelson Mandela não merecia e Nuno Delgado se calhar também não.
É o que dá misturar coisas sérias com a pré-campanha eleitoral.

sábado, 20 de julho de 2013

A maior aula de judo do mundo

Foto Hernâni Von Doellinger

Sete mil participantes são esperados para "A maior aula de judo do mundo", que daqui a pouco mais de duas horas vai tomar conta da Praia de Matosinhos. É uma iniciativa do medalhado olímpico Nuno Delgado (foto), em parceria com a Câmara Municipal. O evento pretende também celebrar o 95.º aniversário de Nelson Mandela.

O partido com vergonha de si mesmo

É para mim um mistério. Os cartazes dos candidatos autárquicos do PSD que omitem ou disfarçam o nome e o símbolo do partido - as três-setas-três -, para que não se saiba.
Nos dias que correm, ter vergonha de ser do PSD compreende-se. Mas também pode ser que o PSD tenha vergonha dos candidatos que arranjou. Não sei.
Agora: nas eleições de 29 de Setembro, os boletins de voto terão símbolos, não retratos. No caso do PSD, lá estarão, fatais, as três-setas-três e respectiva sigla. A cruzinha é posta no partido, não no figurão ou na figurinha do cartaz filho de pai incógnito. Portanto o mistério, que afinal são dois: o que é que o PSD pensa realmente da inteligência dos portugueses e o que é que cuida que ganha com esta habilidade saloia de esconde-esconde?

terça-feira, 16 de julho de 2013

De vaquinha para o desemprego

Foto Hernâni Von Doellinger

Os transportes públicos voltaram a perder mais de 11 por cento dos passageiros no primeiro trimestre deste ano - dizem as notícias. Treze milhões de validações que foram à vida, sobretudo no comboio e no metro, que são o carro a cotio dos portugueses do rés-do-chão. Compreendo: as viagens de casa para o desemprego e do desemprego para casa custam os olhos da cara. O pessoal vai e vem de vaquinha. Para e do desemprego. É difícil de perceber, ó inteligências?! Dasse...
Depois parece que há os aviões. Mas essa parte ignoro.

sábado, 13 de julho de 2013

Bruma no Porto

E, de um modo geral, em toda a faixa costeira das regiões Norte e Centro, com possibilidade de ocorrência de períodos de chuva fraca ou chuvisco no litoral a sul do Cabo Mondego. O Instituto Português do Mar e da Atmosfera prevê para amanhã, domingo, uma pequena subida da temperatura máxima.

sexta-feira, 12 de julho de 2013

E agora quantos?

                                                                                        Foto Hernâni Von Doellinger

Orígenes Lessa

Não pense que eu tou querendo tirar onda de santa. Quero não. Desde cedo eu vi que não era, não ia ser e tinha raiva de quem era. Cama é bom. Mas bom quando é pela cama que a gente se deita com um cara que a gente gosta e aí vale tudo. Tenho uma saudade desse tempo que você não imagina. Quando hoje eu vejo um cara nu, em pé de guerra, moço, forte, bem bolado, às vezes um bacanaço de praia... – cê pensa que eu fico de fogo? É muito raro... Eu fico é triste. Tenho saudade do tempo em que eu olhava a mala de um magrinho de subúrbio e ficava doida pra pegar. Não tinha era coragem. Eu namorava à toa, à toa. Queria era encostar. Me fazia de besta, fingia não ser por maldade.

"Beco da Fome", Orígenes Lessa

(Orígenes Lessa nasceu no dia 12 de Julho de 1903. Morreu em 1986)

quarta-feira, 10 de julho de 2013

A verdade sobre as gaivotas

                                                                                      Foto Hernâni Von Doellinger

Gaivotas é comigo. Tenho até uma que faz questão de me vir cagar à varanda. Estou agora a escrever e estou a ouvi-las, a vê-las à minha frente, do lado de lá da janela. Eu e as gaivotas somos inseparáveis. Cúmplices. Somos um para as outras. Fui o primeiro a alertar para os perigos que corre o extraordinário gaivotal da Riguinha e Carcavelos, orgulho e emblema da Praia de Matosinhos. As gaivotas interessam-me. Cagam-me em cima, é certo, mas muito menos do que o Portas e o Passos Coelho, e eu não os conheço de lado nenhum e não me interessam para nada. Gaivotalmente falando, levo já mais de 25 anos de trabalho no terreno, eu e elas, contra a vontade da minha mulher, por causa da limpeza da varanda. Estou portanto em condições de afirmar, sem temer desmentidos, que sei de gaivotas como se fosse gaivoto. Houvesse um presidente da república das gaivotas e seria eu.
Ora bem. Outro especialista, mas este da Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves, disse hoje às notícias que as gaivotas andam a mudar-se do mar para a cidade. Pois andam. O caro colega afiança também que o "fenómeno" começou exactamente há dez anos, mas que, atenção, está a aumentar com "o calor elevado que se faz sentir neste momento".
Não sei se o "fenómeno" começou mesmo há dez anos - não os contei, não sei sequer se o "fenómeno" é fenómeno realmente, mas afirmar que a vaga de calor dos últimos dias puxou as gaivotas ainda mais para terra é ciência de atirar à sorte a ver se acerta. E não acertou. Ou então as gaivotas de Matosinhos são umas desalinhadas, só para chatear.
Explico. Hoje há um nevoeirinho manso ali na praia, uma brisazinha de norte passa aqui pela rua como quem não quer a coisa, e elas aí andam, as minhas gaivotas, nos telhados, na varanda, conversadeiras e cagonas, aproveitando a fresca como eu. Mas nos dias de brasa da última semana, não. Pelo contrário. A canícula devolveu-as ao mar e estragou a teoria de sofá do ilustre ecologista. Quem as quisesse ver, era na água, bandos imensos, uns cem metros para dentro da linha de rebentação. Porque não são parvas. É. Já escrevi e repito: as gaivotas têm merda na barriga, não na cabeça.

As minhas divergências com o Papa

Francisco quer padres com "carros mais humildes". Eu preferia que o Papa quisesse carros com padres mais humildes.

segunda-feira, 8 de julho de 2013

A bó, o bô e o bu

Tínhamos a bó e tínhamos o bô. Vezes dois, sorte a nossa! Bozinha era a bisavó, e tínhamos. Bô queria também dizer bom: binho bô; bô moço. Depois, se calhar por soar a parolo, bô mudou para bu. Bu também mete medo, é susto. Buuu! Quem caralho teve a ideia?

domingo, 7 de julho de 2013

O desnorte do ACP

Foto Hernâni Von Doellinger

Quando, há três meses, o regresso do Rali de Portugal ao Norte do País surgiu hipótese de repente, eu escrevi aqui sobre o assunto. Entre outras considerações, avisei que podia ser só tesão do mijo, na ressaca do monumental sucesso do WRC Fafe Rally Sprint, e que ainda estávamos muito naquela zona nevoenta e arenosa do diz-se que, fala-se que, consta que. Os políticos gostam, mas é preciso ter cuidado com os supores. Pulga atrás da orelha até faz bem, nas cuecas é que não. Portanto, recomendei: "nestas coisas não faz mal nenhum ser como São Tomé, que era desconfiado e mesmo assim foi para o Céu". Ver para crer.
Ora bem. Agora que o nevoeiro se desfaz devagarinho e começa a ver-se alguma coisa, o rali não está cá. Desnorteou rumo aos Algarves outra vez. Ficou a areia nos olhos, e já não é mau como recordação. E ficam os moinhos de vento, para batalhas de enganar.

Na zona de comentários ao meu texto cheio de ses, um amigo perguntou-me se eu achava "mesmo" que o rali (o rali a sério) voltava para a minha terra, Fafe. Respondi-lhe e está lá: "O que eu acho mesmo? Acho que estamos em ano de eleições autárquicas. Acho que o presidente do ACP não é pessoa de confiança. Acho que o rali está em leilão. É o que eu acho."
Foi no dia 13 de Abril de 2013. Conclusão: às vezes, muitíssimo raramentissimamente, dá-me para isto: acerto.

(Ler mais em Rali de Portugal: o regresso do filho pródigo)

sexta-feira, 5 de julho de 2013

Conhecimento e sensibilidade

Ajeitava-se para ser nome de romance ou título de filme de época, "Conhecimento e Sensibilidade", estão a ver?, mas é apenas Jorge Jesus no seu badalado regresso aos microfones. Proclamou o treinador do Benfica na insuspeita televisão do clube, perguntado por José Eduardo Moniz: "O meu conhecimento e sensibilidade dizem-me que o Benfica está próximo de ter a hegemonia do futebol português". Certo. E, cortando a direito, o técnico encarnado explicou como: "O êxito tem dois caminhos: os resultados e os títulos. Para atingir os títulos tem de haver resultados". Pois. Jesus é um filósofo. Da corrente lapaliciana e umbiguista. É filósofo no vácuo. E é por isso que eu gosto dele.
Não cuidem que estou a gozar. É a pura verdade: Jesus alegra-me os dias. Pelo que diz e pelos títulos que dá ao Porto. Está no Benfica mas é como se fosse nosso. Felizmente, no Dragão, pelo que tenho ouvido ao novo treinador durante esta primeira semana, parece que também não estamos mal servidos de Jorge Jesus.

Apenas mais um pormenor, antes que me esqueça: estão a ver aquelas entrevistas ridículas dos pivôs de telejornais aos donos ou presidentes das suas televisões? Aquelas fretadas inqualificáveis?! Pois mudou o paradigma, como se diz agora, embora não queira dizer nada: Jorge Jesus, o empregado, foi entrevistado pelo patrão. José Eduardo Moniz é vice-presidente do Benfica e administrador da SAD, e era o que faltava.

Estou mesmo a ver o filme 7

Foto Hernâni Von Doellinger

quinta-feira, 4 de julho de 2013

"Fafe, Meu Amor", o novo livro de Artur Coimbra

Artur Ferreira Coimbra apresenta amanhã o seu mais recente livro - "Fafe, Meu Amor", antologia de textos e imagens recolhidos em jornais, almanaques e obras literárias do século XVIII aos nossos dias. São dezenas de textos, em prosa e em verso, assinados por escritores, jornalistas, cronistas e poetas, originários do concelho, mas também exteriores às suas fronteiras geográficas ou mentais, e que têm em comum a exaltação de Fafe.
Segundo informação disponibilizada, o lançamento de "Fafe, Meu Amor", obra editada pela Junta de Freguesia de Fafe, "marca o arranque da evocação dos 35 anos de vida literária" de Artur Ferreira Coimbra, que já leva mais de vinte títulos publicados.
Sexta-feira, dia 5 de Julho, a partir das 21h30, na Biblioteca Municipal de Fafe.

Lugares-comuns 83

Foto Hernâni Von Doellinger

quarta-feira, 3 de julho de 2013

O profissional

Foto Hernâni Von Doellinger

Todas as manhãs, antes ainda das 7h30, como se tivesse um horário e um programa a cumprir. E provavelmente tem. Discreto e só, Hilário corre pela praia e puxa a bom puxar pelo cabedal. Treina. Parece em forma. Aos 37 anos, o guarda-redes ex-Chelsea é agora um jogador livre e, tanto quanto se sabe, sem clube. Mas trabalha todos os dias como um profissional. Como o profissional que, na verdade, é. Se o telefone tocar, o homem está pronto.

Festas da Senhora de Antime 2013


As Festas do Concelho de Fafe são já para a semana, de quarta-feira a domingo (10 a 14 de Julho). Mais informação e programa, aqui.

Fafe, as crianças e as famílias carenciadas

Fafe tem uma Câmara muito boa alma e que gosta de números e fotografias. Uma Câmara indiscreta e exibicionista. Uma Câmara que dá "10 dias de férias" na Apúlia a "35 crianças carenciadas", e exibe as crianças, e que ainda no outro dia "entregou mais dez cheques" a "famílias carenciadas" para obras em casa, e exibiu pornograficamente os pobres contemplados. Os carenciados.
Sou de Fafe. Se calhar por ter nascido pobre e ser pobre, isto enoja-me - não sei dizer de outra maneira. Portanto aqui vai. Carenciada é esta Câmara tão espampanantemente caridosa e de propaganda entregue a escrivães de sacristia. Carenciada de respeito por quem precisa e tem direito, carenciada de bom senso, carenciada de modéstia e de bondade, carenciada de decoro, de coração, carenciada de inteligência.

E não me digam que é geral - interessam-me os meus. E não me digam que é política - devia ser serviço.

Vida de cão 4

Foto Hernâni Von Doellinger

terça-feira, 2 de julho de 2013

Zélia Gattai

Desde que virou cunhada de papai, Júlia anda tomando ares de importância: "Sou a cunhada de doutor Afrânio", espalha de boca cheia. Doutor Afrânio! Ora veja! Papai nem é doutor... Ele tem porte de doutor, pose de doutor, anel de doutor - que herdou do pai, farmacêutico -, mas não é doutor. Papai desejava estudar direito, sua vocação era advocacia, mas os estudos na faculdade eram caros demais para a bolsa de vovó, viúva, três filhos para formar, tendo que arcar sozinha com todas as despesas... Papai não vira outro jeito senão desistir da vocação e seguir um curso técnico de contabilidade, menos dispendioso e mais rápido, que lhe facilitasse ganhar logo seu dinheiro, embora não lhe desse satisfação nem o título sonhado. Papai tem letra linda, todo mundo diz, mas não é doutor. Ele deve gostar quando o tratam de doutor, pois não reclama, fica firme, recebe com prazer o título.
Mesmo não sendo doutor, além da caligrafia linda, papai é muito culto. Em sua estante pode-se encontrar todo tipo de almanaques: o Almanaque do Pensamento, segundo ele o melhor de todos, o Astronômico, Náutico, o Almanaque da Saúde da Mulher e muitos outros de laboratórios farmacêuticos. Pergunte-se o que se quiser ao doutor Afrânio sobre constelações, animais, vales e montanhas, ele sabe, tem resposta a tudo, na ponta da língua. Sabe geografia e história universal, é a pessoa mais culta que conheço.
Estudando almanaques, papai aprende o que deve e, às vezes, até o que não deve. Descobriu recentemente num almanaque que o alho cru é um santo remédio, rejuvenesce, faz curas milagrosas.
Entusiasmado, resolveu adotar o santo remédio, faz-lhe a propaganda, tenta impingi-lo a parentes e amigos. Mete dentes de alho, já descascados, no bolso e sai por aí, cumprindo sua missão humanitária.

"Crônica de Uma Namorada", Zélia Gattai

(Zélia Gattai nasceu no dia 2 de Julho de 1916. Morreu em 2008.)