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sábado, 14 de novembro de 2020

Faltame a poezia. Vou iscreber um romançe;

Olho pela janela e chove.
Chove que Deus a dá
porém não chove
por aí além
porque a crise já se sabe
chega a todos
inclusive ao Sempiterno
ao Senhor das Águas.

Durante quase toda a noite
fez um sol de categoria
sei porque sonhei
mas agora não
não faz sol nem sonho.

Olho pela janela e vejo
telhados vermelhos e cinzentos
cinzentos suspeito que de lusalite
e quase me dá uma himoptise
tusso e desisto.

Eu tusso muito bem
e desisto ainda melhor.  

Vejo cinco telhados cinco
o resto são paredes paredes
de prédios de doze andares doze
cheios de janelas e marquises marquises.

Paredes prédios a precisarem pelo menos de pintura
pintura.

Nos telhados nem um gato
nem uma gaivota
um melro sequer.
Estão cá sempre todos
menos o melro que eu nunca vi
e hoje
agora
não sei o que lhes deu.

Ter-lhes-á sucedido
confinamento?

Estou sem gatos,
sem pássaros,
sem sol. 
Chove apenas. Moderadamente.

Digamos
períodos de chuva ou aguaceiros
em geral fracos
a partir do meio
da manhã
e já vamos a estas horas.

Assim não há condições
para fazer poesia,
condições
para que a poesia aconteça.

Acho
que vou escrever
um romance histórico
com 987 páginas.

Entrego-o amanhã
se não chover.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

José Mauro de Vasconcelos 6

Casa nova. Vida nova e esperanças simples, simples esperanças.
Lá vinha eu entre seu Aristides e o ajudante, no alto da carroça, alegre como o dia quente.
Quando ela saiu da rua descalça e entrou na Rio-São Paulo foi aquela maravilha, a carroça agora deslizava macia e gostosa.
Passou um carro lindo ao nosso lado.
- Lá vai o carro do português Manuel Valadares. Quando íamos atravessando a esquina da Rua dos Açudes, um apito ao longe encheu a manhã.
- Olhe seu Aristides. Lá vai o Mangaratiba.
- Sabe tudo você, não?

- Conheço o grito dele.
Só as patas dos cavalos fazendo o toque-toque na estrada. Observei que a carroça não era muito nova. Ao contrário. Mas era firme, económica. Com mais duas viagens traria todos os nossos cacarecos. O burro não parecia muito firme. Mas eu resolvi agradar.
- O senhor tem uma carroça muito linda, seu Aristides.
- Dá pro que serve.
- E o burro também é bonito. Como se chama ele? - Cigano.
Ele não queria muito conversar.

"O Meu Pé de Laranja Lima", José Mauro de Vasconcelos

(José Mauro de Vasconcelos nasceu no dia 26 de Fevereiro de 1920. Morreu em 1980.)

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

José Mauro de Vasconcelos 5

Lá em casa cada irmão mais velho criava um mais moço. Jandira tomara conta de Glória e de outra irmã que fora dada para ser gente no Norte. Antônio era o quindim dela. Depois Lalá tomara conta de mim até bem pouco tempo. Até ela gostar de mim, depois parece que enjoou ou ficou muito apaixonada pelo namorado dela que era um almofadinha igualzinho ao da música: de calça larga e paletó curtinho. Quando a gente ia aos domingos fazer o "footing" (o namorado dela falava assim) na Estação, ele comprava bala pra mim que dava gosto. Era para eu não falar nada em casa. Nem também podia perguntar a Tio Edmundo o que era aquilo, senão descobriam...

"O Meu Pé de Laranja Lima", José Mauro de Vasconcelos

(José Mauro de Vasconcelos nasceu no dia 26 de Fevereiro de 1920. Morreu em 1980.)

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

José Mauro de Vasconcelos 3

De repente, não existia mais escuro nos meus olhos. O meu coração de onze anos se agitou no peito amedrontado.
- Meu São Jesus do carneirinho nas costas, ajudai-me! A luz crescia mais. E mais. E quanto mais crescia, o medo aumentava a tal ponto que, se eu quisesse gritar, não conseguiria.
Todo mundo dormia calmamente. Todos os quartos fechados respiravam o silêncio.
Sentei-me na cama apoiando minhas costas à parede. Meus olhos arregalavam-se, quase saltando das órbitas.

Queria rezar, invocar todos os meus santos protetores, mas nem sequer o nome de Nossa Senhora de Lourdes escapava dos meus lábios. Devia ser o diabo. O diabo com que me amedrontavam tanto. Mas, se fosse ele, a luz não seria na cor da lâmpada, e sim de fogo e sangue, e haveria por certo o cheiro de enxofre. Nem sequer poderia chamar em socorro o Irmão Feliciano, o Fayolle querido. Fayolle nessa hora deveria estar no terceiro sono, roncando bondade e paz, lá no Colégio Marista.
Uma voz soou macia e humilde:
- Não se assuste, meu filho. Só vim para ajudá-lo.
O coração batia agora contra a parede e a voz saiu fina e medrosa como o canto primeiro de um galinho.
- Quem é você? Alma do outro mundo?
- Não, tolinho.
E uma risada bondosa repercutiu pelo quarto.
- Vou fazer mais luz, mas não se assuste que nada de mal poderá acontecer.
Disse um sim indeciso, mas fechei os olhos.
- Assim não vale, amigo. Pode abri-los.
Arrisquei um, depois o outro. O quarto tinha adquirido uma luz branca tão bonita que pensei ter morrido e me encontrar no paraíso. Mas isso era impossível. Todo mundo em casa dizia que o céu não era para o meu bico. Gente como eu ia direitinho pras caldeiras do inferno virar espetinho.
- Olhe pra mim. Sou feio, mas meus olhos só inspiram confiança e bondade.
- Onde?
- Aqui, ao pé da cama.
Fui-me aproximando da beira e criei coragem para olhar. O que vi me encheu de pânico. Fiquei tão horrorizado que um frio perpassou-me a alma inteira como se fosse um zíper. Retornei tremendo à posição anterior.

- Assim não, meu filho. Eu sei que sou muito feio. Mas, se você tem tanto pavor, vou-me embora sem ajudar.
Sua voz se transmudara numa súplica que resolvi conter-me. Mas foi com bastante vagar que me arrastei para o seu lado.

- Por que esse medo todo?
- Mas você é um sapo?
- E daí? Sou.


"Vamos Aquecer o Sol", José Mauro de Vasconcelos

(José Mauro de Vasconcelos nasceu no dia 26 de Fevereiro de 1920. Morreu em 1980.)

domingo, 9 de novembro de 2014

Dinah Silveira de Queiroz 2

Cobria-se a Serra de flores. Correu primeiro um balbucio de primavera. Seria já a florada? Botões, aqueles pequenos sinais? No meio dos bosques escondidos entre os montes, o amarelo e o vermelho salpicavam, abriam no verde sorridente espanto. Em lugares mais resguardados, mais favorecidos, em breve surgia a neve florida cobrindo as pereiras e transformando, enriquecendo a paisagem. E logo também floriram os pessegueiros. Junto das favelas, nos parques dos sanatórios, rodeando os bangalôs, à beira das águas mansas, a florada em rosa e branco apontou finalmente, luminosa, irreal.
Perto do pequeno lago em que se debruçavam as pereiras alvas, encantadas, o pintor armou o cavalete. Tocados de primavera, os galhos roçavam a água que reproduzia a fila das árvores. Amarrada à margem, a pequena canoa envernizada, vazia, estava juncada de flores que o vento carregara.
Elza surpreendeu Flávio pintando com aquele entusiasmo e fervor. Tocou-lhe no ombro.

"Floradas na Serra", Dinah Silveira de Queiroz

(Dinah Silveira de Queiroz nasceu no dia 9 de Novembro de 1911. Morreu em 1982.)

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

José Mauro de Vasconcelos

A gente vinha de mãos dadas, sem pressa de nada pela rua. Totoca vinha me ensinando a vida. E eu estava muito contente porque meu irmão mais velho estava me dando a mão e ensinando as coisas. Mas ensinando as coisas fora de casa. Porque em casa eu aprendia descobrindo sozinho e fazendo sozinho, fazia errado e fazendo errado acabava sempre tomando umas palmadas. Até bem pouco tempo ninguém me batia. Mas depois descobriram as coisas e vivem dizendo que eu era o cão, que eu era capeta, gato ruço de mau pêlo. Não queria saber disso. Se não estivesse na rua eu começava a cantar. Cantar era bonito. Totoca sabia fazer outra coisa além de cantar, assobiar. Mas eu por mais que imitasse, não saía nada. Ele me animou dizendo que era assim mesmo, que eu ainda não tinha boca de soprador. Mas como eu não podia cantar por fora, fui cantando por dentro. Aquilo era esquisito, mas se tornava muito gostoso. E eu estava me lembrando de uma música que Mamãe cantava quando eu era bem pequenininho. Ela ficava no tanque, com um pano amarrado na cabeça para tapar o sol. Tinha um avental amarrado na barriga e ficava horas e horas, metendo a mão na água, fazendo sabão virar muita espuma. Depois torcia a roupa e ia até a corda. Prendia tudo na corda e suspendia o bambu. Ela fazia igualzinho com todas as roupas. Estava lavando a roupa da casa do Dr. Faulhaber para ajudar nas despesas da casa. Mamãe era alta, magra, mas muito bonita. Tinha uma cor bem queimada e os cabelos pretos e lisos. Quando ela deixava os cabelos sem prender, dava até na cintura. Mas bonito era quando ela cantava e eu ficava junto aprendendo.

"O Meu Pé de Laranja Lima", José Mauro de Vasconcelos

(José Mauro de Vasconcelos nasceu no dia 26 de Fevereiro de 1920. Morreu em 1980.)

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

José Américo de Almeida

Findo o almoço - podiam ser 9 horas - Dagoberto Marçau correu à janela, que é uma forma de fugir de casa, sem sair fora de portas, como se o movesse uma grande curiosidade. Mas, debruçado, apoiou o queixo na mão soerguida e entrefechou os olhos, num alheamento de enfado ou displicência.
Vivia ele, desse jeito, entre trabalheiras e ócios, como o homem-máquina destas terras que ou se agita resistentemente ou, quando pára, pára mesmo, como um motor parado.
Como que cobrara medo ao vazio interior. Não há deserto maior que uma casa deserta.
Entrava afobado, comia, ou, antes, engolia, de cabeça descaída, o repasto invariável e ou saía de golpe ou ficava a espiar para fora.
A presença do filho recém-chegado, em férias, não lhe modificava essa impressão. Em vez de confortar-lhe o abandono, agravava-o, mais e mais, como uma sombra intrusa.
Lúcio voltou da cachoeira com a toalha enrolada na cabeça, como um turbante.
Levantou o braço num gesto de quem mais parecia dar do que pedir a bênção. E foi, por sua vez, sentar-se à mesa.
Não se defrontavam, sequer, nesse ponto de comunhão familiar, onde as almas se misturam numa intimidade aperitiva. Forravam-se, assim, ao constrangimento dos encontros calados ou das conversas contrafeitas e escassas.
A casa-grande, situada numa colina, sobranceava o caminho apertado, no trecho fronteiro, entre o cercado e o açude.
Num repentino desenfado, Dagoberto estirou o olhar, por cima das mangueiras meãs enfileiradas ladeira abaixo, para a estrada revolta.
Parecia a poeira levantada, a sujeira do chão num pé-de-vento.
Era o êxodo da seca de 1898. Uma ressurreição de cemitérios antigos - esqueletos redivivos, com o aspecto terroso e o fedor das covas podres.
Os fantasmas estropiados como que iam dançando, de tão trôpegos e trêmulos, num passo arrastado de quem leva as pernas, em vez de ser levado por elas.
Andavam devagar, olhando para trás, como quem quer voltar. Não tinham pressa em chegar, porque não sabiam onde iam. Expulsos do seu paraíso por espadas de fogo, iam, ao acaso, em descaminhos, no arrastão dos maus fados.
Fugiam do sol e o sol guiava-os nesse forçado nomadismo
Adelgaçados na magreira cômica, cresciam, como se o vento os levantasse. E os braços afinados desciam-lhes aos joelhos, de mãos abanando.
Vinham escoteiros. Menos os hidrópicos - doentes da alimentação tóxica - com os fardos das barrigas alarmantes.
Não tinham sexo, nem idade, nem condição nenhuma. Eram os retirantes. Nada mais.

"A Bagaceira", José Américo de Almeida

(José Américo de Almeida nasceu no dia 10 de Janeiro de 1887. Morreu em 1980.)

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Erico Veríssimo

Pouco antes das nove horas dessa mesma manhã alguns automóveis pararam à frente do cemitério e deles apearam as autoridades municipais e uma meia dúzia de homens desses em geral designados pelos jornais como "pessoas gradas". Tanto as autoridades como os médicos do departamento de higiene local tinham as cabeças cobertas por máscaras contra gases lacrimogêneos. Aproximaram-se dos sete caixões e examinaram os defuntos, um a um. O Mendes - facilmente reconhecível pela sua altura, apesar da máscara, tomava notas numa caderneta. Os médicos fizeram um exame perfunctório nos cadáveres, reconfirmaram-lhes os óbitos, e ordenaram fossem todos sepultados sem tardança.
Postos ao corrente dos últimos acontecimentos, as quatro filhas e os quatro genros de Quitéria Campolargo haviam chegado a tempo para a cerimônia do sepultamento da anciã. Não houve discursos. O Pe. Gerôncio sussurrou uma breve oração ao pé do féretro. Os familiares da defunta receberam novos abraços de pêsames à frente do suntuoso mausoléu de mármore dos Campolargos. Um amigo da família - sujeito proverbialmente curioso - chamou à parte o genro veterinário e, numa espécie de corredor entre dois túmulos de alvenaria, manteve com ele um breve diálogo:
- É verdade mesmo, nosso amigo, que D. Quitéria atirou as suas mais belas jóias no vaso sanitário e puxou a corrente?
- É verdade - confirmou o genro - mas por sorte nossa o cano entupiu e conseguimos recuperar o broche, o colar, os brincos e a pulseira. Infelizmente perdemos o anel com o solitário...
- Logo a jóia de maior valor! - lamentou o amigo da família, sacudindo a cabeça, penalizado. - E dizer-se que essa preciosidade se foi Uruguai abaixo, misturada com todas as porcarias da população de Antares. ... É uma ironia da sorte.
- O que é que vai se fazer? - suspirou o veterinário.
- Mas não perca a esperança, meu caro. Deus é grande. Contrate um escafandrista para mergulhar perto dos canos de despejo da cidade. A jóia é pesada, pode ter ficado cravada na areia do fundo do rio. Pense nisso. Contrate um escafandrista e confie na Providência Divina.

"Incidente em Antares", Erico Veríssimo

(Erico Veríssimo nasceu no dia 17 de Dezembro de 1905. Morreu em 1975.)

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Clarice Lispector

Da mesa onde me atardava porque tinha tempo, eu olhava em torno enquanto os dedos arredondavam o miolo de pão. O mundo era um lugar. Que me servia para viver: no mundo eu podia colar uma bolinha de miolo na outra, bastava justapô-las, e, sem mesmo forçar, bastava pressioná-las o suficiente para que uma superfície se unisse a outra superfície, e assim com prazer eu ia formando uma pirâmide curiosa que me satisfazia: um triângulo reto feito de formas redondas, uma forma que é feita de suas formas opostas. Se isso me tinha um sentido, o miolo de pão e meus dedos provavelmente sabiam.
O apartamento me reflete. É no último andar, o que é considerado uma elegância. Pessoas de meu ambiente procuram morar na chamada "cobertura". É bem mais que uma elegância. É um verdadeiro prazer: de lá domina-se uma cidade. Quando essa elegância se vulgarizar, eu, sem sequer saber por que, me mudarei para outra elegância? Talvez. Como eu, o apartamento tem penumbras e luzes úmidas, nada aqui é brusco: um aposento precede e promete o outro. Da minha sala de jantar eu via as misturas de sombras que preludiavam o living. Tudo aqui é a réplica elegante, irônica e espirituosa de uma vida que nunca existiu em parte alguma: minha casa é uma criação apenas artística.
 

Tudo aqui se refere na verdade a uma vida que se fosse real não me serviria. O que decalca ela, então? Real, eu não a entenderia, mas gosto da duplicata e a entendo. A cópia é sempre bonita. O ambiente de pessoas semi-artísticas e artísticas em que vivo deveria, no entanto, me fazer desvalorizar as cópias: mas sempre pareci preferir a paródia, ela me servia. Decalcar uma vida provavelmente me dava - ou dá ainda? até que ponto se rebentou a harmonia de meu passado? - decalcar uma vida provavelmente me dava segurança exatamente por essa vida não ser minha: ela não me era uma responsabilidade.

"A Paixão Segundo G. H.", Clarice Lispector

(Clarice Lispector nasceu no dia 10 de Dezembro de 1920. Morreu em 1977.)

sábado, 16 de novembro de 2013

José Saramago

O disco amarelo iluminou-se. Dois dos automóveis da frente aceleraram antes que o sinal vermelho aparecesse. Na passadeira de peões surgiu o desenho do homem verde. A gente que esperava começou a atravessar a rua pisando as faixas brancas pintadas na capa negra do asfalto, não há nada que menos se pareça com uma zebra, porém assim lhe chamam. Os automobilistas, impacientes, com o pé no pedal da embraiagem, mantinham em tensão os carros, avançando, recuando, como cavalos nervosos que sentissem vir no ar a chibata. Os peões já acabaram de passar, mas o sinal de caminho livre para os carros vai tardar ainda alguns segundos, há quem sustente que esta demora, aparentemente tão insignificante, se a multiplicarmos pelos milhares de semáforos existentes na cidade e pelas mudanças sucessivas das três cores de cada um, é uma das causas mais consideráveis dos engorgitamentos da circulação automóvel, ou engarrafamentos, se quisermos usar o termo corrente.
O sinal verde acendeu-se enfim, bruscamente os carros arrancaram, mas logo se notou que não tinham arrancado todos por igual. O primeiro da fila do meio está parado, deve haver ali um problema mecânico qualquer, o acelerador solto, a alavanca da caixa de velocidades que se encravou, ou uma avaria do sistema hidráulico, blocagem dos travões, falha do circuito eléctrico, se é que não se lhe acabou simplesmente a gasolina, não seria a primeira vez que se dava o caso. O novo ajuntamento de peões que está a formar-se nos passeios vê o condutor do automóvel imobilizado a esbracejar por trás do pára-brisas, enquanto os carros atrás dele buzinam frenéticos. Alguns condutores já saltaram para a rua, dispostos a empurrar o automóvel empanado para onde não fique a estorvar o trânsito, batem furiosamente nos vidros fechados, o homem que está lá dentro vira a cabeça para eles, a um lado, a outro, vê-se que grita qualquer coisa, pelos movimentos da boca percebe-se que repete uma palavra, uma não, duas, assim é realmente, consoante se vai ficar a saber quando alguém, enfim, conseguir abrir uma porta, Estou cego.

"Ensaio sobre a Cegueira", José Saramago

(José Saramago nasceu no dia 16 de Novembro de 1922. Morreu em 2010.)

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Júlio Dinis

Ao cair de uma tarde de Dezembro, de sincero e genuíno Dezembro, chuvoso, frio, açoutado do sul e sem contrafeitos sorrisos de Primavera, subiam dois viandantes a encosta de um monte por a estreita e sinuosa vereda que pretensiosamente gozava das honras de estrada, à falta de competidora, em que melhor coubessem.
Era nos extremos do Minho e onde esta risonha e feracíssima província começa já a ressentir-se, se não ainda nos vales e planuras, nos visos dos oiteiros pelo menos, da vizinhança da sua irmã, a alpestre e severa Trás-os-Montes.
O sítio, naquele ponto, tinha o aspecto solitário, melancólico e, nessa tarde, quase sinistro. Dali a qualquer povoação importante, e com nome em carta corográfica, estendiam-se milhas de pouco transitáveis caminhos. Vestígios de existência humana raro se encontravam. Só de longe em longe, a choça do pegureiro ou a cabana do rachador, mas estas tão ermas e desamparadas, que mais entristeciam do que a absoluta solidão.
Não se moviam em perfeita igualdade de condições os dois viandantes, que dissemos.

Um, o mais moço e pela aparência o de mais grada posição social, era transportado num pouco escultural, mas possante muar, de inquietas orelhas, músculos de mármore e articulações fiéis; o outro seguia a pé, ao lado dele, competindo, nas grandes passadas que devoravam o caminho, com a quadrupedante alimária, cujos brios, além disso, excitava por estímulos menos brandos do que os da simples e nobre emulação.
Contra o que seria plausível esperar deste desigual processo de transporte, dos dois o menos extenuado e impaciente com as longuras e fadigas da jornada não se pode dizer que fosse o cavaleiro.
A postura de abatimento que lhe tomara o corpo, o olhar melancólico, fito nas orelhas do macho, a indiferença, a taciturnidade ou o manifesto mau humor, que nem as belezas e acidentes da paisagem natural conseguiam já desvanecer, o obstinado silêncio que apenas de quando em quando interrompia com uma frase curta mas enérgica, com uma pergunta impaciente sobre o termo da jornada, contrastavam com a viveza de gestos e desempenado jogo de membros do pedestre, com a sua torrencial verbosidade, a que não opunha diques, e com as joviais cantigas e minuciosas informações a respeito de tudo, por meio das quais se encarregava de entreter e ao mesmo tempo instruir o seu sorumbático companheiro.

Explica-se bem esta diferença, dizendo que o cavaleiro era um elegante rapaz de Lisboa, que fazia então a sua primeira jornada, e o outro um almocreve de profissão.

"A Morgadinha dos Canaviais", Júlio Dinis

(Joaquim Guilherme Gomes Coelho, conhecido como Júlio Dinis, nasceu no dia 14 de Novembro de 1839. Morrem em 1871.)

sábado, 9 de novembro de 2013

Dinah Silveira de Queiroz

Era como uma brecha ou ferida rasgando as árvores e as plantas, uma vila miserável que transbordava de gente. Ela via os casebres, o povo afluindo ao porto, o navio chegando à bacia de óleo,e punha sua vista naquele teatro com a firmeza do sacrifício que se entrega, cuidando no céu. Se Deus bem quisesse, daí a momentos iria conhecer Tiago, seu primo, seu prometido, a resposta que dera à vida pequenina de Lisboa. O olhar crescia na água, atravessando as lágrimas que não queriam cair. Havia um apagado de luz branca, em torno da mancha vermelha e cinza de orlas verdes de São Vicente. Ali estava seu caminho, seu destino. "Sou como um inocente que entendesse seu próprio nascer".

"A Muralha", Dinah Silveira de Queiroz

(Dinah Silveira de Queiroz nasceu no dia 9 de Novembro de 1911. Morreu em 1982.)

sexta-feira, 12 de julho de 2013

Orígenes Lessa

Não pense que eu tou querendo tirar onda de santa. Quero não. Desde cedo eu vi que não era, não ia ser e tinha raiva de quem era. Cama é bom. Mas bom quando é pela cama que a gente se deita com um cara que a gente gosta e aí vale tudo. Tenho uma saudade desse tempo que você não imagina. Quando hoje eu vejo um cara nu, em pé de guerra, moço, forte, bem bolado, às vezes um bacanaço de praia... – cê pensa que eu fico de fogo? É muito raro... Eu fico é triste. Tenho saudade do tempo em que eu olhava a mala de um magrinho de subúrbio e ficava doida pra pegar. Não tinha era coragem. Eu namorava à toa, à toa. Queria era encostar. Me fazia de besta, fingia não ser por maldade.

"Beco da Fome", Orígenes Lessa

(Orígenes Lessa nasceu no dia 12 de Julho de 1903. Morreu em 1986)