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quinta-feira, 12 de julho de 2018

Orígenes Lessa 6

A aranha

- Quer assunto para um conto? - perguntou o Eneias, cercando-me no corredor.
Sorri.
- Não, obrigado.
- Mas é assunto ótimo, verdadeiro, vivido, acontecido, interessantíssimo!
- Não, não é preciso... Fica para outra vez...
- Você está com pressa?
- Muita!
- Bem, de outra vez será. Dá um conto estupendo. E com esta vantagem: aconteceu... É só florear um pouco.
[...]

"Omelete em Bombaim", Orígenes Lessa

(Orígenes Lessa nasceu no dia 12 de Julho de 1903. Morreu em 1986.)

quarta-feira, 12 de julho de 2017

Orígenes Lessa 5

O Natal de tia Calu

Tia Calu deixara a porta semi-aberta, para não correr a todo instante a receber os rapazes. Maria Augusta, sozinha, não daria conta do recado. Eram salgadinhos de toda sorte, delicados pastéis, empadinhas apimentadas, camarões recheados, canapés de salmão importado, caprichosas invenções do seu reconhecido gênio culinário. Entre os presentes recebidos àquela manhã havia dois vidros grandes de caviar. Seriam a surpresa da noite. Cortava, amassava, picava, colocava, com requintes de decoradora, trabalho amoroso e sutil, em que punha a alma. Naquela noite todos viriam! Pela primeira vez todos estariam em sua casa, na doce festa de Natal.
Soaram passos na sala.
- Vai ver quem chegou, Maria Augusta.
A preta espiou à porta, viu um jovem oficial, de malinha na mão, contemplando risonho a grande árvore, fulgurante de luzes.
- Tem um que eu não conheço. Está fardado.
- Fardado?
Seu rosto subitamente se fechou. Tia Calu, em suas festas, não gostava que eles viessem de uniforme e todos sabiam disso. O uniforme era a lembrança viva do perigo permanente, da ceifadora implacável.
[...]

 "Balbino, Homem do Mar", Orígenes Lessa

(Orígenes Lessa nasceu no dia 12 de Julho de 1903. Morreu em 1986.)

terça-feira, 12 de julho de 2016

Orígenes Lessa 4

O homem nas mãos

Sim, realmente eu matei. Era a prova de amor, a suprema prova que exigira de mim. Eu dera-lhe um carro. Não gostara. Dera-lhe um apartamento. Apenas o aceitou. Dei-lhe um iate. Não se convenceu. Já me atirara a seus pés, muitas vezes, sem êxito algum. E antes de me ajoelhar e antes do automóvel, do apartamento e do iate, já lançara mão de todos os recursos ao alcance de um apaixonado em pleno delírio. Nada a comovera. Só acreditaria, só aceitaria um grande, um infinito, um amor sobre-humano. Assim julgava eu o meu amor. Ela não se convencia, porém. E eu sofria e escrevia poemas e chorava ao luar. Era a inatingível. Ofereci-lhe a minha vida. Recusou. Jurei que me mataria em seguida, se ela cedesse. Ela sorriu. "Pede-me o impossível", dizia eu. E ela sorria. Para os grandes amores não existe o impossível. Estava, toda inteira, nessa minha proposta, a prova definitiva de inexistência do amor em meu coração. E eu continuava me multiplicando em humildade e entregas desvairadas.
Um dia, olhei para a minha vida. Estava arruinado. Nada mais tinha de meu. Se ela quisesse um automóvel novo, um iate mais recente, um apartamento maior, já não os poderia dar. Meu desespero foi, então, sem nome. Perdera a última esperança. Mas conservava ainda a capacidade de argumentar, estranho poder de raciocinar friamente. Atirei-me de novo a seus pés. Se não era o dinheiro, se não eram tributos materiais de amor o que esperava, mas a prova apenas de um grande amor, a prova ali estava, na minha miséria. Que exigia agora? Que podia esperar?
- Enriqueça de novo.
[...]

"Balbino, Homem do Mar", Orígenes Lessa

(Orígenes Lessa nasceu no dia 12 de Julho de 1903. Morreu em 1986.)

domingo, 12 de julho de 2015

Orígenes Lessa 3

O trem bufou, entre cansado e contente, diminuindo a marcha. Deixei para um lado a revista, levantei-me, estirando os músculos. Alto da Serra. Sanduíche e café. Ou maçãs. Ganhei a plataforma, empurrado por gente com pressa, fim de semana de pequenos empregados, castigo de nervos para velhos jogadores, ainda esperançosos de arrebentar os cassinos do Gonzaga ou da Ilha Porchat. Uma criança passa-me por entre as pernas, com o salto imprevisto que dou, ao surpreendê-la quase embaixo de mim.
- Vem cá, Zequinha!
Aplicam-lhe uma palmada injusta, que o garoto não sente, já de olhos arregalados num baleiro. Mocinhas alvoroçadas que vão ver o mar compram revistas de cinema e de rádio.
- Olha o Orlando Silva como ficou ótimo. Que amor de voz, não?
Um homem que vinha quase a correr, cavaleiro andante a equilibrar uma xícara de café para a bem-amada, dá-me um encontrão, o café se perde, peço desculpas, ele pede também, sorrimos com esse ar superior dos homens civilizados que às vezes vão no sábado a Santos. Um outro come tranqüilo o seu sanduíche de queijo, com o ar e a roupa de quem não almoçou antes do embarque. Não tivera tempo, era muito caro o restaurante do trem. Chego ao café. Está apinhado. Vinte a trinta passageiros se abalroam junto ao balcão, gritando, pedindo sanduíches ou fatias de pão-de-ló (feitos com o Fermento Rochedo são muito mais saborosos e tenros). Há braços estendidos, já com a mercadoria na mão: tabletes de chocolate, maçãs, pacotinhos de balas.


"Omelete em Bombaim", Orígenes Lessa

(Orígenes Lessa nasceu no dia 12 de Julho de 1903. Morreu em 1986.)

sábado, 12 de julho de 2014

Orígenes Lessa 2

Todos os dias aquela miséria... Maria Rosa estava de pé às cinco da manhã. Havia que pôr a casa em ordem, arrumar a sala de aulas, preparar o café, lavar os pequenos, vesti-los, passar roupa - "tenho um serviço de negra!" - e acordar o marido.
Era o mais difícil.

- Por que não deita mais cedo, seu tranca? Fica lendo feito idiota até não sei que horas, ou dando prosa com esses vagabundos, e depois, quando tem que fazer alguma coisa, pega no sono que nem Cristo acorda!
E resmungando e imprecando, vassourão aqui, pano molhado ali - "não mexa aí, menino!" -, Maria Rosa continuava a peleja.
- Parece que eu caí da cadeira no dia em que fiquei noiva desse coisa-à-toa! Pra ter esta vida! Pra passar vergonha!
Arrumou uma toalhinha de crochê no aparador humilde.
- Largue esse copo, Joãozinho! Largue já! Largue, estou dizendo!
E, ameaçadora, para o garoto lambudo que sorria feliz:
- Menino! Menino! Ponha já o copo na mesa! Olhe o que estou dizendo!
O pequeno continuava a negacear com o corpo, o copo muito sujo, uma das mãos mergulhadas na água.
- Não molhe o chão, criatura! A gente vive feito uma burra, tentando limpar a casa, vem um coisinha desses emporcalha tudo! Você apanha, Joãozinho! Traga o copo aqui!
- Eu quelia bebê água!
- Não quer beber coisa nenhuma! Você quer é chinelo! Venha cá!
- A senhóia bate na gente!
- Não bato! Venha aqui direitinho, me entregue o copo, que a mamãe não bate.

- Eu sei que a senhóia bate!
- Não me enjerize, criatura! Você apanha já...
- Eu não disse? A sinhóia qué é batê na ge
nte...

"O Feijão e o Sonho", Orígenes Lessa

(Orígenes Lessa nasceu no dia 12 de Julho de 1903. Morreu em 1986.)

sexta-feira, 12 de julho de 2013

Orígenes Lessa

Não pense que eu tou querendo tirar onda de santa. Quero não. Desde cedo eu vi que não era, não ia ser e tinha raiva de quem era. Cama é bom. Mas bom quando é pela cama que a gente se deita com um cara que a gente gosta e aí vale tudo. Tenho uma saudade desse tempo que você não imagina. Quando hoje eu vejo um cara nu, em pé de guerra, moço, forte, bem bolado, às vezes um bacanaço de praia... – cê pensa que eu fico de fogo? É muito raro... Eu fico é triste. Tenho saudade do tempo em que eu olhava a mala de um magrinho de subúrbio e ficava doida pra pegar. Não tinha era coragem. Eu namorava à toa, à toa. Queria era encostar. Me fazia de besta, fingia não ser por maldade.

"Beco da Fome", Orígenes Lessa

(Orígenes Lessa nasceu no dia 12 de Julho de 1903. Morreu em 1986)