| Foto Hernâni Von Doellinger |
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sábado, 16 de janeiro de 2021
segunda-feira, 16 de novembro de 2020
José Saramago 9
Em violino fado
Ponho as mãos no teu corpo musical
Onde esperam os sons adormecidos.
Em silêncio começo, que pressente
A brusca irrupção do tom real.
E quando a alma ascendendo canta
Ao percorrer a escala dos sentidos,
Não mente a alma nem o corpo mente.
Não é por culpa nossa se a garganta
Enrouquece e se cala de repente
Em cruas dissonâncias, em rangidos
Exasperantes de acorde errado.
Se no silêncio em que a canção esmorece
Outro tom se insinua, recordado,
Não tarda que se extinga, emudece:
Não se consente em violino fado.
"Os Poemas Possíveis", José Saramago
(José Saramago nasceu no dia 16 de Novembro de 1922. Morreu em 2010.
sábado, 16 de novembro de 2019
José Saramago 8
Intimidade
No coração da mina mais secreta,
No interior do fruto mais distante,
Na vibração da nota mais discreta,
No búzio mais convolto e ressoante,
Na camada mais densa da pintura,
Na veia que no corpo mais nos sonde,
Na palavra que diga mais brandura,
Na raiz que mais desce, mais esconde,
No silêncio mais fundo desta pausa,
Em que a vida se fez perenidade,
Procuro a tua mão, decifro a causa
De querer e não crer, final, intimidade.
"Os Poemas Possíveis", José Saramago
(José Saramago nasceu no dia 16 de Novembro de 1922. Morreu em 2010.
No coração da mina mais secreta,
No interior do fruto mais distante,
Na vibração da nota mais discreta,
No búzio mais convolto e ressoante,
Na camada mais densa da pintura,
Na veia que no corpo mais nos sonde,
Na palavra que diga mais brandura,
Na raiz que mais desce, mais esconde,
No silêncio mais fundo desta pausa,
Em que a vida se fez perenidade,
Procuro a tua mão, decifro a causa
De querer e não crer, final, intimidade.
"Os Poemas Possíveis", José Saramago
(José Saramago nasceu no dia 16 de Novembro de 1922. Morreu em 2010.
terça-feira, 18 de junho de 2019
José Saramago 7
Fala do velho do restelo ao astronauta
Aqui, na Terra, a fome continua,
A miséria, o luto, e outra vez a fome.
Acendemos cigarros em fogos de napalme
E dizemos amor sem saber o que seja.
Mas fizemos de ti a prova da riqueza,
E também da pobreza, e da fome outra vez.
E pusemos em ti sei lá bem que desejo
De mais alto que nós, e melhor e mais puro.
No jornal, de olhos tensos, soletramos
As vertigens do espaço e maravilhas:
Oceanos salgados que circundam
Ilhas mortas de sede, onde não chove.
Mas o mundo, astronauta, é boa mesa
Onde come, brincando, só a fome,
Só a fome, astronauta, só a fome,
E são brinquedos as bombas de napalme.
"Os Poemas Possíveis", José Saramago
(José Saramago nasceu no dia 16 de Novembro de 1922. Morreu no dia 18 de Junho de 2010.)
Aqui, na Terra, a fome continua,
A miséria, o luto, e outra vez a fome.
Acendemos cigarros em fogos de napalme
E dizemos amor sem saber o que seja.
Mas fizemos de ti a prova da riqueza,
E também da pobreza, e da fome outra vez.
E pusemos em ti sei lá bem que desejo
De mais alto que nós, e melhor e mais puro.
No jornal, de olhos tensos, soletramos
As vertigens do espaço e maravilhas:
Oceanos salgados que circundam
Ilhas mortas de sede, onde não chove.
Mas o mundo, astronauta, é boa mesa
Onde come, brincando, só a fome,
Só a fome, astronauta, só a fome,
E são brinquedos as bombas de napalme.
"Os Poemas Possíveis", José Saramago
(José Saramago nasceu no dia 16 de Novembro de 1922. Morreu no dia 18 de Junho de 2010.)
Etiquetas:
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sexta-feira, 16 de novembro de 2018
José Saramago 6
Criação
Deus não existe ainda, nem sei quando
Sequer o esboço, a cor se afirmará
No desenho confuso da passagem
De gerações inúmeras nesta esfera.
Nenhum gesto se perde, nenhum traço,
Que o sentido da vida é este só:
Fazer da Terra um Deus que nos mereça,
E dar ao Universo o Deus que espera.
"Os Poemas Possíveis", José Saramago
(José Saramago nasceu no dia 16 de Novembro de 1922. Morreu em 2010.)
Deus não existe ainda, nem sei quando
Sequer o esboço, a cor se afirmará
No desenho confuso da passagem
De gerações inúmeras nesta esfera.
Nenhum gesto se perde, nenhum traço,
Que o sentido da vida é este só:
Fazer da Terra um Deus que nos mereça,
E dar ao Universo o Deus que espera.
"Os Poemas Possíveis", José Saramago
(José Saramago nasceu no dia 16 de Novembro de 1922. Morreu em 2010.)
segunda-feira, 8 de outubro de 2018
José Saramago, vinte anos de Nobel
Não me peçam razões
Não me peçam razões, que não as tenho,
Ou darei quantas queiram: bem sabemos
Que razões são palavras, todas nascem
Da mansa hipocrisia que aprendemos.
Não me peçam razões por que se entenda
A força da maré que me enche o peito,
Este estar mal no mundo e nesta lei:
Não fiz a lei e o mundo não aceito.
Não me peçam razões, ou que as desculpe,
Deste modo de amar e destruir:
Quando a noite é de mais é que amanhece
A cor de primavera que há-de vir.
"Os Poemas Possíveis", José Saramago
Não me peçam razões, que não as tenho,
Ou darei quantas queiram: bem sabemos
Que razões são palavras, todas nascem
Da mansa hipocrisia que aprendemos.
Não me peçam razões por que se entenda
A força da maré que me enche o peito,
Este estar mal no mundo e nesta lei:
Não fiz a lei e o mundo não aceito.
Não me peçam razões, ou que as desculpe,
Deste modo de amar e destruir:
Quando a noite é de mais é que amanhece
A cor de primavera que há-de vir.
"Os Poemas Possíveis", José Saramago
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quinta-feira, 16 de novembro de 2017
José Saramago 5
Receita
Tome-se um poeta não cansado,
Uma nuvem de sonho e uma flor,
Três gotas de tristeza, um tom dourado,
Uma veia sangrando de pavor.
Quando a massa já ferve e se retorce
Deita-se a luz dum corpo de mulher,
Duma pitada de morte se reforce,
Que um amor de poeta assim requer.
"Os Poemas Possíveis", José Saramago
(José Saramago nasceu no dia 16 de Novembro de 1922. Morreu em 2010.)
Tome-se um poeta não cansado,
Uma nuvem de sonho e uma flor,
Três gotas de tristeza, um tom dourado,
Uma veia sangrando de pavor.
Quando a massa já ferve e se retorce
Deita-se a luz dum corpo de mulher,
Duma pitada de morte se reforce,
Que um amor de poeta assim requer.
"Os Poemas Possíveis", José Saramago
(José Saramago nasceu no dia 16 de Novembro de 1922. Morreu em 2010.)
quarta-feira, 14 de junho de 2017
Poema para o dia de hoje segundo José Saramago
Catorze de Junho
Cerremos esta porta.
Devagar, devagar, as roupas caiam
Como de si mesmos se despiam deuses,
E nós o somos, por tão humanos sermos.
É quanto nos foi dado: nada.
Não digamos palavras, suspiremos apenas
Porque o tempo nos olha.
Alguém terá criado antes de ti o sol,
E a lua, e o cometa, o negro espaço,
As estrelas infinitas.
Se juntos, que faremos?
O mundo seja,
Como um barco no mar, ou pão na mesa,
Ou rumoroso leito.
Não se afastou o tempo.
Assiste e quer.
É já pergunta o seu olhar agudo
À primeira palavra que dizemos:
Tudo.
"Poesía Completa", José Saramago
Cerremos esta porta.
Devagar, devagar, as roupas caiam
Como de si mesmos se despiam deuses,
E nós o somos, por tão humanos sermos.
É quanto nos foi dado: nada.
Não digamos palavras, suspiremos apenas
Porque o tempo nos olha.
Alguém terá criado antes de ti o sol,
E a lua, e o cometa, o negro espaço,
As estrelas infinitas.
Se juntos, que faremos?
O mundo seja,
Como um barco no mar, ou pão na mesa,
Ou rumoroso leito.
Não se afastou o tempo.
Assiste e quer.
É já pergunta o seu olhar agudo
À primeira palavra que dizemos:
Tudo.
"Poesía Completa", José Saramago
quarta-feira, 16 de novembro de 2016
José Saramago 4
| Meias-solas Bem sei que as meias-solas que deitei Nas botas aprazadas não resistem À calçada do tempo que discorro. Talvez parado as botas me durassem, Mas quieto quem pode, mesmo vendo Que é desta caminhada que me morro. |
"Os Poemas Possíveis", José Saramago
(José Saramago nasceu no dia 16 de Novembro de 1922. Morreu em 2010.)
segunda-feira, 16 de novembro de 2015
José Saramago 3
Demissão
Este mundo não presta, venha outro.
Já por tempo de mais aqui andamos
A fingir de razões suficientes.
Sejamos cães do cão: sabemos tudo
De morder os mais fracos, se mandamos,
E de lamber as mãos, se dependentes.
"Os Poemas Possíveis", José Saramago
(José Saramago nasceu no dia 16 de Novembro de 1922. Morreu em 2010.)
Este mundo não presta, venha outro.
Já por tempo de mais aqui andamos
A fingir de razões suficientes.
Sejamos cães do cão: sabemos tudo
De morder os mais fracos, se mandamos,
E de lamber as mãos, se dependentes.
"Os Poemas Possíveis", José Saramago
(José Saramago nasceu no dia 16 de Novembro de 1922. Morreu em 2010.)
domingo, 16 de novembro de 2014
José Saramago 2
Até ao sabugo
Dão outros, em verso, outras razões,
Quem sabe se mais úteis, mais urgentes.
Deste, cá, não mudou a natureza,
Suspensa entre duas negações.
Agora, inventar arte e maneira
De juntar o acaso e a certeza,
Leve nisso, ou não leve, a vida inteira.
Assim como quem rói as unhas rentes.
"Os Poemas Possíveis", José Saramago
(José Saramago nasceu no dia 16 de Novembro de 1922. Morreu em 2010.)
Dão outros, em verso, outras razões,
Quem sabe se mais úteis, mais urgentes.
Deste, cá, não mudou a natureza,
Suspensa entre duas negações.
Agora, inventar arte e maneira
De juntar o acaso e a certeza,
Leve nisso, ou não leve, a vida inteira.
Assim como quem rói as unhas rentes.
"Os Poemas Possíveis", José Saramago
(José Saramago nasceu no dia 16 de Novembro de 1922. Morreu em 2010.)
sábado, 16 de novembro de 2013
José Saramago
O disco amarelo iluminou-se. Dois dos automóveis da frente aceleraram antes que o sinal vermelho aparecesse. Na passadeira de peões surgiu o desenho do homem verde. A gente que esperava começou a atravessar a rua pisando as faixas brancas pintadas na capa negra do asfalto, não há nada que menos se pareça com uma zebra, porém assim lhe chamam. Os automobilistas, impacientes, com o pé no pedal da embraiagem, mantinham em tensão os carros, avançando, recuando, como cavalos nervosos que sentissem vir no ar a chibata. Os peões já acabaram de passar, mas o sinal de caminho livre para os carros vai tardar ainda alguns segundos, há quem sustente que esta demora, aparentemente tão insignificante, se a multiplicarmos pelos milhares de semáforos existentes na cidade e pelas mudanças sucessivas das três cores de cada um, é uma das causas mais consideráveis dos engorgitamentos da circulação automóvel, ou engarrafamentos, se quisermos usar o termo corrente.
O sinal verde acendeu-se enfim, bruscamente os carros arrancaram, mas logo se notou que não tinham arrancado todos por igual. O primeiro da fila do meio está parado, deve haver ali um problema mecânico qualquer, o acelerador solto, a alavanca da caixa de velocidades que se encravou, ou uma avaria do sistema hidráulico, blocagem dos travões, falha do circuito eléctrico, se é que não se lhe acabou simplesmente a gasolina, não seria a primeira vez que se dava o caso. O novo ajuntamento de peões que está a formar-se nos passeios vê o condutor do automóvel imobilizado a esbracejar por trás do pára-brisas, enquanto os carros atrás dele buzinam frenéticos. Alguns condutores já saltaram para a rua, dispostos a empurrar o automóvel empanado para onde não fique a estorvar o trânsito, batem furiosamente nos vidros fechados, o homem que está lá dentro vira a cabeça para eles, a um lado, a outro, vê-se que grita qualquer coisa, pelos movimentos da boca percebe-se que repete uma palavra, uma não, duas, assim é realmente, consoante se vai ficar a saber quando alguém, enfim, conseguir abrir uma porta, Estou cego.
O sinal verde acendeu-se enfim, bruscamente os carros arrancaram, mas logo se notou que não tinham arrancado todos por igual. O primeiro da fila do meio está parado, deve haver ali um problema mecânico qualquer, o acelerador solto, a alavanca da caixa de velocidades que se encravou, ou uma avaria do sistema hidráulico, blocagem dos travões, falha do circuito eléctrico, se é que não se lhe acabou simplesmente a gasolina, não seria a primeira vez que se dava o caso. O novo ajuntamento de peões que está a formar-se nos passeios vê o condutor do automóvel imobilizado a esbracejar por trás do pára-brisas, enquanto os carros atrás dele buzinam frenéticos. Alguns condutores já saltaram para a rua, dispostos a empurrar o automóvel empanado para onde não fique a estorvar o trânsito, batem furiosamente nos vidros fechados, o homem que está lá dentro vira a cabeça para eles, a um lado, a outro, vê-se que grita qualquer coisa, pelos movimentos da boca percebe-se que repete uma palavra, uma não, duas, assim é realmente, consoante se vai ficar a saber quando alguém, enfim, conseguir abrir uma porta, Estou cego.
"Ensaio sobre a Cegueira", José Saramago
(José Saramago nasceu no dia 16 de Novembro de 1922. Morreu em 2010.)
sexta-feira, 7 de setembro de 2012
E se fossem normalizar a puta que os pariu?
A sanha normalizadora da Comissão Europeia chegou à seca. Que seca! Querem roubar-nos o nosso mais fiel amigo. Querem acabar com a indústria portuguesa do bacalhau, que conta com 83 empresas e emprega 1.800 pessoas. Querem obrigar-nos a comer bacalhau à la Noruega, que não serve para fazer alguns dos nossos mais tradicionais e emblemáticos pratos, a começar logo pela punheta.
As colheres de pau não lhes chegavam. Tinham que nos foder também o bacalhau. Com licença de José Saramago, e se fossem normalizar mas é a puta que os pariu?
(Texto escrito e publicado em 10 de Fevereiro e republicado em 19 de Maio.)
(Texto escrito e publicado em 10 de Fevereiro e republicado em 19 de Maio.)
sábado, 19 de maio de 2012
E se fossem normalizar a puta que os pariu?
O
bacalhau, tal qual o conhecemos, pode estar em vias de extinção. A vida
ou morte do nosso bacalhau, do bacalhau português, do bacalhau do nosso
contentamento, está nas mãos da Comissão Europeia, que, empurrada pelo
lóbi nórdico, discute por estes dias uma proposta que visa normalizar o
processo de cura, introduzindo químicos (fosfatos) para alegadamente
evitar a oxidação do produto. Do produto...
A sanha normalizadora da Comissão Europeia chegou à seca. Que seca. Querem roubar-nos o nosso mais fiel amigo. Querem acabar
com a indústria portuguesa do bacalhau, que conta com 83 empresas e
emprega 1.800 pessoas. Querem obrigar-nos a comer bacalhau à la Noruega,
que não serve para fazer alguns dos nossos mais tradicionais e
emblemáticos pratos, a começar logo pela punheta.sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012
E se fossem normalizar a puta que os pariu?
O bacalhau, tal qual o conhecemos, pode estar em vias de extinção. A vida ou morte do nosso bacalhau, do bacalhau português, do bacalhau do nosso contentamento, está nas mãos da Comissão Europeia, que, empurrada pelo lóbi nórdico, discute por estes dias uma proposta que visa normalizar o processo de cura, introduzindo químicos (fosfatos) para alegadamente evitar a oxidação do produto. Do produto...
A sanha normalizadora da Comissão Europeia chegou à seca. Que seca! Querem roubar-nos o nosso mais fiel amigo. Querem acabar com a indústria portuguesa do bacalhau, que conta com 83 empresas e emprega 1.800 pessoas. Querem obrigar-nos a comer bacalhau à la Noruega, que não serve para fazer alguns dos nossos mais tradicionais e emblemáticos pratos, a começar logo pela punheta.
As colheres de pau não lhes chegavam. Tinham que nos foder também o bacalhau. Com licença de José Saramago, e se fossem normalizar mas é a puta que os pariu?
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