Meninotas, com as pregas da súbita velhice, careteavam, torcendo as carinhas decrépitas de ex-voto. Os vaqueiros másculos, como titãs alquebrados, em petição de miséria. Pequenos fazendeiros, no arremesso igualitário, baralhavam-se nesse anônimo aniquilamento.
"A Bagaceira", José Américo de Almeida
(José Américo de Almeida nasceu no dia 10 de Janeiro de 1887. Morreu em 1980.)
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quinta-feira, 10 de janeiro de 2019
quarta-feira, 10 de janeiro de 2018
José Américo de Almeida 5
Dagoberto olhava por olhar, indiferente a essa tragédia viva.
A seca representava a valorização da safra. Os senhores de engenho, de uma avidez vã, refaziam-se da depreciação dos tempos normais à custa da desgraça periódica.
O feitor alvitrava a admissão dos retirantes:
- Paga-se pouco mais ou nada ...
Mas Dagoberto escarmentava a convergência molesta. Desafogava a fazenda da superpopulação imprestável, consignada à caridade pública.
À vista do bueiro fumegante que sujava o céu estivo, a matula espetral detinha-se esperançosa. E ficava a espiar a casa do engenho como uma grande essa armada no negrume do teto velho.
Alguns faziam menção de subir. Mas logo desandavam, aos tombos, na mobilidade incerta.
De quando em quando, um magote vingava o socalco. Chegavam mastigando em seco, para enganar a fome, nas mais grotescas atitudes da miséria.
Dobravam-se os joelhos, não como pedinchões. Genufletiam moídos de fadiga.
Não se carpiam, como se estivessem realizando um destino irremediável. Nem, sequer, lavavam com lágrimas as caras poentas.
Escorraçados, retrocediam, arquejantes, sem uma queixa.
E, desengonçando-se, de déu em déu, numa marcha esquecida, o rebotalho errante ia atulhar as feiras, malignar as cidades.
"A Bagaceira", José Américo de Almeida
(José Américo de Almeida nasceu no dia 10 de Janeiro de 1887. Morreu em 1980.)
A seca representava a valorização da safra. Os senhores de engenho, de uma avidez vã, refaziam-se da depreciação dos tempos normais à custa da desgraça periódica.
O feitor alvitrava a admissão dos retirantes:
- Paga-se pouco mais ou nada ...
Mas Dagoberto escarmentava a convergência molesta. Desafogava a fazenda da superpopulação imprestável, consignada à caridade pública.
À vista do bueiro fumegante que sujava o céu estivo, a matula espetral detinha-se esperançosa. E ficava a espiar a casa do engenho como uma grande essa armada no negrume do teto velho.
Alguns faziam menção de subir. Mas logo desandavam, aos tombos, na mobilidade incerta.
De quando em quando, um magote vingava o socalco. Chegavam mastigando em seco, para enganar a fome, nas mais grotescas atitudes da miséria.
Dobravam-se os joelhos, não como pedinchões. Genufletiam moídos de fadiga.
Não se carpiam, como se estivessem realizando um destino irremediável. Nem, sequer, lavavam com lágrimas as caras poentas.
Escorraçados, retrocediam, arquejantes, sem uma queixa.
E, desengonçando-se, de déu em déu, numa marcha esquecida, o rebotalho errante ia atulhar as feiras, malignar as cidades.
"A Bagaceira", José Américo de Almeida
(José Américo de Almeida nasceu no dia 10 de Janeiro de 1887. Morreu em 1980.)
terça-feira, 10 de janeiro de 2017
José Américo de Almeida 4
- Qual o quê! O senhor encruou... Se duvidar, com esse calibre é capaz de passar a perna em seu Lúcio.
A mata fronteira, o padrão majestoso, estava acesa numa cor de incêndio.
Havia uma semana, surdira um toque estranho na monotonia da verdura. Dir-se-ia um ramo amarelido à torreira da estação.
Dominava ainda a esmeralda tropical. Mas, com pouco, emergia o mesmo matiz em outro trecho vizinho, como um efeito de luz, um beijo fulgurante do sol em árvore favorita. E, logo, o pau-d’arco assoberbou a flora, como um banho de ouro na folhagem.
Nessa manhã luminosa a mata resplandecia com uma orgia de desabrocho em sua pompa auriverde.
Sem a percepção da paisagem, com a sensibilidade obtusa e entorpecida aos primores da natureza, Dagoberto inquietava-se, pela primeira vez, perante o ouro que frondejava. Parecia-lhe que o sol tinha baixado sobre a selva fulva.
Era, talvez, a cor que lhe suscitara o interesse chambão. As pétalas áureas...
E semicerrou, novamente, os olhos descuriosos.
A mata fronteira, o padrão majestoso, estava acesa numa cor de incêndio.
Havia uma semana, surdira um toque estranho na monotonia da verdura. Dir-se-ia um ramo amarelido à torreira da estação.
Dominava ainda a esmeralda tropical. Mas, com pouco, emergia o mesmo matiz em outro trecho vizinho, como um efeito de luz, um beijo fulgurante do sol em árvore favorita. E, logo, o pau-d’arco assoberbou a flora, como um banho de ouro na folhagem.
Nessa manhã luminosa a mata resplandecia com uma orgia de desabrocho em sua pompa auriverde.
Sem a percepção da paisagem, com a sensibilidade obtusa e entorpecida aos primores da natureza, Dagoberto inquietava-se, pela primeira vez, perante o ouro que frondejava. Parecia-lhe que o sol tinha baixado sobre a selva fulva.
Era, talvez, a cor que lhe suscitara o interesse chambão. As pétalas áureas...
E semicerrou, novamente, os olhos descuriosos.
"A Bagaceira", José Américo de Almeida
(José Américo de Almeida nasceu no dia 10 de Janeiro de 1887. Morreu em 1980.)
domingo, 10 de janeiro de 2016
José Américo de Almeida 3
À vista do bueiro fumegante que sujava o céu estivo, a matula espetral detinha-se esperançosa. E ficava a espiar a casa do engenho como uma grande essa armada no negrume do teto velho.Alguns faziam menção de subir. Mas logo desandavam, aos tombos, na mobilidade incerta.
De quando em quando, um magote vingava o socalco. Chegavam mastigando em seco, para enganar a fome, nas mais grotescas atitudes da miséria.
Dobravam-se os joelhos, não como pedinchões. Genufletiam moídos de fadiga.
Não se carpiam, como se estivessem realizando um destino irremediável. Nem, sequer, lavavam com lágrimas as caras poentas.
Escorraçados, retrocediam, arquejantes, sem uma queixa.
E, desengonçando-se, de déu em déu, numa marcha esquecida, o rebotalho errante ia atulhar as feiras, malignar as cidades.
Dagoberto despercebia-se do desfile macabro. A seca infundia-lhe um sentimento contrastante.
Era uma inquietação serôdia, como a brasa remanescente que procura acender o cinzeiro.
Num período de vida em que o homem realiza o que sonhou, ele voltava a sonhar. Amor - pólvora que se acaba com a primeira explosão, Amor que sabe a frutos apodrecidos. Era como o caminheiro que, fatigado da jornada, estuga o passo para chegar antes de anoitecer.
Beirava uma idade em que o instinto sexual instigado se difunde por todos os sentidos e é mais imaginação que materialidade, como a saudade do que se não gozou. Crise das uniões retardatárias.
Havia coisa de 18 anos, inveterava-se na viuvez desconfortada, por uma jura indiscreta:
- Mas eu não encontro outra mulher assim...
E gabava-lhe com minúcias de formas os caracteres da beleza e as prendas ocultas:
- Mulherão! mulherão!
Os dias do campo decorriam-lhe recreativos. Mas, à noite, quando as portas se cerravam, cerrava-se-lhe o coração.
"A Bagaceira", José Américo de Almeida
(José Américo de Almeida nasceu no dia 10 de Janeiro de 1887. Morreu em 1980.)
De quando em quando, um magote vingava o socalco. Chegavam mastigando em seco, para enganar a fome, nas mais grotescas atitudes da miséria.
Dobravam-se os joelhos, não como pedinchões. Genufletiam moídos de fadiga.
Não se carpiam, como se estivessem realizando um destino irremediável. Nem, sequer, lavavam com lágrimas as caras poentas.
Escorraçados, retrocediam, arquejantes, sem uma queixa.
E, desengonçando-se, de déu em déu, numa marcha esquecida, o rebotalho errante ia atulhar as feiras, malignar as cidades.
Dagoberto despercebia-se do desfile macabro. A seca infundia-lhe um sentimento contrastante.
Era uma inquietação serôdia, como a brasa remanescente que procura acender o cinzeiro.
Num período de vida em que o homem realiza o que sonhou, ele voltava a sonhar. Amor - pólvora que se acaba com a primeira explosão, Amor que sabe a frutos apodrecidos. Era como o caminheiro que, fatigado da jornada, estuga o passo para chegar antes de anoitecer.
Beirava uma idade em que o instinto sexual instigado se difunde por todos os sentidos e é mais imaginação que materialidade, como a saudade do que se não gozou. Crise das uniões retardatárias.
Havia coisa de 18 anos, inveterava-se na viuvez desconfortada, por uma jura indiscreta:
- Mas eu não encontro outra mulher assim...
E gabava-lhe com minúcias de formas os caracteres da beleza e as prendas ocultas:
- Mulherão! mulherão!
Os dias do campo decorriam-lhe recreativos. Mas, à noite, quando as portas se cerravam, cerrava-se-lhe o coração.
"A Bagaceira", José Américo de Almeida
(José Américo de Almeida nasceu no dia 10 de Janeiro de 1887. Morreu em 1980.)
sábado, 10 de janeiro de 2015
José Américo de Almeida 2
Mais mortos do que vivos. Vivos, vivíssimos só no olhar. Pupilas do sol da seca. Uns olhos espasmódicos de pânico, assombrados de si próprios. Agônica concentração de vitalidade faiscante.
Fariscavam o cheiro enjoativo do melado que lhes exacerbava os estômagos jejunos. E, em vez de comerem, eram comidos pela própria fome numa autofagia erosiva.
Lúcio almoçava com o sentido nos retirantes. Escondia côdeas nos bolsos para distribuir com eles, como quem lança migalhas a aves de arribação.
A cabroeira escarninha metia-os à bulha:
- Vem tirar a barriga da miséria ...
Párias da bagaceira, vítimas de uma emperrada organização do trabalho e de uma dependência que os desumanizava, eram os mais insensíveis ao martírio das retiradas.
A colisão dos meios pronunciava-se no contato das migrações periódicas. Os sertanejos eram mal-vistos nos brejos. E o nome de brejeiro cruelmente pejorativo.
Lúcio responsabilizava a fisiografia paraibana por esses choques rivais. A cada zona correspondiam tipos e costumes marcados.
Essa diversidade criava grupos sociais que acarretavam os conflitos de sentimentos.
Estrugia a trova repulsiva:
Eu não vou na sua casa,
Você não venha na minha,
Porque tem a boca grande,
Vem comer minha farinha...
Homens do sertão, obcecados na mentalidade das reações cruentas, não convocavam as derradeiras energias num arranque selvagem. A história das secas era uma história de passividades.
Limitavam-se a fitar os olhos terríveis nos seus ofensores. Outros ronronavam, como se estivessem engolindo golfadas de ódio.
E nas terras copiosas, que lhes denegavam as promessas visionadas, goravam seus sonhos de redenção.
"A Bagaceira", José Américo de Almeida
(José Américo de Almeida nasceu no dia 10 de Janeiro de 1887. Morreu em 1980.)
Fariscavam o cheiro enjoativo do melado que lhes exacerbava os estômagos jejunos. E, em vez de comerem, eram comidos pela própria fome numa autofagia erosiva.
Lúcio almoçava com o sentido nos retirantes. Escondia côdeas nos bolsos para distribuir com eles, como quem lança migalhas a aves de arribação.
A cabroeira escarninha metia-os à bulha:
- Vem tirar a barriga da miséria ...
Párias da bagaceira, vítimas de uma emperrada organização do trabalho e de uma dependência que os desumanizava, eram os mais insensíveis ao martírio das retiradas.
A colisão dos meios pronunciava-se no contato das migrações periódicas. Os sertanejos eram mal-vistos nos brejos. E o nome de brejeiro cruelmente pejorativo.
Lúcio responsabilizava a fisiografia paraibana por esses choques rivais. A cada zona correspondiam tipos e costumes marcados.
Essa diversidade criava grupos sociais que acarretavam os conflitos de sentimentos.
Estrugia a trova repulsiva:
Eu não vou na sua casa,
Você não venha na minha,
Porque tem a boca grande,
Vem comer minha farinha...
Homens do sertão, obcecados na mentalidade das reações cruentas, não convocavam as derradeiras energias num arranque selvagem. A história das secas era uma história de passividades.
Limitavam-se a fitar os olhos terríveis nos seus ofensores. Outros ronronavam, como se estivessem engolindo golfadas de ódio.
E nas terras copiosas, que lhes denegavam as promessas visionadas, goravam seus sonhos de redenção.
"A Bagaceira", José Américo de Almeida
(José Américo de Almeida nasceu no dia 10 de Janeiro de 1887. Morreu em 1980.)
sexta-feira, 10 de janeiro de 2014
José Américo de Almeida
Findo o almoço - podiam ser 9 horas - Dagoberto Marçau correu à
janela, que é uma forma de fugir de casa, sem sair fora de portas, como
se o movesse uma grande curiosidade. Mas, debruçado, apoiou o queixo na
mão soerguida e entrefechou os olhos, num alheamento de enfado ou
displicência.
Vivia ele, desse jeito, entre trabalheiras e ócios, como o homem-máquina destas terras que ou se agita resistentemente ou, quando pára, pára mesmo, como um motor parado.
Como que cobrara medo ao vazio interior. Não há deserto maior que uma casa deserta.
Entrava afobado, comia, ou, antes, engolia, de cabeça descaída, o repasto invariável e ou saía de golpe ou ficava a espiar para fora.
A presença do filho recém-chegado, em férias, não lhe modificava essa impressão. Em vez de confortar-lhe o abandono, agravava-o, mais e mais, como uma sombra intrusa.
Lúcio voltou da cachoeira com a toalha enrolada na cabeça, como um turbante.
Levantou o braço num gesto de quem mais parecia dar do que pedir a bênção. E foi, por sua vez, sentar-se à mesa.
Não se defrontavam, sequer, nesse ponto de comunhão familiar, onde as almas se misturam numa intimidade aperitiva. Forravam-se, assim, ao constrangimento dos encontros calados ou das conversas contrafeitas e escassas.
A casa-grande, situada numa colina, sobranceava o caminho apertado, no trecho fronteiro, entre o cercado e o açude.
Num repentino desenfado, Dagoberto estirou o olhar, por cima das mangueiras meãs enfileiradas ladeira abaixo, para a estrada revolta.
Parecia a poeira levantada, a sujeira do chão num pé-de-vento.
Era o êxodo da seca de 1898. Uma ressurreição de cemitérios antigos - esqueletos redivivos, com o aspecto terroso e o fedor das covas podres.
Os fantasmas estropiados como que iam dançando, de tão trôpegos e trêmulos, num passo arrastado de quem leva as pernas, em vez de ser levado por elas.
Andavam devagar, olhando para trás, como quem quer voltar. Não tinham pressa em chegar, porque não sabiam onde iam. Expulsos do seu paraíso por espadas de fogo, iam, ao acaso, em descaminhos, no arrastão dos maus fados.
Fugiam do sol e o sol guiava-os nesse forçado nomadismo
Adelgaçados na magreira cômica, cresciam, como se o vento os levantasse. E os braços afinados desciam-lhes aos joelhos, de mãos abanando.
Vinham escoteiros. Menos os hidrópicos - doentes da alimentação tóxica - com os fardos das barrigas alarmantes.
Não tinham sexo, nem idade, nem condição nenhuma. Eram os retirantes. Nada mais.
"A Bagaceira", José Américo de Almeida
(José Américo de Almeida nasceu no dia 10 de Janeiro de 1887. Morreu em 1980.)
Vivia ele, desse jeito, entre trabalheiras e ócios, como o homem-máquina destas terras que ou se agita resistentemente ou, quando pára, pára mesmo, como um motor parado.
Como que cobrara medo ao vazio interior. Não há deserto maior que uma casa deserta.
Entrava afobado, comia, ou, antes, engolia, de cabeça descaída, o repasto invariável e ou saía de golpe ou ficava a espiar para fora.
A presença do filho recém-chegado, em férias, não lhe modificava essa impressão. Em vez de confortar-lhe o abandono, agravava-o, mais e mais, como uma sombra intrusa.
Lúcio voltou da cachoeira com a toalha enrolada na cabeça, como um turbante.
Levantou o braço num gesto de quem mais parecia dar do que pedir a bênção. E foi, por sua vez, sentar-se à mesa.
Não se defrontavam, sequer, nesse ponto de comunhão familiar, onde as almas se misturam numa intimidade aperitiva. Forravam-se, assim, ao constrangimento dos encontros calados ou das conversas contrafeitas e escassas.
A casa-grande, situada numa colina, sobranceava o caminho apertado, no trecho fronteiro, entre o cercado e o açude.
Num repentino desenfado, Dagoberto estirou o olhar, por cima das mangueiras meãs enfileiradas ladeira abaixo, para a estrada revolta.
Parecia a poeira levantada, a sujeira do chão num pé-de-vento.
Era o êxodo da seca de 1898. Uma ressurreição de cemitérios antigos - esqueletos redivivos, com o aspecto terroso e o fedor das covas podres.
Os fantasmas estropiados como que iam dançando, de tão trôpegos e trêmulos, num passo arrastado de quem leva as pernas, em vez de ser levado por elas.
Andavam devagar, olhando para trás, como quem quer voltar. Não tinham pressa em chegar, porque não sabiam onde iam. Expulsos do seu paraíso por espadas de fogo, iam, ao acaso, em descaminhos, no arrastão dos maus fados.
Fugiam do sol e o sol guiava-os nesse forçado nomadismo
Adelgaçados na magreira cômica, cresciam, como se o vento os levantasse. E os braços afinados desciam-lhes aos joelhos, de mãos abanando.
Vinham escoteiros. Menos os hidrópicos - doentes da alimentação tóxica - com os fardos das barrigas alarmantes.
Não tinham sexo, nem idade, nem condição nenhuma. Eram os retirantes. Nada mais.
"A Bagaceira", José Américo de Almeida
(José Américo de Almeida nasceu no dia 10 de Janeiro de 1887. Morreu em 1980.)
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