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sábado, 18 de abril de 2026

À Justiça o que é da Justiça

Foto Tarrenego!

O bom, o mau e o sermão
"Não oponhais resistência ao mau; se alguém te bater na face direita, oferece-lhe também a outra", ensinou Jesus no Sermão da Montanha (Mt 5, 39). Ora isto de querer fazer de nós bonzinhos à força parece-me um perigoso incitamento à violência. À violência do outro, do mau. Que ainda por cima vai ser mais mau, pela segunda vez, e por nossa culpa, nossa tão grande culpa.

Um querido amigo pediu-me ajuda para um trabalho que estava a fazer: se eu lhe conseguia "resumir em duas linhas o porquê" da expressão "Com Fafe ninguém fanfe". Ele merecia resposta, porque acamaradou comigo em tantos e tantos dos meus fugitivos regressos à terra, tornando-se, por via disso, um extraordinário fafense amador. E eu resumi assim: "Com Fafe ninguém fanfe" quer dizer, tão-só, com Fafe ninguém se meta. Porque, quem se meter, leva! E tem a sua origem nas lendas da Justiça de Fafe, que muito boa gente confunde, hoje em dia, com fazer justiça pelas próprias mãos. Não é nada disso. A Justiça de Fafe deve ligar-se, antes, à defesa da honra.
Ou por outra. A Justiça de Fafe é a metáfora folclórica de uma gente de paz que não gosta de levar desaforo para casa, ou que costumava não gostar. Gente de paz, mas tesa. Nós, os fafenses. Quem se meter com os de Fafe, quem nos ofender de graça, recebe o troco, e que mal tem isso? O resto é treta, mais ou menos erudita. Geralmente menos. Muito boa gente confunde, hoje em dia, este velho sentido de verticalidade com fazer justiça pelas próprias mãos, mas é um engano redondo. A Justiça de Fafe deve ligar-se, antes, à defesa da honra. A coça é semântica.
Isto e mais nada. Nem luta de classes, nem bullying, como se diz agora, nem administração de justiça privada, nem apologia da justiça popular, nem jogo do pau, nem fanfarronice, nem sacholadas, nem pistolas e navalhadas, nem bordoada por dá cá aquele copo, nem ciganos, nem Felizardos, nem Ardegões, nem outros Ardos ou Ões. Tudo equívocos. As lendas têm costas largas, de toda a conveniência para o caso em apreço, mas saber ler antes de escrever e pensar antes de falar também nunca fez mal a ninguém.

E não. O jogo do pau não é "uma das maiores tradições do concelho" de Fafe, como equivocamente se escreve na propaganda autárquica, a mesma que, talvez por anedota, considera "controverso" o nosso verdadeiro ex-líbris, a Justiça de Fafe. O jogo do pau é tão tradição em Fafe como em Lisboa, na Terceira, em Trás-os-Montes, no Ribatejo, na Estremadura, no Algarve ou na Galiza. Sabíeis que o "Jogo do Pau de Cabeceiras de Basto" é património cultural imaterial desde 2023? Isso, o jogo do pau de Cabeceiras de Basto. O jogo do pau é tão tradição em Fafe como a sueca, o futebol ou a malha, o esconde-esconde, o dominó ou a petanca, que se jogam em todo o lado. E que não se pense o contrário: eu gosto do nosso jogo do pau, e conheci e aprendi, sobretudo vida, com grandes "puxadores", veneráveis mestres como o Sr. José do Santo ou o Moleiro do Lombo, mas a verdade é para ser dita.
Não. O jogo do pau não foi inventado em Fafe, não deriva da Justiça de Fafe. Nem a Justiça de Fafe deriva do jogo do pau. A Justiça de Fafe é outra coisa, é lenda, lenda nossa, exclusiva, de honra, insisto, e, bem vistas as coisas, uma das poucas tradições genuínas do concelho de Fafe, que as há, como o nosso falar antigo, inimitável e pitoresco.

Não vamos mais longe. Podíamos ir à Porca de Murça ou às pedras parideiras da serra da Freita, podíamos até ir aos caralhos das Caldas, mas não vamos mais longe: deitemos os olhos aqui ao lado a Guimarães, que após Arões é sempre ao baixo e sem portagens. A vaidade que os nossos vizinhos fidalgos têm na estátua de D. Afonso Henriques, esse gandulo que usava saias e batia na mãe! Ainda por cima, existiu mesmo, e a nossa Justiça de Fafe é só bazófia, invenção - mas é a coisa mais bonita a que nos podemos agarrar, para além da forca de Moreira do Rei, que também não consta da História a sério (ou à séria, se lido em Lisboa).
Os reis de Espanha vieram de visita a Portugal e o nosso presidente Marcelo levou-os a Guimarães e à estátua do tratante, do Afonsinho: a Letizia e o Felipe puseram-lhe flores. E eu gostava de ver o mesmo com a nossa Justiça de Fafe. O mesmo, quero dizer, flores, que de reis e presidentes-reis, embora façam um figuraço nas montras da especialidade, passamos muito bem sem eles.
Mas não. Durante anos o monumento à Justiça de Fafe, pelo contrário, foi mantido longe dos olhares forasteiros, escondido, como se tivesse sido feito por engano, como se tivesse nascido com defeito, como se fosse um erro, um aborto, como se nos envergonhasse. A injustiça foi finalmente remediada, com a nova praça, a aproximação do monumento às pessoas e o sucesso que se sabe. Esbarram-se umas nas outras as iniciativas, apresentações e romarias que ali têm lugar, é ali a nova sala de visitas da cidade, não há viageiro que por lá não passe. De mota, bicicleta, trotinete, patins, carro, camião ou carrinho de rolamentos. Toda a gente tira fotografias com a "estátua" e mete nos facebooks, espero que a autarquia não se lembre de cobrar bilhete. E flores, há-as?
E há mais. As Caldas da Rainha orgulham-se dos seus fradinhos arrebitados, erguem bem alto os seus avantajados membros cerâmicos, e disso fazem negócio, turismo, riqueza. Não estará na altura de Fafe fazer o mesmo com a sua Justiça?

A Justiça de Fafe foi sempre importante para mim. Tenho muito orgulho nela. Desde a época dos postais, das quadras do Zé de Castro, que ainda por cima era meu vizinho, dos calendários, das t-shirts estampadas, do cartaz das Festas da Vila, da idade da razão. Gosto da lenda, percebo-a, conto-a, explico-a, contextualizo-a, acompanha-me desde que eu nasci, passou comigo pelo seminário, pelos Comandos, pelo jornalismo, identifica-me pelo mundo fora, e até aprecio o monumento, embora sempre o tivesse desejado mais central.
E, por minha culpa, a Justiça de Fafe também é importante para a minha família. Nunca a abandonámos, mesmo quando parecia que ninguém a queria. Ali em cima está o Kiko, meu filho, fotografado pela Mi, a mãe, minha mulher, ainda o mundo acabara de ser inventado. Olhai para ele. O Kiko, que é fafense nascido no Porto, fará 42 anos no final do mês, coitadinho, vede ao tempo que aquilo vai, e leva-me à "estátua" de vez em quando para matarmos saudades e comermos uma vitelinha como só na nossa terra. Eu e a patroa também lá costumamos ir de visita ao monumento como quem vai a Fátima ou a São Bentinho, três ou quatro vezes por ano, não sei se da próxima será preciso fazer marcação...

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Internacional dos Monumentos e Sítios. Também sei de sítios, aliás sei de sítios como quem sabe de ninhos, e por isso não os digo.)

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2025

Com os ursos

Mandaram-no jogar ao pau com os ursos e ele foi. Até hoje...

P.S. - Hoje é Dia Internacional do Urso Polar.

sexta-feira, 29 de dezembro de 2023

O jogo do pau de... Cabeceiras de Basto

Dizia eu: E não. O jogo do pau não é "uma das maiores tradições do concelho" de Fafe, ao contrário do que diz, por outro lado, a néscia propaganda autárquica. É tão tradição em Fafe como em Lisboa, em Trás-os-Montes, no Ribatejo, na Estremadura, no Algarve ou na Galiza. O jogo do pau é tão tradição em Fafe como a sueca, o futebol ou a malha, a petanca, o esconde-esconde ou o dominó, que se jogam em todo o lado.
Não. O jogo do pau não foi inventado em Fafe, não deriva da Justiça de Fafe. A Justiça de Fafe é outra coisa.

Dizia eu, no texto "À justiça o que é da justiça" com que, a 3 de Agosto de 2022, abri o meu blogue Fafismos, então ainda denominado "De Fafe com muito gosto". E que se segue? Soube-se anteontem, o "Jogo do Pau de Cabeceiras de Basto" acaba de ser classificado como património cultural imaterial. Exactamente, o jogo do pau de Cabeceiras de Basto.

terça-feira, 22 de novembro de 2022

domingo, 26 de julho de 2020

O último dos Bernardinos

Já sabem, eu não posso ver na rua bandas de música ou grupos de zés-pereiras, que me perco. Sigo-lhes os passos, esqueço-me da vida, já não sei que recado ia fazer. (Eram quatro ou cinco pães? Ou seriam bananas?) Os "trampolineiros" da minha infância alegram-me os dias da madureza, descompassam-me o bater do coração, tornam-me a Fafe e à pureza original, comovem-me. Queria que houvesse discos pedidos para poder encomendar todos os dias o "Resineiro" cantado de mansinho mas bem picada de tasco em tasco. Queria pedir desculpa por ignorantemente lhes ter chamado "trampolineiros", coisa feia. Eram, são, tamborileiros. Os tamborileiros da minha alegria triste. E portanto cá vai mais uma vez, versão refinada e aumentada:

O meu avô Bernardino Neques, que nunca aceitou copo dado e levava tudo à frente na hora da pancadaria, tinha o seu lado musical. Desunhava-se satisfatoriamente com a concertina e o acordeão, e já velhinho veio-lhe a mania do violão, lembro-me que com alguma falta de jeito, Deus me perdoe se estou a ser injusto. Esqueçamos, porém, o violão, o acordeão e a concertina, que foram só para meter conversa. Tornemos aos bombos, à caixaria.
O Neques do meu avô Bernardino não era de baptismo. O verdadeiro nome do meu avô de Basto era Amigo Pereira - assim lhe chamava toda a gente por essas feiras e romarias ali à beira, a começar pela Lagoa, onde ele varria o terreiro com o varapau de lódão girando por cima da cabeça como ventoinha de helicóptero, e suponho que não é preciso dizer mais nada para que se perceba de que marca era o homem. (Mas vou dizer: quando fazia de jogador do pau e estava decentemente avinhado, o meu avô tinha um grito de guerra que era "Olraitecamoniésse!". E tinha um cão de pele e osso ao qual dera o nome de Tuísta, que queria dizer Twist. O meu querido avô era anglófilo americanado e não sabia. De americano, o Bô só conhecia o vinho, e talvez o João massagista, mas desta parte não tenho a certeza.) A alcunha que ficou famosa, Neques, veio-lhe do tempo de moço, contava-se, quando rufava a bom rufar na caixa, honesto instrumento por onde começou na arte. E tocava naquele ritmo que ele gostava de explicar como neque-neque-neque, neque-neque, neque-pum. Neques, pois.
O meu avô era apaixonante. Obviamente Banda Revelhe, por causa do meu pai e por bom gosto natural. E o toque de caixa, para o Amigo Pereira, tinha ciência, solfejo. Gostava de perguntar-me, por exemplo, "Quantas pranas tem uma rana?", como se estivéssemos a elaborar sobre fusas e semifusas. Eu dizia que não sabia, que era o que o velho Neques queria ouvir, para logo a seguir me ensinar, matreiro e mais uma vez, "Conta-as, rapaz: rana-catrapana-catrapana-pana-pum; quantas são?..."
Já não há Bernardinos assim. E faz-me diferença. Pum.

P.S. - Publicado originalmente no dia 2 de Abril de 2014. Hoje, 26 de Julho, é Dia dos Avós.

terça-feira, 23 de julho de 2013

Justiça de Fafe é outra coisa

Foto GASPAR DE JESUS

Um querido amigo pediu-me ajuda: se eu lhe conseguia "resumir em duas linhas o porquê" da expressão "Com Fafe ninguém fanfe". Eu disse que não. E resumi em quatro: 
"Com Fafe ninguém fanfe" quer dizer, tão-só, com Fafe ninguém se meta. Porque, quem se meter, leva! E tem a sua origem nas lendas da Justiça de Fafe, que muito boa gente confunde, hoje em dia, com fazer justiça pelas próprias mãos. Não é nada disso. A Justiça de Fafe deve ligar-se, antes, à defesa da honra.
É isto e mais nada. Nem luta de classes, nem administração de justiça privada, nem apologia da justiça popular, nem jogo do pau, nem fanfarronice, nem sacholadas, nem pistolas e navalhadas, nem Felizardos, nem bordoada por dá cá aquele copo. Tudo equívocos. As lendas têm costas largas, de toda a conveniência para o caso em apreço, mas saber ler antes de escrever também nunca fez mal a ninguém. A Justiça de Fafe é a metáfora folclórica de uma gente de paz que não gosta de levar desaforo para casa, ou que costumava não gostar. Nós, os fafenses. O resto é treta, mais ou menos erudita. Geralmente menos.

P.S. - Fafenses deve ler-se e dizer-se "fafénses". E os ésses devem ser lidos e ditos com um xis no fim. Agradecido.

(Mais sobre o assunto em "Fafe mata mas não esfola")

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Encontro de Jogo do Pau, em Cepães, Fafe

Foto blogue MORGADO DE FAFE (http://morgadodefafe.blogspot.pt/)

A freguesia de Cepães, Fafe, acolhe no próximo sábado o 7.º Encontro de Jogo do Pau. O evento decorre, a partir das 21 horas, no campo multiusos junto à igreja paroquial.
No passado fim-de-semana, Cepães foi palco do 4.º Encontro Nacional de Folclore. Cepães está em grande.