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terça-feira, 3 de novembro de 2026

O lugar da mulher

Lá vão ligeiros, marido e mulher conversando pela rua, ele à frente e ela um passo atrás, coisa de antigos. Têm uma filha. Casou. Lá vai ela jovem e ligeira conversando pela rua com o marido a estrear, ela atrás, o homem um passo adiante, porque o respeito é muito bonito.. Na minha rua, meus vizinhos, palavra de honra, em pleno século XXI.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia da Dona de Casa.)

Foi comprar cigarros e não voltou

Era uma dona de casa exemplar, uma esposa atenta e dedicada. Todos os dias de manhã ela ia comprar tabaco para o marido. Um dia ela foi e nunca mais voltou.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia da Dona de Casa.)

Branca e radiante

Branca de Neve brincava às casinhas com a casa dos sete anões. Com os anões ela brincava aos médicos. Mas não sei se, hoje em dia, isto se pode dizer.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia da Dona de Casa.)

O homem-sanduíche

Português, desempregado, 45 anos de idade. Quando finalmente conseguiu um part-time como homem-sanduíche, chegou a casa à noite e deu-se de comer aos filhos.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia da Sanduíche. Descanse em paz!)

segunda-feira, 2 de novembro de 2026

Grande momento de televisão

Pedimos desculpa por esta interrupção
Às vezes pergunto-me como seria o mundo sem televisão. E acho que provavelmente seria um bocadinho melhor.

Uma vez à noite, na TVI, Janeiro de 2012, como se fosse ontem. Marcelo Rebelo de Sousa pregava aos peixes, na sua habitual homilia dominical. Ele era ainda apenas comentador ou, vá lá, pitoniso oficial do regime. Falava da troika e de Cavaco Silva, que lhe estava a aquecer o lugar, de Pedro Passos Coelho e de António José Seguro, da UGT e da CGTP, da Grécia e da Alemanha, do Benfica e do Sporting, de carecas e de cabeludos, da fome e da fartura, de tudo e de nada. O costume. Como hoje em dia. De repente, lá atrás no cenário da redacção vazia, passa a dona Alice das limpezas, de aspirador pela trela, logo seguida pela dona Amélia, com um caixote de lixo na mão, e da dona Matilde, que não resiste e acaricia com o pano do pó o tampo de uma das mesas de trabalho por assim dizer. Grande momento de televisão! Esqueci-me da arenga do Professor (na verdade os seus comentários nunca me interessaram realmente, a não ser por razões profissionais), e concentrei-me no desfile em fundo. Fiquei cliente do programa de variedades, mas infelizmente elas nunca mais apareceram...

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. A primeira emissão regular de televisão do mundo foi para o ar na BBC, no dia 2 de Novembro de 1936.)

Jornalista, disse ele

Perguntaram-lhe:
- Profissão?
- Jornalista.
- Imprensa, televisão, rádio, agência noticiosa ou multimédia?
- Câmara municipal.  

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia internacional pelo Fim da Impunidade dos Crimes Contra Jornalistas.)

domingo, 1 de novembro de 2026

O controlador, o operário e carapaus de cebolada

Gémeos afastados
Eram gémeos mas não pareciam. E compreende-se: nasceram com três anos de diferença.

Vem aí o Dia Mundial da Qualidade, e eu acho justo. A efeméride diz-me respeito. É preciso que saibais que o meu primeiro emprego com ordenado de lei e descontos para a Caixa foi exactamente como "controlador de qualidade", que era o nome que deram ao meu trabalho de "fiel de armazém", que era o nome que não deram ao meu trabalho de faz-tudo, isto é, moço de recados, na Estamparia Marigam de boa memória, em Fafe. Controlador, passe a perigosa ambiguidade do termo. Sei, portanto, do que falo e não sei se estais a ver que, sendo eu o operário que fui, estou plenamente capacitado para ser secretário-geral do PCP, tal e qual como o bom do Paulo Raimundo, que uma vez também foi operário, e ter sido operário ou quase operário nem que seja por um quarto de hora ou somente intenção parece ser condição sine qua non para se ser secretário-geral do PCP. Estou, por isso, à bica, só me falta ser comunista. E no entanto desconheço a que qualidade de qualidade diz respeito o Dia Mundial da Qualidade. Isto é: estamos a falar de boa qualidade ou de má qualidade? De qualidade de vida ou de qualidade de morte? Afirmar-se apenas "da Qualidade" é muito pouco, é abstracto, é obscuro. Em última análise, até podemos estar a celebrar uma qualidade sem qualidade nenhuma. Pelo menos é o que eu acho.

Eu gosto de Paulo Raimundo. O mal de Paulo Raimundo é ser parecido com ele próprio. Isto é, o grande defeito de Paulo Raimundo é não ser parecido com ninguém. E o que é que se segue? Para a imensa maioria dos portugueses, mais do que uma incógnita, o secretário-geral do PCP, quatro anos após a posse, continua a ser um incógnito.
Ainda noutro dia. Eu e o Lopes vínhamos a sair da Conga, em direcção à Câmara do Porto, e passámos por três indivíduos conversando, um dos quais, dissemos nós um ao outro praticamente ao mesmo tempo, "Olha um tipo parecido com o Paulo Raimundo...", rimo-nos um bocadinho com a coincidência, porque é uma coisa que gostamos muito de fazer, rir um bocadinho, e seguimos com a nossa vidinha, que naquela tarde era entrarmos no carro e o Lopes trazer-me a Matosinhos, à porta.
À noite, em casa, varejando os títulos das notícias, é que eu dei fé que o líder comunista tinha andado de facto pela Invicta, o tipo parecido com o Paulo Raimundo era mesmo o Paulo Raimundo e os outros dois indivíduos afinal não eram indivíduos mas camaradas, evidentemente. E fiquei deveras aborrecido, porque faria muito gosto em ter-lhe dado uma mãozada, ao bom do Raimundo, até porque acho que o homem merece.
Merece, mas! Aquela aspecto de pessoa normal não o recomenda. Aquele ar mancebo, aquela cara de boa gente, bô rapaz, aquele sorriso tímido e verdadeiro, aquela presença asseada, limpinha, aquela estampada honestidade, aquele porte de 16.º na lista de candidatos à assembleia de freguesia, aquele terra-a-terrismo, aquela normalidade toda, diria eu, só o desabonam. Invisibilizam-no. Apagam-no aos olhos e à memória dos demais. Na rua, Paulo Raimundo passa ao lado de si próprio, como se nada fosse. E, se for distraído, às tantas nem se reconhece. Paulo Raimundo devia ser parecido com outra pessoa qualquer, por exemplo Jerónimo de Sousa, para se saber imediatamente que aquele que ali está é o Paulo Raimundo em pessoa.
Ou então o secretário-geral do PCP devia ir muito mais às televisões e aos jornais e às chamadas redes sociais, montar lá banca, dizer uns tremendismos quaisquer, chamar nomes às pessoas, como os líderes do Chega e da Iniciativa Liberal, que esses dois, assim, toda a gente sabe quem são, embora também não falte quem confunda Mariana Leitão com a terceira Mortágua do Bloco de Esquerda, mas quanto a isso não há volta a dar.
Aqui atrasado, creio que em Fevereiro, ri-me com Paulo Raimundo, que comentava, a pedido dos jornalistas, o parlapiê de Luís Montenegro acerca do alegado programa de ajudas pós-tempestade Kristin, muito boas intenções, palavrinhas a abater e vou ali e venho já, o último a sair apague a luz. "Para sermos correctos e rigorosos, não há nada para comentar da resposta que não foi dada pelo primeiro-ministro, que tem realmente esta característica, consegue falar meia hora sem dizer nada", apontou, mais ou menos nestes termos, o líder comunista. Para rematar: "Se perguntassem assim: um comentário ao plano, não há plano; um comentário às medidas; não houve medidas; um comentário à gravata do senhor primeiro-ministro, isso posso comentar, é a única coisa possível de comentar". Raimundo no seu melhor, e ouvido no rádio da cozinha, naquele tom simpático, agradável, aparentemente neutro, ainda teve mais piada, dava para imaginar o que iria de malandrice naquela carinha de sonso ou talvez santo, afinal absolutamente tudo menos apparatchik. O secretário-geral do PCP parecia um artista de stund up destes modernos, qualquer dia vem ao Teatro-Cinema de Fafe e eu vou ver. Chamei a Mi para se rir comigo, contei-lhe, rimo-nos os dois, acertei o vinagre na cebolada para os carapaus fritos, descasquei as batatas partidas a meio e cozidas no ponto, queimei os dedos, fomos para a mesa e concluímos que Paulo Raimundo, ao contrário de outros, também havia de gostar daquela nossa comidinha tão caseira, podia muito bem estar ali connosco.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe)

sábado, 31 de outubro de 2026

Estava-se bem ao lume

Pensamento
- Gosto muito de pensar.
- O mundo?
- O gado.

Vêm-me à cabeça palavras assim, antigas, palavras que cheiram a terra, a chuva, a fumo, a infância. Engaço, ancinho, mangual, malho, arado, grade, enxada, sachola, forquilha, alvião, picareta, sacho, foice, gadanha, gadanho, padiola, rodo, espadela, roca, dobadoira, pipa, dorna, lagar, eira, eido, meda, braseira, lareira, cântaro, infusa, malga, pote, forno. Sem mais nem menos, não sei o que me dá, lembro-me delas, sou um rústico e pronto. Vêm-me palavras como roçada, vessada, monda, debulha, esfolhada, segada, pisada, merenda, presigo, penso, estrume, lavadura, sulfato. Acordo de mim, bruscamente, estão a atirar-me palavras como streaming, bullying, mainstream e primetime, empoderamento, visualizar, experienciar, vivenciar, recepcionar, percepcionar, metaverso, impactante, resiliência ou ecoansiedade - e escangalham-me tudo. Estafermos! Que bem que eu estava ao lume...

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Mundial das Cidades.)

O meu banco explora-me

Serei o único?
Eu acho estranho. Quanto mais faço o serviço do banco, mais o banco me cobra pelo serviço que não faz. É só comigo?

O meu banco escreve-me um email e diz-me: "Junto enviamos o seu extrato em formato digital. Pode agora consultar de forma rápida, cómoda e ecológica os movimentos do mês passado." O meu banco mente-me com quantos dentes lá guarda. O formato digital não é a forma mais rápida de eu consultar o meu extracto - o papel é que era; o formato digital não é a forma mais cómoda de eu consultar o meu extracto - o papel é que era; e não acredito que o meu banco tenha um cêntimo sequer de preocupação ecológica.
E que se segue? Indiferente aos meus mais veementes protestos e sucessivos atestados de velhice e antiguidade, o meu banco deixou mesmo de gastar papel comigo e, três anos depois, sem dizer água vai, passou a cobrar-me 5,41 euros mensais de "comissão de manutenção". E agora, sei lá se por derradeira vingança, obriga-me a ser eu próprio a realizar todo o (pouco) trabalho que antes fazia por mim. Quer-se dizer: para além de me mentir, o meu banco também me explora. Eu não me parece bem, lá isso não. Mas vou-me queixar a quem? Ao Totta? O meu banco é o Millennium, valha-me Deus...

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Mundial da Poupança.)

Despesas de manutenção efectivamente

"Despesas de manutenção?", perguntei, desconfiado. "Efectivamente despesas de manutenção, meu caro senhor", respondeu-me o senhor do banco. "Mas qual manutenção e qual efectivamente?", insisti, porque padeço dessa mania tola de insistir. "Efectivamente temos destacado um colega que diariamente e em exclusivo põe a arejar, limpa o pó e passa a ferro as vinte notas de cinquenta euros que o caro senhor em boa hora fez o favor de entregar à nossa guarda. É o gestor de conta de vosselência, assim lhe chamamos...", explicou-me o senhor do banco. "Ah, bom!, nesse caso efectivamente...", disse eu.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Mundial da Poupança.)

sexta-feira, 30 de outubro de 2026

O retrovisor na luta contra a pandemia

Mantendo a distância
Ele levava muito a sério as recomendações das autoridades sanitárias a propósito do afastamento físico. Mantinha a própria sombra a pelo menos metro e meio de distância.

O espelho retrovisor central é um instrumento da máxima importância dentro de um veículo automóvel. Serve para pendurar coisas. Não coisas quaisquer, à sorte, mas coisas próprias de pendurar num retrovisor. Por exemplo, seria impensável pendurar num retrovisor uma gabardina molhada ou um guarda-chuva aberto, porque o retrovisor não é um cabide nem uma banheira, é um retrovisor. E no retrovisor penduraram-se, ao longo da história, terços e senhoras de Fátima fosforescentes, relíquias sagradas da Terra Santa produzidas em série em São Pedro da Cova, árvores mágicas ambientadoras, castanholas, galhardetes dos Bombeiros de Montalegre, da Junta de Canas de Senhorim, da Câmara de Nelas, do Real Madrid e do Benfica, fitinhas amarelas e pretas da AD Fafe, e também azuis, miniaturas de casais minhotos e folclóricos, óculos de sol e óculos de chuva, porta-chaves, porta-aviões, trevos de quatro folhas, estrelas de cinco pontas, cornos de besouro ou escaravelho e cornos em geral, patas de coelho, figas, ferraduras, CD, mesmo séculos após ter passado a novidade, e durante a covid penduraram-se as máscaras. Exactamente: o sítio da máscara higiénica e sanitária que nos protege da peste e da morte é o retrovisor, o que só lhe aumenta a relevância - ao retrovisor.
Ora bem: eu não tenho carta de condução, não sei conduzir e não tenho carro. E faço questão de elencar mais uma vez estas três fundamentais asserções, porque elas, as asserções, parecendo sinónimas e redundantes, não o são, não o são. Não o são. Na verdade, há quem não tenha carta de condução, saiba conduzir e não tenha carro; há quem não tenha carta de condução, saiba conduzir e tenha carro; há quem tenha carta de condução, não saiba conduzir e não tenha carro; há quem tenha carta de condução, saiba conduzir e não tenha carro; e até há quem tenha carta de condução, saiba conduzir e tenha carro - o que é uma raríssima coincidência. O mais certo é eu não ter esgotado todas as variáveis possíveis, mas desconfio que já percebestes o meu ponto de vista: não tenho carta de condução, não sei conduzir e não tenho carro. Portanto, não tenho retrovisor.
Chegados aqui - de transporte público, evidentemente -, a grande dúvida que me sobra é esta: em caso de nova calamidade, Deus nos livre, onde é que eu penduro a máscara? Na cara com certeza que não, porque me corta o ar, impede-me a respiração, confunde-me até o raciocínio, e na testa ou na barbela, como fazem as outras pessoas, já me vi ao espelho e acho que me fica um bocadinho mal. Mas em caso de nova pandemia, insisto, e Deus nos livre, será que poderei substituir a máscara sufocante digamos que por um disco de vinil, um velho single de 7 polegadas, vá lá, com o nariz enfiado no buraco do meio, para ter algum arejo? Poderei? Alguém sabe dizer-me?...

Por outro lado. Retrovisor é notoriamente um visor retro (retrô, se lido no Brasil). Retro, diz a Wikipédia, é um estilo cultural desactualizado ou velho, uma tendência, hábito ou moda do passado pós-moderno global, mas que, com o tempo, se torna funcionalmente ou superficialmente a norma mais uma vez. Visor, diz o velho dicionário da Porto Editora, é um dispositivo dos aparelhos fotográficos que permite apanhar um campo fotográfico ajustado ao enquadramento e composição desejados, e que, em muitos casos, permite também verificar as condições de focagem. Temos portanto que: retrovisor é um dispositivo dos aparelhos fotográficos que permite apanhar um campo fotográfico ajustado ao enquadramento e composição desejados, e que, em muitos casos, permite também verificar as condições de focagem, num estilo cultural desactualizado ou velho, numa tendência, hábito ou moda do passado pós-moderno global, mas que, com o tempo, se torna funcionalmente ou superficialmente a norma mais uma vez. Retrovisor. Porque é que chamam isso ao espelho do carro?

(Do meu blogue Mistérios de Fafe)

quinta-feira, 29 de outubro de 2026

O fim do papel

Adepto ferrenho da modernidade e do digital, conseguiu finalmente acabar com o papel na sua empresa. Nas casas de banho notou-se logo.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Nacional da Desburocratização.)

O novo administrador

Ele tomou posse e imediatamente operou uma revolução completa na frota da empresa. Os veículos passaram a chamar-se viaturas.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Nacional da Desburocratização.)

quarta-feira, 28 de outubro de 2026

Os nossos velhinhos, coitadinhos

Quando for pequeno
"Quando for pequeno, quero ser palhaço e astronauta", disse o ancião, sonhador e triste. Com efeito, aquela sociedade funcionava às arrecuas: nascia-se velho e morria-se a chupar no dedo. Era naturalmente governada por garotos.

Hoje é Dia Mundial da Terceira Idade, dia dos nossos velhinhos, coitadinhos. Que festa tão bonita! Levantar cedo, roupinha de domingo, pó de talco e perfume, chá e bolachas e ala para a camioneta, nem que não queiram. Lá vão os nossos velhinhos de cu tremido, cantando bonitas cantigas do Quim Barreiros ditadas ao microfone pela senhora doutora da Junta, que até já foi ao Preço Certo e agora é candidata. Missinha, santa missinha, um regalo, nem que não queiram, e Quinta da Malafaia para enfartar a mula, nem que não queiram, tantos velhinhos, tantos velhinhos, ó que extraordinário velhódromo, velhinhos de tantos lados, atordoados, perdidos, sem saberem de que terra são, tantos senhores presidentes de câmara, sorridentes e abraçadeiros, de mesa em mesa, e os fotógrafos solícitos e oficiais sempre atrás, acotovelando-se, ai que dinheiro tão bem empregue pelo orçamento municipal, vêm aí as eleições! Os velhinhos sobreviventes, nem que não queiram, regressam ao sol-pôr com o saco cheio, nem sempre entregues na terra certa. De volta à naftalina, à indiferença e ao esquecimento, até daqui a um ano, se Deus quiser.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Mundial da Terceira Idade.)

terça-feira, 27 de outubro de 2026

Vamos andando, se Deus quiser

Católico, abstinente e automortificante
É um católico à moda antiga: abstinente, observante, penitente e automortificante. Por isso nunca vai a Fátima no dia 13 de Maio. Ir a Fátima todos os 13 de Maio seria para ele um enorme prazer, mas o prazer é pecado. E na Quaresma? Quarta-Feira de Cinzas e todas as sextas-feiras, só para se castigar, come bife com batatas fritas ao almoço e bife com batatas fritas ao jantar. É que ele gosta mais de peixe. Com batatas cozidas...

Estou numa fase porreira da vida, aquela do "se Deus quiser". É a velhice, suponho. Já cá cheguei, foi rápido, e nem fiquei surpreendido. Passou-se tudo mais ou menos como eu tinha previsto, embora não fizesse a mínima ideia do que realmente me iria acontecer. Do que me está a acontecer. E o que acontece é o seguinte: não tenho razões de queixa, pelo contrário. Sinto-me até bastante confortável com isto de o meu futuro, se o houver, já não estar nas minhas mãos, convém-me este novo sentimento de aprazível irresponsabilidade, não é nada comigo, sei lá bem o que se segue, se quiserdes saber ao certo perguntai-Lhe a Ele, que Ele é que sabe. Ele sabe tudo.
E nisto estamos, "se Deus quiser" acima, "se Deus quiser" abaixo. É o que eu digo. Por mais um segundo, por mais uma vida, não estou a par e não me incomoda, é-me indiferente, dá-me jeito. Todas as manhãs fico satisfeito, isso é certinho. A minha agenda nunca foi tão provisória, tão condicional, quase irrelevante, e eu tenho sempre tudo anotado, que trouxe essa mania do velho ofício de jornalista. É agora uma agenda "se Deus quiser", que costumo comprar todos os anos numa certa livraria da Rua da Junqueira, na Póvoa de Varzim, e a de 2027 vamos lá buscá-la na próxima quarta-feira, eu e a Mi, se Deus quiser. Pode haver greve no metro, estais a ver?
Eu também sabia tudo. Palavra de honra, eu sabia tudo de tudo e nem admitia que me dissessem o contrário. Depois cresci e, com os anos, deixei de saber. Não sei nada. Explicaram-me que me fizera homem, com algum atraso, mas que sim. Não sei. Em todo o caso, dá-me um enorme gozo a indomável ignorância que actualmente me assiste. Estou aqui numa espécie de limbo etário, quentinho mas arejado, já passei a idade das certezas e ainda não cheguei à idade das cismas, ou se calhar já lá cheguei e não as tenho, o que não deixa de ser também uma sorte do caraças. Está-se bem, é o que vos digo.
Acredito em poucas coisas na vida. Acredito no amor, na amizade e na bondade, a que gosto de chamar gentileza e decência. E quer-se dizer: amo e sou amado, tenho três ou quatro bons amigos, um deles é com certeza o melhor amigo do mundo, o melhor amigo que alguém poderia ter, e calhou-me a mim, conheci e conheço algumas pessoas gentis e decentes, tento também ser e amiúde consigo, que mais posso desejar?
Eu e o meu amigo, o meu maior amigo, temos muita tralha em comum - passado, gostos, tolérias, ideias, teorias e sonhos -, quase tudo nos une, inclusive uma incontrolável propensão para discordarmos um do outro em quase tudo o que nos une. Deus, por exemplo: eu acredito e ele não. Devo informar, no entanto, que o meu amigo já não acreditou mais do que não acredita hoje em dia, e isto, se for vitória de alguém, minha não é certamente, será dele e é bem feito.
O meu amigo padece de uma doença palerma que o incomoda de vez em quando, retendo-o em casa, nada de muito grave, para além da chatice, mas a esse respeito, quando lhe pergunto pela saúde, ele é como eu, mente com quantos dentes tem e diz-me invariavelmente que está bem, aliás, "impecável", aliás, "magnífico", aliás, "comoaço". Ele é mesmo assim: há-de estar no caixão e negar, será o morto mais saudável de todos os tempos, se Donald Trump não morrer antes, e é o mais certo. 
Eu e a Mi dizemo-nos "Vai com Deus", "Fica com Deus", e dizemo-lo também ao Kiko, o nosso filho. Também dizemos "Fica bem", "Vai com cuidado", evidentemente, mas metendo Deus ao barulho, chamando-O à responsabilidade, sou sincero, parece-me que o assunto fica melhor entregue, acho que temos mais garantias. Sou talvez um aproveitador descarado, um moina da fé, admito, mas não dou despesa à Igreja, e isso, estou em crer, deve contar a meu favor. 
Eu e Deus, que rica vida! Estou como quero, andando e vendo, tenho muitas graças a dar. Vou, então, queixar-me de quê? Do fígado? E quem foi que o escangalhou?...

(Do meu blogue Mistérios de Fafe)

A problemática do bairro problemático

Prò maneta
Mandavam-lhe: - Espirre ou tussa para a dobra do cotovelo ou, de preferência, para um lenço de papel, e depois deite-o fora! Ele não fazia nem uma coisa nem outra. Era muito distraído e tinha medo de se enganar.

Não se pode dizer negro, não se pode dizer cigano, não se pode dizer anão, não se pode dizer maneta, não se pode dizer drogado, não se pode dizer gatuno, não se pode dizer pedinte, não se pode dizer pistoleiro, não se pode dizer sexo. Mas problemático pode dizer-se. A CMTV é especialista em problemático, sabe tudo sobre a problemática do problemático, e as outras cmtv também. Ainda agora, agora mesmo, olhei para a televisão e verifiquei que foi falecido a tiro um jovem de 24 anos num "bairro problemático". Um bairro problemático, querem eles dizer, é um bairro onde moram negros, ciganos, anões, manetas, drogados, gatunos, pedintes, pistoleiros e gajos e gajas que se dedicam à indústria do género. Mas isto que não saia daqui.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia dos Jornalistas pela Paz.)

segunda-feira, 26 de outubro de 2026

Os livros estavam em boas mãos

E apeteceu-me dar-lhe um abraço
O homem caminhava vagarosamente ao lado da mulher. Curvado pelo peso de, fiz as contas, setenta e tantos anos, caminhava ainda assim com uma dignidade evidente. O homem velho, de casaco antigo, asseado, pé ante pé até ao café de praia e ao milagre do sol-pôr, levava as mãos atrás das costas. E nas mãos, reparei, um livrinho da Colecção Vampiro, a antiga: "O Imenso Adeus", de Raymond Chandler. Caramba!, és cá dos meus - pensei. E apeteceu-me dar-lhe um abraço.

A mania dos livros apanhei-a em Fafe, mal aprendi a somar letras, na biblioteca que na altura se chamava da Gulbenkian. Lembro-me muito bem da carrinha Citroën cinzenta em chapa canelada, a biblioteca itinerante, que frequentei uma ou duas vezes, estacionada à beira do Manel do Campo, mas o meu sítio já era edifício, do outro lado do Largo, em frente, creio que um primeiro-andar entre a loja do Damião Monteiro e a sapataria da esquina que dava para o beco da Polícia e em cima ou por baixo da Legião Portuguesa, o que certamente justificaria que fosse ali mesmo a meta de partida e de chegada da corrida de jericos dos 16 de Maio. Comecei pelas figuras, evidentemente. Depois procurei-me nos livros. E ia lá quase todos os dias. Em miúdo, ainda em tempo de escola primária, parece-me que sob a orientação rigorosa mas gentil do Senhor Alves, pai, espero não estar a dizer uma asneira muito grande, e depois já em moço, no meu regresso a casa pós-25 de Abril e pós-seminário, beneficiando da cumplicidade generosa e vanguardista do Professor Alberto Alves, que me abriu os olhos para um mundo inteiro que eu não sabia. Foi a minha sorte. Os livros são armas poderosas. E, em Fafe, estavam em boas mãos.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia da Biblioteca Escolar.)

A revolta dos ratos

Reescrevendo a história
Passou o João Ratão e disse: - Ó Laurindinha, vem à janela!...

Revoltaram-se os ratos. E pudera. Sistematicamente acusados de serem os primeiros a abandonar o navio, atropelando mulheres e crianças, apontados como sinónimo de cobarde, ladrão, manhoso ou vigarista, introduzidos à força em trocadilhos idiotas e em provérbios e ditos amiúde populares, estavam fartos de levar e calar. Os ratos e inclusive as ratas, muito mais doridas e por maioria de razão.
Revoltaram-se portanto os ratos. Organizaram-se. Chegada a horinha, meteram-se na fila, esperaram pela vez respectiva, marcaram o ponto e abandonaram ordeiramente o navio. Foram os últimos a sair. E apagaram a luz. Já em terra firme, os ratos dirigiram-se sem mais delongas à montanha que os pariu e roeram a rolha da garrafa do rei da Rússia. Todos, menos o Alcides, que era um rato de biblioteca e foi para o Café Avenida beber um dedal de rum e ler com todos os vagares "A Saga/Fuga de J.B.", de Gonzalo Torrente Ballester.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia da Biblioteca Escolar.)

domingo, 25 de outubro de 2026

As "repostas" eram para levar

Os senhores do tempo
A meteorologia é muito importante porque a meteorologia é que nos dá o tempo. Se não fosse a meteorologia não teríamos tempo e morríamos todos mais cedo, regra geral, ou nem sequer houvéramos nascido, que ainda podia ser pior.

Havia as respostas e havia, evidentemente, as "repostas", que eram respostas sem ésse no meio e queriam dizer outra coisa. As "repostas" eram um veículo de comunicação específico, personalizado, comunitário e geralmente eficaz. Funcionava boca a boca, como a respiração de emergência e os beijos como devem ser. Isto pelo menos em Fafe, mas suspeito que seria o mesmo por todo este baixo Minho interior aqui à roda, zona tão atreita à boa influência do velho dizer galego. Naquele tempo não existiam telemóveis e os telefones eram poucos. As respostas pediam-se, davam-se. As "repostas" mandavam-se, levavam-se. Isso mesmo, as "repostas" eram para levar. Iam de bicicleta, se fosse longe, e as mais prementes voavam de motorizada, a mil à hora e sem capacete. Era uma rede social, vamos dizer, que ia num pé e vinha no outro, às vezes já com a resposta à "reposta".
As respostas eram respostas. Davam-se sobretudo às perguntas. Respondia-se. Na escola, ao professor ou à professora, no exame de código, para a carta de condução, no médico da Caixa, para a baixa, à polícia fardada ou à paisana, por tudo e por nada, à mãe e ao pai, em casa, a toda a hora, respeitinho e bola baixa, às vezes os filhos eram um bocadinho "respondões", davam "má resposta" aos velhotes e, na passada, levavam um par de estalos, talvez dois ou três, o que, naquelas circunstâncias, não desfazendo, até seria a coisa mais natural do mundo. Para aprenderem a não "responder torto"...
As "repostas" eram recados, mensagens, avisos, urgências que se mandavam por alguém. Ia-se a casa das pessoas, aos empregos, à fábrica, à loja, à feira, à poça. Dizer-lhes que, dizer-lhes para. "Fulano mandou dizer que", "Sicrana mandou dizer para". Eram telegramas falados, e-mails entregues de viva voz, ordens para todos os efeitos. Avisava-se de vinho novo ou de funeral, convidava-se para a desfolhada ou para o casamento, informava-se da consulta do Porto e do preço do frete do carro de praça, enviava-se conta ou orçamento de obras feitas ou pensadas, entregava-se dinheiro vivo ou molhos de couves, pedia-se a assadeira emprestada para a vitela de domingo, mandava-se vir ao telefone a tal hora, que o filho ia ligar de França. Ou da guerra.
Também se ia buscar "repostas".
Tínhamos, graças a Deus, especialistas em levar e trazer "repostas", mensageiros de confiança, muito procurados e adequadamente gratificados. Porque às vezes o Diabo tecia-as. Às vezes o recado era mal dado ou mal compreendido, armavam-se terríveis confusões, metiam-se pessoas ao barulho, inventavam-se tragédias desnecessárias por causa de um nome trocado, de uma palavra errada, de uma falha de compreensão, felizmente depois tudo se esclarecia e voltava à paz do Senhor, beba mais um copo e não se fala mais nisso. Tanta dor, tanta alegria, tantas lágrimas, tantos gritos, tantas graças, tantas ameaças, amiúde até alguns tiros, e afinal era tudo para deitar fora. Foi engano.
Não tivemos essa sorte naquela manhã fria de Dezembro, há quase sessenta anos. A "reposta" foi mandada pelo Bô da Bomba à nossa casinha amarela, no Santo Velho, era só descer a rua. Que o nosso pai tinha morrido, assim nos disseram. E nunca mais veio o desmentido.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe)

Massas para todos os gostos

Ele gostava de uma boa massa à lavrador, de uma boa massa de marisco e sobretudo de uma boa massa de bacalhau. Também concordava com a vacinação em massa. Quanto à massa de ar quente, não é que desgostasse, mas afligia-o sobremaneira a flatulência.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Mundial das Massas.)