Luís Filipe Barros não canta, não toca, que me conste, mas é uma lenda viva do rock'n'roll. É português e da rádio, e quem não souber dele o melhor é procurá-lo na Wikipédia, porque eu aqui não faço desenhos. Conviveu com os Pink Floyd, com os Bon Jovi e com os Deep Purple, quase partiu uma perna ao vocalista dos Supertramp, ensinou a aguardente aos Spandau Ballet, levou os Police ao Jamaica, estendeu ao comprido o líder dos Clash, mas tudo começou com... Herman José.
Anos oitenta do século passado. Luís Filipe Barros era uma das vozes da moda e gozava do estatuto de verdadeira vedeta. "Ia aos restaurantes, almoçava ou jantava, mas não pagava. Nos bares, bebia sempre à borla. Ia às discotecas, aos fins-de-semana, e ainda ganhava dinheiro. Eram realmente bons tempos...", dizia-me o famoso radialista há coisa de nove anos, para um trabalho na revista 24horas.
Nas deslocações ao Norte, um dos seus companheiros de viagem costumava ser Herman José, que também fazia o circuito das discotecas. "Íamos para o Porto na sexta-feira e regressávamos a Lisboa no domingo à noite, a contar notas, cada um para o seu lado, no comboio". Da primeira vez havia em Campanhã uma pequena multidão de fãs à espera, agitando cartazes. Luís julgava que era para o Herman, mas não, era mesmo para ele...
O importante papel que Luís Filipe Barros desempenhava como divulgador musical na rádio portuguesa introduzia-o na intimidade das estrelas de rock que visitavam Portugal ou Espanha. Uma vez, em Madrid, foi convidado para jantar com os Pink Floyd, após concerto. Contou-me: "Eu estava cheio de fome, queria comer o meu bife, mas os gajos andavam numa de emagrecer e tinham marcado num restaurante japonês. Foi uma desgraça: peixe cru e salada de violetas, naquela altura eu sabia lá o que isso era. Mas dava para perceber que os tipos já não podiam ver o Roger Waters. Tinha a mania que mandava em tudo, lá por o Sid Barrett ser maluco..."
Aos Supertrump, que andavam também nos cornos da lua com o "Breakfast in America", Luís Filipe Barros ia dando cabo dos dois concertos agendados para Cascais. Alguém teve a infeliz ideia de organizar um jogo de futebol entre os músicos e a equipa da chamada comunicação social. Luís, do lado dos jornalistas, levou a coisa a sério (à séria, se lido em Lisboa) e... ia partindo uma perna ao vocalista da banda britânica. Confessou: "Dei uma trancada tamanha no Roger Hodgson, que quase não havia concerto para ninguém. Fui expulso e tudo..."
Outro que levou que contar foi Joe Strummer, a voz dos Clash, num espectáculo em que o nosso Luisinho "quase andava à pêra com um gajo da segurança que estava com eles e tinha uma boina do IRA". Com o grupo em palco a tocar na maior desorganização, dado o adiantado estado de embriaguez e não só em que todos se encontravam, Strummer pediu a Luís Filipe Barros que o ajudasse a subir ao estrado. E o radialista deu o seu melhor: "Empurrei-o para o palco, mas quando chegou lá acima, embalado, faltaram-lhe as pernas e ele espalhou-se ao comprido à frente de dez mil pessosas. Foi um trambolhão monumental".
Em abono da verdade, deve dizer-se que Luís Filipe Barros tinha por hábito desencaminhar o pessoal para os copos, no "Snob ou no Bairro Alto", depois dos concertos. Uma noite levou o Stewart Copland a esse baluarte do bas-fond lisboeta que era o bar Jamaica, e o baterista dos Police gostou tanto que, bem bebido, "já estava a querer comprar aquilo..."
Outra vez pegou nos aprumadinhos Spandau Ballet e ala até à Costa da Caparica, para almoço. Comeram sardinhas assadas e "adoraram", porém perderam-se pela aguardente. Emborcaram uma garrafa inteira, e desde esse dia - recordou o Luís -, "quando davam uma entrevista à MTV, diziam sempre que Portugal tinha a melhor bebida do mundo: o bagaço".
E enfim um extra. Luís Filipe Barros no camarim dos Bon Jovi. "Nunca tinha visto nem nunca mais voltei a ver uma cena assim: o baterista "Tico" Torres, em cuecas e de barrete na cabeça, passando as calças a ferro..."
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terça-feira, 26 de setembro de 2017
Comendo salada de violetas com os Pink Floyd
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quinta-feira, 8 de dezembro de 2016
As dez maiores tangas da História de Portugal 10
10. A Padeira de Aljubarrota. É a chamada mulher de barba rija. Feia, grande, cabelos espetados, seis dedos em cada mão e forte como um hércules. E o nome, Brites de Almeida, também lhe fica ao modo, tal como um certo comportamento masculino e o bigode de que ninguém fala mas que certamente. Assim seria a Padeira de Aljubarrota, segundo a tradição popular, porém já se sabe: quem conta um conto acrescenta um ponto, e assim nasce o mito.
Esta padeira nunca existiu. Ainda assim, a lenda liga-a à Batalha de Aljubarrota e ao massacre que se lhe teria seguido, mas que também nunca aconteceu. Brites seria a líder de um grupo de populares que perseguiu os castelhanos em fuga, tendo-se emboscado e morto com as as próprias mãos muitos deles.
Nessa noite de 14 de Agosto de 1385, a padeira chegou a casa e encontrou sete espanhóis escondidos no forno onde costumava cozer o pão. Sem pestanejar, ou ainda que pestanejando derivado à farinha, pegou na pá e bateu-lhes até os matar, um a um, à medida que os dresgraçados iam saindo do forno.
Francisco Ribeiro da Silva, professor catedrático e historiador, quando com ele falei sobre o assunto, colocou a Padeira de Aljubarrota na classe dos "mitos simpáticos que sublinham muito justamente o importante papel de algumas mulheres na História de Portugal", ao lado, por exemplo, da Maria da Fonte...
Esta série, que hoje termina, saquei-a de um trabalho que escrevi para a revista de fim-de-semana do jornal 24horas, em Março de 2007, introduzindo-lhe as necessárias adaptações temporais e porventura, involuntariamente, alguns erros de transcrição. Era um ranking, "Os 10 maiores mitos da História de Portugal", e, para o fazer, pedi a ajuda de especialistas reputados: Manuela Mendonça, historiadora e presidente da Academia Portuguesa de História, os historiadores e professores catedráticos António Manuel Hespanha, Fernando de Sousa e Francisco Ribeiro da Silva, o escritor e historiador portuense Hélder Pacheco e o arqueólogo e historiador Joel Cleto.
Para além dos dez mais, já vistos, sobrou uma longa e curiosa lista de outros mitos aos quais, por uma unha negra, calhou a rolha de cortiça, também chamada de "menção honrosa"...
A saber: Radicalismo do primeiro liberalismo; Antiguidade do sentido nacional; Fidelidade da coroa à Santa Sé; Igreja espoliada pelo Estado liberal; Natureza fascista do regime de Salazar; País sem sociedade civil, dependente do Estado; Empenhamento da oposição republicana no combate ao analfabetismo; Republicanismo do Porto e do Norte; Cortes de Lamego de 1143; Tratado de Methuen de 1703; Sebastião José de Carvalho e Melo (Marquês de Pombal); Associações religiosas ou de tendência secretista; Somos um país atrasado; Salazar, o salvador da Pátria; Infante D. Henrique nos Painéis de S. Vicente; Pedro Álvares Cabral; Viriato; Estilo das igrejas medievais românicas; Desembarque dos Bravos do Mindelo; Menires e antas, obra de mouros ou celtas; Imagem de Nossa Senhora de Fátima; Sapateiro de Trancoso; Sousa Martins; Velho do Restelo; O rei das estradas; Corpo incorrupto de D. João II.
(Mais sobre portuguesas de barba rija, num registo completamente diferente, aqui)
Esta padeira nunca existiu. Ainda assim, a lenda liga-a à Batalha de Aljubarrota e ao massacre que se lhe teria seguido, mas que também nunca aconteceu. Brites seria a líder de um grupo de populares que perseguiu os castelhanos em fuga, tendo-se emboscado e morto com as as próprias mãos muitos deles.
Nessa noite de 14 de Agosto de 1385, a padeira chegou a casa e encontrou sete espanhóis escondidos no forno onde costumava cozer o pão. Sem pestanejar, ou ainda que pestanejando derivado à farinha, pegou na pá e bateu-lhes até os matar, um a um, à medida que os dresgraçados iam saindo do forno.
Francisco Ribeiro da Silva, professor catedrático e historiador, quando com ele falei sobre o assunto, colocou a Padeira de Aljubarrota na classe dos "mitos simpáticos que sublinham muito justamente o importante papel de algumas mulheres na História de Portugal", ao lado, por exemplo, da Maria da Fonte...
Esta série, que hoje termina, saquei-a de um trabalho que escrevi para a revista de fim-de-semana do jornal 24horas, em Março de 2007, introduzindo-lhe as necessárias adaptações temporais e porventura, involuntariamente, alguns erros de transcrição. Era um ranking, "Os 10 maiores mitos da História de Portugal", e, para o fazer, pedi a ajuda de especialistas reputados: Manuela Mendonça, historiadora e presidente da Academia Portuguesa de História, os historiadores e professores catedráticos António Manuel Hespanha, Fernando de Sousa e Francisco Ribeiro da Silva, o escritor e historiador portuense Hélder Pacheco e o arqueólogo e historiador Joel Cleto.
Para além dos dez mais, já vistos, sobrou uma longa e curiosa lista de outros mitos aos quais, por uma unha negra, calhou a rolha de cortiça, também chamada de "menção honrosa"...
A saber: Radicalismo do primeiro liberalismo; Antiguidade do sentido nacional; Fidelidade da coroa à Santa Sé; Igreja espoliada pelo Estado liberal; Natureza fascista do regime de Salazar; País sem sociedade civil, dependente do Estado; Empenhamento da oposição republicana no combate ao analfabetismo; Republicanismo do Porto e do Norte; Cortes de Lamego de 1143; Tratado de Methuen de 1703; Sebastião José de Carvalho e Melo (Marquês de Pombal); Associações religiosas ou de tendência secretista; Somos um país atrasado; Salazar, o salvador da Pátria; Infante D. Henrique nos Painéis de S. Vicente; Pedro Álvares Cabral; Viriato; Estilo das igrejas medievais românicas; Desembarque dos Bravos do Mindelo; Menires e antas, obra de mouros ou celtas; Imagem de Nossa Senhora de Fátima; Sapateiro de Trancoso; Sousa Martins; Velho do Restelo; O rei das estradas; Corpo incorrupto de D. João II.
(Mais sobre portuguesas de barba rija, num registo completamente diferente, aqui)
quarta-feira, 7 de dezembro de 2016
As dez maiores tangas da História de Portugal 9
9. O país dos brandos costumes. Quando nos lembramos de condescender e gostarmos de nós, gabamo-nos de sermos heróis do mar, nobre povo, nação valente - porém sobretudo um país de brandos costumes, como se diz, uma gente mansa, tolerante, de lágrima fácil, avessa a qualquer tipo de violência, vivendo o seu dia-a-dia na paz dos anjos e na melhor das concórdias com vizinhos e forasteiros. Assim nos vemos.
Evidentemente que podemos pensar que somos assim, mas não somos.
"Essa ideia do país dos brandos costumes é uma rematada mentira - ensinava-me aqui atrasado o historiador portuense Hélder Pacheco. - A nossa História demonstra que somos exactamente o contrário".
Basta pensar, com efeito, "no quotidiano do nosso interior", segundo Pacheco, ou no Portugal profundo, como dizem os portugueses muito licenciados e mestrados mas que só conseguem respirar à superfície, onde as pequenas heranças são disputadas a tiro de caçadeira e os regos de água são discutidos à sacholada, sobretudo entre irmãos...
Bondará lembrar também, tornando à História de caixa alta, "as situações de extrema violência e intolerância" perpetradas por portugueses contra portugueses, para não ir mais longe, "durante a guerra civil entre liberais e absolutistas ou no tempo da Primeira República".
E mais disse Hélder Pacheco: "Portugal é um país que viveu em ditadura! Onde estavam então os brandos costumes? O que nós somos é um país em que as relações entre as pessoas e a sociedade foram sempre pautadas por grande violência, intolerância e, em muitos casos, rondando os limites da civilização. Veja-se o que se passa hoje com a violência exercida, no nosso país, sobre as mulheres e sobre as crianças"...
E toma lá, que já almoçaste!...
Evidentemente que podemos pensar que somos assim, mas não somos.
"Essa ideia do país dos brandos costumes é uma rematada mentira - ensinava-me aqui atrasado o historiador portuense Hélder Pacheco. - A nossa História demonstra que somos exactamente o contrário".
Basta pensar, com efeito, "no quotidiano do nosso interior", segundo Pacheco, ou no Portugal profundo, como dizem os portugueses muito licenciados e mestrados mas que só conseguem respirar à superfície, onde as pequenas heranças são disputadas a tiro de caçadeira e os regos de água são discutidos à sacholada, sobretudo entre irmãos...
Bondará lembrar também, tornando à História de caixa alta, "as situações de extrema violência e intolerância" perpetradas por portugueses contra portugueses, para não ir mais longe, "durante a guerra civil entre liberais e absolutistas ou no tempo da Primeira República".
E mais disse Hélder Pacheco: "Portugal é um país que viveu em ditadura! Onde estavam então os brandos costumes? O que nós somos é um país em que as relações entre as pessoas e a sociedade foram sempre pautadas por grande violência, intolerância e, em muitos casos, rondando os limites da civilização. Veja-se o que se passa hoje com a violência exercida, no nosso país, sobre as mulheres e sobre as crianças"...
E toma lá, que já almoçaste!...
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terça-feira, 6 de dezembro de 2016
As dez maiores tangas da História de Portugal 8
8. Os mouros maus. A verdade é só uma: ensinaram-nos desde pequeninos que os mouros são maus como as cobras, infiéis até dar com um pau. Mas isso é, historicamente, uma mentira. Os mouros eram e são, de uma forma geral, boa gente.
"Nós fomos muito mais intolerantes do que eles", dizia-me aqui há uns anos o professor Fernando de Sousa, num opinião aliás corroborada pelo também historiador Joel Cleto, que não tinha dúvidas em afirmar que "os mouros não foram tão maus quanto os pintam" - uns bárbaros, a bem dizer...
"Omitimos sistematicamente os avanços culturais e científicos das comunidades muçulmanas que o fundamentalismo religioso cristão destruiu", denunciava Cleto. "Estamos habituados a vê-los sempre como os maus da fita, sem reconhecermos a grandeza da cultura islâmica", lamentava, por seu lado, Hélder Pacheco.
De acordo com os livros, os mouros são um povo árabe-berbere que conquistou a península ibérica lá pelo século oitavo. Contablizadas invasões e cruzadas, conquistas e reconquitas, de parte a parte, os especialistas que ouvi concluíam que é capaz de ser um bocadinho exagerado ver os mouros apenas como gerreiros e sanguinários. Ou então recomenda-se que nos espreitemos ao espelho. Porque - nesta história dos mouros -, os portugueses, os europeus, também não ficámos nada bem na fotografia...
"Nós fomos muito mais intolerantes do que eles", dizia-me aqui há uns anos o professor Fernando de Sousa, num opinião aliás corroborada pelo também historiador Joel Cleto, que não tinha dúvidas em afirmar que "os mouros não foram tão maus quanto os pintam" - uns bárbaros, a bem dizer...
"Omitimos sistematicamente os avanços culturais e científicos das comunidades muçulmanas que o fundamentalismo religioso cristão destruiu", denunciava Cleto. "Estamos habituados a vê-los sempre como os maus da fita, sem reconhecermos a grandeza da cultura islâmica", lamentava, por seu lado, Hélder Pacheco.
De acordo com os livros, os mouros são um povo árabe-berbere que conquistou a península ibérica lá pelo século oitavo. Contablizadas invasões e cruzadas, conquistas e reconquitas, de parte a parte, os especialistas que ouvi concluíam que é capaz de ser um bocadinho exagerado ver os mouros apenas como gerreiros e sanguinários. Ou então recomenda-se que nos espreitemos ao espelho. Porque - nesta história dos mouros -, os portugueses, os europeus, também não ficámos nada bem na fotografia...
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segunda-feira, 5 de dezembro de 2016
As dez maiores tangas da História de Portugal 7
7. O Adamastor. A culpa foi do Camões. No canto V de "Os Lusíadas", o nosso Épico fala do aterrador gigante do cabo das Tormentas (ou Cabo da Boa Esperança, como lhe chamou D. João II, após a passagem de Bartolomeu Dias) que afundava naus sem dó nem piedade e se desfazia em lágrimas depois da maldade feita. Primeira dica: as "lágrimas" eram as águas salgadas e revoltas da assanhada confluência do oceano Atlântico com o oceano Índico, a sul da Cidade do Cabo, na África do Sul.
É sabido, Luís de Camões foi buscar o nosso Adamastor à mitologia greco-romana. O Poeta queria representar as grandes forças da natureza, o poder dos elementos, as violentas tempestades que, naquela zona do mundo, tentavam impedir o avanço heróico dos Portugueses rumo à Índia. E pintou-as como um mostrengo vigilante e vingativo, espécie de porteiro de discoteca que não deixava passar ninguém: De disforme e grandíssima estatura, / O rosto carregado, a barba esquálida, / Os olhos encovados, e a postura / Medonha e má, e a cor terrena e pálida, / Cheios de terra e crespos os cabelos, / A boca negra, os dentes amarelos.
Mas era apenas um cabo, senhores, nem sequer sargento. Um cabo e geográfico. Por sinal, bem difícil de dobrar e com muitos naufrágios para contar.
É sabido, Luís de Camões foi buscar o nosso Adamastor à mitologia greco-romana. O Poeta queria representar as grandes forças da natureza, o poder dos elementos, as violentas tempestades que, naquela zona do mundo, tentavam impedir o avanço heróico dos Portugueses rumo à Índia. E pintou-as como um mostrengo vigilante e vingativo, espécie de porteiro de discoteca que não deixava passar ninguém: De disforme e grandíssima estatura, / O rosto carregado, a barba esquálida, / Os olhos encovados, e a postura / Medonha e má, e a cor terrena e pálida, / Cheios de terra e crespos os cabelos, / A boca negra, os dentes amarelos.
Mas era apenas um cabo, senhores, nem sequer sargento. Um cabo e geográfico. Por sinal, bem difícil de dobrar e com muitos naufrágios para contar.
domingo, 4 de dezembro de 2016
As dez maiores tangas da História de Portugal 6
6. O luso-tropicalismo. Na definição de António Manuel Hespanha, quando lha pedi, o luso-tropicalismo é aquela ideia bonita sobre "a natureza especial do povo português para um convívio harmónico e não discriminatório com outras raças", essa extraordinária habilidade civilizacional de sermos mansos que viria desde os tempos em que o País andava de cueiros e até hoje.
E vai-se a ver, uma treta. O professor universitário e historiador ensinou-me que, pelo contrário, Portugal "exerceu e manteve até mais tarde do que a generalidade dos países um domínio duro e discriminatório sobre os povos colonizados". E só para piorar a nossa fotografia a preto e branco: apesar da letra das constituições oitocentistas, Portugal "não concedeu direitos aos "portugueses do Ultramar", aboliu a escravatura muito tarde e descolonizou em último lugar"...
O professor Fernando Sousa iria ainda mais longe, garantindo-me que "os Portugueses não mataram tanto como os Espanhóis porque no Brasil não havia muita população"... De resto, o historiador recordou-me que "se multiplicaram as matanças" nas Campanhas de África e durante a I Guerra Mundial, como já tinha acontecido antes no Oriente, onde "saqueávamos e matávamos com facilidade e regularidade".
Meninos para o preciso, éramos. Somos?
E vai-se a ver, uma treta. O professor universitário e historiador ensinou-me que, pelo contrário, Portugal "exerceu e manteve até mais tarde do que a generalidade dos países um domínio duro e discriminatório sobre os povos colonizados". E só para piorar a nossa fotografia a preto e branco: apesar da letra das constituições oitocentistas, Portugal "não concedeu direitos aos "portugueses do Ultramar", aboliu a escravatura muito tarde e descolonizou em último lugar"...
O professor Fernando Sousa iria ainda mais longe, garantindo-me que "os Portugueses não mataram tanto como os Espanhóis porque no Brasil não havia muita população"... De resto, o historiador recordou-me que "se multiplicaram as matanças" nas Campanhas de África e durante a I Guerra Mundial, como já tinha acontecido antes no Oriente, onde "saqueávamos e matávamos com facilidade e regularidade".
Meninos para o preciso, éramos. Somos?
sábado, 3 de dezembro de 2016
As dez maiores tangas da História de Portugal 5
5. A perda da independência em 1580. Andamos nós com uma osga desgraçada aqui aos vizinhos do lado (já andámos mais, segundo parece...) e afinal sem razão nenhuma. A "opressão filipina" é uma aldrabice e o "domínio espanhol" também não lhe fica atrás.
O historiador e professor catedrático António Manuel Hespanha explicou-me aqui há uns anos que, apesar de todas as aparências, "Portugal conservou a sua independência em 1580, mediante um pacto celebrado, em Tomar, com o pretendente ao trono que melhores créditos jurídicos parece ter apresentado". Exactamente o nosso primeiro Filipe.
"Os duques de Bragança aceitaram e juraram o novo rei, tendo sido o pacto largamente inspirado num projecto português do século anterior", curiosamente prevenindo "o caso de a coroa de Espanha vir a recair na cabeça do filho de D. Manuel I", fazia notar o respeitado investigador.
E a verdade é que, tirando o consulado do conde-duque de Olivares - que tinha uma visão política centralista, à moda do seu contemporâneo cardeal Richelieu -, até parece que o pacto funcionou bem. Tanto assim que outro especialista, o também professor catedrático e historiador Francisco Ribeiro da Silva, considerava que "a visão catastrofista e derrotista do governo dos Filipes em Portugal entre 1580 e 1640 é um mito injusto", recusando classificar estes 60 anos como "período de afundamento" do nosso país.
E olé!...
O historiador e professor catedrático António Manuel Hespanha explicou-me aqui há uns anos que, apesar de todas as aparências, "Portugal conservou a sua independência em 1580, mediante um pacto celebrado, em Tomar, com o pretendente ao trono que melhores créditos jurídicos parece ter apresentado". Exactamente o nosso primeiro Filipe.
"Os duques de Bragança aceitaram e juraram o novo rei, tendo sido o pacto largamente inspirado num projecto português do século anterior", curiosamente prevenindo "o caso de a coroa de Espanha vir a recair na cabeça do filho de D. Manuel I", fazia notar o respeitado investigador.
E a verdade é que, tirando o consulado do conde-duque de Olivares - que tinha uma visão política centralista, à moda do seu contemporâneo cardeal Richelieu -, até parece que o pacto funcionou bem. Tanto assim que outro especialista, o também professor catedrático e historiador Francisco Ribeiro da Silva, considerava que "a visão catastrofista e derrotista do governo dos Filipes em Portugal entre 1580 e 1640 é um mito injusto", recusando classificar estes 60 anos como "período de afundamento" do nosso país.
E olé!...
sexta-feira, 2 de dezembro de 2016
As dez maiores tangas da História de Portugal 4
4. Egas Moniz. Estão a ver o filme? Egas Moniz o aio, rodeado pela família, todos descalços e de corda ao pescoço, apresentando-se à corte do castelhano Afonso VII, em Toledo, pronto a expiar radicalmente a falta de palavra do seu senhor, D. Afonso Henriques?
Corta! Esta cena nunca aconteceu. Mais: o historiador Joel Cleto fez o favor de me garantir que Egas Moniz, ao contrário do que nos ensinaram na escola, "não criou nem foi aio" do primeiro rei de Portugal. Ele era apenas "um nobre de segundo plano no tempo da formação da nacionalidade", que um seu descendente, trovador na corte de Afonso III o nosso, quis engrandecer, como "forma de promover a sua própria linhagem e, logo, de se autopromover".
Cleto fazia notar que "a tentação de reescrever a História sempre foi muito forte" no nosso país, não faltando por aí "adulterações motivadas por factores religiosos, nacionalistas e até pessoais". Como aqui neste caso, em que uma invenção familiar transformou Egas Moniz no aio e cavaleiro que mal-educara D. Afonso Henriques. O certo, porém, é que - como concluía o comunicador televisivo - "a mentira pegou" e rende "desde o século XIII até aos nossos dias"...
(Mais sobre Egas Moniz, num registo completamente diferente, aqui)
Corta! Esta cena nunca aconteceu. Mais: o historiador Joel Cleto fez o favor de me garantir que Egas Moniz, ao contrário do que nos ensinaram na escola, "não criou nem foi aio" do primeiro rei de Portugal. Ele era apenas "um nobre de segundo plano no tempo da formação da nacionalidade", que um seu descendente, trovador na corte de Afonso III o nosso, quis engrandecer, como "forma de promover a sua própria linhagem e, logo, de se autopromover".
Cleto fazia notar que "a tentação de reescrever a História sempre foi muito forte" no nosso país, não faltando por aí "adulterações motivadas por factores religiosos, nacionalistas e até pessoais". Como aqui neste caso, em que uma invenção familiar transformou Egas Moniz no aio e cavaleiro que mal-educara D. Afonso Henriques. O certo, porém, é que - como concluía o comunicador televisivo - "a mentira pegou" e rende "desde o século XIII até aos nossos dias"...
(Mais sobre Egas Moniz, num registo completamente diferente, aqui)
quinta-feira, 1 de dezembro de 2016
As dez maiores tangas da História de Portugal 3
3. A escola náutica de Sagres. Esta é muito boa: a famosa Escola Náutica de Sagres "nunca existiu", garantia-me o professor catedrático e historiador Fernando Sousa, há coisa de nove anos, para um trabalho que fiz na revista do jornal 24horas. E ele não estava sozinha nesta certeza absoluta. António Manuel Hespanha, reputado historiador e jurista, também não reconhecia a existência dessa tal "academia" alegadamente fundada e dirigida pelo Infante D. Henrique e onde se reuniriam "astrónomos, cartógrafos e pilotos, produzindo um conhecimento científico sistemático para guiar as navegações dos portugueses". Isto é galga, e das antigas, uma espécie de lenda que muitos acreditam ter sido inventada por historiadores ingleses e portugueses.
O professor Francisco Ribeiro da Silva ainda admitia que o título de "o Navegador" dado ao Infante até "não seja historicamente desajustado", mas a verdade é que não havia escola náutica nenhuma.
Rezava a tradição que D. Henrique criou a Escola de Sagres por volta de 1417, no Algarve, e ali teriam sido formados grandes descobridores de mares e mundos como Vasco da Gama ou Cristóvão Colombo.
Um histórico exagero! Se calhar o Infante até teve essa ideia luminosa, mas as dificuldades que encontrou - ontem como hoje - seriam tantas que não conseguiu realizá-la. E, no entanto, os Descobrimentos lá foram acontecendo...
O professor Francisco Ribeiro da Silva ainda admitia que o título de "o Navegador" dado ao Infante até "não seja historicamente desajustado", mas a verdade é que não havia escola náutica nenhuma.
Rezava a tradição que D. Henrique criou a Escola de Sagres por volta de 1417, no Algarve, e ali teriam sido formados grandes descobridores de mares e mundos como Vasco da Gama ou Cristóvão Colombo.
Um histórico exagero! Se calhar o Infante até teve essa ideia luminosa, mas as dificuldades que encontrou - ontem como hoje - seriam tantas que não conseguiu realizá-la. E, no entanto, os Descobrimentos lá foram acontecendo...
quarta-feira, 30 de novembro de 2016
As dez maiores tangas da História de Portugal 2
2. O sebastianismo. Cuidado! Este é "um mito perigoso", na opinião do professor catedrático e historiador Francisco Ribeiro da Silva. "A expectativa messiânica de um rei (de um ser poderoso) vindo de fora do tempo e que resolverá os problemas do País pode levar à demissão e à desistência de lutar proactivamente pela resolução dos problemas, na esperança de que eles se acabão por resolver", justificava o reputado académico, num texto que publiquei na revista do jornal 24horas sobre "Os
10 maiores mitos da História de Portugal", em Março de 2007.
O Desejado ou Encoberto, o regresso de D. Sebastião, numa manhã de nevoeiro, para salvar a Nação do domínio espanhol de todos os tempos, "é uma ideia muito negativa para o País", alertava também Hélder Pacheco, escritor e historiador portuense. "Desde D. Sebastião que estamos sempre à espera do salvador, quando a salvação nacional está em nós, na nossa energia e no nosso esforço", acrescentava.
A lenda místico-secular cresceu em Portugal na segunda metade do século XVI: D. Sebastião morreu com apenas 24 anos, na Batalha de Alcácer-Quibir, mas o povo não quis acreditar. Virou os olhos para as costas de África e sentou-se à espera do rei morto que haveria de voltar vivo. Até hoje.
O Desejado ou Encoberto, o regresso de D. Sebastião, numa manhã de nevoeiro, para salvar a Nação do domínio espanhol de todos os tempos, "é uma ideia muito negativa para o País", alertava também Hélder Pacheco, escritor e historiador portuense. "Desde D. Sebastião que estamos sempre à espera do salvador, quando a salvação nacional está em nós, na nossa energia e no nosso esforço", acrescentava.
A lenda místico-secular cresceu em Portugal na segunda metade do século XVI: D. Sebastião morreu com apenas 24 anos, na Batalha de Alcácer-Quibir, mas o povo não quis acreditar. Virou os olhos para as costas de África e sentou-se à espera do rei morto que haveria de voltar vivo. Até hoje.
terça-feira, 29 de novembro de 2016
As dez maiores tangas da História de Portugal
1. O milagre de Ourique. E Deus apareceu a D. Afonso Henriques, o bate-na-mãe, e disse-lhe ao ouvido, no meio daquela confusão deveras desagradável da Batalha de Ourique: "In hoc signo vinces". Que quer dizer: "Com este sinal vencerás", mas tinha de ser em latim, porque naquele tempo era assim que o Senhor falava, até ordem em contrário do Concílio Vaticano II. Deus, que era obviamente por nós, os bons, garantiu ao nosso primeiro rei a vitória sobre os exércitos de cinco-reis-mouros-cinco e prometeu-lhe que Portugal seria eterno. E assim foi e será, até ver...
O chamado milagre de Ourique faz parte de uma curiosa lista de petas da História portuguesa, factos, figuras ou ideias que toda a gente acha que aconteceram ou existiram, mas que afinal não passam de aldrabices, ou que então, vendo melhor, não foram bem assim como se conta. A maioria destas mentiras era (é?) ensinada nos bancos das escolas.
Com a ajuda de um conceituado naipe de especialistas, fiz para a revista de sábado do jornal 24horas uma espécie de ranking dos "10 maiores mitos da História de Portugal". Foi em Março de 2007.
A propósito de Ourique, o professor catedrático e historiador Fernando de Sousa não podia ter sido mais categórico: "Está provado que a Batalha de Ourique é uma fraude e o "milagre" é apócrifo", isto é, foi colado à História mais tarde.
Por seu lado, Joel Cleto, arqueólogo, historiador e actual comunicador televisivo no Porto Canal, considerava a Batalha de Ourique (em 25 de Julho de 1137) como "um episódio histórico fulcral na formação da nacionalidade", se bem que realmente "enriquecido", já no século XIV, com a invenção do "milagre". "Trata-se evidentemente de um mito, criado numa época de alguma incerteza quanto ao futuro do País (por causa, por exemplo, das guerras de D. Fernando contra Castela ou da crise de 1383-1385) e que, por contraponto, vinha justificar não só a independência do reino de Portugal, mas também que a sua existência era inevitável face aos desígnios e vontade divinos", explicava então.
(Mais sobre Afonso Henriques, num registo completamente diferente, aqui)
O chamado milagre de Ourique faz parte de uma curiosa lista de petas da História portuguesa, factos, figuras ou ideias que toda a gente acha que aconteceram ou existiram, mas que afinal não passam de aldrabices, ou que então, vendo melhor, não foram bem assim como se conta. A maioria destas mentiras era (é?) ensinada nos bancos das escolas.
Com a ajuda de um conceituado naipe de especialistas, fiz para a revista de sábado do jornal 24horas uma espécie de ranking dos "10 maiores mitos da História de Portugal". Foi em Março de 2007.
A propósito de Ourique, o professor catedrático e historiador Fernando de Sousa não podia ter sido mais categórico: "Está provado que a Batalha de Ourique é uma fraude e o "milagre" é apócrifo", isto é, foi colado à História mais tarde.
Por seu lado, Joel Cleto, arqueólogo, historiador e actual comunicador televisivo no Porto Canal, considerava a Batalha de Ourique (em 25 de Julho de 1137) como "um episódio histórico fulcral na formação da nacionalidade", se bem que realmente "enriquecido", já no século XIV, com a invenção do "milagre". "Trata-se evidentemente de um mito, criado numa época de alguma incerteza quanto ao futuro do País (por causa, por exemplo, das guerras de D. Fernando contra Castela ou da crise de 1383-1385) e que, por contraponto, vinha justificar não só a independência do reino de Portugal, mas também que a sua existência era inevitável face aos desígnios e vontade divinos", explicava então.
(Mais sobre Afonso Henriques, num registo completamente diferente, aqui)
domingo, 11 de janeiro de 2015
sábado, 13 de dezembro de 2014
Sócrates escutado a pedir dinheiro a amigo
Fico-me pelo título do Expresso. "Sócrates escutado a pedir dinheiro a amigo". Fico-me pelo título, porque o resto já não interessa. O resto, sendo geralmente outra coisa, mais gasosa do que sólida, já nada acrescenta ou retira ao efeito demolidor do título. Técnicas. No caso do Expresso, a técnica do peido fino. Estes tipos dos jornais de hoje em dia, engravatados e de fatos às riscas (verticais), não sabem mas aprenderam tudo com o falecido 24horas, que curiosamente os enojava, e querem ser todos como o Correio da Manhã, que é o que é e mete-lhes raiva por causa das vendas.
Confesso a minha triste venalidade. Não sou como o alegado primeiro-ministro de Portugal, que nunca na vida fez ou pediu favores a ninguém. Na minha terra não se diria melhor para definir um pequeno filho da puta: nunca pediu ajuda nem nunca ajudou ninguém. Eu, ao contrário do alegado primeiro-ministro de Portugal, peço favores, que remédio, e creio que também já fiz alguns. Também já pedi dinheiro a amigos. Aliás, farto-me de pedir dinheiro à minha mulher, e a minha mulher é minha amiga. A sorte que tenho é que não sou escutado (por acaso até sou, somos todos; quase todos), e decerto por isso é que ainda não estou no xelindró nem na manchete do Expresso. Eu e o alegado e imaculado primeiro-ministro de Portugal temos tecnoformas de vida completamente diferentes. Provavelmente antagónicas.
Eu sempre acreditei que os amigos são para as ocasiões. E que quem tem amigos não morre na cadeia.
Confesso a minha triste venalidade. Não sou como o alegado primeiro-ministro de Portugal, que nunca na vida fez ou pediu favores a ninguém. Na minha terra não se diria melhor para definir um pequeno filho da puta: nunca pediu ajuda nem nunca ajudou ninguém. Eu, ao contrário do alegado primeiro-ministro de Portugal, peço favores, que remédio, e creio que também já fiz alguns. Também já pedi dinheiro a amigos. Aliás, farto-me de pedir dinheiro à minha mulher, e a minha mulher é minha amiga. A sorte que tenho é que não sou escutado (por acaso até sou, somos todos; quase todos), e decerto por isso é que ainda não estou no xelindró nem na manchete do Expresso. Eu e o alegado e imaculado primeiro-ministro de Portugal temos tecnoformas de vida completamente diferentes. Provavelmente antagónicas.
Eu sempre acreditei que os amigos são para as ocasiões. E que quem tem amigos não morre na cadeia.
quarta-feira, 12 de março de 2014
Ligue-me quando estiver noutro jornal
Portanto tínhamos muito poucas "fontes". As pessoas minimamente informadas fugiam de conversar connosco como o diabo foge da cruz. Umas tinham vergonha na cara ou medo e outras desprezavam-nos simplesmente. Umas e outras sabiam que as nossas perguntas tinham quase sempre volta de foda. Se desse jeito, pedíamos a A para falar de B, para a seguir metermos A e B no mesmo saco e malharmos nos dois como se fossem um só. O jornal escolhia os seus alvos e gastava a pólvora toda (seca, por norma) enquanto a coisa vendesse. Mas é preciso que se diga: isto de eleger "inimigos" e disparar até cair para o lado foi uma herança recebida de Paulo Portas, do tempo em que o actual vice-primeiro-ministro era director do semanário Independente e fazia a vida negra ao Cavaco primeiro-ministro e respectivos ajudantes no Governo. O das feiras é que inventou esta receita de sucesso e gabava-se disso. O seu a seu dono.
No meu jornal, Lisboa encarregava-se de fechar as portas às quais nos mandava depois bater, aqui do Porto. Levávamos quase sempre com a porta no nariz. As pessoas respondiam-nos torto, muito torto, era o pão-nosso de cada dia. Uma vez calhou-me o Sócrates, nas vésperas de ganhar as primeiras eleições. Lembram-se do génio do gajo? Pois é. Foi uma discussão das antigas, mas essa história merece prefácio à parte e hei-de contá-la quando os linchadores de aviário sossegarem a parreca e largarem os tomates ao homem. Os outros malcriados não merecem que lhes diga os nomes.
Claro que a grosseria não era geral. Havia também pessoas que muito simplesmente se recusavam a falar-nos mas sem baixarem o nível. O bom do Raul Solnado (1929-2009), Luís Represas, o actor José Pedro Gomes, são dos que me lembro agora que escrevo. Nenhum dos três me conhecia, mas, depois de me ouvirem educadamente, foram igualmente atenciosos na nega. Disseram-me: "Desculpe, Hernâni, não é nada de pessoal consigo, portanto ligue-me quando estiver noutro jornal. Então conversaremos do que quiser". Agradeci sinceramente a franqueza e a urbanidade. E pedi desculpa eu. Eu sabia que eles tinham razões.
Era vida difícil. Num jornal que precisava da "opinião" dos "famosos" sobre tudo e sobre nada. A propósito da Marisa Cruz nua num filme ou por causa do Fidel Castro que passou a pasta ao irmão. A minha sorte é que acabava sempre por encontrar uma alma caridosa que me ajudava a ganhar o dia. Gente que sabia o que era o 24horas mas que, fosse por que razão fosse, nunca me deixou ficar pendurado: gente como Marcelo Rebelo de Sousa e Júlio Magalhães, os empresários e portistas Pôncio Monteiro (1940-2010), Manuel Serrão e Rui Moreira, hoje presidente da Câmara do Porto, os estilistas Miguel Vieira, Katty Xiomara, Luísa Pinto e Gio Rodrigues, os juízes Rui Rangel e Eurico Reis, o fiscalista Saldanha Sanches (1944-2010), Valentim Loureiro (o meu cromo da sorte), Júlio Isidro e Joaquim Letria, que também eram da casa, Tozé Brito, Luís Filipe Barros, José Cid, o humorista Nilton, Octávio Machado, Francisco José Viegas, Manuel Luís Goucha, José Carlos Malato, Jorge Gabriel, Hélio Loureiro, Paulo Teixeira Pinto e mais uns poucos de que injustamente me estou a esquecer. Eram sempre os mesmos e a minha tábua de salvação. O meu piquete de emergência.
Cada qual lá teria os seus motivos. Alguns, tenho a certeza, era mesmo uma questão de bondade. Fiquei agradecido a todos. De vez em quando pago-lhes aqui com umas ripeiradas. É este maldito 24horismo que não há maneira de me passar.
(Texto escrito e publicado no dia 31 de Março de 2012, só actualizei os cargos ao Portas e ao Rui Moreira. O jornal 24horas nasceu em 1998 e morreu oficialmente em 2010, um ano depois de os seus alegados responsáveis terem liquidado a sangue frio a Redacção do Porto. Podem limpar as mãos à parede. Mas tinha piada o pasquim, que até chegou a ser bem feito, e é a bíblia do jornalismo que hoje se faz em Portugal.)
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terça-feira, 11 de março de 2014
O Astro (ou quando me mandaram atrás dele)
A omnisciência sempre me seduziu. Desde miúdo, quando, ainda em Fafe, ia a casa do Bertinho Dantas (o sobrinho) jogar O Sabichão. Depois, ao longo da vida, tive a sorte de encontrar sábios a sério em velhos lavradores, em professores, em camaradas de profissão, em três ou quatro amigos, gente que muito respeito e continuo a admirar. Hoje, porém, no negócio dos que tudo sabem, só me contento com Deus. Deus no Céu e Marcelo Rebelo de Sousa na Terra.
Era uma vez 2005, ano de eleições em Portugal. Luís Filipe Menezes chefiava a lista do PSD por Braga e foi em pré-campanha a Celorico de Basto. O cabeça de cartaz do jantar-comício era Marcelo Rebelo de Sousa. O meu jornal mandou-me atrás dele.
Dos discursos, lembro-me apenas que Menezes "lançou" a candidatura de Marcelo à Presidência da República (as voltas que a vida dá!), oferecendo-lhe um quadro já não sei com que motivos. No final das intervenções, Marcelo andou de mesa em mesa, como noivo em dia de casamento, distribuindo bacalhauzada àquela gente toda a quem fazia questão de fazer de conta que conhecia.
Eu aproveitei a confusão para dizer ao que ia:
- Sr. Professor, eu sou o...
- Eu sei - cortou simpaticamente Marcelo, estendendo-me a mão e um sorriso de orelha a orelha.
- ... o Hernâni Doellinger, do...
- Sei muito bem quem é - insistiu Marcelo, retirando a mão e reduzindo o sorriso.
- ... jornal 24horas - consegui informar, enfim.
- Exactamente, eu sei, sei muito bem, Hernâni, 24horas, eu sabia - concluiu Marcelo, metendo o resto de sorriso no bolso das calças e pedindo licença para continuar com os cumprimentos, que ainda havia muitas mesas para bacalhauzar no salão de cima e que falávamos no fim.
Claro que não falámos. Marcelo Rebelo de Sousa foi-se embora como quem não quer a coisa, sem me dar uma segunda oportunidade e se calhar até fez bem. Também não interessa. O importante é isto: o Professor não me conhecia de lado nenhum, nunca me tinha visto mais gordo nem mais magro, mas apareci-lhe à frente e ele soube logo quem eu era. Não é extraordinário? Agora que penso nisso, devia ter-lhe pedido que me lesse a sina. E os números do Euromilhões.
Ainda hoje guardo religiosamente a mão com que cumprimentei Marcelo Rebelo de Sousa naquele encontro histórico de Celorico de Basto. Os nossos contactos seguintes resumiram-se ao telefone. Ligava eu, por dever de ofício. O Professor atendeu-me quase sempre. E foi sempre amável e útil.
(Texto escrito e publicado no dia 28 de Agosto de 2012, com o título "O Astro". O jornal 24horas nasceu em 1998 e morreu oficialmente em 2010, um ano depois de os seus alegados responsáveis terem liquidado a sangue frio a Redacção do Porto. Podem limpar as mãos à parede. Mas tinha piada o pasquim, que até chegou a ser bem feito, e é a bíblia do jornalismo que hoje se faz em Portugal.)
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segunda-feira, 10 de março de 2014
Quando me mandaram entrevistar o morto
Passou-se o mesmo com o Tozé Brito, que o meu chefe (outro) também não fazia ideia de quem fosse: "Esse tipo jogou onde? O que é que ele percebe de música?...", atirou-me, com aquele risinho telefónico e condescendente tão próprio dos sábios de Lisboa. Pouco tempo depois (e nem digo que tenha sido por causa de eu lhe ter sacudido o pó), Tozé Brito foi para jurado num programa de televisão e o jornal onde eu trabalhava nunca mais lhe largou a braguilha. Até fechar. O jornal.
Outra vez havia cá em cima uma iniciativa qualquer relacionada com cartoons e política, algo do género. Eu tentava convencer Lisboa para o interesse da coisa e agarrei-me a este argumento de peso: a obra do grande Sam era o destaque do evento. "Qual Sam?", inquiriu o chefe de serviço, com o fastio de quem tem mais que fazer do que estar outra vez a ensinar-me o que é notícia e o que não é notícia. "Então, pá, o Sam, o famoso cartoonista, o Sam do Guarda Ricardo, pá, estás farto de saber, não estás?, o Sam...", respondi-lhe eu, já mais perto do que longe de o mandar à merda.
A palavra "famoso" fazia milagres naquele jornal. "Ok. Vai lá então e aproveita para entrevistar o gajo, o Sam", decidiu finalmente o chefe. Estive para lhe dizer que sim, que era o que eles gostavam de ouvir, mas resolvi contar-lhe a verdade: "Esta se calhar é mesmo impossível, pá. O Sam já morreu há uns anitos. Mas a culpa não foi da redacção do Porto, palavra de honra".
Aquela rapaziada era assim, profissionais formidavelmente informados. Estão hoje todos muito bem colocados nas redacções da capital. São chefes e fazem por isso. Deus os abençoe e lhes dê muito dinheiro.
(Texto escrito e publicado no dia 21 de Fevereiro de 2012. O jornal 24horas nasceu em 1998 e morreu oficialmente em 2010, um ano depois de os seus alegados responsáveis terem liquidado a sangue frio a Redacção do Porto. Podem limpar as mãos à parede. Mas tinha piada o pasquim, que até chegou a ser bem feito, e é a bíblia do jornalismo que hoje se faz em Portugal.)
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domingo, 9 de março de 2014
Quando me mandaram oferecer vinho ao Saddam
E eu fui. Comprei o vinho e escrevi o texto. Um texto pequeno que andava à volta disto: o Saddam gosta de Mateus Rosé. Era capaz de ter também alguma graça, já não me lembro, mas quando digo andar à volta é mesmo andar à volta, fazer chouriço, meter palha, usar e abusar da técnica de composição musical da variação (e fuga), porque a "notícia" não tinha mais nada para dizer, era oca por dentro. E foi manchete no dia seguinte.
(Permitam-me abrir aqui um parêntese pedagógico, para proteger os caros leitores da tentação de conclusões precipitadas e injustas acerca do meu jornal. Deixem-me esclarecer o seguinte: num certo sentido, o 24horas foi o precursor do jornalismo que hoje se faz em Portugal - um jornalismo de títulos, colorido e imaginativo, a que, para ser perfeito, só falta o pequeno pormenor da informação. Hoje os jornais portugueses são todos iguais ao 24horas. Uma diferença apenas os separa: o 24horas era, nos seus bons tempos, o melhor pior jornal do País; era um mau jornal muito bem feito. E ficava barato ao dono. Depois veio a rapaziada e tomou conta.)
Meti a caixa de vinho num armário da redacção. Eu já tinha aprendido que as geniais ideias vindas de Lisboa padeciam de tesão breve e alzheimer. Regra geral, no dia seguinte os nossos criativos e bem-intencionados chefes já não se lembravam das figuras tristes que nos tinham mandado fazer no dia anterior. E mandavam-nos fazer outras. Assim foi.
Em Dezembro de 2003 apanharam Saddam e eu pensei: "Agora é que era de lhe mandar o Rosé, para lhe animar o Natal na prisão". E deixei-me estar. O ex-presidente iraquiano foi executado três anos depois, como se viu no YouTube, e as garrafas lá continuaram no armário, até ao dia em que Lisboa veio ao Porto anunciar que o Porto ia fechar para salvar o jornal. Isto é, para salvar Lisboa. Começava o ano de 2009 e desfizeram-se de nós. Eu trouxe para casa duas garrafas do Mateus Rosé de Saddam Hussein.
O 24horas acabou por não se safar, mas "Lisboa" sim e é o que eu lhes estimo. As duas garrafas de Mateus Rosé ainda cá estão, a fazerem de pai e mãe de uma outra, de aguardente do Salazar, parece que engarrafada pelo próprio, como me garantiu, no acto da oferta, o sobrinho-neto do nosso estimado ditador. Estão bem umas para as outras, as garrafas. E os outros também.
(Texto escrito e publicado no dia 9 de Março de 2012. O jornal 24horas nasceu em 1998 e morreu oficialmente em 2010, um ano depois de os seus alegados responsáveis terem liquidado a sangue frio a Redacção do Porto. Podem limpar as mãos à parede. Mas tinha piada o pasquim, que até chegou a ser bem feito, e é a bíblia do jornalismo que hoje se faz em Portugal.)
sexta-feira, 7 de março de 2014
Quando me mandaram ligar ao Papa
Uma vez o chefe mandou-me ligar ao Presidente da República, a todos os antigos presidentes da República vivos, ao primeiro-ministro, a todos os ex-primeiros-ministros vivos, ao presidente da Federação Portuguesa de Futebol, ao seleccionador nacional, aos presidentes e treinadores de FC Porto, Benfica e Sporting, ao Freitas do Amaral (já não me lembro como é que este apareceu na lista, mas ele aparece sempre), ao cardeal-patriarca de Lisboa e... ao Papa. "Ao Papa?", perguntei eu, só para ter a certeza. "Sim, pá! Liga ao Papa! Queremos um depoimento do Papa sobre o desaparecimento da Maddy". Foi assim, palavra de honra, que o chefe me respondeu.
Portanto tinha de ligar ao Papa. O resto era fácil, era como se já estivesse feito. Pelo prestígio, pelo rigor e seriedade, pela sua inatacável ética editorial, o jornal onde eu trabalhava tinha praticamente linha directa com aquela gente toda. Agora Sua Santidade, isso, sim, era um desafio. Claro que eu podia enfiar-me no bar o dia inteiro a "tentar ligar ao Papa" e à hora do fecho avisava o chefe, em Lisboa, de que "Não consegui, pá, desculpa, o gajo armou-se em difícil, não fala, eu ainda disse que ia da tua parte, mas nem assim o tipo se descoseu, sabes como são os alemães, teimosos de merda". Porém eu não frequentava o bar.
Pensei então: o que é que há de mais parecido com o Papa e a que eu possa realmente chegar? E lembrei-me: o cardeal português D. José Saraiva Martins, que também estava em Roma como o outro e creio que ainda era prefeito da Congregação para as Causas dos Santos. Meti as mãos ao caminho, fiz chamada atrás de chamada e ao fim da tarde consegui enfim falar com ele. Atendeu-me cheio de bondade e essessss nassss palavrassss. Conhecia o caso e deu-me a sua opinião numa conversa de quase um quarto de hora. Falou-me da menina desaparecida, disse-me que rezava por ela, mas lembrou, com lucidez e sabedoria, que é fundamental que os pais não se ponham a jeito (a expressão é minha) para que semelhantes tragédias aconteçam. Vocês também percebem, tal como eu percebi, para quem é que o nosso cardeal enviava este recado...
No fim, D. José Saraiva Martins fez-me um pedido: "Olhe, depois mande-me o jornal, se faz favor". E eu mandei. O meu jornal era o 24horas. Exactamente. O jornal com as gajas todas boas e as mamas ao léu. Deve ter sido um sucesso no Vaticano.
(Texto escrito e publicado no dia 24 de Fevereiro de 2012. "Liga ao Papa!" foi o título que então lhe dei. O jornal 24horas nasceu em 1998 e morreu oficialmente em 2010, um ano depois de os seus alegados responsáveis terem liquidado a sangue frio a Redacção do Porto. Podem limpar as mãos à parede. Mas tinha piada o pasquim, que até chegou a ser bem feito, e é a bíblia do jornalismo que hoje se faz em Portugal.)
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segunda-feira, 9 de julho de 2012
Pilas para fora
Conhecem a anedota das "Pilas para fora"? Aquela dos militares, da formatura e do cão do capitão, o cão chamado Pilas? Não conhecem, pois não? Também não perdem nada, é uma anedota de merda. O jornal Público é que anda com as partes arejadas e, à falta de Relvas, enfia-nos duas fresquinhas e seguidinhas, a ver se o Verão da nossa desgraça arrebita. Oh, a arte do título! Pilas para fora, diz o Público. O falecido 24horas não teria dito melhor.
quinta-feira, 24 de maio de 2012
O Relvas tem razão: o Público abusa
Só soube na cama do hospital, depois da operação: a notícia falava, nas letras pequeninas, de um "esqueleto", de "fósseis", de um "fóssil quase completo". É. Miguel Relvas - líder do PSD, ministro nas horas vagas, primeiro-ministro de facto e doutor honoris causa em jornalismo interpretativo - está salvo da encrenca em que se meteu quando "prometeu" à jornalista do Público colocar-lhe a lingerie ao léu. O jornal não se cansa de o ilibar, a ERC está no bolso e ninguém se lembra que o caso é de polícia. Toquei a campainha e pedi que me trouxessem o 24horas.
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