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sexta-feira, 12 de fevereiro de 2021

Notícias da retaguarda 5

Era uma pessoa muito dada 
Era uma pessoa muito dada. Contra todas as recomendações, acolheu de braços abertos o novo coronavírus. Que descanse em paz!

A importância do retrovisor no combate à pandemia
O espelho retrovisor central é um instrumento da máxima importância dentro de um veículo automóvel. Serve para pendurar coisas. Não coisas quaisquer, à sorte, mas coisas próprias de pendurar num retrovisor. Por exemplo, seria impensável pendurar num retrovisor uma gabardina molhada ou um guarda-chuva aberto, porque o retrovisor não é um cabide, é um retrovisor. E no retrovisor penduraram-se, ao longo da história, terços e senhoras de Fátima fosforescentes, relíquias sagradas da Terra Santa contrafeitas, árvores mágicas ambientadoras, castanholas, galhardetes dos Bombeiros de Montalegre, da Junta de Canas de Senhorim, da Câmara de Nelas, do Real Madrid e do Benfica, fitinhas vermelhas do Leixões, miniaturas de casais minhotos e folclóricos, óculos de sol e óculos de chuva, porta-chaves, porta-aviões, trevos de quatro folhas, estrelas de cinco pontas, cornos de besouro ou escaravelho e cornos em geral, patas de coelho, figas, ferraduras, CD, mesmo largos anos depois de ter passado a novidade, e agora penduram-se as máscaras. Exactamente: o sítio da máscara higiénica e sanitárica que nos protege da pandemia e da morte é o retrovisor, o que só lhe medra a relevância - ao retrovisor.
Ora bem: eu não tenho carta de condução, não sei conduzir e não tenho carro. E faço questão de elencar estas três fundamentais asserções, porque elas, as asserções, parecendo sinónimas e redundantes, não o são, não o são. Não o são. Na verdade, há quem não tenha carta de condução, saiba conduzir e não tenha carro; há quem não tenha carta de condução, saiba conduzir e tenha carro; há quem tenha carta de condução, não saiba conduzir e não tenha carro; há quem tenha carta de condução, saiba conduzir e não tenha carro; e até há quem tenha carta de condução, saiba conduzir e tenha carro - o que é uma raríssima coincidência. O mais certo é eu não ter esgotado todas as variáveis possíveis, mas desconfio que já perceberam o meu ponto de vista: não tenho carta de condução, não sei conduzir e não tenho carro. Portanto não tenho retrovisor.

Chegados aqui - de transporte público, evidentemente -, a grande dúvida que se me coloca é a que se segue: onde é que eu penduro a máscara? Na cara com certeza que não, porque me corta o ar e ainda ontem estive para morrer três vezes quando fui à peixaria, uma, e à padaria, duas. Por outro lado, e agora é uma dúvida mais pequena, alguém me saberá informar se haverá alguma brecha legal que me permita, vá lá, dar a volta às normas da Direcção-Geral da Saúde (DGS, como a pide), dispensando-me liminarmente do uso da máscara sufocante e substituindo-a, digamos, por um CD, com o nariz enfiado no buraco, o que já seria algum arejo? Haverá? Era o que eu gostava de saber...

P.S. - Mais sobre retrovisor, mas de outro ângulo, aqui.

Os cães estão exaustos
A verdade é estas: os cães já não conseguem aguentar mais um confinamento. Estão exaustos! Regra geral nunca tinham saído de casa.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2021

Notícias da retaguarda 4

Distância
Levava muito a sério as recomendações das autoridades sanitárias a propósito do afastamento físico. Mantinha a própria sombra a pelo menos metro e meio de distância.

O lado bom da pandemia
Ele garantia que o novo coronavírus tinha um lado bom. Exigiram-lhe explicações. E ele explicou: - Não houve Queima das Fitas...

Agora temos duas padarias
Como já aqui contei, a nossa padaria fechou nos princípios de Março do ano passado por causa do coronavírus e do primeiro confinamento. A nossa padaria era o sítio onde todos os dias comprávamos o pão que nos alimentava há mais de trinta anos, e era como se fôssemos da casa. Mas o pão é essencial e, que remédio, começámos a frequentar outra padaria, igualmente aqui à beira, que fez o favor de nos farturar a mesa naqueles dias mais complicados. Que se segue. A nossa velha padaria reabriu ontretanto e estão todos de saúde, graças a Deus, fui lá saber com os próprios olhos e comprar com as próprias mãos. E máscara.
Mas e a nossa nova padaria? Que nos serviu tão satisfatoriamente em tempos de crise, bem sei que apenas durante menos de dois meses. Íamos agora voltar-lhe costas, muitíssimo obrigadíssimo, estava tudo muito bem mas já não precisamos, e façam favor de desculpar?
Não somos capazes de semelhante. Passámos a ter duas padarias. A minha mulher e eu dividimo-nos nas visitas. Porque a memória é fundamental mas a gratidão também.

Em álcool
Ele explicava: conservava-se em álcool derivado ao coronavírus. E sentia-se muito bem. Bêbado de manhã à noite, de segunda a sexta-feira, e ao fim-de-semana ainda era pior. Quer-se dizer, melhor...  

terça-feira, 9 de fevereiro de 2021

Notícias da retaguarda 3

Lay-off
Quando foi mandado de lay-off perguntou aos patrões "Posso dizer lá em casa que é temporário?" e os patrões responderam "Podes, podes..." e partiram-se a rir.

Vendemos para fora
Intrigado com a novidade estrangeira que de repente tomou conta das portas, janelas e montras dos restaurantes da cidade, entrou na velha casa de pasto, sem vez, sem distância e sem máscara, porque "era só para fazer um pergunta", e perguntou:
- Aquilo do Take away é o quê?
- Quer dizer que vendemos para fora.
- Há mais de trinta anos que todos os sábados venho aqui buscar um tachinho de tripas. Qual é a diferença agora?
- O coronavírus...

Teletrabalho
Os restaurantes reabriram e o arrumador de automóveis saltou imediatamente para a rua, apresentando-se ao serviço. Estava farto de orientar estacionamentos a partir de casa...

Teledesemprego
"Isto sem público nos estádios, o teledesemprego é uma seca!", queixava-se o Acúrsio, e suponho que com razão.

Teledesemprego 2
Está em casa em teledesemprego. Faz horário das dez da manhã às oito da noite. Perguntem-lhe sobre programação da RTP1! Sabe tudo.

Telessexo
É muito à frente, ele. Não esperou pela pandemia nem precisou das indicações do Governo. Há mais de trinta anos que pratica, e com resultados francamente satisfatórios.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2021

Notícias da retaguarda 2

As encomendas como as bombas
Para evitar contactos pessoais, as encomendas agora chegam-nos a casa sozinhas no elevador. Como as bombas. Nos filmes.

Contrafeitas
Eram máscaras contrafeitas. Se lhes dessem a escolher, referiam ser toalhetes.

Farto de tanta falta de respeito
Estava farto de tanta falta de respeito. Falta de respeito pela pandemia, falta de respeito pelo estado de emergência, falta de respeito pelo estado de calamidade, falta de respeito pela fila para a vacina, falta de respeito pelo estado a que isto chegou, falta de respeito pela quarentena, falta de respeito pelo confinamento, falta de respeito pela linha da frente, falta de respeito pela linha do tua, falta de respeito pelo desconfinamento, falta de respeito pela falta de respeito. Estava farto, farto, farto! E era hoje!...
Distanciou-se metro e meio da própria sombra, colocou a máscara, empunhou a bisnaga de álcool gel, subiu o lanço de escadas, aproveitou a porta apenas encostada, contou até três, entrou de rompante e gritou: mãos ao ar, isto é um assalto! Ficou admirado. O que ele queria dizer era: alto e pára o baile - desesperado com aquele forrobodó todas as noites mesmo por cima da cabeça, mais de vinte energúmenos, eles e elas, em sucessivas festas ilegais, estrondosas e orgíacas. Mas estava dito, estava dito: desceu com um LCD de 100 polegadas, uma mesa de DJ, seis colunas de som surround, um globo espelhado, oito CD do Quim Barreiros, dois tablets, quatro telemóveis, sete relógios - um de sala -, seis pulseiras, cinco colares, doze pares de brincos, dois pacotes de batatas fritas, meia piza familiar de cogumelos e fiambre, um pacote de Sugus morango e framboesa, nove gramas de haxixe, garrafa e meia de vodka, duas canecas de sangria, vazias, três garrafas de Casal Garcia, treze cartões de crédito, um vale de reforma e 837 euros em numerário.

Em lata
O confinamento fez dele um verdadeiro especialista em atum. Bom Petisco à segunda, Ramirez à terça, Tenório à quarta, Minerva à quinta, Pitéu à sexta e Inês ao sábado. Ao domingo, sardinha em tomate, evidentemente.

Os mórreres
Sim, os víveres, evidentemente os víveres. E os mórreres?...

Goze o confinamento
Aproveite a bênção da quarentena, sobretudo se for realmente mais do que quinzena. Fique em casa, leia, escreva, pense, e todas as tardes durma um sono, ou dois, consoante a disposição e a companhia, e dormir é aqui uma forma de dizer. E ouça a chuva a bater à janela. Mas não abra se bater leve, levemente, que a chuva não bate assim: é de certeza o Neves, e o Neves é um chato do caralho.

sábado, 30 de janeiro de 2021

Notícias da retaguarda

O grande Asdrúbal
Encontrei ontem por acaso o Asdrúbal, o velho Asdrúbal, o grande Asdrúbal - aos anos que não nos víamos! Recordámos os tempos antigos, falámos das nossas vidas, da família, dos filhos, dos netos, dos amigos que já morreram, do coronavírus, do velho Marega, dos novos fascistas-racistas, de projectos para o futuro. Enfim, pusemos a conversa em dia e à distância. Despedimo-nos calorosamente trocando abraços da boca para fora e números de telemóvel e apalavrando a marcação de um almoço para quando se Deus quiser. Cada qual seguiu para o seu lado, e só então é que eu reparei que aquele não é o Asdrúbal, nem sequer é parecido com o Asdrúbal, apesar da máscara. Na verdade, tenho agora a certeza absoluta de que não conheço este indivíduo de lado nenhum. Em todo o caso, gostei muito de falar com o Asdrúbal.

Em confinamento há três anos e quinze dias
Pratico quarentena há três anos e quinze dias, faz hoje exactamente. E não sabia que estava a fazer uma coisa extraordinária... 

O fim do mundo
Quando lhe disseram que vinha aí o fim do mundo, comprou setecentos e noventa e três rolos de papel higiénico e declarou: - Estou preparada!

O denunciante
Denunciado por ter tossido em casa, foi detido pela polícia, presente ao juiz e metido em prisão preventiva. O vizinho delator morreu de caganeira naquele mesmo dia.

Causa da morte: ida ao médico
Um gajo anda mais ou menos porreiro, uma dorzita aqui, uma pontada acolá, um bocadinho de falta de ar, ouras e fastio às vezes, coisas de nada, coisas da vida, se calhar do tempo ou, vá lá, da idade. Um gajo anda mais ou menos porreiro. Até que um dia, empurrado ou de livre vontade, vai ao médico. Análises, exames, diagnósticos, prognósticos, agnósticos, cancro, coração, rins, fígado, coluna, internamento, cirurgia, hemodiálise, quimioterapia, antipatia, utente, paciente, despistagem, despessoamento, isolamento, transferência, circunferência, alta, baixa, alta, baixa, piso 1, piso 2, piso 10, piso 1, doente da cama 13, bactérias, vírus, infecção, pneumonia, silêncio, cave. Um gajo andava mais ou menos porreiro. No competente certificado há-de constar, obitamente e por ser verdade: "Causa provável de morte - ida ao médico"...

Na sombra
Fechou-se em casa, com medo de ser contaminado. E manda a sombra fazer-lhe os recados.

terça-feira, 5 de maio de 2020

Agora temos duas padarias

Notícias do des-con-fi-na-men-to. Como já aqui contei, a nossa padaria fechou nos princípios de Março por causa do coronavírus. A nossa padaria era o sítio onde todos os dias comprávamos o pão que nos alimentava há mais de trinta anos, e era como se fôssemos da casa. Mas o pão é essencial e, que remédio, começámos a frequentar outra padaria, igualmente aqui à beira, que fez o favor de nos farturar a mesa nestes dias mais complicados. Que se segue. A nossa velha padaria reabriu ontem e estão todos de saúde, graças a Deus, fui lá saber com os próprios olhos e comprar com as próprias mãos. E máscara.
Mas e a nossa nova padaria? Que nos serviu tão satisfatoriamente em tempos de crise, bem sei que apenas durante menos de dois meses. Vamos agora voltar-lhe costas, muitíssimo obrigadíssimo, estava tudo muito bem mas já não precisamos, e façam favor de desculpar?
Não somos capazes de semelhante. Passámos a ter duas padarias. Desde ontem. A minha mulher e eu dividimo-nos nas visitas. Porque a memória é fundamental mas a gratidão também.

Outra boa nova: a minha peixaria reabriu hoje. E era o que me fazia mais falta. Mais até do que o pão. Agora toda a gente faz pão em casa, um pão que não presta para nada, mas é moda e dá na televisão. Até a namorado do meu filho faz pão e traz, e por acaso, excepção que confirma a regra, até é um pãozinho que nos tem sabido muito bem. Infelizmente ainda não há máquinas para inventar peixes em casa. Que eu saiba.

Melhor: fui esta manhã à minha farmácia, à hora da abertura, e já se pode entrar. Dois de cada vez, mascarados e de mãos previamente desinfectadas, e eu cheguei em segundo. Estava a contar com uma medalha mas as cerimónias protocolares foram suspensas derivado à pandemia. Entregaram-me o Losartan com todos os cuidados e na maior das confidencialidades, e isto que não saia daqui...

E tenho o mar. Não sei o que seria da minha quarentena, que já vai em quase dois anos e meio, se não tivesse o mar todos os dias. Seguramente estaria ainda mais avariado da cabeça e do resto. O mar, gosto de o ouvir, gosto de lhe sentir o silêncio, gosto de o ver, gosto de o cheirar, mesmo que cheire mal, gosto de o pensar, gosto de o adivinhar. Gosto do mar com sol, com chuva, com nevoeiro, com vento, sem vento, gosto do mar com todos como o bacalhau. Gosto do mar azul, às vezes verde e sobretudo azul e branco. Gosto do mar bravo, gosto do mar manso, gosto do marasmo. Gosto do mar salgado e ainda que fosse insosso. Gosto do mar. E tenho sorte, na minha rua passa o mar, atracam-me navios à porta. Tenho o mar se for à varanda, de caras. Escuto-o no quarto de dormir, e sossega-me a alma, ajuda-me ao sono cada vez mais difícil. Continuo a passear-lhe as bordas todas todas as manhãzinhas, cada vez mais cedo, cada vez mais cedo, só eu e o mar, porque preciso do resto do dia para tomar conta das horas e porque, como diz o Bininho Referta, o povo é muito burro, e cuida que esta merda já passou, e não passou nada.

Portanto: tenho duas padarias, tenho uma peixaria, tenho uma farmácia e tenho um mar. Isto é: tenho um pequeno império, e praticamente livre de impostos. Não digam que estou mal de vida...

Confinado

Foto Hernâni Von Doellinger

domingo, 3 de maio de 2020

Enfim o desconfinamento dos urinóis

Foto Hernâni Von Doellinger

Eu, que levo as palavras à letra, devo confessar que "situação de calamidade pública" me aflige muito mais do que "estado de emergência", mas dizem-me que calamidade é melhor do que emergência, e contra isso nada, porque quem manda pode, ainda que possa não saber o que diz ou faz nem ter sequer vaga ideia da língua portuguesa. Em todo o caso: o melhor da calamidade que impera desde hoje é que os urinóis públicos vão reabrir amanhã - urinóis, retretes, WC, lavabos, casas de banho, latrinas, sanitários, sentinas e até privadas, todo um vasto sector -, e isso, sendo importantíssimo para a retoma da economia nacional, interessa-me particularmente por outras certas e determinadas razões, de emergência e de calamidade, que passo a explicar:

Mijar no Terrace custa pelo menos euro e meio
Aflitíssimo, entrei no Terrace e pedi: - Por favor, dá-me licença de utilizar a casa de banho? -. Estava preparado para receber uma de duas respostas, "sim" ou "não", mas deram-me a terceira: - Vai tomar alguma coisa? - Eu disse que beberia uma água e tornei a pedir: - Por favor, dá-me licença de utilizar a casa de banho? - Que assim sim. Utilizei então a casa de banho, isto é, mijei, fiz uma descarga de autoclismo, limpei do chão duas pingas que não souberam o caminho e lavei as mãos. Evidentemente eu poderia sair da casa de banho do Terrace e vir-me embora, mas fui tomar a água contratada. Aproveitei para explicar calmamente ao jovem e educado funcionário que um dia, quando ele for mais velho, talvez da minha idade, vai ficar tipo fodido por lhe fazerem a ele o que ele me fez a mim. O jovem e educado funcionário disse-me que é desta maneira que ali se trabalha, no Terrace, por ordens da gerência. Paguei um euro e meio pela água e estou arrependido: não sei se o dinheiro chegava, mas, em vez de beber a puta da água, devia ter comido um biju. A água pôs-me outra vez à rasca na viagem de metro da Trindade até Matosinhos. Vim a correr para casa e mijei-me pernas abaixo mal consegui abrir a porta...

O Terrace é um café situado no gaveto das ruas de Fernandes Tomás, da Trindade e do Estêvão, nas traseiras da Câmara Municipal do Porto. E tem gerência.

P.S. - Publicado originalmente no dia 20 de Outubro de 2018.

Quem quiser mijar em Campanhã, paga!
Quem precisar de mijar ou cagar na Estação de Campanhã tem de pagar 50 cêntimos. Cinquenta cêntimos são o que são e diz que a medida já lá está há ano e meio. Eu fiquei admirado. Fui ontem a Campanhã, estava à rasca e, porque meio euro me faz diferença, mijei cá fora contra o muro como toda a gente. Fiz na parede o tradicional desenho "Ide... para... a... puta... que... vos... pariu!... ..." e saiu muito bem, não é para me gabar. Peço desculpa ao segurança que toma conta do torniquete - sim, há um torniquete e um segurança a tomar conta do tornique da retrete, mas apanhei-o distraído - e peço desculpa ao senhor e à senhora do rolo de papel higiénico que ficaram no retrato e não queriam.

E aviso o senhor Manuel Queiró, inexplicável presidente da CP: se um destes dias lhe cagarem à porta, mas cagarem com todos os matadores, não fui eu. Gostava de ter sido, até porque é tradição familiar, mas não fui. Moro em Matosinhos, não tenho dinheiro para deslocações de longo curso. O comboio e necessidades correlativas estão pela hora da morte.

P.S. - Publicado originalmente no dia 13 de Outubro de 2013. 

Para cus quadrados
Saía muito pouco de casa. Uma dia levaram-no ao restaurante da moda e ele ia morrendo de susto quando precisou de ir à casa de banho e descobriu a sanita rectangular. Pensou aflito, ensarilhado nas calças, antes de fugir pela janela, redonda por sinal: - Será que os cus mudaram de feitio e o meu não foi informado?...

P.S. - Publicado originalmente no dia 23 de Outubro de 2011.

A influência dos astros na vida das pessoas
Perguntavam-lhe pelo signo e ele respondia, todo lampeiro: - Sanitário. Efectivamente, passava o dia na retrete.

P.S. - Publicado originalmente no dia 31 de Janeiro de 2016. 

Inconvenientes de uma "manif" inexistente
Fui ver o 25 de Abril ao Porto. Porque, para quem não tem mais nada que fazer e é teso, o Porto é um sítio porreiro para se ver 25 de Abris e não é preciso comprar bilhete. No Porto há milhões de camones de passagem, milhares de portugueses desempregados coçando colhões e esquinas, trezentos e cinquenta portuenses residentes e uma praça e uma avenida destinadas ao 25 de Abril, às greves gerais, ao 1.º de Maio, aos carteiristas e aos vadios em geral, as quais, praça e avenida, são emprestadas pelo Sr. Pinto da Costa quando o Futebol Clube se esquece de ser campeão - o que em democracia é raro e altamente suspeito.
O 25 de Abril correu muito bem. Vintecincodeabrilou-se ali com grande pertinácia e depois acabou. Acabou, mas eu, que sou de lágrima fácil, estava com uma vontade de mijar que já não era só vontade, era um estado de emergência, e desatei a correr como um tolinho para o WC sob as escadinhas da Rua 31 de Janeiro com a Estação de São Bento e com a polícia de choque atrás de mim como se eu levasse um engenho explosivo na braguilha. Não levava. Estava apenas à rasca. À rasquíssima. E a retrete estava de portas fechadas. Por causa do feriado.
Que se segue: eu bem não queria, mas tive de ir, com uma mão à frente e outra atrás, às casas de banho da estação propriamente dita. Às tais, às míticas, às suspeitíssimas. O que se passou lá dentro não interessa, apenas faço questão de garantir que saí daqueles apertos com a honra invicta. A polícia, entretanto, desinteressou-me de mim e passou a perseguir um casal de lavradores do Marco de Canaveses que tinha vindo a uma consulta de otorrinolaringologia, ela com a infelizmência de um xaile vermelho às costas e ele com um saco de plástico na mão, sotaque da terra e "cara de marroquino". Nas varandas (ou sacadas, como se diz em Fafe) cantava-se "Grândola, vila morena" com uma afinação de oficina de automóveis. O relógio exterior de São Bento batia as quinze e quinze. A polícia também. Após a sova da ordem, as autoridades verteram nos autos que o perigoso saco continha um cartucho com 250 gramas de sementes de pepino compradas sem guia de remessa na Casa Hortícola do velho Bolhão, um toquinho de chouriço de colorau, meia sêmea, um taparuer com uma cebola da monda rachada em quatro e metida em sal grosso e vinagre tinto e dois olhos de azeite, uma garrafa de cerveja quase vazia de vinho, duas pastilhas avulsas para o enjoo e um canivete belga com seis centímetros de lâmina. Os dois indivíduos, um do sexo masculino e o outro não, entre os sessenta e os setenta anos, foram detidos por posse de arma branca. Os peritos em minas e armadilhas fizeram explodir o resto.

P.S. - Publicado originalmente no dia 23 de Março de 2012.

segunda-feira, 27 de abril de 2020

A estupidez não é doença, mas é viral

A gripe espanhola, ou pneumónica, apareceu em 1918, e matou entre 50 e 100 milhões de pessoas em todo o mundo. Absolutamente viral, como hoje se diria. Viral. Isto é: um verdadeiro caso de sucesso, um êxito tremendo...

A gripe ou peste pneumónica foi uma pandemia provocada pelo vírus influenza. Só em Portugal continental matou mais de 60 mil pessoas. Um vírus é geralmente causador de doenças graves. A estupidez não é doença, mas é viral, e fica muito bem nas chamadas redes sociais, onde se rompem as palavras sem cuidar de se saber o que elas querem dizer. Viral acima, viral abaixo, tudo é viral, e os jornais todos iguais, que não querem ser menos estúpidos do que os outros, copiam e amplificam as tolérias da ditas redes sociais, tudo em nome de um clique, tudo em busca da audiência perdida. Agora, com o novo coronavírus à perna, pode ser que uns e outros, os simpatizantes e os encartados, aprendam - se souberem aprender e se conseguirem perceber o que se lhes passa à volta - o real poder da palavra viral e a guardem bem guardada para o que infelizmente lhe diz respeito.

P.S. - As primeiras sete linhas publiquei-as originalmente no dia 5 de Julho de 2016. É curioso...

sábado, 25 de abril de 2020

25 de Abril, sempre!

25 de Abril e coisa e tal
Vinte e cinco de Abril sempre, nem que seja só às vezes. 

A dúvida dos conspiradores
Os conspiradores tinham apenas uma dúvida: marcar para quando o 25 de Abril? 

O 25 de Abril e o feriado
Por acaso o 25 de Abril calha sempre num ferido, e isso é porreiro para o povo que faz questão. Este ano é indiferente...

O bom do 25 de Abril
O bom do 25 de Abril é que se realizou no dia certo. Imaginem que tinha sido a 24...

O mal do 25 de Abril
O mal do 25 de Abril é que amanhã é outra vez 28 de Maio. O ano inteiro.

sexta-feira, 24 de abril de 2020

Os cães estão exaustos

Não sei se os cães conseguem aguentar mais quinze dias de estado de emergência. Estão exaustos! Regra geral nunca tinham saído de casa...

segunda-feira, 20 de abril de 2020

O Filhodeputa anda de máscara

Foto Hernâni Von Doellinger

Já aqui falei dele. Do indivíduo que andava pelas ruas das minhas redondezas à cata de piriscas e que, filho da puta, batia na companheira que lhe fazia o serviço. A franzina senhora desapareceu de cena. De tão sumária e submissa que me parecia, temo, sinceramente temo, que lhe tenha acontecido o pior, só para não atrapalhar. Mas o bronco continua por aí, agora solitário e sempre bandalho, enfim obrigado a vergar a mola se quer matar o vício. Com o encerramento coronavírico de cafés e restaurantes, no chão da porta dos quais costumava abastecer-se, a vida corre-lhe mal, e é o que lhe estimo.
Continua, portanto, às piriscas, no outro dia sem mais nem menos malcriou com a minha mulher, que não lhe liga mas tem medo dele, mais cedo ou mais tarde vou ter de lhe foder o focinho, ao porco. O indivíduo continua às piriscas, que fuma acto contínuo, mas, actualizado com os tempos da pandemia, anda de máscara. A máscara padece de evidentes sinais de que foi sacada ao lixo. Mas de máscara, o burgesso. É outra limpeza, outra segurança.

25 de Abril sempre!, porque é preciso...

Foto Hernâni Von Doellinger

domingo, 19 de abril de 2020

sábado, 18 de abril de 2020

Em lata

A quarentena fez dele um verdadeiro especialista em atum. Bom Petisco à segunda, Ramirez à terça, Tenório à quarta, Minerva à quinta, Pitéu à sexta e Inês ao sábado. Ao domingo, sardinha em tomate, evidentemente.

sexta-feira, 17 de abril de 2020

Lay-off

Quando foi mandado de lay-off perguntou aos patrões "Posso dizer lá em casa que é temporário?" e os patrões responderam "Podes, podes..." e partiram-se a rir.

segunda-feira, 13 de abril de 2020

O beijo de narciso no sinal-da-cruz

Foto Tarrenego!

Quem viu o Sporting-Braga na TVI deve ter reparado: depois de apitar para dar início ao jogo, o árbitro Marco Ferreira benzeu-se. Fez o sinal-da-cruz, versão resumida, "Em nome do Pai", mão direita na testa, "do Filho", mão no peito ou barriga, "e do Espírito", mão no ombro esquerdo, "Santo. Amém", mão no ombro direito. Tudo mais ou menos como manda a Santa Madre Igreja. Mas depois acrescentou-lhe o beijinho na mão propriamente dita, em seu nome pessoal, numa espécie de auto-adoração canonicamente desautorizada, para não lhe chamar outra coisa. Coisa feia.
São os árbitros, são os jogadores, são os treinadores. Não passam sem a chupadelazinha no dedo, que - perdoem-me que lhes diga - vale tanto no Céu como a entrada em campo com o pé direito. Deus está realmente à coca, mas vê pouco futebol e também é Pai do pé esquerdo.
E não é só no futebol. Nas nossas igrejas, com cada vez menos fregueses, esta entorse litúrgica vem passando de geração em geração e os fiéis de hoje até acreditam que foi sempre assim, que é assim. Mas não é: o beijo em mão própria está a mais, não faz parte do sinal-da-cruz.
Eu acho que sei como é que isto tudo começou. No tempo em que a missa era em latim e o povo, que já se via à rasca para perceber o português, aproveitava para ir rezando terços atrás de terços enquanto o padre, de costas voltadas para o mundo, se ocupava naqueles Dominus vobiscum que eram lá um assunto entre ele e o pobre do sacristão, que ajudava o melhor que sabia sem saber muito bem a quê.
Parece que ainda ouço. (As igrejas ecoam, sabiam?) O terço era sonoramente ciciado por mulheres enfiadas em bigodes e lenços pretos, bzzz, bzzz, bzzz, num cochicho ao despique remetido directamente a Nosso Senhor, embora devesse levar Nossa Senhora no endereço. O comendador Santos da Cunha, que era governador civil de Braga e ia a Fafe aos casamentos e funerais dos ricos do regime, também fazia bzzz, bzzz, bzzz, mas com voz de trombone, de terço na mão ostensiva, durante a missa inteira, e já ela era praticamente toda em português. E se o senhor comendador fazia, e fazia que se soubesse, é porque era a Bem da Nação - naquele tempo não havia dúvidas a esse respeito.
Ora bem. No fim da reza, e independentemente do que o padre estivesse a fazer lá à frente e do ponto em que a missa fosse, as pessoas benziam-se e beijavam respeitosamente o crucifixo do terço, que levavam aos lábios entre o dedo polegar e o indicador. Beijavam a cruz, não a mão, fiz-me explicar? Mas estão a ver a confusão que dali saiu? E por falar em Braga: narcisismos, só se meterem bacalhau, está bem?

P.S. - Publicado originalmente no dia 13 de Maio de 2012. Hoje, 13 de Abril, é Dia Internacional do Beijo ou Dia do Beijo ou Dia Mundial do Beijo - uma sorrateira ironia nestes estranhos tempos de afastamento profiláctico. António Maria Santos da Cunha (1911-1972) foi presidente da Câmara de Braga durante doze anos, governador civil do distrito e deputado à Assembleia Nacional. Ia muito a Fafe e era amigo do Mendes Ribeiro da Fábrica do Ferro e de outros figurões locais da situação fascista. Santos da Cunha tem um monumento na Cidade dos Arcebispos, mas não tem retratos no Google. A fotografia lá em cima, feita em Fafe, nos Bombeiros, descobri-a e trabalhei-a eu. A sua estreiteza não faz justiça à largura do homem. Ah! Aos beijos, guarde-os para já com todo o carinho: ainda nos vão fazer um jeitaço, desejo que mais cedo do que tarde...

domingo, 12 de abril de 2020

O almocinho de domingo, aleluia!

Um dominguinho como de costume e Deus manda. Missinha das onze, homiliazinha com palavrinhas a abater e um que outro puxãozinho de orelhas para temperar, uns acenozinhos ao rebanho, umas lambidelas recebidas na mão santa, a do cachucho, e depois... o almocinho. O almocinho de dominguinho: três pratos, tal qual a Santíssima Trindade e o outro assunto que não vem ao caso. Duas horas à mesa e sempre a dar-lhe, como se fosse castigo, penitência. "Ui! Comi que nem um abade" - desabafou, num arroto final. "Nada de modéstias, Vossa Excelência Reverendíssima Senhor Dom, afinal de contas sois Bispo, Bispo" - acudiu o solícito secretário, jovem presbítero, com as maiúsculas bajuladoras numa mão e o bicarbonato de sódio na outra. 

P.S. - Publicado originalmente no dia 10 de Julho de 2016. Derivado ao coronavírus e à encomenda do afastamento social, os afazeres de hoje resumem-se ao almocinho. Deo gratias!