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quinta-feira, 22 de outubro de 2026

Os missionários era como se fossem cobóis

Jesus bem fala, mas ninguém liga
Num dos seus inusitados momentos de imodéstia, Jesus Cristo disse: - A minha vida dava um filme! E deu. Deu até vários filmes. Quer-se dizer, deu centenas de filmes, alguns deles musicais. Jesus tinha dito "um filme". Mas, cá está, ninguém faz o que Ele manda...

Por falar em missionários, e aqui, como se diz no subtítulo do cabeçalho, fala-se. E com razão. Os missionários têm realmente que se lhes diga. Outubro é o Mês das Missões e o penúltimo domingo de Outubro é Dia Mundial das Missões, também chamado, às vezes, Dia Internacional das Missões. Estamos, portanto, no tempo. E isso traz-me boas memórias. Os missionários fizeram muito parte do meu imaginário infanto-juvenil. Embora o meu seminário fosse rigorosamente diocesano - e quando digo rigorosamente quero dizer mesmo rigorosamente, a doer -, eu acompanhava-lhes as aventuras através da literatura especializada, nas revistas Além-Mar e Audácia, pelo menos. Os missionários eram também interessantes personagens de romance e artistas de cinema, heróis e mártires, que eu já conhecia desde Fafe, porque em Fafe sabia-se tudo, até se sabia de leprosos, que o Senhor Abade ensinava e eu aprendia, ele era muito pelas vocações e eu queria muito ser padre. Isso, os missionários, Robert De Niro, Jeremy Irons, Liam Neeson, Andrew Garfield, Adam Driver, os pancrácios Terence Hill e Bud Spencer, Deus lhes perdoe, e até Javier Escrivá, muito lá atrás, no tempo do preto e branco, fazendo um Padre Damião que, naquela idade, me impressionou para toda a vida. Ser missionário devia ser porreiro, porque os missionários davam nos filmes e, no fim, iam para o Céu como quem cavalga em direcção ao pôr do sol. Os missionários era como se fossem cobóis, xerifes, valentes e talvez bons, amiúde nem lhes faltava a rapariga. Que histórias tão bonitas. Inspiradoras e edificantes.
Pedindo meia dúzia de palavras emprestadas a Emmanuel Carrère, do seu livro "O Reino", os missionários, quando começaram e durante séculos, foram, por outro lado, umas criaturas que a Igreja mandou por esse mundo fora para baptizar os selvagens sem lhes pedir opinião.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe)

terça-feira, 20 de outubro de 2026

A importância dos rijões no equilíbrio do planeta

Comida, carros e gajas
Acusam-nos de estarmos sempre a falar de comida. Nada de mais mentiroso e injusto. Na verdade, nós, os do Norte, somos tão capazes de manter conversas interessantes e profundas sobre gajas e carros como o resto da população portuguesa. Para além disso, se formos de Fafe, ninguém nos bate numa boa discussão sobre motorizadas.

Vou directo ao assunto, pelo menos uma vez: o redenho não é ingrediente indispensável para a confecção de uns rojões honestos e com outros matadores. Porém, se marcar presença, confere ao prato um não sei quê que por acaso sei e que tem a ver com o seu aspecto inusitado, com o sabor rústico mas colaborante, sabendo-se dar-lhe as voltas certas, e sobretudo com o crocante da textura.
Ora bem. Outro dia precisei de aviar uns rojõezinhos para uma gente que andava aí com desejos e fui ao talho, que eu sou de talhos e peixarias desde pequenino. Escolhi a carne, da febra e da barriga, o sangue e as tripas enfarinhadas. Quando pedi o fígado de porco, que na verdade até era e foi para organizar uma entrada de iscas de cebolada, o talhante, sem que eu dissesse mais nada, avisa-me: "Olhe que não temos redenho, não há". E depois, olhando para um lado e para o outro, chegando-se à frente do balcão à procura do meu ouvido e da minha cumplicidade para revelar-me o quarto segredo de Fátima, diz-me, num sussurro: "Quer-se dizer, haver há, mas é congelado". E, congelado, realmente "Não é a mesma coisa", concordámos eu e ele ao mesmo tempo, como se estivéssemos combinados.
Repito: o redenho não é indispensável aos rijões, sim, rijões, como se diz, e bem, na nossa terra. Mas a gentileza e a honestidade sim. Sobretudo nestes tempos de desrespeito pelos valores e de aviltamento das pessoas, tempos portugueses de antagonismos sociais, de pobreza imposta, de novos fascismos e de tristeza e azedume generalizados. Soube do redenho e senti a Terra a tremer debaixo dos meus pés. Algo mexeu com o equilíbrio estabelecido do Globo. A franqueza espontânea do talhante apanhou-me desprevenido, mas desanuviou-me a alma. Sou franco. Continuo a acreditar que anda meio mundo a enganar o outro meio, mas naquele momento, à frente dos meus olhos, um homem passou para o lado bom, que eu bem vi.
As coisas não são tão simples assim, é o que estais a pensar? São, são. E Dalila.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe)

sábado, 10 de outubro de 2026

Palavras que nunca te direi

Moto mutuatus
Perguntaram-lhe se tinha vindo de moto próprio. Ele disse que não, que era a do filho. 

Há frases assim, de categoria, que eu nunca na vida vou conseguir dizer, pelo menos sem me escangalhar a rir. Frases extraordinárias, antológicas, de filme ou de colecção, frases de classe, de poder, mas que exactamente por isso me ultrapassam, estão muito acima das minhas posses, do meu nível de vida, serão sempre areia demais para a minha modesta camioneta.
"Vou falar com os meus advogados". Mas, ó valha-me Deus, eu não tenho advogado, no singular, quanto mais advogados, no plural. Eu sou um banana, não me meto com ninguém. Se eu tivesse dinheiro para advogados, gastava-o mas era em raspadinhas.
"Os médicos dizem que". Isso é que era bom, quem me dera, e com um, unzinho que me falasse e ouvisse, já eu ficava todo contente. Mas não: estou há mais de dois anos à espera de uma consulta urgente que já me foi adiada por três vezes.
"Isto não é o que parece, eu posso explicar". Com a minha cara quando sou apanhado, tudo é o que parece ou até pior. É, é. Quanto mais explico, mais me enterro.
"Siga-me aquele carro". E dou a ordem a quem? Ao motorista do autocarro? Ao maquinista do metro? Havia de ir longe, havia...

(Do meu blogue Mistérios de Fafe)

sexta-feira, 9 de outubro de 2026

Tocavam sempre duas vezes

Marques do Correio
O Marques do Correio aposentou-se ao fim de quase 50 anos de serviço nos CTT. Figura popular e generosa, profissional de uma competência insuperável, admirado e estimado dentro e fora do serviço, em Portugal e até no estrangeiro, o velho Marques ficou conhecido sobretudo por ter inspirado uma bonita cantiga celebrizada pela voz extensa e quente de Alberto Ribeiro e intitulada, nem de propósito, "Marques do Correio", derivado exactamente ao nosso Marques propriamente dito.

Os carteiros de Fafe eram homens poderosos. Traziam dinheiro, levavam notícias e, sobretudo, sabiam tudo de toda a gente. A vida toda. A situação económica, a saúde, o casamento, os filhos, as inclinações políticas, desportivas e religiosas, sabiam de quem saltava o muro ou mijava fora do penico. Sabiam de mortos e de vivos. De virgindades, desconsolos, infidelidades e viúvas. Isso, de viúvas é que eles sabiam! E eram casamenteiros, espertos promotores de segundas núpcias. Viesse algum homem de fora à procura de uma viúva fafense ainda em uso para casar, era só perguntar ao carteiro. Ele levava o pretendente à porta certa. "Nova, jeitosa, trabalhadora e limpa", prometia, na melhor das intenções. À minha mãe foi-lhe oferecido um abastado batateiro transmontano, tinha camioneta e tudo, mas ela optou pela viuvez para o resto da vida. Foi pena. Estaríamos hoje todos muito bem...
Mas era assim. Para os nossos carteiros, não havia segredos na vila e arredores. Seriam um perigo, se por acaso não fossem também boas pessoas - e realmente eram-no.
A Polícia daquele tempo vestia uma farda de terilene cinzento, que era a cor da Autoridade e do País. Os carteiros também vestiam de cinzento, com boné e tudo, mas em cotim. A outra diferença é que os carteiros eram nossos amigos. Gente de categoria, profissionais prestáveis, pessoas decentes. Fafenses excelentíssimos, sem dúvida e sem favor.
Lembro-me do João da Quintã, irmão do Avelino do Café e casado com a Deolinda do Tónio Quim Calçada, o João que depois desistiu de ser carteiro e foi com a família para o Canadá, se não estou em erro. Lembro-me do António Cunha, também bombeiro e assíduo camarada de conversa. Lembro-me do bom Belarmino Freitas, casado com a Licinha Mota da Casa Satierf, que queria dizer Freitas ao contrário. Lembro-me evidentemente do pândego Aristides e estou em crer que ainda me lembro também do pai do Aristides, o carteiro Egídio, se a memória não me atraiçoa. Deveria decerto lembrar-me de mais ilustres carteiros da nossa terra, parece-me até que estou a vê-los, os rostos, as figuras, o modo de andar, mas infelizmente não me ocorrem os nomes que lhes correspondam. E peço desculpa pela involuntária omissão.
Para além de poderosos, eram intrépidos os nossos carteiros. Valentes. A calcantes, de bicicleta chocolateira ou numa velha motorizada de serviço, saca de couro a tiracolo, enfrentavam as mais violentas intempéries e até cães. E eram persistentes. Tocavam sempre duas vezes, como no cinema, e três e quatro e cinco e seis, tantas vezes quantas fossem necessárias para serem atendidos, se sabiam - e sabiam sempre - se havia gente em casa. Eles é que decidiam o que era urgente e o que podia esperar para o dia seguinte. Se fosse preciso, tratando-se de dinheiro ou de documentação importante com prazos a respeitar, diligências melindrosas que não podiam nem deviam ficar ao cuidado de vizinhos, então eles próprios, os carteiros, extrapolando obrigações e abandonando a rota determinada, iam à procura dos destinatários aos sítios alternativos do costume, aos locais mais extraordinários mas já conhecidos, habituais, na feira, na poça, no tanque público, no rio, nos campos, no café, no tasco, no campo da bola, à porta da igreja, palavra de honra, era mesmo assim que as coisas se passavam.
"Que nós bem, graças a Deus", dizíamos nas cartas que mandávamos aos nossos entes queridos, e estava certo, quero acreditar. Graças a Deus, que tudo sabe e por todos olha. Mas também graças aos carteiros. Pelo menos os de Fafe não Lhe ficavam muito atrás. E por eles esperávamos, ansiosos mas confiantes, "até à volta do correio"...

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. "O Carteiro Toca Sempre Duas Vezes" é um dos mais famosos romances do jornalista e escritor norte-americano James M. Cain. Adaptado para o cinema por David Mamet, deu origem ao filme homónimo de Bob Rafelson, com Jack Nicholson e Jessica Lange. Hoje é Dia Mundial dos Correios.)

quinta-feira, 8 de outubro de 2026

Homem que é homem joga "de mane"

Bilhar de bolso
O bilhar de bolso, é preciso que se note, não se chama assim por ser jogado numa mesa pequenina e talvez portátil.

Em Fafe jogava-se "de mane", e às vezes forte e feito. Desafiar alguém para um jogo "de mane", ó meus amigos, era caso sério, provocação do piorio, aviso de trovoada, podia-se até morrer, pelo menos de vergonha. Jogar "de mane" era assunto para homens de barba rija, nem que fossem crianças ou mulheres. E era também malandrice, sim. Era um repente, palavra de honra, mas que parecia uma eternidade. Um momento suspenso no tempo, é assim que me lembro e creio que digo bem. - Vai um joguinho? - dizia um, de olhos faiscantes, nervoso, coçando o coldre. - Contigo, só se for "de mane"... - respondia o outro, manhoso, pendurando o casado e ajeitando as partes, e fazia-se um silêncio inteiro na sala, um silêncio com fundo, até parecia que tocava "Il Triello" de Ennio Morricone mas só para dois mais eu, que, campeoníssimo dos acasos, estava sempre presente nestas ocasiões, quanto mais não fosse para ouvir a música imaginária, creio aliás que era o único que tinha essa estranha capacidade, e nesse sentido, às tantas, até fazia falta ao enredo. Para além disso, eu entendia-os como mais ninguém, legendava-lhes a conversa com pronúncia e entoação de livrinhos de cobóis, isto na minha cabeça, e depois contava assim aos adultos, que achavam um piadão ao "caralho do moço".
Jogava-se, portanto, a dinheiro. Era isso que "de mane" queria dizer. A expressão era auto-suficiente, valia só por si, mas era isso que implicada: dinheiro em jogo, aposta. Às vezes uma coroa, três tostões, cinco coroas, numa lerpa furtiva entre miúdos, ao domingo à tarde, atrás da esquina, só para começar carreira. Por norma vinte escudos, cinquenta ou cem, cada um, em todo o caso eram fortunas, para maiores de idade e chefes de família, uma nota em cima da outra, dobradas e depositadas maldisfarçadamente sob a tabela do bilhar, ali à vista de toda a gente e à espera do vencedor.
Que se segue. "Mane" afinal seria money, a palavra inglesa para dinheiro, aportuguesada às três pancadas, simplificada aos trambolhões para a nossa linguagem de rua, de feira, mas isso em Fafe não se sabia, não havia essa noção naquela época, era o que eu então supunha, porque a mim esta correspondência tão evidente passou-me completamente ao lado, e eu tinha a mania que era fino. E também não sei como é que se construiu a expressão completa "de mane", significando "a dinheiro", sendo certo que realmente me parece que agrada muito mais ao nosso ouvido ouvir dizer "de mane" do que "a mane".
Acredito que "de mane" era talvez fafês puro, original, e posso estar redondamente enganado. Não encontrei a expressão noutro lado, aliás em lado nenhum, nem em Fafe, verdade seja dita, mas também não me esforcei por aí além. Estou aberto ao desmentido e à correcção, se for esse o caso.
Eu era mocico, maluco por cinema e livros, sobretudo aos quadradinhos, entregava-me de alma e coração aos meus afazeres de mirone desimpedido, permanentemente em cima do acontecimento, fora as vezes em que a minha mãe me ia buscar pelas orelhas, e foram tantas. A minha mãe parecia que tinha radar. E eu tinha ideias e teorias. Para mim, na minha gloriosa ignorância, a expressão "de mane" vinha mas é de mano a mano, de homem para homem, cara a cara, face a face ou arca por arca, como também se falava antigamente. Indicava um confronto directo, proporcional, um duelo, uma luta ou uma competição entre duas pessoas em igualdade de condições, como anotam hoje os dicionários e tal qual como no desafio do bilhar, estais a ver, por isso, que, apesar de provavelmente errado, não era assim tão tolo o meu pensar naquela altura.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe)

domingo, 20 de setembro de 2026

Um teatro chamado Cinema

Foto Hernâni Von Doellinger

Banho-maria
Ele tinha piada. Dizia que era artista de "stand by" mas que, de momento, mantinha a carreira em "stand up".

Eu respeito o Teatro-Cinema de Fafe. O Teatro-Cinema de Fafe diz que se chama Teatro-Cinema, até tem o nome escrito na testa, "Teatro-Cinema", a bombar desde 1923, e eu cumpro-lhe a vontade, honro-lhe as origens, não vou agora chamar Silva ao Antunes só porque me apetece. Para mim, o Teatro-Cinema é o Teatro-Cinema. Isto é, Teatro-Cinema com hífen, isto é, com tirete, isto é, com traço-de-união, isto é, com traço, isto é, com tracinho, como diz o povo. Teatro-Cinema, assim, como lá está. Outros não pensam desta maneira.
Há quem lhe chame Cine-Teatro, até em documentos moderadamente lisboetas e oficias, e cineteatro, em bom rigor, quer dizer exactamente o mesmo que teatro-cinema, isto é, edifício que permite ou onde se realizam espectáculos de cinema e teatro ou vice-versa. É, portanto, correcto quanto ao conteúdo. Mas o nome verdadeiro está lá em cima, indesmentível, no bilhete de identidade, "Teatro-Cinema".
O meu avô da Bomba e os da geração do meu avô da Bomba chamavam-lhe, é verdade, Cine-Teatro, lembro-me disso, era nome em voga. O meu pai, eu e os da minha geração chamávamos-lhe e chamamos-lhe Cinema, porque no nosso tempo era o que lá havia e dizia-nos respeito, era o que tínhamos e amávamos, cinema. Mas, insisto, o Teatro-Cinema, chamem-lhe os nomes que quiserem, se lhe perguntarem, diz que se chama "Teatro-Cinema". Está à vista de toda a gente.
Entretanto, não sei quem, mas doutores certamente, não sei quando nem sei porquê, a coberto da noite e da Câmara Municipal, alguém foi, vamos um supor, ao Teatro-Cinema e sonegou-lhe o hífen, isto é, o tirete, isto é, o traço-de-união, isto é, o traço, isto é, o tracinho, como diz o povo. E agora os serviços e a propaganda do Município chamam Teatro Cinema ao nosso Teatro-Cinema, quem dera que não se lembrem também de ir a Braga abafar o agá do Theatro Circo.
Ora bem. Fafe tinha o Teatro-Cinema. O Teatro-Cinema, de Fafe, edifício-sala-local para apresentações teatrais e sessões cinematográficas. Agora tem o Teatro Cinema, isto é, um teatro chamado Cinema, isto é, Teatro Cinema, como Teatro Fernandes, como Teatro Maria Alice, como Teatro Aberto, como Teatro Privado. A palavra Cinema passou a nome do teatro. Teatro Cinema. Se ainda fosse no meu tempo, que era só filmes, ainda vá que não vá, mas actualmente, que é sobremaneira palco e o cinema mora ao lado, não vislumbro o sentido da coisa. Outros certamente vislumbrarão.

Resumindo e concluindo. A Câmara de Fafe, isto é, a autarquia, isto é, o Município, tem de fazer alguma coisa - porque, de momento, no que respeita ao Teatro-Cinema, a letra não bate com a careta, esta é que é a verdade. E eu sei muito bem como é que a coisa se resolvia. Era chamar a "magirus" dos Bombeiros e mandar lá acima um trolha de confiança e, se possível, acrobata, para apagar de vez o hífen, isto é, o tirete, isto é, o traço-de-união, isto é, o traço, isto é, o tracinho, como diz o povo. E os doutores passavam a ter razão.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. A primeira edição do Festival de Cannes realizou-se de 20 de Setembro a 5 de Outubro de 1946.)

sexta-feira, 18 de setembro de 2026

Era uma música muito estranha

Apontamento musical
Era um pequeno apontamento musical. Estava escrito num "post-it".

Uma vez, há muitos séculos, levaram-me a uma espécie de concerto no auditório do Conservatório de Música de Braga. Eu estava no seminário, teria no máximo os meus dezasseis anos e portanto que remédio. Fomos talvez para compor a sala, não faço ideia. E aquilo foi muito chato, não é para me gabar. Pela primeira vez na vida ouvi Béla Bartók, por interposta pessoa, e Cândido Lima, por ele próprio, creio que também com direito a comentários, ainda por cima. Saí de lá muito zangado com a padralhada e convencidíssimo de que o que acabara de ouvir não era música, até porque já tinha aprendido nas aulas que "música é um conjunto de sons agradáveis aos ouvidos", e na verdade eu vim cá para fora com as orelhas todas lixadas.
Que se segue? Descobri recentemente que existe o Dia Internacional da Música Estranha, festejado a 24 de Agosto, e lembrei-me deste lamentável episódio, que me marcou como ferro em brasa até aos dias de hoje. E então, quer-se dizer, talvez aquilo fosse isso: música estranha. Mas eu não sabia. Devo acrescentar, em minha defesa, que entretanto mudei de opinião a respeito daquela, digamos assim, especialidade musical. Mudei de opinião, mas apenas um bocadinho e, devo confessar, pelo devido respeito à carreira, obra e prestígio internacional do maestro Cândido Lima, que nasceu em Viana do Castelo, em 1939. Fundador do Grupo Música Nova, autor de "A Sétima Voz", "Madrigal Blue" e "Cartas", ele foi o primeiro compositor português a utilizar em simultâneo, entre outros meios, computador, electroacústica e orquestra.

E cá está. Cinquenta anos depois daquela experiência traumática, quase tolerei, no outro dia, a música de Martin Matalon sobreposta ao filme "Metropolis", de Fritz Lang, na Casa da Música, trabalho "para 16 instrumentistas e eletrónica" executado ao vivo pelo Remix Ensemble, sob a direcção de Bastien Stil. Quase tolerei, digo bem. O filme, mudo, centenário, interessou-me muito, nunca o tinha visto assim praticamente integral, reconstruído, é realmente uma obra-prima, isso nem se discute, mas a banda sonora, esgalhada ali mesmo à minha frente, incomodou-me sobremaneira. O som estava nos limites do insuportavelmente alto, parece que agora é assim no cinema, a música era irritante, estridente, agreste, agressiva, despropositada, um suplício para o meu ouvido sensível e requintado, um ouvido gourmet, não falta quem mo inveje. Mas ali me mantive, alapado, sofredor e inusitadamente culto, mesmo depois do intervalo, até ao fim, embora já soubesse que o artista ia ficar com a rapariga e que os trabalhadores estragam tudo quando levantam a cabeça e fazem revoluções, felizmente temos os ricos, os de cima, que nos perdoam e safam sempre. Para além disso, precisava de apanhar o metro e já era de noite. Sentada ao meu lado, a Mi, que nem é destas coisas, portou-se também como uma heroína.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe)

quinta-feira, 23 de julho de 2026

Os tirones de Fafe

Diz-me o que vestes
A forma de vestir diz tudo acerca das pessoas. Vejamos, por exemplo, os nudistas.

Um homem saía de casa com fato novo, sapato engraxado, talvez flor na lapela e até chapéu, que eu ainda sou desse tempo, e na rua diziam-lhe - Eh pá, estás todo tirone! E quereis saber? Era um elogio, melhor cumprimento era impossível para começar bem o dia. Falava-se assim em Fafe, mas este aqui não era um falar exclusivo nosso, fafês autêntico, seria, antes, de uso particularmente nortenho, isso estou em crer que digo bem.
O termo, tirone, remonta certamente a meados do século passado e virá do cinema, do famoso e elegantérrimo actor americano Tyrone Power, que fazia então um enorme sucesso sobretudo entre o público feminino. A estrela apagou-se, o galã acabou por desaparecer, mas ficou o nome, a alcunha, esta espécie de adjectivo a calhar tão bem aos vaidosos sessentões fafenses, tirone, sinónimo de elegante, bem-posto, aprumado, chique, catita, peralta, peralvilho, casquilho, janota, pimpão, boneco, emperiquitado, dândi, indivíduo bem vestido com o seu quê de preciosismo, bem ajambrado, que veste à moda, nos trinques, como se diz agora no português das telenovelas brasileiras.
Em Fafe, naquele tempo, as pessoas ricas vestiam muito bem. Ou então as pessoas ricas vestiam bem em todo o lado, mas eu não sabia, porque eu só conhecia Fafe e, como mundo, Fafe bastava-me. A minha mulher ri-se quando repetidamente lhe conto, com todos os pormenores e mais um, como as pessoas ricas de Fafe vestiam bem, os casacos assertoados ou em tweed ou em linho, os blazers azuis, as calças em lã, com pinças e dobra em baixo, muito vincadinhas, ou em terilene cinzento, que era uma novidade, as camisas triple marfel, os sapatos italianos clássicos, com sola alta de Inverno e com sola baixa de Verão, os sobretudos impecáveis, esculturais, colados ao corpo, as gabardinas double-face, o guarda-chuva irrepreensivelmente enrolado, londrino até dar com um pau, porém comprado na selecta Chapelaria Antunes, e os lenços e as gravatas e os perfumes e a cigarreira e o isqueiro pelo menos de prata e às vezes a boquilha, eles realmente todos tirones, como mandava o figurino, e nós de calças de cotim remendadas no cu e nos joelhos, os pés arrastando chancas e uma vergonha enorme de sermos pobres.
Regra geral, os homens de Fafe eram uns fidalgos, por assim dizer ou parecer, pelo menos aos domingos, feriados e dias santos, casamentos, comunhões e baptizados, ida às sortes, idas à feira, visitas à madrinha, idas às putas, excursões a Fátima e ao Portugal dos Pequenitos, e muito particularmente, por maioria de razão, nos 16 de Maio e pela Senhora de Antime. Aí então, não é para os gabar, apresentavam-se com todos os matadores e roupa geralmente a estrear.
É preciso que se diga que Fafe tinha uma colecção de alfaiates de altíssimo coturno, e espero falar deles com mais vagar um destes dias. Os nossos tirones iam ao alfaiate, tinham alfaiate privativo, escolhiam modelo, cor e tecido, e vestiam-se por medida. Mas não iam à Riopele comprar o corte, atenção, isso era para os remediados. Por outro lado, os fatos prontos a vestir chegaram às excelentíssimas Lobas já em plena década de setenta, eram Corte Inglés, eu bem lhes namorava a montra, como boi olhando para palácio, mas aquilo também ainda não era para nós. Nem para os tirones fafenses, que, classe acima de tudo, continuaram a preferir a exclusividade, o serviço personalizado e impecável da nobre alfaiataria local, honra lhes seja. Só depois é que vieram as calças vermelhas, os pulôveres cor-de-rosa ou amarelos pelos ombros e os sapatos com berloques. Isto é, o betismo...

Em todo o caso, Tirone também foi um nome regularmente usado em Fafe para cães. Mas, quanto a isso, não sei que diga.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia do Alfaiate e da Modista.)

quarta-feira, 27 de maio de 2026

O heroísmo ia-me matando

A última a morrer
Era uma família convencional. Morreram, naturalmente por esta ordem, o Acúrsio, a Adelaide, o Tibério, a Catarina, a Rosa, o Celestino e finalmente a Esperança. É daí que vem.

Vamos supor que era o Grand Central Terminal de Nova Iorque, ou talvez a Escadaria Richelieu em Odessa, e estávamos no quentinho do cinema. Víamos "Os Intocáveis", de 1987, de Brian De Palma e David Mamet, com Kevin Costner, Robert De Niro e Sean Connery, ou talvez "O Couraçado Potemkine", de 1925, obra maior de Sergei Eisenstein. Mas na verdade estávamos em Vila do Conde à chuva e era um tanque público no quarteirão da Santa Casa da Misericórdia. Eu passando. A pé, como me é comum. Houve um tempo em que fiz aquele caminho todos os dias da semana, durante meses. Gostava do sítio, lembrava-me Fafe, a minha mãe, as lavadeiras caralheiras da minha infância. Mas então: eu passando. Um carrinho de bebé sem condutor sai de súbito do lavadouro, primeiro em câmara lenta, como nos filmes, e depois, rapidamente embalado pela força da realidade, ultrapassa o passeio e desembesta para o meio da estrada a ferver de trânsito.
Naquele preciso momento sinto o primeiro e único impulso de heroísmo de toda a minha vida, largo atabalhoadamente o guarda-chuva aberto, que nunca mais vi, voo para o carrinho a pensar na CMTV, na TVI, na CNN, no YouTube, no TikTok, no tuk-tuk, em Marcelo Rebelo de Sousa, na medalha do 10 de Junho, na reforma vitalícia (pensa-se em muita merda numa fracção de segundos), rezo a Nosso Senhor Jesus Cristo, a São Cristóvão e a Santiago de Compostela, meu padrinho e protector, peço tapas e mais uma caña, faço promessa à Senhora de Antime, falta-me o ar de repente, é o coração que me entope cobardemente a garganta, as pernas tremem-me como varas verdes mas desta vez não falham, voo para o carrinho, dizia, e agarro-o e arranco-o já no milagroso resvés com um Toyota Yaris que passa nas horas e me enche de nomes, inclusive "Ó voi!", mas é o menos. Estamos salvos, graças a Deus. Tornamos ao passeio, respiro de alívio, doem-me os músculos todos, os ossos, manco dos dois pés, e por isso não se nota. A mãe grita, finalmente, de mãos espetadas na cabeça desgrenhada, "Ai o carrinho!", e o pai berra, "Olha o carrinho!", e dá mais uma puxa no paivante.
"O carrinho?", interpelo eu e repito, mais fodido do que outra coisa, "O carrinho? E a criança, caralho!?...", "A criança!?...", as palavras saem-me aos soluços e eu preciso urgentemente de uma cadeira para me sentar uma última vez antes de morrer. "Mas qual criança?", dizem-me os dois, com caras combinadas de quem me manda à merda com a senha número um e portanto sem direito a cadeira, e desconfio que me ficaram com o guarda-chuva. "Qual criança?", e riem-se afinadíssimos da minha agonia. Tinham praticamente razão: olhei para o carrinho que mantinha nas minhas mãos cerradas e aflitas, roxas e brancas, o bebé eram quatro passadeiras lavadas, enroladas e ainda pingantes - as quatro filhas da puta pelas quais eu só não faleci prematuramente e por engano porque sou um gajo cheio de sorte.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia de Não Temer.)

terça-feira, 26 de maio de 2026

Uma pedra na sapatilha

Gorilas da Bruna
Bruna é uma "youtuber" bastante "influencer". Elegante, bonita, regularmente recauchutada, famosa por ser famosa, esbanja sensualidade por tudo e por nada e enriqueceu por causa disso. Bruna mal pode sair à rua como as outras pessoas, isto é, põe um pé fora da porta a caminho da piscina por exemplo em Ibiza e multidões de adoradores caem-lhe em cima. Bruna tem milhões de seguidores. De perseguidores. Para fazer uma vida normal, viu-se até obrigada a contratar dois possantes seguranças, ou guarda-costas, à Kevin Costner, ou gorilas, como também se diz, que não a largam um segundo e vão com ela a todo o lado, inclusive à casa de banho por exemplo nas Maldivas. São conhecidos como os gorilas da Bruna.

Duas mulheres com feições e conversa orientais, deito-me a adivinhar. Provavelmente chinesas e aparentemente mãe e filha. Ouço-as antes de as ver. Estão agachadas entre os arbustos do Parque da Cidade, em posição de necessidades, acabo por reparar sem intenção. Desolho num relâmpago, cheio de vergonha e culpa por ter olhado, e fujo dali para fora aos solavancos o mais depressa que posso. As sapatilhas que herdei do meu filho para uma segunda vida fazem-me bolhas nos calcanhares e na planta dos pés. Mancam-me. Já é o terceiro par que recebo assim, manhosamente cilicioso, começo a suspeitar que é de propósito. O Kiko anda a praxar-me não sei porquê.
Dia seguinte à mesma hora, lá estão elas outra vez. As duas novamente cochichando, aninhadas, movendo-se de cócoras pelo meio do restolho como melros assustadiços ou talvez David Attenborough amoitado no coração das florestas tropicais de Bornéu e, alto e pára o baile, isso já me autoriza a não desviar o olhar. Isso de as mulheres se moverem e estarem afinal completamente vestidas e compostas, digo bem, mais o facto de cada uma delas arrastar consigo de vez em quando uma daquelas enormes sacas de supermercado que custavam 50 cêntimos nos dias em que não eram dadas. Entretanto acabaram-se as borlas. Aproximo-me, como quem não quer a coisa. "É pala chá. Só pala chá. Só chá!", diz-me de jacto a senhora mais velha, veemente, incomodada e, parece-me, desconfiada, se não mesmo receosa, da minha inocente curiosidade.
Percebo. As duas mulheres com feições e conversa orientais catam flores de madressilva, que já esbordam, brancas e amarelas, das sacas de supermercado. Voltam lá todos os dias, na época, vejo-as pelas cinco da tarde, às vezes com reforços, um rancho depenicando muros anões e fartos naquela zona mais recatada do parque. Cheira que consola! O ar é doce como mel...
Consulto o Dr. Google, que me explica tudo ou quase tudo. A flor de madressilva é altamente valorizada na medicina tradicional chinesa, que lhe reconhece propriedades adstringente, antibacteriana, antifúngica, anti-séptica, antiespasmódica, antitumor, diaforética, diurética, expectorante, febrífuga, hipoglicémica, laxante e refrigerante. A madressilva, mãe de todas as curas, usa-se para tratar a asma, o colesterol alto, a congestão linfática, a diarreia, a disenteria, a dor de cabeça, a dor de garganta, erupções cutâneas, febre, gripe, inchaços, infecção bacteriana, intoxicação gastrintestinal, laringite, queimadura do sol, sumagre-venenoso, tosse e úlceras. Se lhe conseguirmos acrescentar as unhas encravadas a sida e a covid, como chegou a ser sugerido na China, estaremos então na presença de uma panaceia ao nível da nossa famosa banha da cobra, misteriosamente desaparecida das feiras mas ainda à venda em mercados sorrateiros ou alternativos, que eu bem sei.
Por outro lado: a avaliar pela posição em que é apanhada, o mais certo é que a flor de madressilva faça muito mal às costas - é o que penso. E então lembro-me da querida Bó de Basto, que sabia de lendas, de mouras encantadas e de penedos de morar, que distinguia cogumelos, que conhecia plantas, chás para dores de barriga ou outras maleitas assim a atirarem mais para o pataqueiro, aflições comezinhas, nada comparável com a multifuncionalidade e potência da flor de madressilva, remédio capaz de afrontar as mais medonhas e sofisticadas pestes e pragas, existentes ou por inventar. Lembro-me dos curandeiros, talhadores e endireitas de Fafe e arredores, mulheres e homens honrados e competentes, abençoados por saberes antigos e generosos aliviadores de corpos e espíritos, fui cliente frequente, levado pelas orelhas, lembro-me de me consertarem maus jeitos e trasorelhos, ossos desviados, rachadelas, comichões diversas, uma e outra vez, era eu miúdo e arisco, pobre e feliz, saltando alegremente de desastre em desastre, à falta de outros brinquedos. O nosso bruxo, diga-se em abono da verdade, chegou alguns anos mais tarde, já não veio a tempo de mim.
Mas eu e as duas sobressaltadas apanhadoras de flores de madressilva no Parque da Cidade, quereis saber que mais? Reparastes certamente: a mulher mais velha, sem que eu lhe tivesse perguntado, fez questão de dizer-me, enfaticamente, como se estivesse a justificar-se, a defender-se de uma acusação não formulada, que era "só pala chá". Mas porquê? A coisa também se fuma, será? Alegra a disposição? Hummm!... Vim-me embora com essa pedra no sapato. E era realmente escusado. As sacanas das sapatilhas já me dão mau andar que chegue.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe)

segunda-feira, 25 de maio de 2026

Jardins perdidos

Traz uma árvore também
Era uma localidade um bocadinho estranha, naturalmente austera porém exuberantemente moderna e cosmopolita. Nas suas principais entradas, a autarquia colocara frondosas tabuletas que avisavam os forasteiros: "Se quiser sombra, traga a sua própria árvore".

Os jardins era uma coisa que existia antigamente. Como os castelos, as pinturas rupestres, as pirâmides e assim. Era uma coisa muito antiga, do tempo dos romanos, basta ver que Deus, quando criou o mundo, o mundo era um jardim, mais ou menos como a Madeira, mas chamava-se Éden, como o velho cinema de Lisboa, ou Jardim do Éden ou Jardim das Delícias ou Paraíso Terreal ou simplesmente Paraíso, como o novo cinema de Palazzo Adriano. O plural de Éden é édenes, convém não esquecer.
E corria tudo bem no Paraíso. Quer-se dizer: corria tudo na paz do Senhor. Poder-se-ia até afirmar, creio que sem forçar demasiado a nota, que o Paraíso era, naquele tempo, um autêntico paraíso. Estava escrito, porém, que Adão e Eva tinham de asnear. Podiam ter cometido um pecado qualquer, um pecadinho de nada, um pecado repetido, copiado, um que estivesse na moda. Mas não! - quiseram ser originais. E foram. Adão e Eva cometeram o pecado original e deu na merda que deu. Até hoje.
Eu sou desse tempo. Do tempo em que ainda havia jardins. Não se sabe bem se foi por causa dos traques dos dinossauros ou derivado ao impacto de um asteróide gigante, eventualmente do tamanho de uma cidade, a verdade é que coisas antigas como os castelos, as pinturas rupestres, as pirâmides, os jardins e assim foram regra geral varridas da face da Terra, restando hoje em dia apenas algumas amostras assumidamente raras e razoavelmente arqueológicas.
Para que a Humanidade tenha pelo menos uma vaga ideia de como era o mundo em Portugal antes do apocalipse é que Portugal descobriu Vila Nova de Foz Côa, por exemplo, e Fafe mantém às vezes de porta aberta o vetusto Jardim do Calvário, que nos seus tempos mais pré-históricos até teve crocodilos, e bem barulhentos, isso toda a gente sabe.
Os jardins antigos, os jardins entretanto desaparecidos, foram substituídos por urbanismo, é assim que se chama a nova coisa. E como é que isso se fez? Como é que isso se faz?

Desta maneira simples. Pegue-se num bom pedaço de terreno relvado, com árvores e com sombras, e arrase-se tudo. O terreno, a relva, as árvores e as sombras. O urbanismo não quer sombras. Encha-se o espaço de alcatrão, cimento, placas de granito e mármore, pedregulhos aparelhados fazendo de conta de bancos e estacas de alumínio a imitarem árvores ou, quem sabe, a imitarem esculturas muito inteligentes e indecifráveis, de preferência com esguichos mas sem água derivado à seca e à poupança. Isto é urbanismo! Pegue-se no jardim da cidade, arranquem-se as flores e os arbustos, envenene-se o verde, construam-se desertos em forma de praça e mandem-se as pessoas para casa. Isto é urbanismo! Pegue-se num monte, sítio de memórias, de brincadeiras da infância, santuário de locais secretos e míticos, reserva de saúde e natureza, e corte-se-lhe a crista, cape-se, desarborize-se, desfaune-se, terraplene-se, enxote-se a bicharada, cale-se o incómodo do chilreio dos pássaros, ergam-se moradias de preferência com feitio de caixote, altas, pegadas e muitas, fechadas, e muros e portões e alarmes e estradas e carros e escapes e buzinas e estampanços e atropelamentos e antenas parabólicas e fios e postes de alta ou remediada tensão. Isto é urbanismo!

Resumindo e concluindo: roubam-nos os jardins e dão-nos esplanadas desamparadas e escaldantes, arrancam-nos as árvores e impingem-nos guarda-sóis publicitários. E, se nos queixamos, dizem-nos que não percebemos nada do assunto. Mas qual assunto? Viver?...

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Nacional dos Jardins.)

quinta-feira, 7 de maio de 2026

O Céu pode esperar

Para falar com Deus
Tomou horas, foi para a fila, tirou senha, esperou vez, chamaram-lhe o número, acostou finalmente ao balcão das informações e perguntou: - Para falar com Deus, falo com quem?...

Manhã cinzenta de Outono a ameaçar chuva. No chão de cimento do pequeno cemitério, bem varrido, jaz, abandonada e fria, uma senha de vez. Aos meus pés, o famigerado ticket, ou tiquê, como nos dá muito mais jeito dizer, e dá-nos sempre muito mais jeito dizer mal. Vergo-me e apanho. "Sua vez", avisa a senha número E29, como se soubesse alguma coisa da minha vida que eu não sei. Da minha vida ou da minha morte. E manda, "Puxe". Puxei, quero dizer, pensei: poderia dar-se o caso de ser esta a solução desenterrada por espertos sepultadores para organizar as dezenas ou centenas de defuntos que diariamente se acotovelam aos portões dos cemitérios sobrelotados, à espera de vez, à espera de vaga. (Os mortos portugueses têm geralmente medo de serem queimados vivos e, como resultado, num país com uns económicos 92 mil quilómetros quadrados, os nossos campos-santos rebentam pelas costuras, as campas não chegam para as encomendas.) Mas não: a coisa não é assim tão terrena, pensei melhor, isto vem, upa, upa, lá de cima. É assunto de almas e não de corpos. É. O Céu está equipado com pelo menos um dispensador de senhas de vez, tive a certeza e tinha a prova na palma da mão. Percebi tudo. Queres a salvação eterna? Tira o número e vai para a fila, essa é que é essa! "Mas que bizarra epifania, mas que desgosto tão grande, lá se me foram os fundamentos" - lamuriei-me, rangendo os dentes. - "Até Tu, meu Deus?! Que tristeza! Onde o negócio e a burocracia já chegaram"...
O meu número é o E29, calhou-me, não sei em que número vai, mas, palavra de honra, estou sem pressa. Dou a vez.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Mundial da Senha.)

quinta-feira, 16 de abril de 2026

Fulanos, sopranos e beltranos

Compensações
Quem disse que o crime não compensa, decerto não sabia fazer contas...

Os sopranos têm, por definição, o tom de voz mais agudo e com mais alcance de mulher ou de rapaz muito novo. Se os sopranos forem homens, os puristas preferem chamar-lhes contratenores, que há quem confunda com contentores. Os sopranos dividem-se essencialmente em sete partes: soprano ligeiro, soprano lírico-ligeiro, soprano lírico, soprano lírico-spinto, soprano lírico-dramático, soprano dramático e soprano ultraligeiro. Também podem ser saxofones ou clarinetes. Nos Estados Unidos, os Sopranos ainda piam mais fino: falam com sotaque e gestos italianos, são mais que as mães, maus como as cobras e convictos frequentadores de meretrizes. São extremamente mafiosos e profundos conhecedores, estes sim, de contentores, blocos de cimento, peixes e rios, para além de cabeças de cavalo, que há quem confunda com cabeças de cavala. De escabeche. Quando inadvertidamente apanhados por famílias de outros naipes, liquidados e desmembrados como manda a lei, os Sopranos são chamados, por divertimento, meios-sopranos. Os Sopranos americanos fizeram uma excelente série de televisão e posteriormente derem em filme, o que se lamenta. O melhor Soprano do mundo (portanto, o pior) chamava-se Tony e padecia de ansiedade.
O meu pai era músico e tocava saxofone, tenor, na Banda de Revelhe, de Fafe. Isto antes de ir para França. O meu irmão Orlando também. Também foi músico e também tocou saxofone, alto, na Banda de Revelhe. Isto antes de se dedicar a outros consertos. O meu irmão José Manuel foi músico toda a a vida na Banda de Revelhe, mas tocava trompete ou, vá lá, fliscorne. Isto antes de se cansar. Eu cheguei a aprender música para a Banda de Revelhe, porém o máximo que sei tocar é campainhas de porta. Mas canto como um trombone.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Mundial da Voz.)

quarta-feira, 11 de março de 2026

No que respeita à canalização

Hoje é Dia Mundial da Canalização ou World Plumbing Day, como se diz na versão original sem legendas. O Dia Mundial da Canalização é um dia muito importante sobretudo derivado ao canalizador propriamente dito. No que lhe diz respeito, o canalizador é um indivíduo bastante importante para as donas de casa em geral e nomeadamente para o segmento pornográfico da indústria cinematográfica. Fafe nunca teve grande tradição no palpitante nicho dos filmes pornográficos, pelo menos antes da invenção dos telemóveis com vídeo e das redes sociais. No meu tempo, ia-se a Guimarães, ao Jordão. E era para adultos. Pervertidos, mas maiores de idade. E era isto.

P.S. - Hoje é Dia Mundial da Canalização.

terça-feira, 3 de março de 2026

As orelhas andam aos pares

Gastrónoma
Ouviu falar em molho-verde, e disse logo que não. Ela era "ter-mi-nan-te-men-te contra os corantes"...

As orelhas. As orelhas são muito úteis. E andam geralmente aos pares, como as luvas, as calças, as meias, as botas, os patins, as jarras, os estalos e os cornos. As orelhas servem para segurar o lápis, o cigarro, de preferência apagado, e o raminho de alfádega, que já ninguém sabe o que é mas que se usava muito em Fafe, sobretudo nas tardadas de romaria. As orelhas ficam muito bem com brincos, argolas e outros tipos de piercing. De acordo com a banda desenhada antiga, os pigmeus e outras tribos mais ou menos canibais usavam ossos espetados nas orelhas. Era a moda. As orelhas centram muito bem a cabeça e estão no sítio certo para se puxar as orelhas, que era um método de ensino muito recomendado, praticado com todo o zelo e com provas dadas no meu tempo. Hoje em dia é proibido puxar as orelhas nas escolas, só se for aos professores. Os puxões de orelhas aos professores são gravados no telemóvel e mandados, com uma grande risota, para as chamadas redes sociais. Das escolas saem cada vez mais orelhudos. E entram nas chamadas redes sociais.
As orelhas produzem cera, cotão e pêlos, materiais altamente combustíveis. As orelhas ardem: se for a orelha direita, é porque estão a dizer bem de nós; se for a orelha esquerda, é porque nos estão a rogar na pele. É o que diz o povo. Se arderem as duas orelhas ao mesmo tempo, o melhor é chamar os bombeiros. As orelhas também deitam fumo sem fogo, pelo menos nos desenhos animados.
Existem várias qualidades de orelhas, como por exemplo orelhas de elfo, orelhas de abano, orelhas de rato, orelhas de gato, orelhas-de-lebre, orelhas-de-ovelha, orelhas de macaco, orelhas-de-abade, orelhas-de-judas, orelhas moucas, orelhas-de-mula e, passando à política, orelhas de burro.
As orelhas doem e quando doem chamam-se ouvidos e muitos nomes feios. As orelhas são vizinhas de porta do esternocleidomastóideo, que é o músculo mais famoso do mundo à pala do Vasquinho da Anatomia. O Vasquinho da Anatomia era o Vasco Santana a fazer de estudante-fadista na "Canção de Lisboa" à séria, o filme de 1933, co-estrelado, não a cavalo, com Beatriz Costa e António Silva. As orelhas, em situações extremas, servem também para a nossa alimentação. Neste caso, para disfarçar, chamam-se orelheira. Em tempos de crise como os que vivemos, e agora com a entrada do Verão, é preferível que se sirva fria, como a vingança, mas com molho-verde.
Às vezes as orelhas dão jeito para ouvir. Ouvir é quase sempre bom e é derivado às orelhas, com ou sem sonotone. Eu gosto muito de orelhas e tenho duas. De momento.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Mundial da Audição.)

domingo, 22 de fevereiro de 2026

Os cinemas também se abatem

Fitas...
Não vá em fitas! Máscara de ferro é uma coisa, testa-de-ferro é outra.

O cinema foi sempre a coisa mais importante da minha vida, até deixar de ser. Creio que a última vez em que entrei numa sala de cinema convencional levava pela mão o meu filho, ou vice-versa, para vermos "O Rei Leão", portanto no Verão de 1994 e, lamentavelmente, era a versão portuguesa.
Comecei cedo, ainda de calças curtas e a dar uso nas legendas às primeiras letras que trazia aprendidas da escola. Era o tempo do cinema ao ar livre na parada das traseiras dos velhos Bombeiros, na Rua José Cardoso Vieira de Castro, entre os dois palacetes. Debaixo da escadaria do quartel foi montada uma espaçosa e saudabilíssima cabina de projecção toda ela construída em lusalite, e o terreiro enchia-se de cadeiras e bancos corridos com costas. O operador era o Porinhos, se não me engano, eu via os filmes da janela do quarto do meu padrinho e tio Américo, derivado à falta de idade, depois o cinema acabou sem mais nem menos, sem me avisarem ou explicarem, a parada lá ficou, como o próprio nome indica, e o barraco, de tão jeitoso, aproveitou-se para arrecadação das tralhas do meu avô.
Ainda em Fafe, mais tarde, tornei-me ferrinho do Teatro-Cinema, andei pelas aldeias com o Pimenta, de catrel e altifalantes, a anunciar os "ma-gní-fi-cos" filmes que, pelo Verão, passavam no campo de futebol e eram tão fraquinhos, frequentei bissextamente o salão inacabado do Martinho da Granja, se a memória não me atraiçoa, e fui uma ou duas vezes ao Estúdio Fénix. Entretanto, levado pela vida, tinha-me virado para Braga - São Geraldo e Teatro-Circo -, e para Guimarães - São Mamede e Jordão. Vi cinema, de forma avulsa e por exemplo, em Vila Real, Figueira da Foz, Amadora, Lisboa, Dublin, Roma, Manchester ou Bordéus, onde de momento estivesse e pudesse.
Instalei-me no Porto e não me escapou um: Águia D'Ouro, Batalha, Carlos Alberto, Charlot, Coliseu, Estúdio, Estúdio Foco, Estúdio 400, Júlio Dinis, Lumière, Nun'Álvares, Passos Manuel, Olímpia, Pedro Cem, Rivoli, Sá da Bandeira, Terço, Trindade, Vale Formoso, Chaplin, em Leça da Palmeira, e até o Vitória, na Circunvalação, mas tecnicamente do lado de Rio Tinto, Gondomar.
E agora, que é deles? Onde estão os velhos cinemas do Porto? Fecharam todos? A cadeado? Foram todos ao shopping e perderam-se? Eu sei que também não vou ao cinema há mais de um quarto de século, mas a culpa não é minha: é do meu filho, que cresceu, e isso realmente faz-me diferença.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Falo disto, aqui no Tarrenego!, pelo menos desde Fevereiro de 2019. Em 2026, que ainda não chegou aos dois meses, Portugal perdeu 112 salas de cinema, conta o Expresso.)

sábado, 14 de fevereiro de 2026

Apocalypse Now

Atenção, muita atenção! Emprestei o meu "Apocalypse Now" não sei quando nem a quem nem porquê. Não me lembro! Sei é que o estupor do DVD nunca mais me tornou a casa, e, aos anos que vai, já deve andar no liceu, senão na universidade. Ao sacrista que se está a aproveitar de mim e da minha franqueza, digo apenas o seguinte: não foi uma doação, pá, devolve-me essa merda, pá, devolve, e até pode ser sob anonimato, porque, se te descubro, se te adivinho sequer - não sei se estás a ver o filme...

P.S. - Hoje é Dia Internacional da Doação de Livros.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Torna! Torna! Torna!

Dizia o povo antigo, na sua proverbial sabedoria, que os de Guimarães esfolam gatos e matam cães. Eu parece-me que devia ser proibido...

Torna! Torna! Torna! - gritava-se quando o gado fugia, implorando o socorro de quem por ali andasse e ouvisse e, de braços abertos balançantes e palavras mansas, pudesse suster, sossegar e encarreirar de volta os animais. Tornar era mandar para trás. Era como quem dizia "Cerca! Cerca! Cerca!", versão mais em uso pela moçarada para animar as hostes, convocar reforços e impedir a fuga dos da outra rua, em plena emboscada à coiada por causa do golo que não valeu, e mais ainda nem havia VAR. "Torna! Torna! Torna!" era também grito de guerra dos equívocos caça-cães fafenses, armados de redes, laços de contenção e palavrões de diversos calibres, levando a eito para o matadouro canídeos ostensivamente vadios ou, por azar, apenas sem dono à vista.
Para apanhar perigosos fujões, isto é, crianças com medo da pancada em casa ou bandidos sem medo nenhum, berrava-se igualmente "Torna! Torna! Torna!", como aconteceu daquela vez com o desgraçado oficial de justiça a correr atrás do preso que se lhe escapuliu à porta do Tribunal, de mãos algemadas mas pé ligeiro, e só foi agarrado já no nosso Santo, à força da ajuda do povo, quase em frente às Ferreira Leite e à Milinha Vaqueiro, que também saltaram para a molhada. "Torna! Torna! Torna!" era, em Fafe, o clamor de recaptura pelos tresmalhados em geral. Claro que também havia o "Toma! Toma! Toma!", que eu sabia dos robertos na televisão e uma maré, pelas feiras ou festas, vi ao vivo num biombo montado em Baixo da Arcada. E o "Tora! Tora! Tora!", mas isso, evidentemente, já é outro filme.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Noite do Encontro Canino.)

segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

A culpa foi do mordomo

Abençoado juiz
- Levante-se o réu - disse o juiz. O réu levantou-se e andou, perante o espanto e a comoção gerais. Abençoado juiz! Só naquela semana já era o quarto milagre...

Vinham chegando aos poucos e discretos. August Dupin, Dick Tracy, Miss Marple, Clouseou, Ellery Queen, Maigret, Mike Hammer, Poirot, Sam Spade, Nero Wolfe, Vera Stanhope, Philip Marlowe, Perry Mason, Ironside, Kojak, Columbo e Pepe Carvalho. Sherlock Holmes apareceu enfim, atrasadíssimo e ofegante e com um restinho de farinha amparo na ponta do nariz. Disse que a culpa foi do mordomo.

P.S. - Versão revista e aumentada, publicada no meu blogue Mistérios de Fafe. A escritora britânica Agatha Christie, criadora de Hercule Poirot e Miss Marple, morreu no dia 12 de Janeiro de 1976. Tinha 85 anos.