sábado, 31 de outubro de 2020

Os grandes problemas

Os grandes problemas vão ser discutidos. Só serão admitidos à discussão problemas com mais de um metro e noventa e três.  

Quem vem e atravessa o rio

Foto Hernâni Von Doellinger

A Ponte de Luís I, ligando Gaia ao Porto por sobre o rio Douro na zona das respectivas Ribeiras, foi inaugurada no dia 31 de Outubro de 1886. Anos mais tarde o seu tabuleiro superior serviu de cenário a um iglantónico combate entre o Zé Cão de Fafe e um "boxevista" a sério, tudo por causa das putas...

Carlos Drummond de Andrade 8

A língua lambe

A língua lambe as pétalas vermelhas
da rosa pluriaberta; a língua lavra
certo oculto botão, e vai tecendo
lépidas variações de leves ritmos.

E lambe, lambilonga, lambilenta,
a licorina gruta cabeluda,
e, quanto mais lambente, mais ativa,
atinge o céu do céu, entre gemidos,

entre gritos, balidos e rugidos
de leões na floresta, enfurecidos.

"O Amor Natural", Carlos Drummond de Andrade

(Carlos Drummond de Andrade nasceu no dia 31 de Outubro de 1902. Morreu em 1987.) 

Na minha rua passa o mar 96

Foto Hernâni Von Doellinger

Día das Letras Galegas e de Ricardo Carvalho Calero

[Un cabelo de anjo]

Un cabelo de anjo
pendurado do ceo,
se non é a espada de Democles
é adival para o espírito,
ximio equilibrista,
que, nel agareado,
pode arrandear sobre a terra
e crer que é a araña dun fío
tirado do seu propio miolo,
cordón umbilical que o vencella
o seu niño que está no azul.
Mais non sabemos
qué é o norte, qué é o sul,
o cenit e o nadir,
a vida e a morte,
a terra e o ceo,
cál é o metro que leva ao paraíso
e qué aeronave nos conduz ao inferno.

"Poemas Pendurados de Un Cabelo", Carvalho Calero, "Futuro Condicional"

(17 de Maio é, desde 1963, Día das Letras Galegas. Este ano, que homenageia Ricardo Carvalho Calero, a celebração foi adiada para hoje.) 

Caminho 848

Foto Hernâni Von Doellinger

sexta-feira, 30 de outubro de 2020

Como o mundo é pequeno (e um bocado idiota)

- Perdoar-me-á que o interpele assim sem mais nem menos, sem o conhecer de lado nenhum, mas o caro senhor é um bocado idiota, não é?
- Sou, com efeito, um bocado idiota, mas como é que o caro senhor adivinhou?
- Um pressentimento. É que eu também sou...
- O caro senhor também é um pressentimento?
- Não, não, caro senhor: também sou um bocado idiota.
- Como o mundo é pequeno! Somos então praticamente primos...
- Parentes, pelo menos...
- E, mal que lhe pergunte, o caro amigo é um bocado idiota por parte da senhora sua mãe ou por parte do senhor seu pai?
- Por parte do senhor meu pai.
- Mas isso é extraordinário, caro amigo, porque eu também sou...
- O caro amigo também é um bocado idiota por parte do senhor meu pai?
- Não, não, caro amigo: sou um bocado idiota mas por parte do senhor meu pai.
- Oh, que pena! Quase que éramos irmãos, não é?... 

(A propósito. O extraordinário romancista russo Fiodor Dostoievski terá nascido no dia 30 de Outubro de 1821, embora haja quem diga 11 de Novembro de 1821. Dostoievski, que era engenheiro militar, escreveu, entre outras inúmeras obras-primas, "Crime e Castigo", "Os Irmãos Karamazov" e "O idiota". E é por isso.)

Esta água imita o fogo que devora sombras e escombros

Foto Hernâni Von Doellinger

Daí em diante, como os animais, nós espreitaríamos, fugiríamos

Sobreviventes do fim do mundo (a falácia)
Gosto destes filmes da moda que contam o fim do mundo, os diversos modelos de fim do mundo, e a luta heróica dos sobreviventes. Invasões marcianas, asteróides desgovernados, pandemias assassinas, ataques de mortos-vivos, catástrofes de proporções bíblicas, apocalípticas, deuteronómicas, cenários dantescos, a estrada da morte, a cinza, a escuridão, a asfixia, o nada, o-drama-a-tragédia-o-horror. O planeta desaparece e, no seu regenerador desaparecimento, traz à tona os melhores dos melhores de todos nós, americanos por certo. O pai-herói, a mãe-coragem, o bebé-milagre, o Sepúlveda-Taberneiro, de quem ninguém sabia há mais de quarenta anos, desde que pôs os cornos à mulher no Sabugal e fugiu com a espanhola da casa de alterne. Para a América, Kansas City, Missouri. Dão bons títulos nos jornais.

Estes filmes fazem-me acreditar na redenção da humanidade. Os sobreviventes são a esperança num futuro melhor. Espera... - mas qual futuro e quais sobreviventes? Se o mundo acabou, como é que há sobreviventes?... 

O fim do mundo
Quando lhe disseram que vinha aí o fim do mundo, comprou setecentos e noventa e três rolos de papel higiénico e declarou: - Estou preparada!

P.S. - No dia 30 de Outubro de 1938, Orson Welles transmitiu a versão radiofónica da "Guerra dos Mundos", de H. G. Welles, simulando uma reportagem em direto sobre a invasão da Terra por marcianos. Os americanos acreditaram que era verdade. O medo paralisou três cidades e houve pânico principalmente em localidades próximas de Nova Jersey, onde o programa era feito e onde tudo alegadamente acontecia.

Eles andam aí

Foto Hernâni Von Doellinger

Sensibilidade e bom senso

- É pá, pensava que já tinhas morrido... 

P.S. - A primeira edição de "Sensibilidade e Bom Senso", de Jane Austen, saiu no dia 30 de Outubro de 1811.

Numa manhã assim

Foto Hernâni Von Doellinger

Carvalho Calero 9

Saudade dumha voz

Assi,
assi cantava ela.
Polo meu coraçom
passa tam fugitivo o seu cantar,
que a lembrança
nom o pode apreixar.
Assi cantava ela,
com aquela voz que era monlho de flores
molhado na água morna da tristeza.
Que cabelos, que vam, que beiços tinha?
É do esqueço. Somente
a sua voz morta fica
no cadaleito do meu peito, acesa.
Perdêrom-se-me os olhos, e o cabelo, e o vam.
Ficou-me só a sua voz,
o eco da sua voz,
sem verba, sem contido.
O seu cantar que cantar era?
Polo meu coraçom
pasa como umha maina bris de outono
remexendo coas asas a arboreda.
Como canta essa bris,
assi cantava ela,
assi era a sua voz.
Aquela voz que era feixe de estrelas
esparegidas polo céu da dor.

"Pretérito Imperfecto", Carvalho Calero

(Carvalho Calero nasceu no dia 30 de Outubro de 1910. Morreu em 1990.) 

Caminho 847

Foto Hernâni Von Doellinger

quinta-feira, 29 de outubro de 2020

Mais que a letra, é o espírito que no livro procuro

O livro
Chegou à última página com o coração dilacerado entre a euforia e o desalento. Que mundo extraordinário, o livro. Quinhentas e sessenta e três páginas cheias de mistério, de sonho, de imaginação, de fantasia, certamente romance, amores e desamores, aventuras e desventuras, acção, suspense, final inesperado. Por outro lado, pensou, acariciando-lhe vagarosamente a lombada, num gemido mal disfarçado de suspiro: - Ah, se eu soubesse ler!...

Os livros
Gosto de afagar os livros que leio. Cheiro-os. Protejo-os. Guardo-os com mil cuidados. E deixei de emprestá-los!

É dos livros
Isto só lá vai à lombada. É dos livros.  

P.S. - Hoje, 29 de Outubro, é Dia do Livro. No Brasil. O Dia do Livro Português é por cá assinalado a 26 de Março. E depois venham-me falar de "acordo ortográfico"...

Também faço isto muito bem 514

Foto Hernâni Von Doellinger

José Chagas 5

O homem, na cirurgia,
a trocar peça por peça,
sucata que se avalia
pelo nada que se meça,

pensa que então se recria,
a acreditar na promessa
ou na pura fantasia
de que por si recomeça.

Mas na verdade ele tem
de esperar que morra alguém
que outorgue a peça exigida.

Pois são os mortos que outorgam
o favor de um novo órgão
como empréstimo de vida.

"Antropoema", José Chagas

(José Chagas nasceu no dia 29 de Outubro de 1924. Morreu em 2014.)

Debaixo da ponte não se está mal...

Foto Hernâni Von Doellinger

Adalgisa Nery 8

Instante

O espanto abriu meu pensamento
Com idioma vindo do delírio,
Dos receios indefesos, dos louvores sem raízes,
No perdão oferecido sem razão.
O espanto abriu meu pensamento
Na noite carregada de lamentos
Em linguagem universal
Fluindo do eco perdido
Com passos de presságio amanhecendo.
Corpos florindo na pele da terra
Acendendo vida nas rosas e nos vermes,
Aumentando a potência do limo,
Preparando a primavera nos campos,
Ventres irrigando secas raízes,
Cogumelos róseos crescendo
Na umidade das faces.
Coagulação de prantos na semente
Das constelações adivinhadas.
E no faminto inconsciente, o tempo
Sorvendo com fúria o seu sustento
No insondável silêncio de mim mesma.

"Erosão", Adalgisa Nery

(Adalgisa Nery nasceu no dia 29 de Outubro de 1905. Morreu em 1980.) 

Na minha rua passa o mar 95

Foto Hernâni Von Doellinger

quarta-feira, 28 de outubro de 2020

Isto das idades

O quarentão é a média de todos nós. O cinquentão começa a desconfiar da vida. O sexagenário passa a constar das notícias. O septuagenário anda em contramão na auto-estrada. O octogenário é porque se safou no acidente. O nonagenário quer que os quarentões, os cinquentões os sexagenários, os septuagenários e os octogenários se fodam e refodam. O centenário só se realiza de cem em cem anos, e está certo.

P.S. - Hoje, 28 de Outubro, é Dia Mundial da Terceira Idade. Vá lá, fez pódio...  

Que fazeis por aqui, ó gatos?

Foto Hernâni Von Doellinger

Natércia Freire 4

Liberta em pedra

Livre, liberta em pedra.
Até onde couber
tudo o que é dor maior,
por dentro da harmonia jacente,
aguda, fria, atroz,
de cada dia.

Não importam feições,
curvas de seios e ancas,
pés erectos à luz
e brancas, brancas, brancas,
as mãos.

Importa a liberdade
de não ceder à vida,
um segundo sequer.

Ser de pedra por fora
e só por dentro ser.
- Falavas? Não ouvi.
- Beijavas? Não senti.
Morreram? Ah! Morri, morri, morri!

Livre, liberta em pedra,
voltada para a luz
e para o mar azul
e para o mar revolto...
E fugir pela noite,
sem corpo, nem dinheiro,
para ler os meus santos
e os meus aventureiros,
(para ser dos meus santos,
dos meus aventureiros),
filósofos e nautas,
de tantos nevoeiros.

Entre o peso das salas,
da música concreta,
de espantalhos de deuses,
que fará o Poeta? 


"Liberta em Pedra", Natércia Freire

(Natércia Freire nasceu no dia 28 de Outubro de 1919. Morreu em 2004.) 

Caminho 846

Foto Hernâni Von Doellinger

Xosé Filgueira Valverde 7

Da ribeira do río
vin chegar un navío,
ai amor,
que me trouxo o sino.

Da ribeira do alto
vin entrar o trincado,
ai amor,
que me trouxo o fado.

Vin saír o navío
e chegar o desvío,
ai amor,
a levar amigo.

Vin marchar o trincado
i-entrar o desengano,
ai amor,
a roubar amado.

Para longo desvío
non ei mar nin navío,
nin amor,
nin sabor do río.

Para longo desengano,
nin auga, nin trincado,
nin amor,
nin sabor do alto!

"Seis Cantigas de Mar in Modo Antico", Xosé Filgueira Valverde 

(Xosé Filgueira Valverde nasceu no dia 28 de Outubro de 1906. Morreu em 1996.) 

Esse teu ar grave e sério

Foto Hernâni Von Doellinger

terça-feira, 27 de outubro de 2020

Fino como um alho

Burro como um soco. Duro como um corno. Bêbado como um cacho. Quer-se dizer: o soco, o corno e o cacho, que culpa é que têm?... 

Quantos pontos, quantos nós, quantas avós...


Isaac Singer, mal considerado o inventor da máquina de costura, nasceu no dia 27 de Outubro de 1811. Foi também actor e empresário. O Sr. Singer tinha uma loja muito jeitosa em Fafe, vendia máquinas propriamente ditas, peças e acessórios, lubrificadores e lubrificantes, linhas e tafetás, montava, afinava e dava assistência ao domicílio - mas nunca o vi por lá. E a loja era verde...

A máquina de costura foi inventada durante a primeira Revolução Industrial, em 1790, e a sua paternidade é geralmente atribuída ao inglês Thomas Saint. O conceito de máquina de costura já existiria, no entanto, desde 1755. Em 1830, o alfaiate francês Barthélemy Thimmonier aperfeiçoou a tecnologia existente, dando passo às futuras linhas de produção de roupas à escala industrial. Em 1846, o americano Elias Howe Jr. patenteou a máquina de costura com ponto fixo.

Egas Moniz e os cucos

Egas Moniz sempre gostou de fazer a cabeça dos outros. Começou com o pequeno Afonso Henriques e deu-se mal. Depois generalizou e deram-lhe um Nobel. Ultimamente querem tirar-lho, por causa do abuso.

P.S. - O Prémio Nobel da Medicina foi atribuído ao professor e investigador português Egas Moniz no dia 27 de Outubro de 1949. Natural de Avanca, António Caetano de Abreu Freire Egas Moniz, nascido António Caetano de Abreu Freire de Resende e conhecido como António Egas Moniz, foi médico, político, escritor e sobretudo o neurocirurgião radical que nos deu sem querer o filme "Voando Sobre Um Ninho de Cucos" - um dos melhores da história do cinema.

Caminho 845

Foto Hernâni Von Doellinger

Faustino Rey Romero 4

Festas de S. Telmo en Tui
Festas de chuvia e orballo
Nas festas de S. Telmo
Fai un frio de carallo.

Faustino Rey Romero

(Faustino Rey Romero nasceu no dia 27 de Outubro de 1921. Morreu em 1971.) 

Também faço isto muito bem 513

Foto Hernâni Von Doellinger

segunda-feira, 26 de outubro de 2020

O futebol, essa ciência

A primeira fase de construção de jogo, por exemplo. Dá que pensar, não dá? Desde logo: com quantas fases se constrói o jogo? Com quatro, como as fases que constroem a Lua? Com três, como na electricidade? Com onze, como a camisa? Ou não se sabe, como na canoa? Por outro lado: há um terço do terreno específico onde a primeira fase de construção de jogo deva preferencialmente ocorrer para ser assim chamada? Ou, dito de outra forma: uma fase de construção de jogo efectuada no segundo ou no último terço do terreno é tão fase de construção de jogo como tendo acontecido no primeiro terço, ou, assim avançados, já estaremos no campo da desconstrução de jogo? E a desconstrução de jogo, a propósito, tem também fases ou é mais certinha?

E o último terço do terreno, ele próprio? O último terço do terreno será apenas o terço que o defunto leva nas mãos para a cova, como levianamente preconizam alguns infiéis? Não creio. De acordo com renomados autores, o último terço do terreno é o primeiro terço do terreno. Mas a comunidade científica ainda não chegou a um consenso. Tendo em atenção que o último (ou primeiro) terço do terreno é aquele espaço que vai desde a linha de fundo ou de baliza até à linha imaginária que fica equidistante da linha de grande área e da linha de meio campo, eu sustento, e creio que o consigo provar sem deixar margens para dúvidas, que o terço do terreno dá para os dois lados, como certas e determinadas pessoas, consoante se ataca ou se defende. Advirto, no entanto, que esta é uma opinião meramente pessoal, que não vincula o Tarrenego!, ainda sem posição oficial sobre o assunto. É o meu modesto contributo para um debate que não deve ficar entre linhas.

Foi mais um momento de inteligência e reflexão futebolística. No próximo programa vamos debruçar-nos sobre a intrigante problemática da transição rápida. Para tentarmos perceber, nomeadamente, a partir de que momento uma transição deixa de ser rápida e passa a ser assim-assim. E tentaremos responder à questão medular: os processos defensivo, ofensivo e de transição também são julgados em tribunal?

Da defesa mista ao prego em prato


A defesa mista não foi inventada por Luís Freitas Lobo. Mas, na boca de Freitas Lobo, a defesa mista ganha foros de insondável ciência, sublimidade concomitante e apropinquada só ao alcance de dois ou três predestinados: ele. Além disso, a defesa mística explica quase tudo o que acontece, para o bem e para o mal, no último terço do terreno, amém.

Luís Freitas Lobo é um homem culto e sabe muito de futebol, muito mais do que eu - é preciso que se note. Mas fala pelos cotovelos e pelos joelhos, decerto nunca se ouviu. É muita posse de bola, e o parlapiê havia de aparecer também nas estatísticas finais, à beira dos cantos e dos remates à baliza, a ver se ele tomava sentido. O comentador televisivo não deixa espaço ao narrador que eu só quero que me diga os nomes dos números, põe-se à frente do telespectador, acha que fala para cegos doutorados, metaforizando as coisas corriqueiras que, porventura desconhece, nós também estamos a ver e somos simples. Quer-se dizer: o comentador é ruído. Freitas Lobo, que acha que tudo o que diz é absolutamente essencial e extraordinário, está a banalizar o jogo, a desvalorizá-lo, a transformá-lo numa treta. Porque passam-se coisas no campo, coisas, e eu tenho dois olhos e a minha opinião.
Já sei: vão dizer-me que, se não gosto, sempre posso tirar o som. Tirei.

Era uma bola a pinchar e onze contra onze numa luta brava em campo pelado. Naquela altura eu acreditava no futebol. Era o jogo da bola, só isso, mais uma que outra coça aos árbitros. Lembro-me dos jogadores com camisas de botões e das chuteiras remendadas e de travessas. O meu coração era amarelo e preto, todo branco de vez em quando, com o azul e branco ainda guardado para segundas núpcias. Lembro-me dos jogadores que nasciam e morriam no clube onde nasceram. Lembro-me de jogadores que verdadeiramente morreriam em campo pelo seu clube, era só dizerem-lhes que era preciso. Lembro-me de jogadores que corriam como se treinassem todos os dias e só treinavam durante o jogo. Lembro-me de jogadores que fugiam da tropa para jogar e depois iam presos. Lembro-me de jogadores que chegavam da guerra carregados de paludismo e queriam lá saber. Lembro-me de jogadores que choravam nas derrotas e embebedavam-se nas vitórias, porque era assim. Lembro-me e gosto. Sou um bocado velho, o que se há-de fazer?

Os palavrões futebolísticos com nada dentro não nasceram agora, neste tempo insosso cheio de periodizações tácticas, champôs e espaços entre linhas. Há mestres antes do mestre. E nem vou falar dos estimáveis Gabriel Alves e Rui Tovar. Mas do consagrado Alves dos Santos, que nos deu a "pertinácia" e o "arreganho", e viu um golo "exactamente igual ao golo anterior", quando a Eurovisão estreou as repetições (que era só uma, com um inesperado e mal amanhado R no canto superior direito do ecrã da televisão do Peludo) e ele não sabia. Ou do bom do Mário Wilson, então treinador do Boavista, quando perdeu nas Antas e queixou-se dos golos de "bola parada". José Maria Pedroto, então treinador do FC Porto, disse que não podia ser: bola parada não anda, logo não entra, explicou.

Sou, portanto, antigo. Gosto de futebol. Dos noventa e tal minutos que se jogam em campo. Vejo e sei o que vejo, não preciso que ninguém me ensine e dispenso a opinião especialista. Para mim um jogo não dura uma semana. E, sim, gosto de ver futebol na televisão, mas, para ouvir futebol, prefiro a Antena 1. Ou então um prego em prato.

P.S. - Publicado originalmente no dia 10 de Novembro de 2013. No dia 26 de Outubro de 1863 foi fundada em Londres a Football Association, a mais antiga associação de futebol do mundo. É, digamos, a Federação lá deles. A fotografia que aqui meto retirei-a do livro "Associação Desportiva de Fafe - 50 Anos de História", de Artur Ferreira Coimbra. É a nossa equipa da época 1962/1963. Da esquerda para a direita, de pé: Toneca, Germano, Apolinário, Ricoca, Costa, Adelino, Manel Zebras e o massagista João "Americano"; de joelhos: Júlio Alves, Fernando Alves, Berto Dantas, Mário "Machica", Adriano e Avelino Lopes. Fafe, diga-se em abono da verdade, deu ao mundo do futebol, para além dos exemplaríssimos supracitados, nomes tão extraordinários como Riga, Piré, Rates, Estafete, Mulato, Caganito, Trolas, Feira Velha, Esparrinhento, Pescoça, Ferradeira ou Mofo. Nomes que são uma primeirinha, do tempo em que o futebol era desporto e jogado por gente como nós. Uns antes, outros depois, estes e mais, foram e ainda são os meus ídolos.

Biblioteca pública (propriamente dita)

Foto Hernâni Von Doellinger

Hoje, 26 de Outubro, é Dia da Biblioteca Escolar. Os livros, como se sabe, são desperdícios que não servem sequer para amparar a perna manca de uma mesa de cozinha.

Como um camelo

Dizer-se que ele bebia como um camelo era um abuso. Ele bebia realmente muito, mas todos os dias. 

E é sempre a primeira vez

Foto Hernâni Von Doellinger

Antón Tovar 4

Hoxe

O camiñar cotián, iste cabouco
podrecido de chuvias e saudades,
vai feríndome sempre
nas esquinas dos hoxes sin remate.
Vaime levando
como o afogado o mar polos seus canles
noitébregos ó fondo da tristura
que medra cos meus pasos e me abrangue.

Ás veces penso naquil neno
medrando cara ó mundo pra apreixare,
no peito ilusionado
longo hourizonte de romaxes.
¿Onde seu corazón erguéndose nos ollos
alcendidos de xílgaros e labres?

Nada quedou tras si. Nada do pulo
xeneroso i ergueito, nada, a chave
das arelas máis fondas vai perdida
na podremia dos hoxes, abafantes.
Tristes rúas fedentas, tristes homes
embazados de chuvias, i unha imaxe
perdida no fondal de aquiles ollos,
mergullada nos ontes do meu sangue...

¿Que podremia foi ista?, ¿por que veu?,
¿que fixen eu pra que me aldraxen,
pra que me firan naquil mozo
inxenuo que aínda son ? ¿Que trabe
me foi pechando?

I eu que pensei de neno tan xigantes
eirexas e montañas,
i orelas a acenarme,
agora vou chantado nun cincento luscofusco
esborrallándome
no corazón dos hoxes
por casas, rúas, mortos, por enxames
de moitedumes, monifate
atoutiñando,
de laxe en laxe,
sempre na misma rúa apodrecida,
sempre no mismo cárcere.

¿Que fixemos, Señor, pra tante morte?,
¿que fixen eu pra tanta aldraxe?

 "Arredores", Antón Tovar

(Antón Tovar nasceu no dia 26 de Outubro de 1921. Morreu em 2004.) 

Caminho 844

Foto Hernâni Von Doellinger

Murilo Araújo 8

Bailado

A noite odora,
é mansa a flora;
e andam em dança
três virgens, fora
na sombra mansa.

Uma, a Esperança,
(implora ou ora?)
tem as mãos juntas...

Outra, que avança,
me beija (e cora...)
e faz perguntas.

E outra, a Lembrança,
silente chora
suas defuntas!

Mas quando a aurora
aflora, mansa,
vão logo embora,
vão logo em dança
na sombra mansa.

"Carrilhões", Murilo Araújo

(Murilo Araújo nasceu no dia 26 de Outubro de 1894. Morreu em 1980.) 

Na minha rua passa o mar 94

Foto Hernâni Von Doellinger

Darcy Ribeiro 5

A indesejada

Aí estão eles, os da terceira idade.
Gregários, vivem aos bandos.
Sentados, jogando cartas, andando devagar.
Conversando pretéritos assuntos.
Olhando tristes os outros viverem.

Antigamente, todos seriam avós, vovozinhos.
Hoje, são sogros, os chatos dos sogros.
Uns são viúvos, outros largados, poucos.
Muitos deles, os mais, ainda casados.
As mulheres duram demais.

Órfãos de seus filhos, ocupadíssimos.
Não reclamam, resmungam disfarçados.
Estão todos aflitos, na espera
Da indesejada, que tarda.
Tarda, é certo, mas virá. Inexorável.

"Eros e Tanatos", Darcy Ribeiro

(Darcy Ribeiro nasceu no dia 26 de Outubro de 1922. Morreu em 1997.) 

Na prise

Foto Hernâni Von Doellinger

domingo, 25 de outubro de 2020

A minha mãe avisou: o povo é tolo e estamos de volta à fressura

Há pelo menos uma grande superfície do Porto que está a vender fressura às pessoas como se fosse para dar de comer aos cães. Mas é para a mesa das pessoas. As pessoas andam com fome e pedem a fressura. Nas lojas de congelados, as cabeças de pescada foram cortadas ao meio e as caras de bacalhau saem como pãezinhos quentes. As pessoas, que andam com fome e nunca na vida cozinharam (e não sabem cozinhar), agora olham para umas postas esquisitas, perguntam "que peixe é este?, é bom para quê?", os funcionários dos frigoríficos fazem o papel respectivo, inventam no momento um nome qualquer para o peixe e dizem que "é bom para o forno, para fritar, para a brasa, para estufar, para caldeirada, é bom, muito bom", e o peixe é uma merda mas as pessoas querem acreditar que é bom, muito bom, porque é multifunções e muito mais barato do que peixe a sério e estão com fome. E levam. E são levadas. E está bem: o polvo e as lulas agora são potas. Filhos da puta que nos puseram assim. Nos talhos, o fígado para iscas e os ossos da suã são hits nacionais. Os pescoços de frango também e as asas é um ar que se lhes dá. As pessoas estão sem dinheiro e têm fome. As pessoas não têm emprego e as que têm trabalham para pagar impostos e remédios.
A ver se me faço compreender: sempre fui praticante de asas e pescoços de frango, de ossos da suã, de iscas de fígado, de caras de bacalhau e de cabeça de pescada, se for inteira. Fui e sou. Sei dar-lhes o valor e as voltas: cá em casa são petiscos. Ainda não necessidade. À fressura (deixem-se lá de malícias) é que nunca mais tornei.
E em miúdo até era eu quem ia ao Talho, a mando da minha mãe, comprar "um quarto de fresura" para a massa do almoço, "se faz favor". Só havia um talho na vila, e por isso era com maiúscula, e não há uma mãe como a minha. Se acham que é lugar-comum, isto da minha mãe, estão redondamente enganados. Perguntem em Fafe, chama-se Alexandrina e vão ficar admirados. Mas a minha mãe hei-de explicá-la como deve ser mais lá para diante.
Já sabem que éramos pobres. Comíamos "fresura" porque era o mais em conta que havia aparentado com carne para comermos à semana. E casava muito bem com massa, que era também comida de quem apenas sobrevivia. Eu aprendi a gostar e gostava sobretudo do rinca-rinca do cano. Já a parte do bofe fazia-me uma certa impressão e ainda hoje sou contra as chiclas. Ao domingo comíamos bife, microbife, é preciso que se note, porque a minha mãe tinha artes de ilusionista, truques de economia. A minha mãe fazia comida muito boa e devia ser ministra das Finanças.

A minha mãe passou por muito e diz que o 25 de Abril foi o melhor que aconteceu em Portugal. Isso e os títulos do FC Porto, que eram, a bem dizer, proibidos. A minha mãe não admite marcha-atrás. "O povo é tolo! Pobreza era no tempo do fascismo", diz a minha mãe, e os títulos do Benfica também eram. Mas, ó mãe, deixe lá o relato só por um bocadinho: estamos de volta à "fresura"?...

P.S. - Hoje, 25 de Outubro, é Dia Mundial das Massas.

"O" Palacete

Foto Hernâni Von Doellinger

Il segreto

O dilema do almoço de domingo
Os domingos têm este pequeno problema, e quem seja de Fafe e antigo sabe do que falo: tripas ou vitela assada? Esta é que é a verdadeira questão, o shakespeariano dilema do almoço dominical. Os fafenses, gente de bom comer e satisfatório beber, resolveram facilmente o assunto, há muito, muito tempo: isto é, em vez de tripas "ou" vitela assada, o almocinho de domingo passou a providenciar tripas "e" vitela assada. Nem Salomão, no seu ancestral e sábio critério, tomaria decisão mais acertada.
A vitelinha guiava-se em casa, com vagar e carinho, com as voltinhas todas, e as tripas, regra geral, iam-se buscar num tachinho à Esquiça ou à Pacata, consoante a ideia que cada um tinha acerca da sua própria posição social.
Começava-se portanto pelas tripas, e a seguir vinha a vitela. O apetite era gerido ao milímetro, mais ou menos um bocadinho daquelas, mais ou menos um bocadinho desta - porque, como determina o princípio da impenetrabilidade da matéria, dois corpos não podem ocupar o mesmo espaço ao mesmo tempo, e as vacas é que têm felizmente quatro estômagos. Ora bem: a malta nova, pouco dada à tripalhada, reservava-se para a chicha com batatinha de ouro e arroz de forno. Mas de quando em quando reservava-se mal. Como daquela vez em que o nosso Zé não tocou no feijão. Perguntaram-lhe se estava doente, se tinha fastio, se queria um caldinho branco, se queria meter o termómetro. Que não, que não, que não e que não, respondeu respectivamente, e explicou todo gaiteiro: - Estou a guardar-me para a vitela!
Naquele domingo não havia vitela. E as tripas já tinham saído da mesa...

Não é para me gabar, mas hoje cá em casa fiz massa à lavrador, por causa das coisas, e só sei dizer que estava uma especialidade.

O segredo está na pasta
Nem no molho, nem na massa. O segredo está na pasta. Uma pasta de segurança, diplomática, confidencial, fechada a sete chaves. 

Massas
Gostava de uma boa massa à lavrador, de uma boa massa de marisco e sobretudo de uma boa massa de bacalhau. Quanto à massa de ar quente, não é que desgostasse, mas afligia-o a flatulência.

A continha, se faz favor...
Pediu um copo-d'água. Trouxeram-lhe dois croquetes, dois rissóis de camarão, dois rissóis de carne, meia dúzia de bolinhos de bacalhau anões, uma empada de vitela, um pratinho de salada russa, um pratinho de salada de feijão fradinho, um pratinho de polvo em molho verde, um pratinho de moelas de coelho, um pratinho de massa à lavrador, um pires de tremoços, cem gramas de camarão, duas navalheiras, quatro mexilhões em vinagreta, três asas de frango, meia cabeça de leitão, quatro fatias de lombo de porco assado, meia dose de rojões com arroz de sarrabulho, uma canja com esgravatadeira, uma fatia de bolo-rei, um par de noivos, um café. E um copo de água. 

As extraordinárias descobertas da ciência
Os cientistas descobriram: os neutrinos têm massa. Os portugueses, de uma forma geral, não! 

P.S. - Hoje, dia 25 de Outubro, é Dia Mundial das Massas.

Ó Maria, traz cá a escada

Foto Hernâni Von Doellinger

Coentros e raspanetes

Semeei coentros num vaso. Um vaso pequeno, que a varanda é curta e só dá mesmo para isso: vasinhos - com salsa, manjericão, tomilho, hortelã, alecrim e coentros, azevinho para me lembrar que há sempre Natal apesar de tudo, e duas daquelas plantas dadas ao deserto e tão portuguesas dos nossos dias que conseguem safar-se sem comer e sem beber durante pelo menos ano e meio. Uma foi-me oferecida pelo meu amigo Almeida, fino como um alho para me ensinar a vida. Tivesse eu espaço e também lá metia, a ver se dava, tudo o que não tenho e nos faz tanta falta, como, por exemplo, batatas, arroz, bacalhau, emprego, azeite, pão, ossos da suã, respeito, sardinhas, carapaus, médicos, enfermeiros, bifanas e outras coisas assim. Mas deixemo-nos de lamechices.
O que interessa é isto, dei utilidade à minha manhã de domingo. Semeei o vaso de coentros e preguei-lhes logo um sermão, porque realmente de pequenino é que se torce o pepino (sim, pepinos também era bem bom!): meus ricos meninos, disse-lhes eu, está um frio que não se pode andar com ela ao léu, mas não quero cá pieguices! O tempo está ruim, está sim senhor, são tempos de pandemia e de períodos de chuva fraca passando gradualmente a regime de aguaceiros, mas é em tempos assim que se vê de que massa é que os coentros são feitos (massa também dava jeito, se for de cotovelos)! Temos de ser exigentes, meus montes de merda (isto é o chamado estrume moral), temos de ser persistentes, suas sementes de trazer por casa (é verdade, apanhei-as no vaso do ano passado)! E dou catorze dias, talvez dez, para vos começar a ver a fronha, com geada ou sem geada, o problema é vosso, engonhas sem vergonha! Catorze dias, talvez dez, um atrás do outro, sem sequer tirar fora, disse eu ao vaso e não estava para brincadeiras. Queres feriado, toma!

Vamos lá ver o que acontece. Diz que se deve falar com as plantas e eu falei logo com as sementes. Tenho um vizinho alemão que se chama Adolfo e que gostou muito de me ouvir. Só espero não ter sido duro demais. Os coentros fazem-me falta. 

P.S. - Hoje, 25 de Outubro, é Dia Mundial das Massas.

E mal pago

Foto Hernâni Von Doellinger

Podia acontecer

A madama tinha um cão ao colo e, entre as pernas mas ao nível dos sapatos de tacão altíssimo, uma bolsa em poliéster com rede e design. Era uma madama jovem, bela e produzida, esperável ao volante de um Porsche Cayenne e a lamber o telemóvel, e não ali, no banco do autocarro e a ser lambida pelo cão. O cão era a condizer: sucinto, peludo, de marca, transpirando pedigree por todos os poros. Uma fofura.
Sentia-se-lhes um orgulho mútuo, percebia-se uma relação muito bonita. Que ternura! A madama babada beijava o lingrinhas barbudo e o lingrinhas barbudo e babado beijava a madama babada. Beijavam-se na boca. Lambiam-se, se não me engano. A madama falava xi-qui-pi-ri-qui-ti-nhu-nhu-nhu-meu-querido-mais-beijinho-mais-beijinho-mais-beijinho-da-mamã e o xi-qui-pi-ri-qui-ti-nhu-nhu-nhu-meu-querido-mais-beijinho-mais-beijinho-mais-beijinho-da-mamã não dizia nada mas apenas por ser cão e por gostar de festas nos genitais e não querer interromper a coisa. Realmente só lhe faltava falar, ao cão, como muito bem observou o autocarro em coro, era o 500, e até eu me comovi, eu que, como sabem, mantenho um ancestral e desagradável contencioso com os canídeos de uma forma geral, e cuido que a culpa não é minha. A cena deu-me também um bocado de tesão.

A madama apeou-se na paragem de Matosinhos Praia, sempre com o cão ao colo, sempre xi-qui-pi-ri-qui-ti-nhu-nhu-nhu-meu-querido-mais-beijinho-mais-beijinho-mais-beijinho-da-mamã. Com a mão de vago, pousou no passeio a bolsa em poliéster com rede e design, abriu-a e retirou de lá de dentro um bebé de meses. Menino, vestia azul. Também era giro. 

O milagre das horas

Foto Hernâni Von Doellinger

Eu tinha dois relógios indiscutivelmente atrasados uma hora, isto já há coisa de meio ano. Eram o relógio do carro da minha mulher e o relógio aqui do "escritório". A minha mulher e o meu filho chagavam-me a cabeça - ó marido, ó pai, que vergonha, relógios atrasados uma hora, que vergonha, que vergonha, porque é que não acertas as horas?...
- As horas são do Senhor, o Senhor é quem sabe quando é a hora, ficaremos de horas acertadas quando for a vontade do Senhor - respondia eu, que tenho esta irremediável costela sacrista, ó mulher, ó filho...
 
E hoje deu-se o milagre, vou ligar ao Vaticano. Acordei e o relógio do carro da minha mulher e o relógio aqui do "escritório" estavam certíssimos, mais TMG era impossível. Deus é grande e o tempo está uma merda, não está?...

Meio bilhete basta, como dizia o outro

Foto Hernâni Von Doellinger

Manuel Leiras Pulpeiro 6

Isso já!...

Se um pobrinho a pedir vai onde um crego,
Ainda esteja famento, manco ou cego,
Só às vezes acha um "Deus o ampare",
Que nem faz nascer côdeas no taleigo,
Nem que a andorga se farte sem jantar.

Se um crego, pela contra, pede a um pobre
O que ele chama oferendas, sempre o move,
Quando menos a dar-lhe alguma espiga,
Que, vendendo-a, qual faz, quando a grã sobe,
Deixa de sobra para encher a barriga.

Isso diz que ainda rege a lei do embudo
Pra os que o povo ter querem cego e mudo,
Ainda que diz a doutrina verdadeira:
Ninguém faça a ninguém o que el' não queira.

"Poesias Completas", Manuel Leiras Pulpeiro

(Manuel Leiras Pulpeiro nasceu no dia 25 de Outubro de 1854. Morreu em 1912.) 

Caminho 843

Foto Hernâni Von Doellinger

Manuel Lago González 6

O tesouro de Santa María

[...]
Ben repartiu o diñeiro,
ben a trola se fartou...
Doña Urraca estaba triste
-non-o habia de estar, non!
qu'aquel toubo que fixera
roubáralle o seu honor.

Malmuraban os soldados,
botaban escomunios
os cregos o ver que a reina
cen marcos d'ouro roubou,
y-o pobo de Lugo todo
repetía con delor:

- Reina ladra, reina ladra,
vállate Dios!
[...]

Manuel Lago González 

(Manuel Lago González nasceu no dia 25 de Outubro de 1865. Morreu em 1925.)

Eu bicicleto, tua bicicletas, ela e ele bicicletam (até o bebé bicicleta)

Foto Hernâni Von Doellinger

sábado, 24 de outubro de 2020

Pernas até ao cu

Fala-se de mulheres king-size - mulherões, avionas, tranconas - e diz-se que elas têm pernas até ao cu. Como se as mulheres eventualmente mais manejáveis - perrotas, batoques, torneirinhas como a faneca - tivessem pernas apenas até ao tornozelo. Sucedeu-me agora mesmo este clarividente pensamento porque: no dia 24 de Outubro de 1939, faz hoje anos, foram colocados à venda os primeiros lotes de meias de náilon.

A vida em marcha-atrás

Foto Hernâni Von Doellinger

Suores

Tinha suores frios no Verão e suores quentes no Inverno. O que lhe era deveras conveniente.

Offshore, se fashavore 268

Foto Hernâni Von Doellinger

Ramalho Ortigão 8

O portuense não gosta de Lisboa. Não gosta da polícia. Não gosta da autoridade. Da autoridade vinga-se, desprezando-a. Da polícia vinga-se, resistindo-lhe. De Lisboa vinga-se, recebendo os lisboetas com a mais amável hospitalidade e com a mais obsequiada bizarria.

Ramalho Ortigão

(Ramalho Ortigão nasceu no dia 24 de Outubro de 1836. Morreu em 1915.)

És cascata são-joanina

Foto Hernâni Von Doellinger

sexta-feira, 23 de outubro de 2020

O Secónego

O Secónego era uma sumidade arqueológica. Um sábio. Sabia das lendas, da História, das pedras, das palavras, dos nomes e dos sítios, dos livros. Sabia das origens todas. Sabia. Estão a ver o José Hermano Saraiva na televisão? Pronto, o Secónego era a mesma coisa, mas sem televisão e a sério, com base científica. Ainda por cima, tinha piada fina. O Secónego comprazia-se em explicar aos seus alunos porque é que a terra de cada um se chamava como se chamava e porque é que uns eram Silva e outros eram Lopes. Explicou-me porque é que Fafe é Fafe e eu expliquei-lhe que não tenho culpa de ser Von Doellinger.
Quando me chegou às mãos, o Secónego já era um sábio intermitente, com apagões. Era um homem precocemente envelhecido e debilitado. De vez em quando desligava e isso fazia-me uma enorme impressão. Lembro-me que nessas alturas me apetecia chorar. Que injustiça para uma cabeça assim. Filhadaputice que ele não merecia, era o que eu achava e depois ia confessar-me, porque achar filhadaputice, fosse de que espécie fosse, era pecado no seminário.
Por falar em filhadaputice (e vão três), havia umas "brincadeiras" institucionalizadas para as aulas do Secónego. E os coninhas, que, borrados de medo, até respiravam pelas orelhas frente aos outros professores, pintavam a manta com o Secónego, numa coragem cobarde que ainda hoje me mete nojo. Eu também não era nenhum santo - e certamente por isso (e por achar filhadaputices a torto e a direito) é que me mandaram dar uma volta -, mas, para mim, as aulas do Secónego eram sagradas. Eram as únicas em que eu não mijava fora do penico. Por pena. Quem me dera que tivesse sido por respeito.
Um dia o Secónego desligou-se o interruptor em plena aula. De repente ficou ali, sentado à secretária, olhando o nada, obviamente esquecido de nós e dele, e dizia apenas "Leia, menino", apontando para ninguém. E nós lemos, mandei eu, e mandei também chamar quem o tirasse dali. Lemos: três ou quatro de nós, uns atrás dos outros, passando a Selecta de mão em mão, Vaiamos, irmana, vaiamos dormir nas ribas do lago, u eu andar vi a las aves meu amigo. E lemos a cantiga até ao fim e voltámos ao princípio, uma e outra vez, numa lengalenga interminável, e tanto fazia quem lesse, eram as minhas ordens, porque eu sentia que o som das nossas vozes apaziguava a alma cansada e ausente do velho professor. E isso era preciso.
Depois levaram-no.

O Secónego tinha uma casa creio que à borda da estrada que sobe da cidade de Braga para o Bom Jesus. Padres mais novos diziam-lhe, no gozo: "Ó Secónego, que pena, uma casa tão bonita e quem por ali passa de carro só lhe vê o cume". E ele: "Pois, mas isso é à ida, menino. À vinda nem o cume vê"...

P.S. - Publicado originalmente no dia 11 de Julho de 2013. O Secónego, assim chamado, era o cónego Arlindo Ribeiro da Cunha, autor, entre outras obras, de "A Língua e a Literatura Portuguesa" e de uma "Gramática Latina" que chegou à sétima edição. Vimaranense de São Torcato, é nome de rua em Braga. E agora o a-propósito: no dia 23 de Outubro de 1818 foram dadas como concluídas as obras de construção da igreja do Bom Jesus.

De onde se vê Braga por um canudo

Foto Hernâni Von Doellinger

Na malandrice

Vestiu-se de gala, ele. E ela, de galo. Eram realmente uns marotos... 

Eram-me os dedos de areia, eram-te os lábios de sal

Foto Hernâni Von Doellinger

Xervasio Paz Lestón 5

Revelacións e non misterios

Xoglares da Galiza pelegrina,
trovadores sin Patria que levades
encravado no peito o duro aceiro
das angurias da Terra asoballada,
vinde conmigo pra canxar as voces,
que temos de entonar valente canto.

Deixémonos de esculca introspeitiva
ou de inventar, cecáis mentidas penas
cantadas en linguaxe sibilino
que nin nosoutros mesmos entendemos.

¡Cumprámol-a misión dos nosos días
cargados de tremendas amiazas!

Os de agora non son tempos doados
pra afundirse na sima dos instintos
disfrazando con líricas metáforas
as lascivas pasións que nos consomen;
nin de escarabellar na podredume
das humanas miserias,
armados do escalpelo, hoxe de moda,
da máis torbe e falaz filosofía... ... ...
[...]

Xervasio Paz Lestón

(Xervasio Paz Lestón nasceu no dia 23 de Outubro de 1898. Morreu em 1977.) 

Caminho 842

Foto Hernâni Von Doellinger

Avelina Valladares 2

A pobre orfiña

[...]
Por eso o corazon se m'estremece
E cheo de mortal malencolia
Todo arredor de min feo aparece
Nada solas me dá nin alegria.

Cal brètema qu'envolve ó cotarelo
Ond'o sol facheaba ô amañecer
Asi, tamèn á min de loito un velo
Circundoume de supeto ô nacer.

En balde prá sparce-l-o pensamento
Corro á's'scoitar d'o campo os pajariños
Que, tolos rebuldando de contento
Cibicada carrejan pr'os filliños.

¡Dichosos eles qu'anqu'ali chilando,
D' a orfandá non comprende á amargura
E miran pra seus pais ledos cantando
Sin coidarse d'a miña desventura!

¡Ai! Quèn n'o peito seu non tuvo mágoas
Nin da vida n'o mar probou escollos,
Mal se decata d' as alleas báguas
¡Boite!!... Non sabe o qu'è tèlas n'os ollos.

¿À ond' irás en busca de consolo,
 Orfiña trist' orfiña, a ond'irás?...
Acá abaijo n'o hai, n'o ceo solo
 Entr'os anges de Dios o atoparás.

Rompé Señor ese tellado argente
Prond'o sol, sin cair belos camiña
Abrí as nubes e baijá esprendente
À tirar d'este mundo â pobre orfiña.

Avelina Valladares

(Avelina Valladares nasceu no dia 23 de Outubro de 1825. Morreu em 1902.) 

Na minha rua passa o mar 93

Hernâni Von Doellinger

quinta-feira, 22 de outubro de 2020

Os rapazes do Vaticano

Cada vez que há eleições para papa, nos tempos modernos, sai um velhinho na rifa. Um cardeal velhinho. Compreende-se: é preciso pôr na cúpula da Igreja Católica alguém com experiência, com a sabedoria da longa vida que carrega sobre os ombros, não vá repetir-se a triste história do inconsciente Jesus Cristo, que tinha apenas 33 anos e resolveu morrer por nós todos, dando origem a isto tudo. E o cardeal velhinho tem de ter muitos doutoramentos em muitas universidades gregorianas, que é só uma, mas podia ser pelo menos três, como a Santíssima Trindade, não vá sentar-se lá na praticamente infalível cadeira um pescador como Pedro ou um funcionário das Finanças como Mateus, dois burgessos que certamente escangalhariam isto tudo.
E já muito facilita o Vaticano, quedando-se pelos simpáticos septuagenários ou octogenários. Basta pensar que, biblicamente, Moisés viveu até aos 120 anos, Jacob até aos 147, Abraão até aos 175, Adão até aos 930, Noé até aos 950, e Matusalém, filho de Enoque, pai de Lameque e avô de Noé, faleceu inesperadamente aos 969 anos.
(Evidentemente também há João XII, que chegou a papa aos 18 anos, dormia com as prostitutas do pai, teve relações sexuais com a própria mãe, castrou um dos seus cardeais, cegou outro, torturou quem lhe desprazia e acabou por morrer com uma valente marretada na cabeça, gentilmente oferecida pelo marido cornudo de uma das suas incontáveis amantes. Mas isso não é desculpa.)
Não sei se sabem: todos os católicos são elegíveis para papa. Basta-lhes serem, obviamente, baptizados, maiores de idade e homens, embora depois devam vestir saias. Isto é, eu posso ser papa, um sétimo de toda a população mundial pode ser papa, depois, na questão das saias, cada um seria para o lado que der.
Só que as eleições no Vaticano não são directas e universais. Votam apenas os cardeais, lacrados no chamado conclave, onde, nas horas mortas, contam anedotas picantes uns aos outros e fazem malha. E se votam apenas os cardeais (120 no máximo, "em nome" de cerca de 1272 milhões de almas), porque é que os velhinhos haveriam de escolher para patrão o Silva dos Plásticos, que, sendo embora uma pessoa estimável e comerciante respeitado, não lhes pertence de lado nenhum?
É! É como na Caixa Geral de Depósitos, no Banco de Portugal ou nas direcções-gerais, secretarias de Estado ou sucessórios cargos dirigentes da nossa administração pública. É exactamente: quem tem o poder nas mãos, mete lá os seus rapazes, quer-se dizer, os boys...

P.S. - Publicado originalmente no dia 19 de Junho de 2016. Há quem diga que hoje, 22 de Outubro, é Dia Nacional da Cidade-Estado do Vaticano. Certo é: a Cidade do Vaticano tornou-se estado independente no dia 11 de Fevereiro de 1929. Por outro lado, 22 de Outubro de 1978 é a data da entronização como papa do conservador João Paulo II. Proclamado santo em Abril de 2014, a sua festa litúrgica é celebrada exactamente hoje pela Igreja Católica. Quanto ao nosso desalinhado Francisco, que graças a Deus destoa para o bem, iniciou o seu refrescante pontificado a 19 de Março de 2013 e um dia destes, para mal dos nossos pecados, ainda deixa de tossir...

Interlúdio iconográfico

Foto Hernâni Von Doellinger

Fábula em 99 caracteres (com espaços)

No tempo em que os animais falavam, o cão disse: ão, ão, ão. E o gato perguntou: és gago ou quê?...

P.S. - Hoje, 22 de Outubro, é Dia Internacional da Gaguez. Ou Dia Internacional de Consciencialização para a Gaguez. Ou Dia Internacional para a Atenção à Gagueira.

Passa-me as palavras cruzadas! - disse o cão

Foto Hernâni Von Doellinger

João Apolinário

É preciso avisar toda a gente

É preciso avisar toda a gente
dar notícia informar prevenir
que por cada flor estrangulada
há milhões de sementes a florir.

É preciso avisar toda a gente
segredar a palavra e a senha
engrossando a verdade corrente
duma força que nada detenha.

É preciso avisar toda a gente
que há fogo no meio da floresta
e que os mortos apontam em frente
o caminho da esperança que resta.

É preciso avisar toda a gente
transmitindo este morse de dores
É preciso imperioso e urgente
mais flores mais flores mais flores.

"Morse de Sangue", João Apolinário

(João Apolinário nasceu no dia 18 de Janeiro de 1924. Morreu no dia 22 de Outubro de 1988.)

quarta-feira, 21 de outubro de 2020

O Magalhães da Circunvalação

E parece que foi ontem. No dia 21 de Outubro de 1520, mais de um ano após o início da primeira viagem de circum-navegação da Terra, o navegador português Fernão de Magalhães descobriu na ponta da América do Sul um estreito de passagem entre os oceanos Atlântico e Pacífico. O estreito passou a chamar-se de Magalhães, para não se confundir com o estreito do Antunes, que realmente parece um pau de virar tripas. Na cidade do Porto, em homenagem a tamanho cometimento, foi mandado construir uma avenida que ligasse o Campo 24 de Agosto ao falecido Estádio das Antas, e que viria a revelar-se de uma paradigmática utilidade domingueira de quinze em quinze dias.
Mas já foi há muito tempo. Quinhentos anos exactos. Por isso o que mais se ouve dizer por estes dias jubilares entre o Porto e Matosinhos, à porta dos liceus, nas galerias de arte, nos cafés, nas esquinas, nos autocarros, no metro e até nas trotinetas partilhadas, que voltaram à carga, é: - Mas afinal quem era esse Fernando Magalhães? Foi ele que inventou a Viagem da Circunvalação?...

P.S. - O navegador Fernão de Magalhães, nascido provavelmente em Ponte da Barca, Alto Minho, em 1480, morreu em 1521, nas Filipinas. Entre uma coisa e outra descobriu, com efeito, a Circunvalação, e a Circunvalação, meus senhores, é realmente um mundo!