sábado, 28 de fevereiro de 2015

O homem que se esqueceu de dizer virilhas

Sou eu, passe a imodéstia. Por razões que não vêm ao caso, ultimamente tenho de usar muitas vezes a palavra virilhas. Ora acontece que, quando a quero dizer, ela - a palavra virilhas - não há maneira de me sair, geralmente varre-se-me da memória, e nem sequer posso alegar que a tinha na ponta da língua, porque também é um bocado chato. Nessas delicadas ocasiões vêm-me à cabeça a palavra narinas, sempre gostaria de saber porquê, a palavra tomates, é claro, e a palavra ínguas, sobretudo a palavra ínguas, que emerge do meu antigamente fafense e parece-me que anda por lá perto. Mas virilhas é que nada.
Fico consideravelmente encaralhado, e hoje por acaso não estou a inventar. Estou a ser o mais palavra de honra que há. Palavra de honra.
Que se segue: conto aos meus amigos a aflição deste estúpido bloqueio, e um diz-me "Quantos anos tens? Pois. Não ligues, pá, é normal, pá, é da idade, pá. Até tem piada. Comigo é a mesma merda, mas com a palavra pevides. Isso não é grave".
Não é grave, vírgula - isto já sou eu outra vez. Porque não se pode comparar virilhas com pevides. E pevides de quê? Pevides secas ou frescas? Nacionais ou importadas? Para aperitivo ou sementeira? Por outro lado, quando eu preciso da palavra virilhas é geralmente para a dizer a senhoras. E, na angustiante ausência da palavra, acabo por acudir-me das mãos e do gesto para conseguir explicar-me. Estão a ver onde me agarro? E acham isso bonito?

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Ruy Belo 2

O portugal futuro

O portugal futuro é um país
aonde o puro pássaro é possível
e sobre o leito negro do asfalto da estrada
as profundas crianças desenharão a giz
esse peixe da infância que vem na enxurrada
e me parece que se chama sável
Mas desenhem elas o que desenharem
é essa a forma do meu país
e chamem elas o que lhe chamarem
portugal será e lá serei feliz
Poderá ser pequeno como este
ter a oeste o mar e a espanha a leste
tudo nele será novo desde os ramos à raiz
À sombra dos plátanos as crianças dançarão
e na avenida que houver à beira-mar
pode o tempo mudar será verão
Gostaria de ouvir as horas do relógio da matriz
mas isso era o passado e podia ser duro
edificar sobre ele o portugal futuro


"Homem de Palavra(s)", Ruy Belo

(Ruy Belo nasceu no dia 27 de Fevereiro de 1933. Morreu em 1978.)

Vida de cão 74

                                                                                       Foto Hernâni Von Doellinger

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

José Mauro de Vasconcelos 2

Sempre acontecia assim: Zé Orocó sorria porque acabava de lembrar que a vida era pai d'égua de bonita.
Foi por isso que o remo deu um chape-chape tão suave que a água do rio quase virou música e a canoa deslizou macia como se voasse.
O Sol morno e sonolento escondia-se nas nuvens e começava a descer rebocando a tarde. Jaburu, na praia branca do rio, conversava uma eternidade de silêncio, caminhando de lá para cá e, voltando as pernas longas, retornava ao ponto de partida. Bicho tão feio e desengonçado ao caminhar, no voo não havia ninguém que lhe tivesse a elegância.
Veio um vento friinho, friinho, que lhe arrepiou as costas sem camisa. Mas até aquilo era bom. Anunciava a grandeza do frio do verão.
Zé Orocó sorriu mais largo. Pensava nas noites em voltada fogueira, nas línguas vermelhas das chamas correndo a lenha seca; no mundão de estrelas que estavam ali bem perto; em escutar a conversa de gente; no corpo cansado do ardor do sol, dormindo encolhido nas cobertas fininhas, tentando tapear o frio que encompridava a noite.
Mês de abril 'tava no fim. Chuva grande, só no outro ano. Talvez ainda caíssem umas pingadas ligeiras. Talvez uma chuva de um dia ainda aparecesse, mas mais que isso era improvável.
Fitou o rio que, de subida, só homem macho pra burro se aventurava, enfiando, quando dava pé, a zinga comprida que calejava a mão ou o remo que zunia de tanta força, fazendo o coração baforar sangue, pulando. Era cada estirão de dar medo. A luz do dia suspendia as árvores da selva, ao longe, como se toda a plantação estivesse no céu em vez de estar na terra.
O vento frio, de novo. Deu um empurrão na zinga e comentou com Deus:

- Boa tarde, verão bonito, que vem chegando com tanta ternura.
E como Deus só sorrisse, sem responder, continuou remando.


"Rosinha, Minha Canoa", José Mauro de Vasconcelos

(José Mauro de Vasconcelos nasceu no dia 26 de Fevereiro de 1920. Morreu em 1980.)

Lugares-comuns 196

                                                                                                           Foto Hernâni Von Doellinger

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Cesário Verde 2

Vaidosa

Dizem que tu és pura como um lírio
E mais fria e insensível que o granito,
E que eu que passo aí por favorito
Vivo louco de dor e de martírio.


Contam que tens um modo altivo e sério,
Que és muito desdenhosa e presumida,
E que o maior prazer da tua vida,
Seria acompanhar-me ao cemitério.

Chamam-te a bela imperatriz das fátuas,
A déspota, a fatal, o figurino,
E afirmam que és um molde alabastrino,
E não tens coração, como as estátuas.

E narram o cruel martirológio
Dos que são teus, ó corpo sem defeito,
E julgam que é monótono o teu peito
Como o bater cadente dum relógio.

Porém eu sei que tu, que como um ópio
Me matas, me desvairas e adormeces,
És tão loura e dourada como as messes

E possuis muito amor... muito amor-próprio.


"O Livro de Cesário Verde", Cesário Verde

(Cesário Verde nasceu no dia 25 de Fevereiro de 1855. Morreu em 1886.)

Lugares-comuns 195

Foto Hernâni Von Doellinger

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

A treta do ambiente e da fiscalidade verde

Fui à peixaria. Pedi meio quilo de fanecas e a senhora meteu-mas num saco plástico; pedi meio quilo de lulas e as senhora meteu-mas num saco plástico; pedi dois carapaus e a senhora meteu-mos num saco plástico; pedi meia dúzia de marmotinhas e a senhora meteu-mas num saco plástico; pedi uma mão-cheia de petinga e e senhora meteu-ma num saco plástico; pedi uma solha e a senhora meteu-ma num saco plástico. A senhora:
- Que mais?
- É tudo.
- Quer um saco?
- Como sempre.
- São dez cêntimos.
- Este peixe todo?
- O saco é que custa dez cêntimos.
- Porquê?
- Porque é de plástico.
- E?...
- É para proteger o ambiente.
- E os seis saquinhos com o peixe?
- São de graça.
- Não são de plástico?
- São.
- E só o sétimo é que prejudica?
- Não sei. Pergunte ao Moreira da Silva.

David Mourão-Ferreira 2

Ternura

Desvio dos teus ombros o lençol,
que é feito de ternura amarrotada,
da frescura que vem depois do sol,
quando depois do sol não vem mais nada...

Olho a roupa no chão: que tempestade!
Há restos de ternura pelo meio,
como vultos perdidos na cidade
onde uma tempestade sobreveio...

Começas a vestir-te, lentamente,
e é ternura também que vou vestindo,
para enfrentar lá fora aquela gente
que da nossa ternura anda sorrindo...

Mas ninguém sonha a pressa com que nós
a despimos assim que estamos sós!

"Infinito Pessoal (ou a Arte de Amar)", David Mourão-Ferreira

(David Mourão-Ferreira nasceu no dia 24 de Fevereiro de 1927. Morreu em 1996.) 

A ver navios 41

Foto Hernâni Von Doellinger

Rosalía de Castro 2

De soidás morríase

De soidás morríase
na vila, sospirando pola aldea;
asombrábana as casas cos seus muros,
e asombrábana as otres e as igrexas.

As rúas enlousadas somellábanlle,
sin verdor nin frescura,
cimeterio onde os mortos
fora andaban das tristes sepulturas.

I as comidas sabíanlle
a fariña sin sal i a xaramagos,
i as poucas que tocaba,
en vez de darlle alento a iñan matando.

Algunha vez chegaban hastra ela,
non sei si en ilusión si de verdade,
uns agrestes olidos
de leixanas ribeiras e pinares.

Íñase estonces a sentar nun alto,
contempraba os estensos horizontes,
e rompendo en sospiros que a afogaban,
ronca escramaba saloucando: "¡Eu voume!"

¡E íñase apresa sin remedio...! ¡Íñase
coa tristeza mortal que a consumía!
Íñase a probe Rosa,
pero... ¡para a outra vida!

"Follas Novas", Rosalía de Castro

(Rosalía de Castro nasceu no dia 24 de Fevereiro de 1837. Morreu em 1885.)

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Mudam-se os tempos, mudam-se as vaidades

Portugal, país de poetas e marinheiros? Bah! Isso foi chão que já deu uvas. Agora é: Portugal, país de fadistas e chefs de cozinha. E quem não for uma coisa ou outra, ou as duas - ou, vá lá, pelo menos comentador ou escritor -, então é porque não é bom português. Eu, por exemplo.

domingo, 22 de fevereiro de 2015

Os três reis gordos (ou: e que tal uma dietazinha?)

Foto BLOG MONTELONGO

Ora arreparem-me neste três magníficos exemplares do sexo masculino (a senhora da fotografia que me desculpe, mas desta vez não entra na história, porque não sei quem é e por manifesta falta de peso). Da esquerda para a direita, passo a apresentar: Pompeu Martins, vice-presidente e vereador responsável pelos pelouros da Educação, Cultura, Turismo e Património Cultural, Juventude, Desporto, Arquivo e Defesa do Consumidor da Câmara Municipal de Fafe; Raul Cunha, presidente e responsável pelos pelouros da Administração Geral, Gestão Financeira, Dinamização Económica, Projectos Estratégicos, Acção Social e Saúde, Habitação, Relações Externas e Comunicação da Câmara Municipal de Fafe; Victor (com c) Moreira, vereador responsável pelos pelouros dos Estudos e Projectos de Obras Municipais, Obras Municipais, SIG-Sistemas de Informação Geográfica, Ligação às Juntas de Freguesia, Polícia Municipal, Protecção Civil, Fiscalização e Contencioso, Informática e Comunicações da Câmara Municipal de Fafe. Os três juntos, na balança da serração de Santo Ovídio, hão-de pesar para cima de vinte arrobas, e não estou a meter os pelouros.
Estivéssemos nas Feiras Francas, e os três primeiros prémios já tinham dono. Mas estávamos no Entrudo, na muito bem lembrada Queima do Pai das Orelheiras, e também não é difícil perceber quem foi que as comeu. Todas. E eram muitas. Com batatas, feijão vermelho, olhinhos de couve-galega, seis dentes de alho bem picados e uma inundação de azeite.
Dir-me-ão que estes três simpáticos pesos-pesados, cada qual dentro do seu género, são o melhor reclame que a vitela de Fafe poderia ter, remediando a incompetência da confraria local, que é das batatas fritas, e de pacote. Eu digo que as barrigas dos três autarcas são um mau exemplo para as crianças do concelho e de toda a região norte até Vila Nova de Famalicão ao baixo e Vila Pouca de Aguiar para cima, onde chegam os respectivos umbigos, consoante o lado para onde estão viradas. São barrigas politicamente incorrectas. Falo do assunto porque sei. Eu sou o gordo que falta aos três barrigudos da Câmara para jogarmos à sueca, se eles me passassem cartão, se eu soubesse jogar e se conseguíssemos chegar com as cartas à mesa. Mas eu não preciso de ser exemplo para ninguém. Nem sei, nem quero. Não sou figura pública, não sou eleito. Na verdade, nem sequer sou eleitor. Mas eles, os obesos da autarquia, são políticos, têm responsabilidades perante o seu povo, têm uma imagem a preservar - não é assim que se diz?
Com tantos assessores e adjuntos, e assessores de adjuntos, e adjuntos de assessores, não percebo como é que ainda ninguém pegou nos três e os levou ao espelho. Depois, na próxima, que não se admirem se forem comidos pelo lingrinhas do Eugénio Marinho.

sábado, 21 de fevereiro de 2015

Coelho Neto 2

O copeiro serviu a sopa e, à primeira colherada, Cesário formulou a receita de uma futura alimentação reconstituinte e breve, tendo por base a peptona. E explicou:
- O homem é o animal por excelência, o rei da fauna, culminando na escala zoológica. É o ser que fala e ri, o único que se veste, e corta as unhas, os calos e o cabelo, reconhece as dívidas e casa-se. É o depositário do espírito de Deus, etc., etc. E esse ente superior, apesar de milênios de cultura, vive ainda como o troglodita nutrindo-se de carniça... só porque tem dentes, remanescentes da brutalidade primitiva. Mas, que diabo! assim como já não nos servimos das unhas nas lutas, tratando-as como enfeites dos dedos, que o manicuro enforma e pule, por que não havemos de fazer o mesmo aos dentes, conservando-os apenas como ornamentos? Há por aí quem os tenha encastoados em ouro, com brilhantes... O homem, a princípio, caçou para comer, como o leão e o urso, e espostejava vorazmente a presa, devorando-lhe os tassalhos crus. Com o fogo inventou o assado e toda a complicada culinária, causa da dispepsia. Hoje, começa a preocupar-se com a alimentação sintética, podendo trazer no bolso uma caixa de pílulas para nutrição de um ano e um frasco de essência fluida de uva para emborrachar-se às gotas.
Miss ouvia de olhos baixos, enlevada nas palavras sonoras do sábio, suspendendo, às vezes, a colherada que levava à boca. Jorge interveio:
- Cesário, vê se concilias a palestra com a sopa, que está esfriando.

"Inverno em Flor", Coelho Neto

(Coelho Neto nasceu no dia 21 de Fevereiro de 1864. Morreu em 1934.) 

Jesus Cristo, procura-se

A polícia anda à procura de Jesus. O Ministério Público pretende acusá-l'O de incentivo à violência em Jo 8, 7 e subtração e ocultação de cadáver em Lc 24, 1-3.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Em balão previamente aquecido

Foto Hernâni Von Doellinger

Que sou especialista na matéria, deixei-o bem explicado em A verdade sobre as gaivotas, ensaio escrito e publicado na edição do Tarrenego! de 10 de Junho de 2013 e que, em 2014, viria a valer-me o Prémio Príncipe das Astúrias de Investigação Científica e Estampilhas Fiscais relativo ao ano de 1971. Estudo-as há mais de um quarto de século, sei tudo sobre gaivotas. A rotina ou o hábito, consoante o que acontecer primeiro, dão nisto: criou-se-nos uma certa intimidade, e a bem dizer eu e elas já não passamos um sem as outras. Elas ainda não vêm comer-me à mão, isso é verdade, mas vêm cagar-me à varanda. E com a maior das descontracções e acrisolada acutilância. Temo até que uma certa e determinada gaivota esteja a abusar da confiança - e sei que é gaivota e não gaivoto porque a criatura trouxe ontem uma amiga, e as gajas é que vão aos pares arriar o calhau, isso também está provado. As duas cagonas estão na foto supra e, esta é a novidade e não denúncia, borraram-me as cuecas. Entre sessenta e seis peças de roupa na seca do estendal, as badalhocas apontaram às minhas cuecas e ainda por cima à parte da frente, parecia um ovo estrelado muito bem passado, mas com merda em vez de ovo. Pontaria filha da puta. A minha mulher afina com estas coisas e eu... rio-me.
Mas o caso não é para rir. A gaivota anda a escangalhar-me o lar derivado à assiduidade com que ultimamente me caga em cima. A minha mulher começa a desconfiar, e agora já são duas gaivotas, mas eu defendo-me e digo: não é nada comigo, elas devem é estar na época de acagamento. Ou, como diz o povo, e com razão: quando caga uma gaivota, logo outra saralhota. O que é que eu posso fazer? Não fui eu que comecei...
Para provar a minha inocência de longa data, trago à colação o naco de prosa aqui exarado no dia 17 de Setembro de 2011, exactamente com o título que está lá em cima, e que contava assim:


Aviso: o que se segue é um texto de merda.

Moro mesmo em frente ao mar, se me puser de lado na varanda. E é na varanda que, depois de um jantar mais coisa e tal como o de ontem, eu gosto de fumar a minha cachimbada e beber um fundinho de CRF em balão previamente aquecido. "Em balão previamente aquecido". Não sei quem foi o génio que inventou a frase e o conceito, mas, já repararam?, sabe quase tão bem dizê-lo como bebê-lo.
E balão, para mim, é mesmo balão. Não um balãozinho ou um balo. É balão, bojudo e de boca larga, tipo Alberto João Jardim. O conteúdo até poderá ser pouco, e é, um dedo apenas e medido pela minha mulher, mas o continente quero-o pela medida grande.
Moro em frente ao mar, dizia eu, e tenho uma vizinha que dá de comer às gaivotas. A sério, dá de comer aos gatos e às gaivotas. E as gaivotas, que vêm ao cheiro, não me largam a varanda. De dia e de noite. Todos os dias e todas as noites. Creio que ainda ninguém explicou a estas gajas que só me deveriam bater à porta em caso de tempestade marítima.
Ora, a gaivota é um bicho que, como a maioria dos portugueses, come qualquer merda e anda quase sempre de soltura. Resultado: quando abre a cloaca, e aquilo é um porto franco, só de saída, chovem cagadas de alto lá com elas. Quem tinha capacete, tinha; quem não tinha, que tivesse. Isto é ciência.
Portanto, moro praticamente em frente ao mar e estava na varanda à conversa com o CRF em balão previamente aquecido, deitando um olho, de quando em vez, ao Gil Vicente-Olhanense, e isto é que eu ainda não tinha dito. Foi num desses momentos, no exacto momento em que eu disponibilizei o meu olho esquerdo para mais um fora-de-jogo mal assinalado, ainda por cima, que a puta da gaivota do costume - já te conheço a fronha, ó cagona - resolveu aliviar lastro, com uma pontaria tamanha que me acertou em cheio no indefeso balão de boca larga.
Antes de ficar realmente fodido, pensei: isto é uma metáfora do pobre país que somos, todos nos cagam em cima, até as gaivotas, e pela boca morre o peixe. Bebi um golo e não era metáfora nenhuma, era merda. Para a próxima vou beber o CRF num balãozinho, de boquinha apertadinha. Com menos merda, e previamente aquecido, não há-de saber tão mal. 

O escritor

Bonifácio de Montalvar é autor impaciente e impulsivo. Publicou o seu primeiro livro sem sequer o ter escrito, e revelou-se o sucesso que se vê: vai na décima sétima edição e já ganhou quatro prémios literários - um, internacional.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Lugares-comuns 194

Foto Hernàni Von Doellinger

Xosé María Díaz Castro

Penélope

Un paso adiante i outro atrás, Galiza,
i a tea dos teus sonos non se move.
A espranza nos teus ollos se esperguiza
aran os bois e chove.


Un bruar de navíos moi lonxanos
che estrolla o sono mól como unha uva.
Pro ti envóveste en sabas de mil anos
i en sonos volves escoitar a chuva.


Traguerán os camiños algún día
a xente que levaron. Deus é o mesmo.
Suco vai, suco vén, Xesús María!
e toda a cousa ha de pagar seu desmo.


Desorballando os prados coma sono,
o Tempo vai de Parga a Pastoriza.
Vaise enterrando, suco a suco, o Outono.
Un paso adiante i outro atrás, Galiza!


"Nimbos", Xosé María Díaz Castro

(Xosé María Díaz Castro nasceu no dia 19 de Fevereiro de 1914. Morreu em 1990.)

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

António Aleixo 3

Porque o povo diz verdades

Porque o povo diz verdades,
Tremem de medo os tiranos,
Pressentindo a derrocada
Da grande prisão sem grades
Onde há já milhares de anos
A razão vive enjaulada.

Vem perto o fim do capricho
Dessa nobreza postiça,
Irmã gémea da preguiça,
Mais asquerosa que o lixo.

Já o escravo se convence
A lutar por sua prol,
Já sabe que lhe pertence
No mundo um lugar ao sol.

Do céu não se quer lembrar,
Já não se deixa roubar,
Por medo ao tal satanás,
Já não adora bonecos
Que, se os fazem em canecos,
Nem dão estrume capaz.

Mostra-lhe o saber moderno
Que levou a vida inteira
Preso àquela ratoeira
Que há entre o céu e o inferno.

 
"Este Livro Que Vos Deixo...", António Aleixo

(António Aleixo nasceu no dia 18 de Fevereiro de 1899. Morreu em 1949.)

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Os médicos, as farmácias e o sistema

Foto Hernâni Von Doellinger

Fui à farmácia comprar o antibiótico. A senhora doutora farmacêutica perguntou-me:
- Marca ou genérico?
- O mais barato, se faz favor. Pode ser de saldo, se tiver, ou mesmo em segunda mão, se for em conta - respondi.
Veio o antibiótico. Genérico.
- São seis euros e setenta e nove - informou-me a senhora doutora farmacêutica.
- Seis euros e setenta e nove? - espantei-me. - Mas o senhor doutor médico escreveu aqui na receita que, e passo a citar, "esta prescrição custa-lhe, no máximo, 77 cêntimos, a não ser que opte por um medicamento mais caro"...
- Pois, mas não ligue a isso. É o que eles têm lá no sistema. O preço muda ao fim de três meses - disse-me a senhora doutora farmacêutica.
- Mas a receita é de hoje, fresquíssima - atalhei.
- Pois, mas é o sistema - reiterou a senhora doutora farmacêutica.
- E o sistema "deles" não é o mesmo sistema das farmácias? Entre 77 cêntimos e seis euros e setenta e nove vai uma diferença de quase dez vezes mais, como é que isto é possível? - inquiri e tornei a inquirir.
- Faça o favor de ver aqui no computador. Na verdade há mais barato, este de três euros e quinze, mas que hoje, por acaso, até já custa cinco euros e trinta e sete, e não temos - explicou-me a senhora doutora farmacêutica.
- Mas a custar 77 cêntimos é que nada - insisti.
- Nem de perto nem de longe, é o sistema - insistiu, por seu lado, a senhora doutora farmacêutica.
- E os senhores doutores médicos sabem? - eu.
- Sabem, sabem - a senhora doutora farmacêutica.
- Desculpe voltar ao mesmo: mas então porque é que os senhores doutores médicos escrevem estes preços nas receitas se sabem que estão a enganar os doentes?
- É para pressionar as farmácias - segredou-me a senhora doutora farmacêutica, chegando-se-me ao ouvido.
- E tem resultado, não tem? - devolvi-lhe eu, no mesmo tom confidencial.

(Texto escrito e publicado no dia 16 de Agosto de 2014. Os jornais descobriram ontem que a Administração Regional de Saúde do Norte descobriu anteontem que "há farmácias a vender genéricos demasiado caros". Mas porque é que ninguém me pergunta?)

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Luísa Dacosta

Se…

Se eu tivesse um carro
havia de conhecer
toda a terra.
Se eu tivesse um barco
havia de conhecer
todo o mar.
Se eu tivesse um avião
havia de conhecer
todo o céu.


Tens duas pernas
e ainda não conheces
a gente da tua rua.

Luísa Dacosta

(Luísa Dacosta nasceu no dia 16 de Fevereiro de 1927. Morreu ontem.)

Lois Pereiro

Acróstico

Somentes
intentaba conseguir
deixar na terra
algo de min que me sobrevivise

sabendo que deberia ter sabido
impedirme a min mesmo       
descubrir que só fun un interludio
atroz entre dous muros de silencio

só puiden evitar vivindo á sombra
inocularlle para sempre a quen amaba
doses letais do amor que envelenaba
a súa alma cunha dor eterna

sustituíndo o desexo polo exilio
iniciei a viaxe sen retorno
deixándome levar sen resistencia
    ó fondo dunha interna
aniquilación chea de nostalxia

"Poesía Última de Amor e Enfermidade", Lois Pereiro

(Lois Pereiro nasceu no dia 16 de Fevereiro de 1958. Morreu em 1996.)

domingo, 15 de fevereiro de 2015

Paulo Portas, o sacrista

Ouvir a boca de Paulo Portas dizer que "Fátima em 1917 era uma periferia, uma aldeia, e Nossa Senhora apareceu a pastores muito humildes" até faz uma pessoa pedir a Deus Nosso Senhor que, por favor, por favor, nos tire a fé.

sábado, 14 de fevereiro de 2015

Gaspar de Jesus no Fórum de Ermesinde

                                                           Foto GASPAR DE JESUS

O artista fotógrafo Gaspar de Jesus inaugura amanhã, domingo, 15 de Fevereiro, a sua exposição "Percursos". Pelas 17 horas, no Fórum Cultural de Ermesinde. A mostra - patente ao público até 12 de Abril - compreende duas dezenas de fotografias a preto e branco analógico, impressas pelo autor, com imagens captadas em Portugal, mas também no Brasil, na Bélgica e em França. A escolha das obras a expor foi criteriosamente realizada, pretendendo assumir-se como uma das sínteses possíveis dos últimos trinta anos de deambulações artísticas e profissionais de Gaspar de Jesus.
Fotojornalista e professor de Fotografia, Gaspar de Jesus trabalhou em A Capital, O Primeiro de Janeiro, A Bola, TV Guia, Notícias Magazine e Autores. Artista premiado, realizou uma vintena de exposições individuais e participou em inúmeras exposições colectivas, dentro e fora do País. Foi formador em cursos do FAOJ e integrou o quadro de formadores do IPF-Porto. É co-autor dos livros "Portugal e o Ambiente", "Reencontros - Portugal em Fotografia", "Daqui Houve Nome Portugal", "21 Retratos do Porto para o Século XXI", "Porto Cidade com Alma" e "Porto sem Filtro". É autor do blogue Arte Fotográfica e promotor das tertúlias Com a Arte no Olhar.
Acerca da exposição, horários e mais informação, aqui.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Agostinho da Silva 2

Poema recente de Fernando Pessoa

Quando eu amei a Ofélia
foi só Baixa de Lisboa
algum talento umas graças
e beijo que nem ressoa.

Convencido fiquei eu
que era como um rei da vida
já todo o ser quando for
será só o que eu decida.

Mas com esta que surgiu
como a vou eu merecer
só regressando ao divino
e não voltando a nascer.


"Do Agostinho em Torno do Pessoa", Agostinho da Silva

(Agostinho da Silva nasceu no dia 13 de Fevereiro de 1906. Morreu em 1994.)

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Ora meta-me o cu pelo nariz acima

Foto Hernâni Von Doellinger

A minha avó de Basto contava. Já não me lembro se era história verdadeira de alguém da família antiga ou diz-que-diz-que a respeito de vizinhos lá da aldeia. Sei é que era um casal e que o casal se tratava por você - forma de tratamento muito mais rústica e ancestral do que cuidam as tias e os tios do então-vá. E as pepas, as sobrinhas do então-vem.
Mas a história: marido e mulher bebiam a sua pinguinha. Ao almoço, que era o "jentar", e ao jantar, que era a ceia. Também bebiam durante a merenda, que era aquela meia dúzia de horas de sol que vai desde o "jentar" até à ceia. Bebiam, portanto, apenas às refeições. Por ordem expressa do salazar daquele tempo, beber vinho era "dar de comer a um milhão de portugueses", e o povo de Passos podia não saber o que era bife nem tinha electricidade, mas sempre deu o litro para que o resto do País não passasse fome. O resto do país já naquela altura era Lisboa.
(E já agora: o almoço, assim dito, era o café da manhã. E a manhã era madrugada. O café era cevada, feita ao borralho, numa velha chocolateira de barro e tampa tamborileira e dançarina.)
Que se segue: às vezes à noite o caldo entornava-se. Fosse pela pingoleta, fosse pela falta de petróleo na candeia, fosse pelo empurrão do lume da lareira, o casal desavinha-se. Nada de grave ou físico, apenas desconversa. Ralhava um, ralhava o outro, cada qual ameaçava que... mas nada. Até que uma maré, ele - só podia ter sido ele -, sacramentalmente dono da última palavra e mortinho por ir para a cama, arrumou a "questã" da melhor maneira que soube e pôde, que foi, virando-se para ela: "Ora meta-me o cu pelo nariz acima". Para logo remendar, coçando as partes com um entusiasmo que só visto: "Ora vá bardamerda, que até me enganei". E depois foram fazer meninos um com o outro, que naquela terra era assim e muito.
A bó de Basto contava belas histórias. E éramos felizes para sempre.

(Texto escrito e publicado no dia 13 de Janeiro de 2013. A fotografia é a novidade, e estava mesmo a pedi-las. Por outro lado, não há maneira de me passarem as saudades da querida bó de Basto, maravilhosa guardadora de lendas e tudo.)

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Gaspar de Jesus expõe "Percursos" no Fórum de Ermesinde

                                                Foto GASPAR DE JESUS

O artista fotógrafo Gaspar de Jesus inaugura domingo, 15 de Fevereiro, pelas 17 horas, a sua exposição "Percursos", no Fórum Cultural de Ermesinde. A mostra estará patente ao público até 12 de Abril.
Gaspar de Jesus, fotojornalista e professor de Fotografia, trabalhou em A Capital, O Primeiro de Janeiro, A Bola, TV Guia, Notícias Magazine e Autores. Artista premiado, realizou uma vintena de exposições individuais e participou em inúmeras exposições colectivas, dentro e fora do País. Foi formador em cursos do FAOJ e integrou o quadro de formadores do IPF-Porto. É co-autor dos livros "Portugal e o Ambiente", "Reencontros - Portugal em Fotografia", "Daqui Houve Nome Portugal", "21 Retratos do Porto para o Século XXI", "Porto Cidade com Alma" e "Porto sem Filtro". É autor do blogue Arte Fotográfica e promotor das tertúlias Com a Arte no Olhar.

Manuel Lugrís Freire

Cantiga dos amigos da fala

Na fala galega vive
a ialma da nossa terra;
a redención de Galicia
nos seus acentos latexa.

Pobo que o seu verbo esquece
é traidor á natureza;
como irmáns todos falemos

a nobre fala galega.

Amigos da fala somos,
i o amor de Galicia sexa,

xa que de todos é nai,
quem nos xunte e nos protexa.


"Versos de Loita", Manuel Lugrís Freire

(Manuel Lugrís Freire nasceu no dia 11 de Fevereiro de 1863. Morreu em 1940.)

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

A escola de Jorge Jesus

Jorge Jesus é um mestre, um guru. São cada vez mais os seus seguidores, futebolisticamente falando e gramaticalmente chutando. Obliteremos por hoje a bola (que até está bem encaminhada) e atenhamo-nos à língua.
Olavo Bilac, o dos Santos & Pecadores, ouço-o na rádio a cantar o badalado "Trem das Onze", do também rouco porém extraordinário Adoniran Barbosa. O nosso Bilac canta ao vivo, numa apresentação, parece-me, do seu primeiro disco a solo, "Músicas do Meu Mundo", coisa bonita da lusofonia. E diz o artista português, na hora da despedida: "Muito obrigado por terem vindo. Espero gostarem desta nossa música..."
"Espero gostarem". Está certo. Jorge Jesus não diria melhor. Nem os pândegos do "Portugalex" da Antena 1.
O outro Olavo Bilac, o brasileiro, é que espernearia, como já aqui esperneou: "A Pátria não é a raça, não é o meio, não é o conjunto dos aparelhos econômicos e políticos: é o idioma criado ou herdado pelo povo. Um povo só começa a perder a sua independência, a sua existência autônoma, quando começa a perder o amor do idioma natal. A morte de uma nação começa pelo apodrecimento da língua".
E, entretanto, lusofonemos.

domingo, 8 de fevereiro de 2015

Eduardo Pondal

Batidas dos ventos,
Garridas e bellas
E ben engastoadas
Dos pinos pendentes,
Suspiran as arpas.
Están murmurando
Mil cousas pasadas.
¡Que dirán as copas
Do vento agitadas!
¡Que dirán suspenses
As mágicas arpas!
Non sólo murmuran
As cousas pasadas
Dos fillos dos celtas,
Mas tamén murmuran
As futuras ansias
As arpas garridas
E ben acordadas
Dos pinos da patria.


"Novos Poemas",  Eduardo Pondal

(Eduardo Pondal nasceu no dia 8 de Fevereiro de 1835. Morreu em 1917.)

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Padre António Vieira 2

Pinta-se o Amor sempre menino, porque ainda que passe dos sete anos, como o de Jacob, nunca chega à idade de uso de razão. Usar de razão e amar são duas coisas que não se juntam. A alma de um menino, que vem a ser? Uma vontade com afectos, e um entendimento sem uso. Tal é o amor vulgar. Tudo conquista o amor, quando conquista uma alma; porém, o primeiro rendido é o entendimento. Ninguém teve a vontade febricitante, que não tivesse o entendimento frenético. O amor deixará de variar, se for firme, mas não deixará de tresvariar, se é amor. Nunca o fogo abrasou a vontade, que o fumo não cegasse o entendimento. Nunca houve enfermidade no coração, que não houvesse fraqueza no juízo. Por isso os mesmos pintores do Amor lhe vendaram os olhos. E como o primeiro efeito, ou a última disposição do amor, é cegar o entendimento, daqui vem que isto que vulgarmente se chama amor tem mais partes de ignorância: e quantas partes tem de ignorância, tantas lhe faltam de amor. Quem ama porque conhece, é amante; quem ama porque ignora, é néscio. Assim como a ignorância na ofensa diminui o delito, assim no amor diminui o merecimento. Quem, ignorando, ofendeu, em rigor não é delinquente; quem, ignorando, amou, em rigor não é amante. 

"Sermões", Padre António Vieira 

(António Vieira nasceu no dia 6 de Fevereiro de 1608. Morreu em 1697.)

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Paulo Macedo: o homem, o ministro e a pasta

Falei uma vez com Paulo Macedo, actual ministro da Saúde, em curiosas circunstâncias que um dia poderei contar. Percebi-o um homem sério e íntegro, uma boa pessoa, no melhor que a estafada expressão pode ainda conter. Deram-lhe um ministério e uma missão. Uma missão que ele cumpre com o rigor e a competência que lhe são justa e sobejamente reconhecidos. Enganaram-se foi no ministério.

(Parte do texto Uma boa e má notícia, que escrevi e publiquei no dia 6 de Agosto de 2012, a propósito das conclusões de um animador estudo sobre os nossos hospitais. E confirma-se: Macedo é um homem certo, mas na pasta errada.)

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Xosé María Álvarez Blázquez 2

Solpor

Xa non é tempo de falar das rosas,
soños, amores, vida que pasou.
Agora chegan voces vagarosas
i eu, nun besbello, lles respondo: Vou…

Nin verso acedo nin amarga queixa.
De qué nos han valere, miña amiga!
Imos desengrellando esta madeixa
con lástima de nós e con fadiga.

Os fillos… Xa alá agarda a nosa prenda
- luz dos días abertos e louridos -
Os fillos! Santo e seña da contenda,
eles dediante e nós atrás, feridos.

Pousaremos os pés na branca area
mentres o día no solpor devala.
Nin ti ouces xa a o balbordo da marea
nin teño eu ansias de prender a fala.

Silandeiros os dous, de mans collidas,
imos devagariño pola praia,
de par en par os pasos, como as vidas…
A luz do sol, sobre do mar, esmaia.

Xosé María Álvarez Blázquez 

(Xosé María Álvarez Blázquez nasceu no dia 4 de Fevereiro de 1915. Morreu em 1985.)

Almeida Garrett 2

As minhas asas
 
Eu tinha umas asas brancas,
Asas que um anjo me deu,
Que, em me eu cansando da terra,
Batia-as, voava ao céu.

- Eram brancas, brancas, brancas,
Como as do anjo que mas deu:
Eu inocente como elas,
Por isso voava ao céu.
Veio a cobiça da terra,
Vinha para me tentar;
Por seus montes de tesouros
Minhas asas não quis dar.
Veio a ambição, coas grandezas,
Vinham para mas cortar,
Davam-me poder e glória;
Por nenhum preço as quis dar.

Porque as minhas asas brancas,
Asas que um anjo me deu,
Em me eu cansando da terra,
Batia-as, voava ao céu.

Mas uma noite sem lua
Que eu contemplava as estrelas,
E já suspenso da terra,
Ia voar para elas,
- Deixei descair os olhos
Do céu alto e das estrelas...
Vi, entre a névoa da terra,
Outra luz mais bela que elas.

E as minhas asas brancas,
Asas que um anjo me deu,
Para a terra me pesavam,
Já não se erguiam ao céu.

Cegou-me essas luz funesta
De enfeitiçados amores...
Fatal amor, negra hora
Foi aquela hora de dores!

- Tudo perdi nessa hora
Que provei nos seus amores
O doce fel do deleite,
O acre prazer das dores.

E as minhas asas brancas,
Asas que um anjo me deu,
Pena a pena me caíram...
Nunca mais voei ao céu.

"Flores sem Fruto", Almeida Garrett 

(Almeida Garrett nasceu no dia 4 de Fevereiro de 1799. Morreu em 1854.)

João de Barros 2

Soneto de amor

Tantos passaram pelo teu caminhos
Antes que fosse a hora de eu passar,
Que tenho a dor de me não ver sozinho
Na memória fiel do teu olhar.

Nenhum te disse frases de carinho,
nenhum parou, talvez, para te amar...
E vão perdidos no redemoinho
Da vida e nunca mais hão-de voltar.

Para ti, nenhum foi o mesmo que eu...
- Mas porque a tua vista os abrangeu
Mesmo sem alegria, amor ou fé,

Deles alguma coisa em ti existe
- Alguma coisa que me deixa triste
Porque não posso adivinhar o que é!...


João de Barros

(João de Barros nasceu no dia 4 de Fevereiro de 1881. Morreu em 1960.)

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

O regime de requalificação, analiticamente falando

Entreguei a urina para análise. O técnico, sem sequer olhar para mim, automaticamente, perguntou:
- Está fresca? Trouxe do frigorífico?
E eu fui franco:
- Não. Fiz há pouco, ainda está quentinha.
- É pena...
Com gestos elegantes, competentes, o técnico pegou no boião e verteu o seu conteúdo num balão de pé alto, com o cuidado milimétrico de deixar o copo um pouco abaixo de meio cheio. E disse, ainda sem me pôr os olhos:
- Espere aí um bocadinho, que já leva os resultados.
E eu esperei, todo contente com a novidade. O Serviço Nacional de Saúde vai de vento em popa.
Delicadamente, o técnico pegou no copo pela base, afastando-o de si com todo o respeito, e começou a girá-lo vagarosamente, olhando a bom olhar o seu conteúdo, no contraste com a parede branca. E tomou notas. Colocou o copo sobre a mesa e rodou-o em pequenos círculos, primeiro devagar, depois acelerando, para finalmente o levar ao nariz, uma vez, duas vezes. Inalou, compenetradíssimo, e tomou notas. Sorveu uma pequena quantidade de líquido, mantendo-o na boca sem engolir, apreciou-o por momentos com todo o profissionalismo e finalmente cuspiu-o. E compilou as notas:
- Muito bem. Ora, portanto, cor amarela palha, aspecto límpido, reacção a 6,0 e densidade a 1,013. Proteínas, glicose, corpos cetónicos, pigmentos biliares, nitritos e sangue não detectáveis. Urobilinogénico a 0,2 e atenção a esses leucócitos. Estão de 10 a 25, vá ver isso. Células epiteliais e eritrócitos, 0 a 2.
E eu, à rasca:
- Está no gozo, não está?...
- Não. É a sério! - respondeu-me o técnico, fitando-me enfim olhos nos olhos e passando a explicar:
- Então você não me conhece? Nunca me viu na televisão? Eu sou, era provador de vinhos do instituto da coisa e do coiso, não vá alguém ouvir-nos, mas o Estado mandou-me embora como prenda dos meus 25 anos de serviço. Despediram metade do meu ordenado, mas, por causa dos números, puseram-me aqui no laboratório do hospital a fazer de conta das minhas competências. Quer saber? Os aparelhos de análises à urina deram o peido mestre, com sua licença, não há dinheiro para camas quanto mais para os mandar arranjar, e, olhe, não me posso queixar, juntou-se a fome com a vontade de comer.
- Ó valha-me Deus, também analisa fezes? Quer dizer que, para além de ser provador de mijo, também come merda?...

(Texto escrito e publicado em 2011 e hoje, aqui, ligeiramente adaptado.)

domingo, 1 de fevereiro de 2015

Passos Coelho e a arte de compulsar o manual

Creio que era o alegado primeiro-ministro de Portugal quem gostava de encher a boca com a palavra compulsar. Digo gostava, porque não sei se ainda gosta, uma vez que já há muito, por razões de limpeza, deixei de ouvir Pedro Passos Coelho.
Em ajuda à memória que fazia questão de não ter no mal contado caso da Tecnoforma, o Pedro dizia que compulsava informações, que compulsava documentos, suponho que compulsasse também os manuais. Compulsar o manual - expressão tão redundantemente onanística, que eu até acho que lhe ficava bem.

Fernando Assis Pacheco 2

A bela do bairro

Ela era muito bonita e benza-a Deus
muito puta que era sempre à espera
dos pagantes à janela do rés-do-chão
mas eu teso e pior que isso néscio desses amores
tenho o quê? quinze anos
tenho o quê uns olhos com que a vejo
que se debruçava mostrando os peitos
que a amei como se ama unicamente
uma vez um colo branco e até as jóias
que ela punha eram luzentes semelhando estrelas
eu bato o passeio à hora certa e amo-a
de cabelo solto e tudo não parece
senão o céu afinal um pechisbeque

ainda agora as minhas narinas fremem
turva-se o coração desmantelado
amando-a amei-a tanto e sem vergonha
oh pecar assim de jaquetão sport e um cigarro
nos queixos a admiração que eu fazia
entre a malta não é para esquecer nem lá ao fundo
como então puxo as abas da farpela
lentamente caminho para ela
a chuva cai miúda
e benza-a Deus que bonita e que puta
e que desvelos a gente
gastava em frente do amor

"A Bela do Bairro e Outros Poemas", Fernando Assis Pacheco

(Fernando Assis Pacheco nasceu no dia 1 de Fevereiro de 1937. Morreu em 1995.)