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terça-feira, 8 de março de 2016

A minha avó sabia de mouras encantadas

Lendas, contava-as uma categoria a minha avó de Basto. Eram lendas mansas, de embalar, metiam mouras encantadas, príncipes, penedos. Penedos de morar, lembro-me bem e eu queria um. Eram contadas à lareira, depois da ceia, com o vermelho do fogo a bailar-nos nas caras espectrais, eu de olhos arregalados e boca aberta, uma e outra vez, como se fosse sempre a primeira. Os efeitos especiais das lendas da minha avó Emília - pequerrichinha, bondosa, anjo sem asas à vista - foram muitos anos mais tarde copiados pelo cinema americano. Até aquele famoso jogo de sombras manipulado pela irrequieta chama da candeia, coisa extraordinária e assustadora - era das lendas da minha avó. E o vinhinho aquecido ao borralho com uma maçã assada lá dentro também, mas isso parece que os filmes não aproveitaram.
Na manhã seguinte, pela fresca, íamos à lenha ao monte. Eu e e minha avó, maravilhosa guardadora de lendas e tudo. E a bó mostrava-me o penedo, o exacto penedo da moura encantada, não havia dúvidas. Ainda por cima, as lendas da minha avó eram verdade.

(Retirado do texto escrito e publicado no dia 16 de Setembro de 2013, com o título "Ele há lendas e lêndeas".)

quinta-feira, 25 de junho de 2015

Gosto da palavra parreca

Gosto de nomes, gosto de palavras. Gosto do falar antigo: gosto de dizer que está "tudo na ponta da unha", quando me perguntam "como é que vai essa merda?", gosto de dizer que é "daqui, detrás da orelha", quando me perguntam "que tal?" a propósito de uma pinga de arrebenta que fazem o favor de dar-me a provar, verde tinto de preferência.
Gosto da palavra parreca. Pachacha, não. Nem crica. Pito, cona, buceta, siririca, vulva, rata, pássara, passarinha ou perereca, apesar de legalmente registadas, então é que nem admito. Pior, só mesmo vagina, uma obscenidade que me tira do sério e absolutamente comparável à alarvidade de chamarem pénis ao pirilau. Pénis e Vagina (neste caso leia-se vajaina, se não for incómodo), até parecem nomes de um casal da Mattel, e se calhar ambos de virilhas vazias, como os outros dois, o Ken e a Barbie.
Da parreca é que eu gosto. Para além de uns rebuçados de açúcar suponho que amarelo, formatados em pequenos ladrilhos e embrulhados em papéis de cores diversas e garridas, vendia-se antigamente nas feiras e festas de Fafe uma espécie de doce alegadamente em forma de pato, ou de pata, vá lá - e esse doce era a parreca.
Diga-se em abono da verdade, o doce resumia-se a uma somítica camada exterior de açúcar, agora branco, se não me engano, e o resto era um pedaço de massa castanha, azeda e dura como cornos, para lamber, lamber, lamber, lamber... até se desfazer à força de dentes, se a gente não desistisse antes. Era coisa para umas horas, se respeitada na íntrega.
Quando nos vinha visitar, às quartas-feiras, pelos 16 de Maio e na Senhora de Antime, a querida avó de Basto trazia-me sempre uma mancheia dos tais rebuçados e, infalível, uma parreca para me entreter a tarde. Foi decerto daí que eu fiquei a gostar.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Ora meta-me o cu pelo nariz acima

Foto Hernâni Von Doellinger

A minha avó de Basto contava. Já não me lembro se era história verdadeira de alguém da família antiga ou diz-que-diz-que a respeito de vizinhos lá da aldeia. Sei é que era um casal e que o casal se tratava por você - forma de tratamento muito mais rústica e ancestral do que cuidam as tias e os tios do então-vá. E as pepas, as sobrinhas do então-vem.
Mas a história: marido e mulher bebiam a sua pinguinha. Ao almoço, que era o "jentar", e ao jantar, que era a ceia. Também bebiam durante a merenda, que era aquela meia dúzia de horas de sol que vai desde o "jentar" até à ceia. Bebiam, portanto, apenas às refeições. Por ordem expressa do salazar daquele tempo, beber vinho era "dar de comer a um milhão de portugueses", e o povo de Passos podia não saber o que era bife nem tinha electricidade, mas sempre deu o litro para que o resto do País não passasse fome. O resto do país já naquela altura era Lisboa.
(E já agora: o almoço, assim dito, era o café da manhã. E a manhã era madrugada. O café era cevada, feita ao borralho, numa velha chocolateira de barro e tampa tamborileira e dançarina.)
Que se segue: às vezes à noite o caldo entornava-se. Fosse pela pingoleta, fosse pela falta de petróleo na candeia, fosse pelo empurrão do lume da lareira, o casal desavinha-se. Nada de grave ou físico, apenas desconversa. Ralhava um, ralhava o outro, cada qual ameaçava que... mas nada. Até que uma maré, ele - só podia ter sido ele -, sacramentalmente dono da última palavra e mortinho por ir para a cama, arrumou a "questã" da melhor maneira que soube e pôde, que foi, virando-se para ela: "Ora meta-me o cu pelo nariz acima". Para logo remendar, coçando as partes com um entusiasmo que só visto: "Ora vá bardamerda, que até me enganei". E depois foram fazer meninos um com o outro, que naquela terra era assim e muito.
A bó de Basto contava belas histórias. E éramos felizes para sempre.

(Texto escrito e publicado no dia 13 de Janeiro de 2013. A fotografia é a novidade, e estava mesmo a pedi-las. Por outro lado, não há maneira de me passarem as saudades da querida bó de Basto, maravilhosa guardadora de lendas e tudo.)

domingo, 28 de dezembro de 2014

O Natal comove-me. E o caldo de couves também.

Gosto do Natal. Isto é: não gosto do Natal, mas a minha mulher e o meu filho gostam muito, e portanto eu gosto do Natal - temos de ser uns para os outros se queremos manter acesa a lareira da felicidade familiar, ou o radiador a óleo, cada um governa-se conforme pode. Gosto do Natal, dizia, mas o Natal incomoda-me, perplexa-me, e era precisamente por aqui que eu queria começar, antes que me passe o espanto. Porque, não sei se sabiam, o Natal é um paradoxo, alegra e deprime, e é também um equívoco: marcado para o dia 25, toda a gente sabe que é na noite de 24. A única certeza religiosa e cientificamente homologada é que o Natal é em Dezembro... "mas em Maio pode ser".
O Natal dá-me saudades do Menino Jesus e do meu pai. Nunca acreditei no Pai Natal e não gosto de Coca-Cola. Velhos com barbas brancas, bastamos euzinho cá em baixo e o Imenso lá em cima. Quanto ao xarope, fico-me pelo da tosse, muito agradecido. O Menino Jesus é que era, e ainda hoje acredito. O Menino Jesus e o meu pai deviam ser da corda, porque era o meu pai quem me punha no sapatinho as avelãs, os chocolatinhos e o par de meias que o Menino Jesus me dava, isso eu sabia. Tão unha com carne deveriam ser os dois que o Menino Jesus nasceu no dia 25 de Dezembro e o meu pai, tudo combinado lá entre eles, morreu de véspera.
O Natal comove-me. As árvores com luzinhas, as músicas tão tlim-tlim-tlam, o pacote de meio quilo de esparguete no saco do Banco Alimentar, os programas de televisão marca jingobel, a patriótica greve dos operários da TAP em defesa da bandeira da companhia e da independência nacional, a mensagem de Sua Excelência o Senhor Presidente da República e Excelentíssima Esposa, a comida, a comida, a comida, tudo ajuda à missa da minha sazonal e imensa comoção. E o vinho também.
Este ano até já estava a ficar agoniado de tanto me comover. Resolvi, para desenfastiar, fazer um caldo de couves. Isso, um caldo de couves. Foi na noite de 25 exactamente. Uns olhinhos de couve-galega, feijão vermelho, batata mal desfeita, uma tirinha de toucinho salgado, um niquinho de vaca, azeite com fartura natalícia. A panela foi à mesa de gala, fumegante como a velha locomotiva que arrastava o comboio até Fafe nos tempos em que eu não me comovia por tudo e por nada e em que a minha memória era o futuro.
Foi o nosso jantar. O caldo estava antigo, de repetir e lamber os beiços. Repeti e lambi. O calor, o sabor, o odor, o estupor, quero dizer, o estupor do caldo caiu que nem ginjas, sossegando-me o estômago mais a alma. E, como num filme, tornou-me à casinha do Santo Velho, à roda da mesa com os meus irmãos, a minha mãe, o meu pai e o Menino Jesus que ainda não tinha nascido. Tornou-me à minha avó de Basto, na cozinha de chão de terra da Casa do Carreiro que cheirava sempre ao meu caldo. Que saudades! E de repente topei-me de olhos humedecidos, turvos, outra vez como no flashback do cinema. De cabeça enfiada na malga, desculpei-me da boca para fora que era do vapor, e pensei: caralho, estás a chorar por causa de um caldo de couves, não tens vergonha? Ainda por cima, este tem carne...

sábado, 3 de maio de 2014

A minha avó era uma santa

A minha bó de Basto tinha uma sociedade infalível com São Bento da Porta Aberta. Em questões de pele e outras coisas ruins, os dois juntos eram uma limpeza.
1 - Aí pelos meus vintes, eu tinha uma plantação de cravos no braço direito, uma vez a minha avó viu, pediu-me licença e disse que ia falar com São Bentinho sobre o assunto. Quando queria falar com São Bentinho, a minha querida avó Emília ia a pé, pequerricha e já velhinha, desde Passos, Cabeceiras de Basto, até Rio Caldo, em Terras de Bouro. Os cravos desapareceram.
2 - Anos depois, o meu filho era criança e apareceu-lhe um cravo numa pálpebra, uma vez a minha avó viu, pediu-me licença e disse que ia falar com São Bentinho sobre o assunto. Quando queria falar com São Bentinho, a minha doce avó Emília ia a pé, ainda mais pequerricha e ainda mais velhinha, desde Passos, Cabeceiras de Basto, até Rio Caldo, em Terras de Bouro. O cravo desapareceu.
3 - Se eu puxasse pela cabeça, tenho a certeza de que me lembrava de um terceiro e definitivo milagre da minha avó, mas não quero arranjar problemas ao Vaticano.

O Vaticano tem muito mais que fazer do que ocupar-se com a comezinha história da minha bó de Basto, que, cada vez mais velhinha e pequerricha, ia a pé entender-se com São Bentinho sempre que era preciso. O Vaticano tem coisas muito mais importantes a tratar: por exemplo, convencer-nos de que João Paulo II é santo. Vai levar anos, e eu não acredito.

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

O pãozinho do Senhor

Foto Tarrenego!

Vi num programa de televisão, daqueles que temperam o turismo com gastronomia, que na Turquia há um respeito muito grande pelo pão. Um respeito tão grande que bocado que cai ao chão não vai para o lixo. É apanhado, guardado e comido na refeição seguinte. Não sei se é bem assim, mas foi assim contado. E eu gostei do que ouvi, falou-me à memória.
Desconheço que influências culturais trocaram entre si Portugal e o Império Otomano, e se essas influências foram tão longe que chegaram a Passos, Cabeceiras de Basto, à casa da minha avó. Sei é que foi neste fim de mundo que eu também aprendi a reverência pelo pão.
Na Casa do Carreiro comia-se na cozinha, à volta da lareira. Os adultos sentavam-se em compridos preguiceiros, apetrechados com uma conveniente tábua-mesa de levantar e baixar, e os miúdos ajeitávamo-nos em pequenos bancos de três pernas, os mochos, obra de carpintaria simples e doméstica. Os cães também tomavam posição, anorécticos involuntários, à espera dos ossos que não havia. Levavam espinhas de bacalhau de quarto e era um pau.
O chão da cozinha era mesmo chão, uma terra negra do fumo e da fuligem, dos anos de uso e das águas entornadas, que lhe davam uma consistência de cimento. Sim, as águas dos potes ferventes ou da banca de lavar louça (atenção, uma banca de madeira), quando já desnecessárias, eram ali mesmo esparramadas, voltando a reunir-se, acho que me estou a lembrar bem, numa espécie de rego que as levava finalmente até lá fora, até ao carreiro que dava o nome à casa. O chão da cozinha descaía para o lado do carreiro. E tudo ajudava à limpeza. Depois era só esperar que secasse um pouco e varrer com uma vassoura de giestas.
Era neste chão que eu às vezes deixava cair o meu naco de pão, quase sempre um bom pedaço de côdea, que era do que eu mais gostava. A minha avó, mansamente, para que o meu avô não se zangasse comigo, dizia apenas:
- Apanha o pão. É pãozinho do Senhor. Dá-lhe um beijinho e já o podes comer...
E eu beijava o pão e comia-o, com todo o respeito, como se estivesse na igreja a comungar.

Em Fafe, a minha mãe insistia nestes ensinamentos. Dizia-nos, a mim e aos meus irmãos, que o chão não sujava, que o beijo purificava, que não se podia estragar pão, era pecado, porque havia muita gente com fome. E se o pão ficava intragável e tinha mesmo que ir para o lixo, só depois de um beijinho de adeus, porque, exactamente, era pãozinho do Senhor.
Em minha casa também não se estraga pão, não se estraga nada. E, se se estraga, quem fica estragado sou eu.

Não sei de onde veio esta ideia antiga, se estará mesmo ligada à fé, à religiosidade popular, ao pão que é o corpo de Cristo. Acredito mais que era sobretudo a pobreza a defender-se, consciente da importância do pão na mesa, o pão que, ontem como hoje, era a única fartura, a última fronteira para a fome. O respeito pelo pão era o respeito pela fome. E ninguém respeita tanto a fome como os pobres.

(Texto escrito e publicado no dia 15 de Setembro de 2011)

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Ele há lendas e lêndeas

                                                                                      Foto Hernâni Von Doellinger

Faço ideia: levar à cena a "recriação histórica" de uma lenda deve ser obra desenganada. Porque a lenda, até prova em contrário, conta um acontecimento que nunca aconteceu. Não existiu. E, no entanto, por ser "histórica", a "recriação" implica que ela seja contada rigorosamente tal qual não foi. Estão a ver a real impossibilidade da empreitada?
Pois bem. Durante três dias, a lenda de Caio Carpo foi pormenorizadamente representada no areal da Praia de Matosinhos. A lenda de Caio Carpo é do tempo dos romanos. E eu fiquei a saber que os romanos que por cá andaram eram muito gaiteiros e tamborileiros, tinham WC, electricidade e altifalantes. Foram eles também que inventaram as feiras medievais e ainda nem se suspeitava que ia haver Idade Média.
Aqui que ninguém nos ouve, a lenda de Caio Carpo é um bocado barulhenta, isso é. Mas justifica-se a fanfarrice: prevista e anulada pela Câmara em 2009, por causa da "crise económica", a "recriação histórica" agora erguida é o sinal luminoso de que, pelo menos em Matosinhos, as vacas gordas estão de volta a Portugal.
A esta hora, lá em baixo desfazem-se as tendas. Tenho pena. Na época do Império, Roma marcava no seu calendário 175 dias de jogos e festividades por ano. Pão e circo para o povo. Matosinhos também merecia mais.

Lendas, contava-as bem a minha avó de Basto. Eram lendas mansas, de embalar, metiam mouras encantadas, príncipes, penedos. Penedos de morar, lembro-me bem e eu queria um. Eram contadas à lareira, depois da ceia, com o vermelho do fogo a bailar-nos nas caras espectrais, eu de olhos arregalados e boca aberta, uma e outra vez, como se fosse sempre a primeira. Os efeitos especiais das lendas da minha avó Emília foram muitos anos mais tarde copiados pelo cinema americano. Até aquele  famoso jogo de sombras manipulado pela irrequieta chama da candeia, coisa extraordinária e assustadora - era das lendas da minha avó. E o vinhinho aquecido com uma maçã assada lá dentro também, mas isso parece que os filmes não aproveitaram.
Na manhã seguinte, pela fresca, íamos à lenha ao monte. Eu e e minha avó. E a bó mostrava-me o penedo, o exacto penedo da moura encantada, não havia dúvidas. Ainda por cima, as lendas da minha avó eram verdadeiras.

domingo, 4 de setembro de 2011

Gostava que eles fossem à merda

Fui muitas vezes à merda. E gostava. A minha avó Emília mandava-me, com uma telha, à procura de poios de bosta, que depois servia para selar o forno onde ela cozia a broa. Eu passava sempre uma temporada das férias grandes na aldeia e ir à merda era o meu modesto contributo para que tivéssemos pão à mesa. Isso e, às vezes, ir à fonte buscar água.
A minha avó Emília, que era pequenina e bondosa com um anjo, e era um anjo, fazia uma broa escura, muito saborosa, que se mantinha fresca durante dias e dias. Naquele tempo, o pão era o principal alimento dos portugueses. O pão e o vinho, como fazia questão de frisar, de forma propositadamente ambígua, a propaganda salazarista. Na casa da minha avó Emília, que era a do avô Bernardino, também era assim. Podia faltar tudo, e às vezes faltava, mas havia sempre broa com fartura e umas imensas malgas de "americano" às quais eu gostava de mandar umas pescoçadas até dizer ahhhh!
Eram tempos de penúria. Como os de hoje. Passaram mais de 40 anos e eu gostava que isto estivesse melhor, palavra de honra. Gostava que tivéssemos um governo que não se esquecesse que o País tem pessoas dentro. Gostava que Pedro Passos Coelho e Paulo Portas percebessem que não se pode salvar o País desmantelando a sociedade. Gostava que Vítor Gaspar chegasse rapidamente à conclusão de que o País não é uma equação abstracta, é uma realidade concreta. Gostava que o Passos, o Portas e o Gaspar entendessem que Portugal só tem futuro se continuar a haver portugueses. Gostava que o Passos, o Portas e o Gaspar parassem de tirar o pão da boca dos mais desfavorecidos. Gostava que eles fizessem exactamente o contrário, que contribuíssem com alguma coisinha para a mesa dos pobres. Enfim, gostava que eles fossem à merda.