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segunda-feira, 11 de dezembro de 2023

Chegou a vez deles

Foto Hernâni Von Doellinger

Começava o ano de 2009 e o grupo Controlinveste, de Joaquim Oliveira, perpetrou o despedimento colectivo de 122 trabalhadores, mais de 50 dos quais eram jornalistas. A Controlinveste era dona do Diário de Notícias (DN), do Jornal de Notícias (JN), do 24horas e do desportivo O Jogo, além da rádio TSF, da revista Volta ao Mundo e dos canais televisivos SportTV. Desde os anos oitenta que não acontecia uma razia assim em Portugal, quando fecharam títulos como O Diário, o Diário Popular e o Diário de Lisboa.
Em Janeiro de 2009 eu era jornalista do 24horas no Porto e o 24horas no Porto acabou. O DN no Porto ficou reduzido ao osso e o JN passou mais ou menos incólume pelos pingos da chuva, fora o azar de uns poucos que decerto tinham a mania de desagradar às chefias, as quais, nestas coisas do salve-se quem puder, geralmente são piores do que os patrões.
Fez-se greve. Uma greve coitadinha, isto é, fizeram greve os que iam morrer, e poucos mais, embora tenha sido tentada uma coisa em grande, testicular, greve geral do grupo, num plenário que foi uma desgraça. Os jornalistas do JN, sobretudo os promissores jornalistas do JN, evidentemente na rampa de lançamento para voos que afinal nunca alcançaram, avisaram logo que não, que era preciso ver o quadro completo, não vamos agora prejudicar uns por causa dos outros, que já estão condenados e estão, as coisas são como são, sejamos realistas, é uma chatice, isso é, pá, acontece, solidariedade, sim, obviamente, para isso cá estamos, força!, mas uma palmadinha nas costas também já chega.
Eu disse: "para palermas não estais nada mal, meus refinados filhosdeputa, e ainda me vou rir quando chegar a vossa vez", e vim-me embora a meio da coisa. Vim-me mesmo embora. Literalmente. Definitivamente. Tiveram de me procurar, se quiseram "despedir-me"...
Termina o ano de 2023. A Controlinveste, de Joaquim de Oliveira, chama-se agora Global Media Group (GMG), detém os títulos JN, DN, TSF, O Jogo, Dinheiro Vivo, Notícias Magazine, Delas, N-TV, Motor24, Men's Health, Women's Health e Açoriano Oriental, e vai desempregar mais 150 trabalhadores, parece que 40 só na redacção do JN. Ó caralho! Aqui-d'el-rei, que isto agora é connosco, gritou-se ali para os lados do Monte dos Burgos, que a Torre foi vendida para hotel, o JN fez mesmo greve, e logo dois dias, viva o luxo!, não saiu à rua "pela primeira vez em 35 anos" e foi um sucesso.
Ou por outra, chegou a vez dos palermas de 2009 e eu, devo confessar, afinal não acho piada nenhuma...

P.S. - O Sindicato dos Jornalistas propõe uma paralisação de uma hora no próximo dia 6 de Janeiro em todas as redacções de Portugal continental e ilhas, "num abraço solidário a estes camaradas", isto é, aos jornalistas do GMG, isto é, aos "corajosos" jornalistas do JN. O que é porreiro e, por outro lado, não deixa de ser irónico.

quarta-feira, 11 de junho de 2014

Controlinveste, a imparável: mais 160 para a rua

Parece que Joaquim Oliveira vendeu os jornais a Angola. E depois? Qual é o escândalo? O que é que Portugal perde com a passagem do Jornal de Notícias e do buraco do Diário de Notícias para as mãos de um grupo angolano? Perde independência? Isenção? Credibilidade? Transparência? Rigor? Qualidade? Profissionalismo? Competência? Seriedade? Memória? Deontologia? Dignidade? Referência? Jornalismo? Não se perde o que não há. Talvez se percam empregos. Mas estou em condições de assegurar que isso já aconteceu outras vezes, mesmo antes da chegada dos angolanos.

Uma vez, o estado-maior da Controlinveste descia no elevador do Edifício JN do Porto e eu também. Entrei a meio caminho para ir a casa comer a sopa. Era ir num pé e vir no outro. Disse boa tarde, mas ninguém me ligou. Aquela gente não ouve, não vê nem pensa para além do umbigo de cada qual. Iam todos entretidos na galhofa, preparando mais uma leva de despedimentos. A maior de todas. Eram os filhos do Joaquim, acolitados por um ou dois administradores anónimos limitados e pelo director de publicações, João Marcelino. E era exactamente Marcelino o animador de serviço, exibindo a capa do Diário de Notícias daquele dia. Dizia o também director do DN - "O que é preciso é isto: mete-se aqui este vermelhinho e está o assunto resolvido, é só vender".
João Marcelino referia-se à foto do Benfica que dominava a primeira página do DN. E (deixemo-nos de hipocrisias) não estava a dizer nenhuma asneira. Haja Benfica! O Diário de Notícias tem finalmente quem o compre.

(Texto escrito e publicado no dia 19 de Outubro de 2012, com o título O que é preciso é Benfica, e repetido no dia 4 de Junho de 2013, com o título Angola toma conta do JN, do DN e da TSF. Hoje sobe outra vez à cena porque a Controlinveste acaba de anunciar o despedimento de mais 160 trabalhadores. E eu nem sabia que ainda havia tantos para despedir. Num país a sério, em jornais a sério, os directores que dão prejuízo é que vão para o olho da rua. Aqui a culpa é sempre do porteiro. E viva a Selecção!)

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

O futebol realmente

Foto Hernâni Von Doellinger

1. Aos domingos de manhã eles lá estão e são os meus ídolos. Jogam à bola porque gostam, são amigos e compinchas, para além disso dá-lhes imenso jeito ganhar apetite para o almoço, Deus os farture. Jogam a sério, estão organizados, tenho visto assembleias gerais antes dos prélios. Há os da praia seca e, no quintal dos fundos, os da praia molhada. A paixão pelo futebol é a mesma, tremenda e pura. São amadores como quer dizer a palavra. Estes homens nunca se disporiam a ir à Madeira apenas para passear camisolas, teriam vergonha. E a ilha podia afundar.

X. Os jornalistas portugueses estão muito preocupados e preocuparam o País por causa dos ex-jogadores profissionais de futebol que já não são ricos. Falam de Jorge Cadete, de António Veloso, de Fernando Mendes, o magro, de Porsches, de mais de 17 mil euros por mês, de ganhos de um milhão de euros numa carreira, de Rendimento Social de Inserção, da esmola de amigos. E recomendam-nos que sejamos culpados e tenhamos pena.

2. O Sindicato dos Jogadores Profissionais de Futebol prepara um documento de apoio aos jornalistas portugueses que são despedidos às carradas e passam fome.

P.S. - Não é para me gabar, mas a foto é mesmo um mimo: até tem bola! No tempo do jornalismo, ter bola era condição sine qua non para um boa fotografia de um jogo de futebol. Se não havia bola, ia-se buscar o esférico a outro retrato qualquer e colava-se na fotografia que seguia para publicação. Era o photoshop na ponta da tesoura.

terça-feira, 4 de junho de 2013

Angola toma conta do JN, do DN e da TSF

Parece que Joaquim Oliveira vendeu os jornais a Angola. E depois? Qual é o escândalo? O que é que Portugal perde com a passagem do Jornal de Notícias e do buraco do Diário de Notícias para as mãos de um grupo angolano? Perde independência? Isenção? Credibilidade? Transparência? Rigor? Qualidade? Profissionalismo? Competência? Seriedade? Memória? Deontologia? Dignidade? Referência? Jornalismo? Não se perde o que não há. Talvez se percam empregos. Mas estou em condições de assegurar que isso já aconteceu outras vezes, mesmo antes da chegada dos angolanos.

Uma vez, o estado-maior da Controlinveste descia no elevador do Edifício JN do Porto e eu também. Entrei a meio caminho para ir a casa comer a sopa. Era ir num pé e vir no outro. Disse boa tarde, mas ninguém me ligou. Aquela gente não ouve, não vê nem pensa para além do umbigo de cada qual. Iam todos entretidos na galhofa, preparando mais uma leva de despedimentos. A maior de todas. Eram os filhos do Joaquim, acolitados por um ou dois administradores anónimos limitados e pelo director de publicações, João Marcelino. E era exactamente Marcelino o animador de serviço, exibindo a capa do Diário de Notícias daquele dia. Dizia o também director do DN - "O que é preciso é isto: mete-se aqui este vermelhinho e está o assunto resolvido, é só vender".
João Marcelino referia-se à foto do Benfica que dominava a primeira página do DN. E (deixemo-nos de hipocrisias) não estava a dizer nenhuma asneira. Haja Benfica! O Diário de Notícias tem finalmente quem o compre.

(Texto escrito e publicado em 19 de Outubro de 2012, então sob o título O que é preciso é Benfica. Confirma-se.)

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

O que é preciso é Benfica

Parece que Joaquim Oliveira vendeu os jornais a Angola. E depois? Qual é o escândalo? O que é que Portugal perde com a passagem do Jornal de Notícias e do buraco do Diário de Notícias para as mãos de um grupo angolano? Perde independência? Isenção? Credibilidade? Transparência? Rigor? Qualidade? Profissionalismo? Competência? Seriedade? Memória? Deontologia? Dignidade? Referência? Jornalismo? Não se perde o que não há. Talvez se percam empregos. Mas estou em condições de assegurar que isso já aconteceu outras vezes, mesmo antes da chegada dos angolanos.

Uma vez, o estado-maior da Controlinveste descia no elevador do Edifício JN do Porto e eu também. Entrei a meio caminho para vir a casa comer a sopa. Era ir num pé e vir no outro. Disse boa tarde, mas ninguém me ligou. Aquela gente não ouve, não vê nem pensa para além do umbigo de cada qual. Iam todos entretidos na galhofa, preparando mais uma leva de despedimentos. A maior de todas. Eram os filhos do Joaquim, acolitados por um ou dois administradores anónimos limitados e pelo director de publicações, João Marcelino. E era exactamente Marcelino o animador de serviço, exibindo a capa do Diário de Notícias daquele dia. Dizia o também director do DN - "O que é preciso é isto: mete-se aqui este vermelhinho e está o assunto resolvido, é só vender".
João Marcelino referia-se à foto do Benfica que dominava a primeira página do DN. E (deixemo-nos de hipocrisias) não estava a dizer nenhuma asneira. Haja Benfica! O Diário de Notícias tem finalmente quem o compre.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Já começou 2

Os carteiros são cada vez mais vítimas de ameaças, injúrias e agressões físicas por parte dos clientes, revoltados com a demora na recepção dos vales das reformas, abonos de família e Rendimento Social de Inserção. A denúncia é feita pelos sindicatos do sector, que acusam os CTT de estarem a atrasar de propósito a entrega do correio.
De acordo com Vítor Narciso, presidente do Sindicato Nacional dos Trabalhadores dos Correios e Telecomunicações, "o correio está a ser deliberadamente atrasado porque houve decisão dos CTT de fazer uma distribuição segmentada". "A segmentação foi introduzida para diminuir o número de trabalhadores. Foi uma forma que a empresa arranjou de poupar dinheiro à custa dos trabalhadores e da população", acrescenta, por seu turno, Jorge Costa, dirigente da Comissão de Trabalhadores dos CTT, que acusa também a Administração dos Correios de querer eliminar cerca de 4.000 dos 11.500 postos de trabalho.
É mais lenha para a fogueira. E, nestes tempos de fome e revolta, "brincar" com os vales das reformas, dos abonos e do pessoal do rendimento mínimo é uma provocação quase suicidária. Isto vai acabar mal. E vai sobrar para os desgraçados dos carteiros, que não têm culpa nenhuma desta filhadaputice toda.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

O desemprego também mata, sabiam?

"Trabalho matou 1.633 operários na última década". O título é dado assim, de chofre, pelo JN, e é assim mesmo que estas notícias devem ser dadas, sem nariz-de-cera nem paninhos quentes. O jornal de Joaquim Oliveira acrescenta ainda que, alargando os dados a 2001, o ano mais antigo constante da página na Internet da Autoridade para as Condições no Trabalho, o número das vítimas mortais sobe então para 1.913 pessoas. E se juntarmos os seis trabalhadores que perderam a vida esta semana, três deles ontem, nas obras da barragem do Tua, estamos já nas 1.919 mortes no trabalho, conclui o periódico. São números brutais. Números de tragédia e subdesenvolvimento. E fica-nos na cabeça uma ideia terrível: o trabalho mata...
Mas a falta de trabalho também mata, sabiam? E eu, pela minha parte, gostava de saber: o desemprego quantos portugueses matou na última década? Ou então, para simplificarmos a tarefa de quem o quiser averiguar, fiquemo-nos pelo seguinte: quantos trabalhadores morreram de despedimento e desemprego, digamos, nos últimos cinco anos? Ora aqui está, parece-me, outro interessante tema jornalístico para o JN pegar, se o dono deixar.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Leya faz as malas para o Brasil

O grupo editorial Leya está a despedir em Portugal para investir no Brasil. O editor da Teorema e a editora da Estrela Polar, assim como os dois gestores de marca, o da Dom Quixote e o da Asa, estão entre as mais de 30 pessoas de diversos sectores que o eucalíptico grupo de Miguel Paes do Amaral está a mandar embora desde terça-feira, no Porto e em Lisboa, alegando extinção de postos de trabalho. Depois de ter posto o mercado livreiro português a pão e água, a Leya deixa-o agora a soro. À espera do fim?