quinta-feira, 12 de março de 2015

Peregrino Júnior

Não acontece nada. A vida parou, estagnada e podre. A cidade permanece adormecida numa calma resignação silenciosa. Terra de gente pobre - caboclos sem ambições, sem remorsos, sem problemas. Nem dramas de consciência, nem inquietações de coração. Ignorando seus direitos - que direitos? - e não sabendo o que vai pelo resto do mundo, as fronteiras do seu espírito coincidem com o horizonte curto dos seus olhos: a curva mansa do rio e o corte vertical da floresta. Nem alegria. Nem esperança. Esperança de quê? Liberdade, isso sim. A miséria não é afinal uma forma de liberdade? Mas para quê, se não sabem o que fazer daquela estranha liberdade das matas sem-termo e sem dono, dos rios preguiçosos que não descansam?
Frei Jacó aparece por lá, vez por outra, com as Missões: casa, batiza, absolve, reza... dá presentes, ensina catecismo. É teimoso no ensino da doutrina cristã:
- Sois cristão?
- Sim, pela graça de Deus!
- Quem é Deus?
- Um soberano Senhor, criador do Céu e da Terra.
- Deus tem sempre existido?
- Sim, porque não teve princípio nem há de ter fim...
- E para que fim nos criou Deus?
- Para amá-lo nesta vida e gozar depois d’Ele no Céu para sempre.
Frei Jacó - bom frade ingênuo, a cabeça branca, os olhos sem malícia, fica espantado com aqueles caboclos que vem do centro - meio do cerrado do seringal, do coração sombrio da mata calada. Chegam tímidos e nus. Índios mansos, tristes e miseráveis. Frei Jacó dá-lhes roupas e calçados, além de terços e santos. Impõe uma condição: que assistam à missa vestidos: "com roupa de ver Deus".
Concordam, com um aceno de cabeça. Vestem a roupa, calçam os sapatos - e endomingados, manquejando, os sapatos machucando os pés grossos, vão para a igreja. Mal terminada a missa - na própria calçada da igreja - descalçam os sapatos - ufa! que alívio! - e despem as roupas - Eta calor brabo! Depois atravessam dignamente a praça, nus, com a mais grave naturalidade, e voltam para suas malocas, contentes e tranquilos.

"A Mata Submersa", Peregrino Júnior

(Peregrino Júnior nasceu no dia 12 de Março de 1898. Morreu em 1983.)

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