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domingo, 13 de setembro de 2026

Os fujões

O fim do mundo
Como diziam os antigos, e os antigos é que sabem: "Aos dois mil chegarás, dos dois mil não passarás". E que se segue? Há 26 anos que o mundo acabou, e eu, francamente, não me parece que isto tenha melhorado...

Os fujões fugiam. E até mais do que uma vez. Fugiam sempre que podiam. Por isso é que eram fujões, frequentemente apontados a dedo. Fugiam do seminário, que é o que eu sei, ou de colégios internos, rígidos, eram alunos do primeiro ano, crianças de dez ou onze anos em choque de desmame, longe de casa, cheios de saudades, inadaptados à severidade das regras, à disciplina apertada, musculada, ao silêncio, aos horários, à solidão, à exigência escolar, à comida, à cama, ao gozo e abuso dos mais velhos ou mais fortes, à mão lampeira e pesada de professores, prefeitos ou outros alegados guardiões ou superiores.
Aproveitavam geralmente a confusão do recreio para fugir, escalando o portão escondido atrás da esquina, sem vigilância, e até era um portão que metia respeito. Chegavam à rua e não sabiam o que fazer à vida. Não iam longe. Choravam baba e ranho, perdidos, atarantados, assustados, culpados, como se levassem ao peito um enorme letreiro a dizer "Fujão", os vizinhos já sabiam o que ali se passava, tantas vezes que viram, e corriam logo a tocar à sineta da portaria, a avisar quem de direito, geralmente não chegava a ser preciso organizar grandes operações de busca.
Imaginai: um puto de São Lourenço da Montaria, Viana do Castelo, entregue a si próprio em plena Rua de São Domingos, esconsa mas quase no centro da cidade de Braga, sem dinheiro nem mundo, e sem sentido de orientação, os pequenos olhos turvos, pisqueiros, rasos de água, como é que ele havia de saber o caminho para casa, para a serra?
Depois de apanhado, o fujão era exibido no salão de estudo e castigado em público para servir de exemplo. Um bom fujão, é preciso que se diga, normalmente insistia no dia seguinte, nos dias seguintes. E as cenas tristes repetiam-se, cada vez piores. Após a segunda ou terceira tentativa de fuga e consequentes sovas, os pais do fujão eram também chamados à pedra. Vinham de camioneta, fazia-lhes diferença. Chegavam envergonhados, num desgosto que só visto, e ouviam das que não queriam. Que resolvessem de vez o assunto, à pancada era o mais indicado! Às vezes, porém, os pais condoíam-se da evidente infelicidade do filho, daquela dor de alma, principalmente a mãe, pediam muitas desculpas aos senhores padres, tão bons educadores, pagavam "a conta" com língua de palmo e levavam a criança enfim para casa. Era mais uma "vocação" que se perdia.

Isto os fujões. Claro que também havia os mijões, que por acaso, não raras vezes, coincidiam, isto é, acumulavam. Os mijões eram mijões porque faziam chichi na cama, e também havia normas quanto a eles. Eram vários e cheiravam bastante. À noite, no enorme dormitório, quando, após as orações, as luzes se apagavam de vez e os fujões e candidatos a fujões se entregavam finalmente à liberdade, na paz dos sonhos, os meninos que faziam chichi na cama davam um nó à toalha na cabeceira de ferro e esse era o sinal para o senhor guarda-nocturno saber que ali estava mais um que necessitava de ser chamado, nas rondas habituais. O senhor guarda-nocturno nascera realmente para aquilo ou então alguém o ensinou muito bem, era meticuloso e eficiente, chegava-se à beira da cama marcada, abanava o desgraçado aos safanões e rosnava, palavra de honra: - Ó mijão, acorda!...

(Do meu blogue Mistérios de Fafe)

sexta-feira, 11 de setembro de 2026

O pior que se podia fazer a um filho

O filho do meio
O Dia do Filho do Meio existe e celebra-se a 12 de Agosto. Quer-se dizer. É um Dia De tão aceitável e tão palerma como a maioria do Dias De. Parece-me, em todo o caso, um Dia De algo injusto e até um desperdício para as famílias com número par de filhos.

Belos tempos. Em Fafe ninguém se divorciava. O divórcio pura e simplesmente não existia na nossa terra, embora 1910 já tivesse sido há um ror de anos. Já agora: o divórcio foi legalizado em Portugal no dia 3 de Novembro de 1910, logo após a implantação da República. Continuando. Apesar de legal, a palavra divórcio era como o palavra cancro - não fazia parte do léxico fafense, graças a Deus, éramos bastante monárquicos a esse respeito. Curiosamente, não me lembro que, entre nós, a palavra amor tivesse também grande uso por aquela altura. Divórcio não se dizia nem se pensava, era pecado. E, definitivamente, não se praticava. Quem ousasse, ficava marcado, nunca mais seria pessoa de bem, aceite pela sociedade local, mais valia pegar nos tarecos e ir para o mais longe possível, para o fim do mundo, lá para o Porto, onde havia noite e a moral já não era precisa. A mulher fugia de casa, desaparecia, o homem deixava a mulher, atravessava a rua, ia morar com outra, isso acontecia regularmente em Fafe, era aceitável, mas divórcio não, que parecia mal. Estava-se fora da mulher, estava-se fora do homem, como dizia o povo, tudo dentro dos conformes, mas sem papel. Marido e esposa encornavam-se entusiasticamente, odiavam-se com todo o zelo, mas não se divorciavam, porque, os antigos sabiam-no bem, o casamento é sagrado. Ele enchia-a de porrada todos os dias, quer-se dizer, todas as noites, quando se viam, e ela às vezes enchia-o de porrada a ele, mas que lindo que era festejar as bodas de prata e as bodas de ouro pelo menos, sempre na igreja, com a bênção e muitos elogios e conselhos do senhor padre, que não percebia nada de casamento e conjugalidade, por falta de comparência, mas achava que sim. Divórcio nunca, meu Deus! Isso não se fazia. Por causa das crianças, dos filhinhos, coitadinhos, marmanjos e marmanjas com quase 50 anos, casados, mal casados, divorciados e ajuntados, já com os seus próprios filhos, das mais diversas proveniências, mas que também gostavam muito de ver os velhotes juntinhos. E viviam no Porto.

O famoso psicólogo Eduardo Sá declarou uma vez no jornal Diário de Notícias que "divórcio" é a coisa mais violenta que se pode dizer a um filho. Eu, sem o saber e a experiência do Prof. Doutor Eduardo Sá, não concordo, embora ninguém me tenha perguntado nada. A mim parece-me que "sopa" é que é a coisa mais violenta que se pode dizer a um filho.
Aliás, para além de "sopa", há outras coisas mais violentas do que "divórcio" que se podem dizer a um filho. A saber: "cama, já!", "esse telemóvel serve muito bem!", "uma semana sem sair!", "um mês sem tablet!", "meio ano sem gomas!", "foste deixado cá em casa pelos ciganos", "come uma banana!", "peixe é bom", "não, ela não pode dormir cá!", "acabou-se a mesada!", "podes ajudar aqui?", "empresta à tua irmã!", "dá um beijinho à avó!",  "pergunta ao pai!", "pergunta à mãe!", "o pai morreu", "a mãe morreu".

(Do meu blogue Mistérios de Fafe)

sexta-feira, 4 de setembro de 2026

Os pontos nos ee

"Sexualmente falando, és imprestável", disse ela. "Tá bem", disse ele, e foi organizar-se com a vizinha. Ele percebera "emprestável". São coisas que acontecem...

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Mundial da Saúde Sexual.)

quarta-feira, 12 de agosto de 2026

O filho do meio

Hoje é Dia do Filho do Meio. E está bem. É um Dia De tão aceitável e tão palerma como a maioria do Dias De. Parece-me, em todo o caso, um Dia De algo injusto e até um desperdício para as famílias com número par de filhos.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia do Filho do Meio.)

sexta-feira, 24 de julho de 2026

Por encabação

Matematicamente
Eram números primos. Direitos. Por parte das mães.

Por encabação. A expressão é bondosamente maliciosa e antiga, muito fafense, e dizia respeito à pessoa que entrava na família por casamento. Por exemplo, alguém que passava a ser nossa tia porque casou com o nosso tio natural, irmão do nosso pai ou da nossa mãe. Era então nossa tia, por encabação - assim o afirmávamos, sem ofensa. Porém. Aprendi outro dia no jornal Público, numa crónica de Pedro Garcias, sábio de vinhos e de outras vidas, que lá para os seus lados, Trás-os-Montes e Douro, suponho, "as gentes do campo" dirão "por encabadouro", querendo significar a mesma coisa. Também está bem. Mas nós, os do fafês, que não haja dúvidas, era mesmo por encabação!

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia dos Primos.)

Ó prima, ó rica prima!

Consanguinidade
Os números primos, há que admiti-lo, podem ser um bocado tolos.

Eu tenho uma prima de que não sabia. Desconheci-a durante quase toda a minha vida, foi-me apresentada talvez há quinze anos por um amigo comum, e passámos a conviver regularmente, nos últimos tempos cada vez menos. Às vezes dão-me saudades, digo que preciso de ir à prima, há logo quem leve a coisa para a malandrice, mas nada disso. A prima é a Erdinger, a excelentíssima cerveja alemã, que, como o próprio nome indica, só pode ser da família. E eu estou farto de dizer à minha mulher: a família devia dar-se mais.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia dos Primos.)

quarta-feira, 22 de julho de 2026

Quem sai aos seus

Deixe de ser parvo, disse o palerma. E você deixe de ser palerma, disse o parvo. Palerma é melhor que parvo, disse o palerma. Parvo é que é melhor que palerma, disse o parvo. Quem disse, perguntou o palerma. O meu pai, respondeu o parvo. O seu pai é parvo, disse o palerma. E o seu é palerma, disse o parvo. Mas o meu pai é mais palerma que o seu, disse o palerma. E o meu é mais parvo que o seu, disse o parvo. Mas não é palerma, disse o palerma. Nem o seu é parvo, disse o parvo. Dah!, disse o palerma. Dah!, disse o parvo.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Mundial do Cérebro.)

terça-feira, 7 de julho de 2026

Papando uns e outros

Fruta da época
Perguntaram-lhe sobre frutas da época, e ela respondeu ferrero rocher e mon chéri.

Chegava o Natal e ele, entre bombons e bumbuns, levava tudo a eito e sem destrinça. Padecia de uma espécie muito avançada de paronímia, segundo atestado médico, e a mulher, que era das antigas, desculpava-o, coitadinha...

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Mundial do Chocolate.)

terça-feira, 23 de junho de 2026

Olha a triste viuvinha

Sem desculpa
Errar é próprio do homem. A mulher não tem desculpa! 

O homem da casa falecia, por esta ou por aquela razão, às vezes inadvertidamente mas geralmente por razão de força maior, e a família tinha logo uma carga de trabalhos, um rol de importantes e inadiáveis decisões a tomar, a primeira das quais era pegar na roupa toda da recém-viúva e mandá-la para a tinturaria, que, se não me engano, ficava ali ao lado do Foto Victor e da entrada para o Senhor Fernando Enfermeiro, junto aos Correios, na hoje muito justamente chamada Rua Dr. António Marques Mendes. A roupa ia para tingir de preto, a roupa e a vida da jovem viúva dali para a frente. Viúva em flagrante delito. Fafe tomava conhecimento e não perdoava. Também sabia ser cruel. Ser-se viúva era uma sentença automaticamente transitada em julgado, um castigo, provavelmente divino, para todos os efeitos. Viúva sem apelo nem agravo. Com penitência mas sem perdão. Doravante, proibida a cor, proibida a alegria, proibido o riso, proibido o sorriso. Sair de casa, apenas para a missa, ida pela volta, nem mais um minuto, encostada às paredes e de olhos no chão e bico calado. Atenção ao comprimento da saia, ao cabelo! Xaile, era preciso muito xaile. E lenço preto escondendo a cabeça, a cara. Os holofotes apontavam para a porta, tomando conta de entradas e saídas, a horas ou fora delas, que nem as havia. A mulher ficava marcada, vigiada, não lhe viesse de repente a tentação, o desejo. Quer-se dizer, era viúva e já não mulher. E começava por ficar pelo menos quinze dias metida na cama, tapada até ao nariz, sem rádio, sem televisão que não tinha e com as luzes sempre apagadas, sozinha, sozinha, sozinha, compulsivamente afastada dos próprios filhos, crianças, alimentada a canjas e venenosas recomendações das putas das vizinhas, onzeneiras, agoirentas e mal-fodidas, para se ir habituando ao resto da vida, como se tivesse acabado de parir o próprio destino. E esta merda toda, ainda por cima, porque o marido lhe morreu.

(Do meu blogue Mistérios de FafeHoje é Dia Internacional das Viúvas, lamento informar.)

quinta-feira, 18 de junho de 2026

Pela família, tudo!

Convidou a parentela considerada mais próxima, vinte pessoas e treze crianças. Marcou restaurante para as duas em ponto. Encomendou azeitonas, bacalhau assado no forno e tripas à moda do Porto, bebidas e sobremesa à escolha de cada qual. Pediu pratos de plástico, copos de plástico, talheres de plástico, correntes de ar, moscas e se possível formigas. Era a sua vez de organizar o tradicional piquenique de família e ele queria tudo como deve ser.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Internacional do Piquenique.)

terça-feira, 16 de junho de 2026

Pela medida grande

A ciência
Está cientificamente provado: o álcool afecta de forma diferente o homem e a mulher. O mercurocromo não.

Uma infusa de satisfatórias dimensões. Vinho, branco ou tinto, e açúcar, de preferência amarelo, à moda de Fafe. Mexe-se com uma colher, se houver, ou com os dedos. Da mão. Junta-se-lhe cerveja ou, para coninhas, seven up. O equilíbrio das quantidades fica ao gosto do fabricante. Chama-se a isto "receita" ou "remessa" e deve beber-se bem fresco, mas sem gelo, porra! Os coninhas podem chamar-lhe cocktail...

Por outro lado. Há a questão das remessas familiares, tão importantes para a nossa economia, e neste caso as quantidades devem ser calculadas, ajustadas e acrescentadas em função do número de parentes presentes. Se, em famílias mais numerosas e capazmente apreciadoras, uma infusa não for suficiente, então a remessa pode muito bem ser elaborada e servida num cântaro, num balde, num alguidar, numa bacia, no depósito da água, no tanque ou na banheira, se estiver de vago.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Internacional das Remessas Familiares.)

segunda-feira, 1 de junho de 2026

Hoje é para as crianças, mas só hoje!

Hoje é Dia Mundial da Criança. Mas, atenção, é só hoje! Até à meia-noite. Depois podemos voltar aos cães e aos gatos, e temos o ano inteiro.

P.S. - Hoje é Dia Mundial da Criança.

Pai que é pai

Português, desempregado, 45 anos de idade. Quando finalmente conseguiu um part-time como homem-sanduíche, chegou a casa à noite e deu-se de comer aos filhos.

P.S. - Hoje é Dia Mundial dos Pais ou Dia Global dos Pais. E é também Dia Mundial da Criança ou Dia da Criança.

terça-feira, 19 de maio de 2026

Quem sai aos seus

Ele era médico, de família. Quer-se dizer, seguiu os passos do pai, do avô também e o bisavô até nem tinha sido o primeiro, todos médicos, que remédio, geração atrás de geração. Entre tios, sobrinhos e primos, formavam, com efeito, um considerável corpo clínico. Dizia-se que eram descendentes directos de William Osler, por parte da mãe, e, regra geral, do próprio Hipócrates em pessoa. Mas essa parte não posso jurar...

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Mundial do Médico de Família.)

sexta-feira, 15 de maio de 2026

O mundo é pequeno (e um bocado parvo)

- Perdoar-me-á que o interpele assim sem mais nem menos, sem o conhecer de lado nenhum, mas o caro senhor é um bocado parvo, não é?
- Sou, com efeito, um bocado parvo, mas como é que o caro senhor adivinhou?
- Um pressentimento. É que eu também sou...
- O caro senhor também é um pressentimento?
- Não, não, caro senhor: também sou um bocado parvo.
- Como o mundo é pequeno! Somos então praticamente família...
- Parentes, pelo menos...
- E, mal que lhe pergunte, o caro amigo é um bocado parvo por parte da senhora sua mãe ou por parte do senhor seu pai?
- Por parte do senhor meu pai.
- Mas isso é extraordinário, caro amigo, porque eu também sou...
- O caro amigo também é um bocado parvo por parte do senhor meu pai?
- Não, não, caro amigo: sou um bocado parvo mas por parte do senhor meu pai.
- Oh, que pena! De repente, quase que éramos irmãos, não é?...

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Internacional da Família.)

terça-feira, 28 de abril de 2026

Flores ao solheiro

A invenção da sogra
Consta que os muçulmanos introduziram a nora em Portugal. Gostaria de saber: e quem terão sido os espertinhos que nos introduziram a sogra?

Um restinho de sol e lá se sentavam elas comparando doenças e façanhas de netos havidos ou inventados. Rosa, Violeta, Hortênsia, Camélia, Margarida, Dália, Açucena - evidentemente no jardim imaginário, ao entardecer da vida.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia da Sogra.)

domingo, 19 de abril de 2026

A honra dos Silvas


O Oliveira
O Oliveira foi chamado de urgência à gerência. Ordens: mudança de secção e de funções. Isto é: mobilidade, sinergias. Deram-lhe portanto um martelo. - Um martelo!? - protestou -, mas toda a gente sabe que eu sou o Oliveira da serra... 
 
A minha família leva muito a sério o seu apelido Von Doellinger. Eu não. A minha família tem muito orgulho no seu apelido Von Doellinger. Então em Fafe, é um estremecimento. Eu tanto se me dá. Para mim, ser Von Doellinger ou ser Silva é igual ao litro, e só tenho pena de não ir ao nome do meu lado de Basto, que é Pereira, mas esqueceram-se dele quando me foram registar.
Quando assim falo, que é sempre, os meus parentes caem-me em cima, protestam a sua mais entranhada vaidade onomástica e ameaçam banir-me do clã, e eu contra isso nada. Ouço-os, isto é, faço de conta que os ouço, mas penso noutra coisa. Penso nos Silvas. Penso como seria bonito ver alguém sair a terreiro em defesa da honra dos Silvas. Exactamente: alguém de velha têmpera e honra antiga que, armado em Von Doellinger de corrida, ousasse chegar-se à frente para gritar alto e bom som, de estandarte em punho e peito inflado de altivez, vestindo talvez uma camisola com o "S" do super-homem estampado à frente:
- Eu tenho muito orgulho em ser um Silva, há algum problema?!...
Os Silvas, é preciso que se note, não são uma merda qualquer, e não estou sequer a falar do ilustre casal de ex-inquilinos do Palácio de Belém, que faz aqui tanta falta como o queijo gruyère numa caldeirada de enguias. A primeira linhagem de Silvas é de príncipes e anterior à fundação da nacionalidade portuguesa. Os Silvas de pé-rapado conquistaram Portugal e os Brasis, é só ir ver as listas telefónicas. Os Silvas são uns grandes pinantes, é só ir ver os registos dos motéis de norte a sul, mas neste departamento os Silvas são todos nomes falsos. Os Silvas, se um dia se chateiam, o País pára, porque os Silvas são o País. Chamar "Ó Silva!" num autocarro articulado da Carris é um perigo: os 145 passageiros (48 sentados, 96 de pé e um numa cadeira de rodas) olham todos para trás e o motorista também. O Silva dos Plásticos, toda a gente sabe, era mais conhecido do que o Papa. Silva I seria, aliás, um bom nome para um Papa português, e há logo quem pense no poeta José Tolentino Mendonça.
Embora de nascença ninguém escolha ser Silva, nem ser nome nenhum, está visto que os Silvas só têm motivos de orgulho. E quem diz os Silvas, diz os Barbosas, os Ferreiras, os Fernandes, os Rodrigues, os Costas, os Oliveiras, os Martins, os Sousas, os Gonçalves, os Almeidas, os Carvalhos, os Farias, os Magalhães, os Alves, os Teixeiras, os Lopes, os Ribeiros e até os Brochados. Sim, porque não os Brochados? Há algum problema?

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Mundial dos Simpsons. Símbolo do Super-Homem retirado da Wikipédia.)

domingo, 15 de março de 2026

O consumidor

Foi toda a vida um consumidor. Desde que nasceu. Consumiu a mãe e consumiu o pai, consumiu os avós, maternos e paternos, consumiu os irmãos e as irmãs, os tios e as tias, os sobrinhos e as sobrinhas, os primos e as primas, consumiu os filhos, consumiu os netos e os bisnetos, consumiu as meninas do lar até morrer. Era realmente a consumição da família, um verdadeiro consumidor de almas. Quer-se dizer, há feitios assim.

P.S. Hoje é Dia Mundial dos Direitos do Consumidor.

sábado, 24 de janeiro de 2026

Os Antigos

O lugar da mulher
Lá vão ligeiros, marido e mulher conversando pela rua, ele à frente e ela um passo atrás, coisa de antigos. Têm uma filha. Casou. Lá vai ela jovem e ligeira conversando pela rua com o marido a estrear, ela atrás, o homem um passo adiante, porque o respeito é muito bonito.

Os Antigos sabiam tudo. No tempo dos Antigos é que era. Havia respeito, havia educação, bondade, sabedoria, paz, saúde, velhice e emprego para todos. Havia Portugal.
Os Antigos eram sábios. Sabiam de laranjas - de manhã ouro, à tarde prata e à noite mata. Sabiam do tempo - em Abril, águas mil. Sabiam de horas e alturas - deitar cedo e cedo erguer dá saúde e faz crescer. Sabiam de curas e maleitas - o vinagre e o limão meio cirurgião são. Sabiam de tubérculos e famulagem - não comas caldo de nabos nem o dês aos teus criados. Sabiam de presigos e segurança pública - sardinha sem pão é comer de ladrão. Sabiam de magustos e viagras - a castanha excita o coito e alimenta muito. Sabiam de proporções - bom comer: três vezes beber. Sabiam de criação e divindades - ao menino e ao borracho põe Deus a mão por baixo. Sabiam de prestidigitação e utopias - mais vale um pássaro na mão do que dois a voar. Sabiam saltar a cerca - a galinha da vizinha é sempre melhor que a minha. E sabiam guardar um segredo - o corno é o último a saber.
Com tanta sabedoria, os Antigos morriam muito, mas morriam muito velhinhos, isto é, por volta dos cinquenta, sessenta anos.
Os Antigos não andavam por aí aos tiros. Andavam às pauladas, às facadas, às sacholadas - e aos tiros.
Os Antigos não matavam por dá cá aquele palha. Matavam por causa da água - e geralmente por causa do vinho.
Os Antigos não emprenhavam raparigas solteiras a torto e a direito. Os filhos de pai incógnito eram realmente mais que as mães, mas eram milagres.
Os Antigos não toleravam e até perseguiam os maricas, isto é, os paneleiros, porém consideravam razoável que o senhor padre fosse ao pito às moças da paróquia e brincasse com as pilinhas dos meninos da catequese.
Os Antigos achavam que melhor que um Salazar só dois Salazares. Melhor ainda, um Salazar em cada esquina. Três Salazares em casa esquina. Entre Salazar e Fátima, é que os Antigos não sabiam bem...
Os Antigos sabiam como fazer homens. Pegavam nos rapazes e mandavam-nos para a tropa, se possível para a guerra. E o futebol não era para meninas.
Os Antigos eram puros. Não gostavam de pretos. Nem de monhés. Nem de ciganos. Nem de imigrantes. Nem dos outros em geral. E iam muito à missa e à sagrada comunhão.
Os Antigos faziam muitos filhos. E batiam-lhes. E também batiam nas mulheres, mas por amor. Os Antigos gostavam muito de bater. Batiam porque tinham razão, batiam para ter razão. Batiam por vontade de Deus. Os Antigos davam pão e também educação. A educação dos Antigos.
Os Antigos sabiam o lugar da mulher. Em casa. Na cozinha. A fazer croché. E se saíam juntos à rua, era marido à frente e mulher um passo atrás, como Nosso Senhor ensinou e está na Bíblia.
Os Antigos respeitavam muito as esposas. Por isso iam às putas.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Internacional da Educação.)

quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

O caldo de couves puxa ao sentimento

Entre o equívoco e o paradoxo
O Natal é um paradoxo, alegra e deprime, e é também um equívoco: marcado para o dia 25, toda a gente sabe que é na noite de 24. 

O Natal comove-me. Ou por outra, comove-me, mas não é geral. As árvores com luzinhas bêbadas, indecisas, as músicas tão tlim-tlim-tlam, tão jingle bellso almoço ou jantar com os velhos amigos de uma vez por ano, o generoso pacote de meio quilo de esparguete no saco do Banco Alimentar à porta do supermercado, os sorrisos de orelha a orelha, as camisolas patetas, as bandoletes com hastes de renas, os votos de "boa continuação", os programas de televisão marca Uaitecristmas, o frio aconchegante, a serra da Estrela finalmente com neve mas fechada, o circo, tanta palhaçada, a mensagem de Sua Excelência o Senhor Presidente da República, as cerimónias religiosas, tão ricas, quase sempre tão hipócritas, a comida, a comida, a comida, tanta comida, tudo ajuda à missa da minha sazonal e imensa comoção. E o vinho também.
Vou-vos contar. No Natal de há meia dúzia de anos, mas é como se tivesse sido ontem, lembro-me de que até já estava a ficar agoniado de tanto me comover. Resolvi, para desenfastiar, fazer um caldo de couves. Isso, um caldo de couves à moda antiga, isto é, à nossa moda. Foi na noite de 25 exactamente. Uns olhinhos de couve-galega, feijão vermelho, batata mal desfeita com o garfo, uma tirinha de toucinho salgado, um cibo de vaca, azeite com fartura natalícia. A panela foi à mesa de gala, fumegante como a velha locomotiva que arrastava o comboio até Fafe nos tempos em que eu não me comovia por tudo e por nada e em que a minha memória ainda tinha futuro.
Foi o nosso jantar. O caldo estava iglantónico, poderoso, de repetir e lamber os beiços. Repeti e lambi. O calor, o sabor, o odor, o estupor, quero dizer, o estupor do caldo caiu que nem ginjas, sossegando-me o estômago mais a alma. E, como flashback de filme foleiro, tornou-me à casinha do Santo Velho, à roda da mesa com os meus irmãos, a minha mãe, talvez a Mila também, o meu pai e o Menino Jesus que ainda não tinha nascido. Tornou-me à Bomba e ao Lombo, na sacramental visita pós-jantar, para o petisco e a pinguinha da ordem. Tornou-me à minha avó de Basto, na cozinha de chão de terra da Casa do Carreiro que cheirava sempre ao meu caldo. Quem me dera lá, sem a sonsice da idade, sem o tempo a cair-me das mãos, quem me dera lá! Quem mos dera cá. E de repente topei-me de olhos humedecidos, turvos, uma vagarosa lágrima descompondo-me escandalosamente a cara. De cabeça enfiada na malga, desculpei-me da boca para fora que era do vapor, e pensei: caralho, estás a chorar por causa de um caldo de couves, não tens vergonha? Ainda por cima, este tem carne...
No ano seguinte fiz canja e não chorei. É curioso: a canja não puxa ao sentimento.

(Publicada no meu blogue Mistérios de Fafe)