O fim do mundo
Como diziam os antigos, e os antigos é que sabem: "Aos dois mil chegarás, dos dois mil não passarás". E que se segue? Há 26 anos que o mundo acabou, e eu, francamente, não me parece que isto tenha melhorado...
domingo, 13 de setembro de 2026
Os fujões
sexta-feira, 11 de setembro de 2026
O pior que se podia fazer a um filho
O Dia do Filho do Meio existe e celebra-se a 12 de Agosto. Quer-se dizer. É um Dia De tão aceitável e tão palerma como a maioria do Dias De. Parece-me, em todo o caso, um Dia De algo injusto e até um desperdício para as famílias com número par de filhos.
Belos tempos. Em Fafe ninguém se divorciava. O divórcio pura e simplesmente não existia na nossa terra, embora 1910 já tivesse sido há um ror de anos. Já agora: o divórcio foi legalizado em Portugal no dia 3 de Novembro de 1910, logo após a implantação da República. Continuando. Apesar de legal, a palavra divórcio era como o palavra cancro - não fazia parte do léxico fafense, graças a Deus, éramos bastante monárquicos a esse respeito. Curiosamente, não me lembro que, entre nós, a palavra amor tivesse também grande uso por aquela altura. Divórcio não se dizia nem se pensava, era pecado. E, definitivamente, não se praticava. Quem ousasse, ficava marcado, nunca mais seria pessoa de bem, aceite pela sociedade local, mais valia pegar nos tarecos e ir para o mais longe possível, para o fim do mundo, lá para o Porto, onde havia noite e a moral já não era precisa. A mulher fugia de casa, desaparecia, o homem deixava a mulher, atravessava a rua, ia morar com outra, isso acontecia regularmente em Fafe, era aceitável, mas divórcio não, que parecia mal. Estava-se fora da mulher, estava-se fora do homem, como dizia o povo, tudo dentro dos conformes, mas sem papel. Marido e esposa encornavam-se entusiasticamente, odiavam-se com todo o zelo, mas não se divorciavam, porque, os antigos sabiam-no bem, o casamento é sagrado. Ele enchia-a de porrada todos os dias, quer-se dizer, todas as noites, quando se viam, e ela às vezes enchia-o de porrada a ele, mas que lindo que era festejar as bodas de prata e as bodas de ouro pelo menos, sempre na igreja, com a bênção e muitos elogios e conselhos do senhor padre, que não percebia nada de casamento e conjugalidade, por falta de comparência, mas achava que sim. Divórcio nunca, meu Deus! Isso não se fazia. Por causa das crianças, dos filhinhos, coitadinhos, marmanjos e marmanjas com quase 50 anos, casados, mal casados, divorciados e ajuntados, já com os seus próprios filhos, das mais diversas proveniências, mas que também gostavam muito de ver os velhotes juntinhos. E viviam no Porto.
sexta-feira, 4 de setembro de 2026
Os pontos nos ee
quarta-feira, 12 de agosto de 2026
O filho do meio
Hoje é Dia do Filho do Meio. E está bem. É um Dia De tão aceitável e tão palerma como a maioria do Dias De. Parece-me, em todo o caso, um Dia De algo injusto e até um desperdício para as famílias com número par de filhos.
(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia do Filho do Meio.)
sexta-feira, 24 de julho de 2026
Por encabação
Matematicamente
Eram números primos. Direitos. Por parte das mães.
Ó prima, ó rica prima!
Consanguinidade
Os números primos, há que admiti-lo, podem ser um bocado tolos.
Eu tenho uma prima de que não sabia. Desconheci-a durante quase toda a minha vida, foi-me apresentada talvez há quinze anos por um amigo comum, e passámos a conviver regularmente, nos últimos tempos cada vez menos. Às vezes dão-me saudades, digo que preciso de ir à prima, há logo quem leve a coisa para a malandrice, mas nada disso. A prima é a Erdinger, a excelentíssima cerveja alemã, que, como o próprio nome indica, só pode ser da família. E eu estou farto de dizer à minha mulher: a família devia dar-se mais.
quarta-feira, 22 de julho de 2026
Quem sai aos seus
terça-feira, 7 de julho de 2026
Papando uns e outros
Fruta da época
Perguntaram-lhe sobre frutas da época, e ela respondeu ferrero rocher e mon chéri.
Chegava o Natal e ele, entre bombons e bumbuns, levava tudo a eito e sem destrinça. Padecia de uma espécie muito avançada de paronímia, segundo atestado médico, e a mulher, que era das antigas, desculpava-o, coitadinha...
terça-feira, 23 de junho de 2026
Olha a triste viuvinha
Sem desculpa
Errar é próprio do homem. A mulher não tem desculpa!
(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Internacional das Viúvas, lamento informar.)
quinta-feira, 18 de junho de 2026
Pela família, tudo!
terça-feira, 16 de junho de 2026
Pela medida grande
A ciência
Está cientificamente provado: o álcool afecta de forma diferente o homem e a mulher. O mercurocromo não.
segunda-feira, 1 de junho de 2026
Hoje é para as crianças, mas só hoje!
Pai que é pai
terça-feira, 19 de maio de 2026
Quem sai aos seus
(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Mundial do Médico de Família.)
sexta-feira, 15 de maio de 2026
O mundo é pequeno (e um bocado parvo)
- Um pressentimento. É que eu também sou...
- O caro senhor também é um pressentimento?
- Não, não, caro senhor: também sou um bocado parvo.
- Como o mundo é pequeno! Somos então praticamente família...
- Parentes, pelo menos...
- E, mal que lhe pergunte, o caro amigo é um bocado parvo por parte da senhora sua mãe ou por parte do senhor seu pai?
- Por parte do senhor meu pai.
- Mas isso é extraordinário, caro amigo, porque eu também sou...
- O caro amigo também é um bocado parvo por parte do senhor meu pai?
- Não, não, caro amigo: sou um bocado parvo mas por parte do senhor meu pai.
- Oh, que pena! De repente, quase que éramos irmãos, não é?...
terça-feira, 28 de abril de 2026
Flores ao solheiro
A invenção da sogra
Consta que os muçulmanos introduziram a nora em Portugal. Gostaria de saber: e quem terão sido os espertinhos que nos introduziram a sogra?
domingo, 19 de abril de 2026
A honra dos Silvas
O Oliveira
O Oliveira foi chamado de urgência à gerência. Ordens: mudança de secção e de funções. Isto é: mobilidade, sinergias. Deram-lhe portanto um martelo. - Um martelo!? - protestou -, mas toda a gente sabe que eu sou o Oliveira da serra...
Quando assim falo, que é sempre, os meus parentes caem-me em cima, protestam a sua mais entranhada vaidade onomástica e ameaçam banir-me do clã, e eu contra isso nada. Ouço-os, isto é, faço de conta que os ouço, mas penso noutra coisa. Penso nos Silvas. Penso como seria bonito ver alguém sair a terreiro em defesa da honra dos Silvas. Exactamente: alguém de velha têmpera e honra antiga que, armado em Von Doellinger de corrida, ousasse chegar-se à frente para gritar alto e bom som, de estandarte em punho e peito inflado de altivez, vestindo talvez uma camisola com o "S" do super-homem estampado à frente:
- Eu tenho muito orgulho em ser um Silva, há algum problema?!...
Os Silvas, é preciso que se note, não são uma merda qualquer, e não estou sequer a falar do ilustre casal de ex-inquilinos do Palácio de Belém, que faz aqui tanta falta como o queijo gruyère numa caldeirada de enguias. A primeira linhagem de Silvas é de príncipes e anterior à fundação da nacionalidade portuguesa. Os Silvas de pé-rapado conquistaram Portugal e os Brasis, é só ir ver as listas telefónicas. Os Silvas são uns grandes pinantes, é só ir ver os registos dos motéis de norte a sul, mas neste departamento os Silvas são todos nomes falsos. Os Silvas, se um dia se chateiam, o País pára, porque os Silvas são o País. Chamar "Ó Silva!" num autocarro articulado da Carris é um perigo: os 145 passageiros (48 sentados, 96 de pé e um numa cadeira de rodas) olham todos para trás e o motorista também. O Silva dos Plásticos, toda a gente sabe, era mais conhecido do que o Papa. Silva I seria, aliás, um bom nome para um Papa português, e há logo quem pense no poeta José Tolentino Mendonça.
Embora de nascença ninguém escolha ser Silva, nem ser nome nenhum, está visto que os Silvas só têm motivos de orgulho. E quem diz os Silvas, diz os Barbosas, os Ferreiras, os Fernandes, os Rodrigues, os Costas, os Oliveiras, os Martins, os Sousas, os Gonçalves, os Almeidas, os Carvalhos, os Farias, os Magalhães, os Alves, os Teixeiras, os Lopes, os Ribeiros e até os Brochados. Sim, porque não os Brochados? Há algum problema?
domingo, 15 de março de 2026
O consumidor
Foi toda a vida um consumidor. Desde que nasceu. Consumiu a mãe e consumiu o pai, consumiu os avós, maternos e paternos, consumiu os irmãos e as irmãs, os tios e as tias, os sobrinhos e as sobrinhas, os primos e as primas, consumiu os filhos, consumiu os netos e os bisnetos, consumiu as meninas do lar até morrer. Era realmente a consumição da família, um verdadeiro consumidor de almas. Quer-se dizer, há feitios assim.
P.S. Hoje é Dia Mundial dos Direitos do Consumidor.sábado, 24 de janeiro de 2026
Os Antigos
O lugar da mulher
Lá vão ligeiros, marido e mulher conversando pela rua, ele à frente e ela um passo atrás, coisa de antigos. Têm uma filha. Casou. Lá vai ela jovem e ligeira conversando pela rua com o marido a estrear, ela atrás, o homem um passo adiante, porque o respeito é muito bonito.
Os Antigos sabiam tudo. No tempo dos Antigos é que era. Havia respeito, havia educação, bondade, sabedoria, paz, saúde, velhice e emprego para todos. Havia Portugal.
Os Antigos eram sábios. Sabiam de laranjas - de manhã ouro, à tarde prata e à noite mata. Sabiam do tempo - em Abril, águas mil. Sabiam de horas e alturas - deitar cedo e cedo erguer dá saúde e faz crescer. Sabiam de curas e maleitas - o vinagre e o limão meio cirurgião são. Sabiam de tubérculos e famulagem - não comas caldo de nabos nem o dês aos teus criados. Sabiam de presigos e segurança pública - sardinha sem pão é comer de ladrão. Sabiam de magustos e viagras - a castanha excita o coito e alimenta muito. Sabiam de proporções - bom comer: três vezes beber. Sabiam de criação e divindades - ao menino e ao borracho põe Deus a mão por baixo. Sabiam de prestidigitação e utopias - mais vale um pássaro na mão do que dois a voar. Sabiam saltar a cerca - a galinha da vizinha é sempre melhor que a minha. E sabiam guardar um segredo - o corno é o último a saber.
Com tanta sabedoria, os Antigos morriam muito, mas morriam muito velhinhos, isto é, por volta dos cinquenta, sessenta anos.
Os Antigos não andavam por aí aos tiros. Andavam às pauladas, às facadas, às sacholadas - e aos tiros.
Os Antigos não matavam por dá cá aquele palha. Matavam por causa da água - e geralmente por causa do vinho.
Os Antigos não emprenhavam raparigas solteiras a torto e a direito. Os filhos de pai incógnito eram realmente mais que as mães, mas eram milagres.
Os Antigos não toleravam e até perseguiam os maricas, isto é, os paneleiros, porém consideravam razoável que o senhor padre fosse ao pito às moças da paróquia e brincasse com as pilinhas dos meninos da catequese.
Os Antigos achavam que melhor que um Salazar só dois Salazares. Melhor ainda, um Salazar em cada esquina. Três Salazares em casa esquina. Entre Salazar e Fátima, é que os Antigos não sabiam bem...
Os Antigos sabiam como fazer homens. Pegavam nos rapazes e mandavam-nos para a tropa, se possível para a guerra. E o futebol não era para meninas.
Os Antigos eram puros. Não gostavam de pretos. Nem de monhés. Nem de ciganos. Nem de imigrantes. Nem dos outros em geral. E iam muito à missa e à sagrada comunhão.
Os Antigos faziam muitos filhos. E batiam-lhes. E também batiam nas mulheres, mas por amor. Os Antigos gostavam muito de bater. Batiam porque tinham razão, batiam para ter razão. Batiam por vontade de Deus. Os Antigos davam pão e também educação. A educação dos Antigos.
Os Antigos sabiam o lugar da mulher. Em casa. Na cozinha. A fazer croché. E se saíam juntos à rua, era marido à frente e mulher um passo atrás, como Nosso Senhor ensinou e está na Bíblia.
Os Antigos respeitavam muito as esposas. Por isso iam às putas.
quinta-feira, 18 de dezembro de 2025
O caldo de couves puxa ao sentimento
Entre o equívoco e o paradoxoO Natal é um paradoxo, alegra e deprime, e é também um equívoco: marcado para o dia 25, toda a gente sabe que é na noite de 24.
No ano seguinte fiz canja e não chorei. É curioso: a canja não puxa ao sentimento.
