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sábado, 24 de janeiro de 2026

Os Antigos

O lugar da mulher
Lá vão ligeiros, marido e mulher conversando pela rua, ele à frente e ela um passo atrás, coisa de antigos. Têm uma filha. Casou. Lá vai ela jovem e ligeira conversando pela rua com o marido a estrear, ela atrás, o homem um passo adiante, porque o respeito é muito bonito.

Os Antigos sabiam tudo. No tempo dos Antigos é que era. Havia respeito, havia educação, bondade, sabedoria, paz, saúde, velhice e emprego para todos. Havia Portugal.
Os Antigos eram sábios. Sabiam de laranjas - de manhã ouro, à tarde prata e à noite mata. Sabiam do tempo - em Abril, águas mil. Sabiam de horas e alturas - deitar cedo e cedo erguer dá saúde e faz crescer. Sabiam de curas e maleitas - o vinagre e o limão meio cirurgião são. Sabiam de tubérculos e famulagem - não comas caldo de nabos nem o dês aos teus criados. Sabiam de presigos e segurança pública - sardinha sem pão é comer de ladrão. Sabiam de magustos e viagras - a castanha excita o coito e alimenta muito. Sabiam de proporções - bom comer: três vezes beber. Sabiam de criação e divindades - ao menino e ao borracho põe Deus a mão por baixo. Sabiam de prestidigitação e utopias - mais vale um pássaro na mão do que dois a voar. Sabiam saltar a cerca - a galinha da vizinha é sempre melhor que a minha. E sabiam guardar um segredo - o corno é o último a saber.
Com tanta sabedoria, os Antigos morriam muito, mas morriam muito velhinhos, isto é, por volta dos cinquenta, sessenta anos.
Os Antigos não andavam por aí aos tiros. Andavam às pauladas, às facadas, às sacholadas - e aos tiros.
Os Antigos não matavam por dá cá aquele palha. Matavam por causa da água - e geralmente por causa do vinho.
Os Antigos não emprenhavam raparigas solteiras a torto e a direito. Os filhos de pai incógnito eram realmente mais que as mães, mas eram milagres.
Os Antigos não toleravam e até perseguiam os maricas, isto é, os paneleiros, porém consideravam razoável que o senhor padre fosse ao pito às moças da paróquia e brincasse com as pilinhas dos meninos da catequese.
Os Antigos achavam que melhor que um Salazar só dois Salazares. Melhor ainda, um Salazar em cada esquina. Três Salazares em casa esquina. Entre Salazar e Fátima, é que os Antigos não sabiam bem...
Os Antigos sabiam como fazer homens. Pegavam nos rapazes e mandavam-nos para a tropa, se possível para a guerra. E o futebol não era para meninas.
Os Antigos eram puros. Não gostavam de pretos. Nem de monhés. Nem de ciganos. Nem de imigrantes. Nem dos outros em geral. E iam muito à missa e à sagrada comunhão.
Os Antigos faziam muitos filhos. E batiam-lhes. E também batiam nas mulheres, mas por amor. Os Antigos gostavam muito de bater. Batiam porque tinham razão, batiam para ter razão. Batiam por vontade de Deus. Os Antigos davam pão e também educação. A educação dos Antigos.
Os Antigos sabiam o lugar da mulher. Em casa. Na cozinha. A fazer croché. E se saíam juntos à rua, era marido à frente e mulher um passo atrás, como Nosso Senhor ensinou e está na Bíblia.
Os Antigos respeitavam muito as esposas. Por isso iam às putas.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Internacional da Educação.)

sábado, 27 de setembro de 2025

Vós não sabendes nada!

Gaba-te cesta
Era um homem muito antigo. Falavam-lhe em gigas e ele imaginava cestas...

Uma rapariga da minha idade, isto é, uma "idosa", descendo a Arcada em direcção ao Mário da Louça se ainda houvesse, em passeio, de braço dado e discutindo alegremente com o neto, moço com ares de universitário repetente e bem disposto, os dois perdidos de riso. Quadro bonito. Flagrante exemplar da harmonia familiar e do eterno conflito de gerações, a sabedoria dos antigos contra a ignorância de hoje em dia. E diz ela, toda despachada e gramatical, aritmética, falando para o rapaz, sim, mas sobretudo para o redor, para quem a quisesse ou não ouvir, e suspeito que especialmente para mim, que lhe pareço de igualha e vou em sentido contrário, apontado à memória do Américo das Bicicletas: - O quê? Eu até sei as letras romanas, quanto mais! Vós agora é que não sabendes nada...
E realmente.

Agora, uma revelação. O Sr. Américo das Bicicletas, que eu conheci muito bem, era, se não me engano, padrinho do meu padrinho e tio Américo. O que quer dizer que o Sr. Américo das Bicicletas era praticamente meu padrinho-avô, e eu nunca tinha pensado nisso, o que é extraordinário. Pensei hoje, agora, sem mais nem menos, ou por causa dos números romanos, e fiquei muito feliz. Porque eu gostava muito da figura do Sr. Américo das Bicicletas.

(Versão revista e aumentada, publicada no meu blogue Mistérios de Fafe)

sábado, 3 de junho de 2023

No tempo dos Antigos

Os Antigos sabiam tudo. No tempo deles é que era. Havia respeito, havia educação, bondade, sabedoria, paz, saúde e sobretudo velhice. Os Antigos merecem a letra grande, Antigos, como se fossem uma civilização, porque deveras são.
Os Antigos sabiam de laranjas - de manhã ouro, à tarde prata e à noite mata. Sabiam do tempo - em Abril, águas mil. Sabiam de horas e alturas - deitar cedo e cedo erguer dá saúde e faz crescer. Sabiam de curas e maleitas - o vinagre e o limão meio cirurgião são. Sabiam de tubérculos e famulagem - não comas caldo de nabos nem o dês aos teus criados. Sabiam de presigos e segurança pública - sardinha sem pão é comer de ladrão. Sabiam de magustos e viagras - a castanha excita o coito e alimenta muito. Sabiam de proporções - bom comer: três vezes beber. Sabiam de criação e divindades - ao menino e ao borracho põe Deus a mão por baixo. Sabiam de prestidigitação e utopias - mais vale um pássaro na mão do que dois a voar. Sabiam saltar a cerca - a galinha da vizinha é sempre melhor que a minha. E sabiam guardar um segredo - o corno é o último a saber.
Os Antigos morriam muito, mas morriam muito velhinhos, isto é, por volta dos cinquenta, sessenta anos.
Os Antigos não andavam por aí aos tiros. Andavam às pauladas, às facadas, às sacholadas - e aos tiros.
Os Antigos não matavam por dá cá aquele palha. Matavam por causa da água - e geralmente por causa do vinho. E às vezes por dá cá aquela palha, só para não darem parte de fraco.
Os Antigos não emprenhavam raparigas solteiras a torto e a direito. Os filhos de pai incógnito eram realmente mais que as mães, mas eram milagres, isso está provado.
Os Antigos não toleravam e até perseguiam os maricas, isto é, os paneleiros, porém consideravam razoável que o senhor padre fosse ao pito às moças da paróquia e brincasse com as pilinhas dos meninos da catequese.
Os Antigos sabiam muito de política e achavam que melhor que um Salazar só dois Salazares. Melhor ainda, um Salazar em cada esquina e o país de bico calado. Entre Salazar e Fátima, era a única dúvida que tinham os Antigos, e por isso resolveram apegar-se aos dois.
Os Antigos sabiam como fazer homens. Pegavam nos rapazes e mandavam-nos para a tropa, se possível para a guerra. Bater nos filhos fazia parte, e nas mulheres também.
Os Antigos sabiam o lugar da mulher. Em casa. Na cozinha. A fazer croché. E se saíam à rua, era marido à frente e mulher um passo atrás, como Deus ensinou e está na Bíblia. Ser marido era um posto.
Os Antigos respeitavam muito as esposas. Por isso iam às putas.
Os Antigos andam por aí. E estamos no tempo deles.

P.S. - António de Oliveira Salazar foi nomeado pela primeira vez ministro das Finanças de Portugal no dia 3 de Junho de 1926.