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sábado, 27 de junho de 2020

Guimarães Rosa 9

Revolta

Todos foram saindo, de mansinho,
tão calados,
que eu nem sei
se fiquei mesmo só.

Não trouxe mensagem
e nem deram senha…

Disseram-se que não iria perder nada,
porque não há mais céu.
E agora, que tenho medo,
e estou cansado,
mandam-me embora…

Mas não quero ir para mais longe,
desterrado,
porque a minha pátria é a minha memória.
Não, não quero ser desterrado,
que a minha pátria é a memória…

"Magma", Guimarães Rosa

(Guimarães Rosa nasceu no dia 27 de Junho de 1908. Morreu em 1967.)

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Já começou 2

Os carteiros são cada vez mais vítimas de ameaças, injúrias e agressões físicas por parte dos clientes, revoltados com a demora na recepção dos vales das reformas, abonos de família e Rendimento Social de Inserção. A denúncia é feita pelos sindicatos do sector, que acusam os CTT de estarem a atrasar de propósito a entrega do correio.
De acordo com Vítor Narciso, presidente do Sindicato Nacional dos Trabalhadores dos Correios e Telecomunicações, "o correio está a ser deliberadamente atrasado porque houve decisão dos CTT de fazer uma distribuição segmentada". "A segmentação foi introduzida para diminuir o número de trabalhadores. Foi uma forma que a empresa arranjou de poupar dinheiro à custa dos trabalhadores e da população", acrescenta, por seu turno, Jorge Costa, dirigente da Comissão de Trabalhadores dos CTT, que acusa também a Administração dos Correios de querer eliminar cerca de 4.000 dos 11.500 postos de trabalho.
É mais lenha para a fogueira. E, nestes tempos de fome e revolta, "brincar" com os vales das reformas, dos abonos e do pessoal do rendimento mínimo é uma provocação quase suicidária. Isto vai acabar mal. E vai sobrar para os desgraçados dos carteiros, que não têm culpa nenhuma desta filhadaputice toda.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Já começou

Um grupo indeterminado de pessoas atacou ontem o balcão da Segurança Social na Loja do Cidadão da Torre das Antas, no Porto. Não foi um assalto. Eram utentes, estavam revoltados com o atendimento naquele serviço e destruíram a pontapé uma divisória em vidro. O Sindicato dos Trabalhadores em Funções Públicas e Sociais do Norte garante que este não é um caso isolado e está preocupado com a segurança dos funcionários daqueles serviços. Na verdade, as ameaças de agressões a trabalhadores com, por exemplo, canadianas e guarda-chuvas são já o pão nosso de cada dia, havendo mesmo situações em que os clientes tentaram saltar o balcão para ajustar contas com os funcionários.
Ontem também, mas em Queluz, uma dezena de pessoas, quase todas idosas, forçou a entrada no centro de saúde, levando o segurança à frente, em protesto contra a falta de médicos de família no concelho.
São os primeiros sinais do que se adivinhava. O povo não aguenta, vai rebentar. Foi previsto aqui, no Tarrenego!, e decerto as mentes dos mentecaptos que nos desgraçam a partir de Lisboa também já lá tinham chegado. Mas isto ainda não é nada. Apenas começou. Vai piorar e muito.
O desemprego, os cortes nos salários e nas reformas, a fome, a doença sem assistência, a falência, o despejo, o desprezo, a desesperança são sementes de ódio e insensatez que este Governo anda por aí a semear como se não fosse nada com ele. Diz apenas, o Governo mandado, que está a acabar um serviço que outros começaram.
Rico serviço. O serviço de nos tornar a todos pobres, para "salvar o País". País que, hoje em dia, quer dizer Eduardo Catroga, Celeste Cardona, Braga de Macedo ou Manuel Frexes, como antes queria dizer Armando Vara ou José Penedos.
O povo não pode mais e vai rebentar na rua, isso é certo. Conviria é que afinasse a pontaria. Porque ontem, no Porto e em Queluz, a ira popular errou no alvo. Porque os funcionários públicos (nas lojas do cidadão, nos centros de saúde, nos hospitais, nas câmaras ou nas juntas de freguesia) não fazem leis - cumprem-nas. Estamos todos no mesmo barco, que se afunda em alto mar. Que não seja um simples balcão a separar-nos. Os funcionários públicos também são vítimas das mesmas políticas paridas da barriga de aluguer que é o Governo Relvas-Passos-Portas e que nos desgraçam a vida. Pior: esta troika de trazer por casa, ao mesmo tempo que nos empobrece a todos, vai cinicamente retirando à Segurança Social os poucos meios de que ela ainda dispunha para nos acudir. É o serviço completo. É a completa filhadaputice.

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Denuncie aqui

Foto Hernâni Von Doellinger

São painéis publicitários devolutos e ladeiam a A28. Painéis grandes, espaçosos, cada um deles dava bem para albergar uma família de casal e três filhos se fosse proibido espirrar. Os painéis dizem, em letras garrafais, ANUNCIE AQUI. Mas eu leio sempre DENUNCIE AQUI.
É a mania que tenho de deixar ir a minha imaginação por onde lhe apetecer. Um interessante jogo a que me entrego sem perigos de maior, uma vez que o volante não está nas minhas mãos: não tenho carta, não sei conduzir, portanto não conduzo, mesmo sabendo que, para a maioria dos automobilistas, uma coisa não implica necessariamente a outra.
Mas onde é que eu ia? Ah!, nos painéis, os enormes painéis publicitários e vagos que eu imagino mandados colocar pelo Governo dando-nos a ordem expressa de que nos transformemos numa sociedade de delatores. DENUNCIE AQUI! E imagino o trânsito parado na A28, com quilómetros e quilómetros de filas de gente a guardar vez para chegar ao painel mais próximo e poder enfim oficializar a sua denúncia. A denúncia há muito trazida atravessada na garganta.
E imagino as denúncias e os denunciados. Imagino a denúncia escrita contra o vizinho de cima que arrasta móveis de noite, contra o preço de uma garrafa de vinho, contra o desgraçado que recebe subsídio de desemprego e ainda tem que fazer uns biscates para poder dar de comer aos filhos, contra o marido que bate na mulher, contra a mulher que bate no marido, contra o filho que bate no pai e na mãe que batem um no outro, contra o beijo do casal homossexual, contra os beijos, contra os que estão contra os beijos, contra os espanhóis que passam pelas portagens e não pagam, contra os governantes que fecham os olhos, contra os espanhóis que nos cobram portagens, contra a velhota sem reforma que roubou duas maçãs no supermercado, contra os pretos, contra os brancos, contra o trabalhador que já não aguentava a perseguição de que era vítima no emprego e meteu uma falsa baixa antes que endoudasse de vez, contra a Galp que só faz de conta que baixa o preço da gasolina, contra o árbitro do jogo do Sporting, contra os que estão contra o árbitro do jogo do Sporting, contra a merda do acordo ortográfico, contra a fome e a guerra no mundo (foi uma misse), contra o roubo no IVA da electricidade, contra o colega de trabalho que é do PS, contra o colega de trabalho que é do PSD, contra os partidos, contra os inteiros, contra os canhões...
Imagino que o que o Governo quer é pôr-se a salvo dos rancores, dos ódios, dos desencantos, da frustração, da inveja, da mesquinhez, da intolerância, da desesperança, da impaciência, da ira e da revolta dos portugueses, fornecendo papel e lápis e canalizando para o muro das lamentações da A28 este extremar dos sentimentos populares, inevitavelmente exacerbados em tempos de costas ao alto e bolsos vazios.
E imagino o Governo, pela calada da noite, a aparecer em biquinhos de pés por detrás dos painéis, a lançar a escada e a retirar, sem ler, a enorme folha completamente preenchida de denúncias, a rasgá-la em tirinhas, a queimá-la num instante e a colocar uma nova folha para o dia seguinte.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Os dias inúteis

Embirro solenemente com a terminologia manga-de-alpaca dos "dias úteis" e das "horas de expediente". A que propósito é que os nanocrânios da burocracia terreiro-paçal determinaram e mandaram publicar que os meus sábados, os meus domingos, os meus feriados e dias santos, as minhas férias, se as tivesse, ou as férias deles são dias, por assim dizer, imprestáveis para a Nação? Quem lhes deu semelhante poder?
Eu, que tenho a mania de ser antes pelo contrário, desobedeço-lhes com quanta força consigo e gozo como um perdido nos fins-de-semana e correlativos. São os meus dias mais úteis.
Depois, chateiam-me as "horas de expediente", expressão tão prestável ao duplo sentido e que sempre me deixou com a pulga atrás da orelha. A minha dúvida é apenas esta, segredada pela pulga: será que, das 9 às 17, nas Finanças, nas autarquias ou nos ministérios, o papel do funcionalismo passa por lançar mão de todos os truques e armadilhas possíveis e inimagináveis para nos infernizar a vida e sacar-nos tudo, até o cotão dos bolsos, a mando do Estado? Então mais vale ir lá bater à porta depois do fecho dos serviços. Pode ser que, sem a obrigação do expediente, sejamos enfim atendidos com honradez.
Acredito que não estou sozinho nesta minha embirração. E por isso hoje apelo a que todos me sigam na desobediência. Apelo à revolta. Não vamos sair à rua para partir montras e pilhar iPods ou atirar pedras às cabeças dos polícias, mas combinamos o seguinte: peguemos nestes três dias que temos pela frente a façamo-nos felizes como se o fim do mundo fosse terça-feira. Façamo-nos felizes, antes que a felicidade pague imposto.