O respeito
O respeito é muito bonito. Mas escusava de ser tão vaidoso.
Bonifácio Terrafunda era coveiro profissional há mais de quarenta anos. Funcionário exemplar, respeitado pela clientela, querido pai de famílias, duas. Um dia, para o que lhe havia de dar, resolveu dividir o campo-santo em dois talhões devidamente assinalados, um para "Fumadores" e outro para "Não fumadores", como nas viagens de avião antigamente. A coisa veio nos jornais, quer-se dizer, no Correio da Manhã, e deu durante uma semana na televisão, quer-se dizer, na CMTV. Anacleto Boavida, jovem presidente da junta, recandidato, passou-se dos carretos derivado às notícias, instaurou inquérito e competente processo disciplinar, meteu advogado e testemunhas, anexou imagens do YouTube, e o velho coveiro foi inapelavelmente remetido para o olho da rua, por indecente e má figura, isto é, despedido com justa causa, mesmo às portas da reforma. - Com os mortos não se brinca! - justificava o fulgurante autarca, alto e bom som, para quem o quisesse ouvir, que era o espelho da casa de banho. E rematava, em memória dos falecidos: - Se eles já lá estão, é porque deixaram de fumar, todos, não há cá separações, Deus os tenha...
(Do meu blogue Mistérios de Fafe)
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