sábado, 25 de março de 2017

Rui Cardoso Nunes

Revendo o pago

São Francisco de Paula, minha terra,
quantas gratas lembranças entropilhas
para mim, na campanha aqui da Serra,
entre as dobras do poncho das coxilhas.

Hoje, minha saudade te descerra
de entre as brumas do tempo, e tu rebrilhas
no meu passado que em teus campos erra,
qual índio-vago, por saudosas trilhas.

Lembro-me bem - eu era moço ainda -
desse tempo em que a vida me era linda,
era toda ilusões, somente enganos.

Quantos amores nessa rósea idade
Quanta esperança que virou saudade
nessa quadra dos meus dezoito anos?!

Quantas vezes, montando um pingo mouro,
eu cruzei, como um rei, esta avenida,
com aperos de prata, em tardes de ouro,
sob o olhar da serrana mais querida?!

Hoje, da prenda, que era meu tesouro,
só tenho uma lembrança indefinida,
e do flete só sei que deu o couro
na cancha empoeirada desta vida.

Mas hoje te revendo, terra minha,
eu compreendo que em ti vivendo tinha
o que nunca encontrei por outros trilhos.

E se pudesse ser qual fui um dia,
no mouro novamente eu entraria
pela avenida Júlio de Castilhos.


Rui Cardoso Nunes

(Rui Cardoso Nunes nasceu no dia 25 de Março de 1919. Morreu em 2009.)

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