terça-feira, 31 de março de 2015

Afonso Celso

Depois da formosa mulher do dentista americano, era, sem dúvida, o capitão canadense o mais interessante personagem de bordo.
Meses antes, ao que se dizia, naufragara entre as Bermudas o navio que ele comandava.
Perdera-se completamente a carga e sucumbira quase toda a tripulação.
Cabia a Captain Smart não pequena responsabilidade na catástrofe - afirmavam à meia voz passageiros bem informados. E o fitavam rancorosamente de esguelha, quando passava carrancudo e hirto, o eterno cachimbo plantado no matagal dos bigodes ruivos, que lhe interceptavam a boca e se emaranhavam na barba, derramada em catadupa sobre o peito.
O infeliz comandante regressava à pátria, despojado pelo mar dos haveres e da reputação.
Antipatizavam todos com ele no paquete em que viajávamos. Ninguém lhe dirigia a palavra. Chegavam a considerar de mau agouro a sua presença. Se algum acidente desagradável ocorresse durante a derrota, atribuí-lo-iam com certeza à sua nefasta influição.

"Notas e Ficções", Afonso Celso

(Afonso Celso nasceu no dia 31 de Março de 1860. Morreu em 1938.)

Lugares-comuns 211

Foto Hernâni Von Doellinger

segunda-feira, 30 de março de 2015

Generoso, mais rápido do que uma linha recta

A menor distância entre dois pontos é uma recta? Nem sempre. Às vezes a menor distância entre dois pontos pode ser uma curva. Aqui não se trata de ciência, é mero exercício de memória. Por exemplo: lembram-se do Generoso? Claro que não se lembram do Generoso. Mas eu explico: o Generoso era um extremo brasileiro que jogou no SC Braga bem no início da década de setenta do século passado, por alturas da segunda divisão, se não me engano. O Generoso (e decerto um nome assim nunca foi tão bem empregue), o Generoso, dizia eu, era tão rápido, corria tanto, que, quando atacava e levava um adversário à ilharga, despossuído de outros e melhores argumentos técnicos, chutava a bola para a frente, saía do relvado, contornava o defesa pela pista de cinza, e - espantem-se! - ainda chegava lá primeiro.
Para que nos entendamos, o relvado e a pista de cinza eram no Estádio 28 de Maio, em Braga. Sim, antes do 25 de Abril de 1974, o Estádio 1.º de Maio chamava-se Estádio 28 de Maio. O que só demonstra (raciocínio palerma e suinamente fascistóide) que a Outra Senhora levava 27 dias de avanço em relação a Esta Senhora e que as revoluções cometem-se para mudar os nomes das ruas, praças, pontes, estádios e outro imobiliário. Mas eu também vi o Generoso executar a sua supersónica façanha no então pelado do meu Fafe, onde o resvés com os pilares de cimento e com os tubos metálicos da vedação conferia um toque extra de emoção e perigo ao espectáculo. O Generoso, sempre na mecha e a passar calafriantes tanjas ao excelentíssimo público e ao desastre, trazia-me à cabeça o encantatório e fanhoso reclame altifalante do poço-da-morte, nos dias dos 16 de Maio e da Senhora de Antime: também ali havia "arrojo, coragem, audácia, cooommm-ple-to desprezo pela vida". E eu sempre achei que o Generoso devia jogar de capacete.

E um pires de tremoços, se faxavor

                                                   Foto Hernâni Von Doellinger

Adelino Fontoura

Celeste

É tão divina a angélica aparência 
e a graça que ilumina o rosto dela, 
que eu concebera o tipo de inocência 
nessa criança imaculada e bela. 

Peregrina do céu, pálida estrela, 
exilada na etérea transparência, 
sua origem não pode ser aquela 
da nossa triste e mísera existência. 

Tem a celeste e ingênua formosura 
e a luminosa auréola sacrossanta 
de uma visão do céu, cândida e pura. 

E quando os olhos para o céu levanta, 
inundados de mística doçura, 
nem parece mulher - parece santa.

(Adelino Fontoura nasceu no dia 30 de Março de 1859. Morreu em 1884.)

sábado, 28 de março de 2015

Alexandre Herculano 3

E não era lá nenhum grande homem: era um vulto de pouco mais de quatro pés de altura; feio como um judeu; barrigudo como um cónego de Toledo; imundo como a consciência do célebre arcebispo Gelmires, e insolente como um vilão de beetria. Chamava-se de seu nome Dom Bibas. Oblato do Mosteiro de D. Muma, quando chegou à idade que se diz da razão, por ser a das grandes loucuras, achou que não era feito para ele o remanso da vida monástica. Atirou às malvas o hábito a que desde o berço o tinham condenado: e, ao cruzar a porta do ascetério, escarrou ali em peso o latim com que os monges começavam a empeçonhentar-lhe o espírito. Depois, sacudindo o pó das suas sapatas, voltou-se para o mui reverendo porteiro, e, por um esforço sublime de abnegação, atirou-lhe à cara com toda a ciência hebraica que tinha alcançado naquela santa casa, gritando-lhe com uma visagem de escárnio: raca maranata, raca maranata - e desaparecendo após isso, como a zebra perseguida desaparecia naqueles tempos aos olhos dos monteiros nas florestas do Gerês.

"O Bobo", Alexandre Herculano

(Alexandre Herculano nasceu no dia 28 de Março de 1810. Morreu em 1877.)