Mostrar mensagens com a etiqueta Alexandre Herculano. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Alexandre Herculano. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 28 de março de 2018

Alexandre Herculano 6

A voz

É tão suave essa hora
Em que nos foge o dia,
E em que suscita a Lua
Das ondas a ardentia,


Se em alcantis marinhos,
Nas rochas assentado,
O trovador medita
Em sonhos enleado!


O mar azul se encrespa
Com a vespertina brisa,
E no casal da serra
A luz já se divisa.


E tudo em roda cala
Na praia sinuosa,
Salvo o som do remanso
Quebrando em furna algosa.


Ali folga o poeta
Nos desvarios seus,
E nessa paz que o cerca
Bendiz a mão de Deus.
[...]

"A Harpa do Crente", Alexandre Herculano 

(Alexandre Herculano nasceu no dia 28 de Março de 1810. Morreu em 1877.)

terça-feira, 28 de março de 2017

Alexandre Herculano 5

A graça

Que harmonia suave
É esta que na mente
Eu sinto murmurar,
Ora profunda e grave,
Ora meiga e cadente,
Ora que faz chorar?
Porque da morte a sombra,
Que para mim em tudo
Negra se reproduz,
Se aclara, e desassombra
Seu gesto carrancudo,
Banhada em branda luz?
Porque no coração
Não sinto pesar tanto
O férreo pé da dor,
E o hino da oração,
Em vez de irado canto,
Me pede íntimo ardor?

És tu, meu anjo, cuja voz divina
Vem consolar a solidão do enfermo,
E a contemplar com placidez o ensina
De curta vida o derradeiro termo?

Oh, sim!, és tu, que na infantil idade,
Da aurora à frouxa luz,
Me dizias: "Acorda, inocentinho,
Faz o sinal da Cruz."
És tu, que eu via em sonhos, nesses anos
De inda puro sonhar,
Em nuvem de ouro e púrpura descendo
Com as roupas a alvejar.
És tu, és tu!, que ao pôr do Sol, na veiga,
Junto ao bosque fremente,
Me contavas mistérios, harmonias
Dos Céus, do mar dormente.
És tu, és tu!, que, lá, nesta alma absorta
Modulavas o canto,
Que de noite, ao luar, sozinho erguia
Ao Deus três vezes santo.
És tu, que eu esqueci na idade ardente
Das paixões juvenis,
E que voltas a mim, sincero amigo,
Quando sou infeliz.
Sinta a tua voz de novo,
Que me revoca a Deus:
Inspira-me a esperança,
Que te seguiu dos Céus!...
 

"A Harpa do Crente", Alexandre Herculano 

(Alexandre Herculano nasceu no dia 28 de Março de 1810. Morreu em 1877.)

segunda-feira, 28 de março de 2016

Alexandre Herculano 4

Que somos nós hoje? Uma nação que tende a regenerar-se: diremos mais: que se regenera. Regenera-se, porque se repreende a si própria; porque se revolve no lodaçal onde dormia tranquila; porque se irrita da sua decadência, e já não sorri sem vergonha ao insultar de estranhos; porque principia, enfim, a reconhecer que o trabalho não desonra, e vai esquecendo as visagens senhoris de fidalga. Deixai passar essas paixões pequenas e más que combatem na arena política, deixai flutuar à luz do sol na superfície da sociedade esses corações cancerosos que aí vedes; deixai erguerem-se, tombar, despedaçarem-se essas vagas encontradas e confusas das opiniões! Tudo isto acontece quando se agita o oceano; e o mar do povo agita-se debaixo da sua superfície. O sargaço imundo, a escuma fétida e turva hão-de desparecer. Um dia o oceano popular será grandioso, puro e sereno como saiu das mãos de Deus. A tempestade é a precursora da bonança. O lago asfaltite, o Mar Morto, esse é que não tem procelas.
O nosso estrebuchar, muitas vezes colérico, muitas mais mentecapto e ridículo, prova que a Europa se enganava quando cria que esta nobre terra do último ocidente era o cemitério de uma nação cadáver. Vivemos: e ainda que semelhante viver seja o delírio febril de moribundo, esta situação violenta, aos olhos dos que sabem ver, é uma crise de salvação, posto que dolorosa, e lenta. Confiemos e esperemos: o nome português não foi riscado do livro dos eternos destinos.

"Duas Épocas e Dois Monumentos (Questões Públicas-1843)", Alexandre Herculano 

(Alexandre Herculano nasceu no dia 28 de Março de 1810. Morreu em 1877.)

sábado, 28 de março de 2015

Alexandre Herculano 3

E não era lá nenhum grande homem: era um vulto de pouco mais de quatro pés de altura; feio como um judeu; barrigudo como um cónego de Toledo; imundo como a consciência do célebre arcebispo Gelmires, e insolente como um vilão de beetria. Chamava-se de seu nome Dom Bibas. Oblato do Mosteiro de D. Muma, quando chegou à idade que se diz da razão, por ser a das grandes loucuras, achou que não era feito para ele o remanso da vida monástica. Atirou às malvas o hábito a que desde o berço o tinham condenado: e, ao cruzar a porta do ascetério, escarrou ali em peso o latim com que os monges começavam a empeçonhentar-lhe o espírito. Depois, sacudindo o pó das suas sapatas, voltou-se para o mui reverendo porteiro, e, por um esforço sublime de abnegação, atirou-lhe à cara com toda a ciência hebraica que tinha alcançado naquela santa casa, gritando-lhe com uma visagem de escárnio: raca maranata, raca maranata - e desaparecendo após isso, como a zebra perseguida desaparecia naqueles tempos aos olhos dos monteiros nas florestas do Gerês.

"O Bobo", Alexandre Herculano

(Alexandre Herculano nasceu no dia 28 de Março de 1810. Morreu em 1877.)

sexta-feira, 28 de março de 2014

Alexandre Herculano 2

Vós os que não credes em bruxas, nem em almas penadas, nem em tropelias de Satanás, assentai-vos aqui ao lar, bem juntos ao pé de mim, e contar-vos-ei a história de D. Diogo Lopes, senhor de Biscaia.
E não me digam no fim: - "não pode ser." - Pois eu sei cá inventar coisas destas? Se a conto, é porque a li num livro muito velho. E o autor do livro velho leu-a algures ou ouviu-a contar, que é o mesmo, a algum jogral em seus cantares.
É uma tradição veneranda; e quem descrê das tradições lá irá para onde o pague.
Juro-vos que, se me negais esta certíssima história, sois dez vezes mais descridos do que S. Tomé antes de ser grande santo. E não sei se eu estarei de ânimo de perdoar-vos como Cristo lhe perdoou.
Silêncio profundíssimo; porque vou principiar.

"A Dama Pé-de-Cabra" ("Lendas e Narrativas"), Alexandre Herculano

(Alexandre Herculano nasceu no dia 28 de Março de 1810. Morreu em 1877.) 

quinta-feira, 28 de março de 2013

Alexandre Herculano

O sentimento poético está mais vivo e puro nas almas habituadas às harmonias campestres do que em nós, os habitantes das grandes cidades: é por isso que os camponeses acendem no estio as fogueiras festivas, usança que, como todos sabem, ofende o nosso profundíssimo e estupidíssimo senso-comum. Eu, por mim, que graças a Deus não tenho a honra de pertencer à classe desses que lidam, contentes de si, por se bambolearem no vértice da animalidade pura e que se chamam homens da vida positiva, digo que, por mais ardente que vá o estio, amo uma fogueira no arraial em véspera de festa, e aquele estourar e chispar dos foguetes que roçam rápidos pelo manto escuro da noite. Sei também que o consumir-se pólvora em esbombardear cidades e em alastrar de cadáveres um campo de batalha é coisa muito mais filosófica e sisuda do que desbaratá-la nas festividades supersticiosas do povo. Mas nem todos podemos ser filósofos, e eu tenho queda particular para a superstição.
E que quereis? O catolicismo é jovial: o seu culto, como o vulgo o entende, é ruidoso e risonho e brilhante e atractivo e sociável, e por isso debalde trabalharíeis para arrancá-lo ao povo, que vive e morre no meio do trabalho, dos cuidados, das privações. O domingo, o dia santo, o orago da paróquia são os seus dias de contentamento e repouso. Abençoado quem inventou os oragos! Pois as invocações da Virgem, e a advocacia dos santos?! Mil vezes bendito quem os multiplicou!

"O Pároco da Aldeia" ("Lendas e Narrativas"), Alexandre Herculano

(Alexandre Herculano nasceu no dia 28 de Março de 1810. Morreu em 1877.)