Mostrar mensagens com a etiqueta Obra Poética. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Obra Poética. Mostrar todas as mensagens

sábado, 31 de julho de 2021

Poesia o que tem de ser é orgasmo

A senhora sentada à minha frente faz croché - que raro. Eu leio um livro. O resto do metro espreita o telemóvel, fala para o telemóvel, escreve no telemóvel, joga no telemóvel, tira selfies com o telemóvel, põe o telemóvel entre pernas, aconchegadíssimo às intimidades, em alarmante modo de vibração. O metro inteiro é um telemóvel amarelo de duas carruagens, dois refractários e razoáveis orgasmos. Como quem não quer a coisa, a senhora sentada ao lado da senhora sentada à minha frente que faz croché desvia um olho do telemóvel e procura-me a capa do livro. Chega lá. Abana a cabeça, sentenciosa, faz cara de caso, deita-me uns olhos, ambos, num misto de decepção e de censura. Percebo-a: não leio José Rodrigues dos Santos. Leio "Poesias Completas & Dispersos", de Alexandre O'Neill, calhamaço como os do outro, mas calhamaço sem culpa de autor, calhamaço que dá gosto. Folheio-o com o respeito e o cuidado de quem folheia uma bíblia. E é. Vou naquela parte em que O'Neill me diz "A estouvaca": deitada atravessada / na estrada / a malhada / vai ser atropelada / foi. Palavra do senhor.

P.S. - Publicado originalmente no dia 10 de Julho de 2018, então sob o título "Há palavras que nos beijam como se tivessem boca", segundo Alexandre O'Neill. Desta vez rapinei o título a Ary dos Santos, em "Poesia-orgasmo". O'Neill e Ary, curiosamente ambos publicitários e dois dos meus poetas mais preferidos. Mais preferidos, disse bem! Hoje, 31 de Julho, é Dia Mundial do Orgasmo. Tenham muitos!

sexta-feira, 31 de julho de 2020

A poesia o que tem de ser é orgasmo

A senhora sentada à minha frente faz croché - que raro. Eu leio um livro. O resto do metro espreita o telemóvel, fala para o telemóvel, escreve no telemóvel, joga no telemóvel, tira selfies com o telemóvel, põe o telemóvel entre pernas, aconchegadíssimo às intimidades, em alarmante modo de vibração. O metro inteiro é um telemóvel amarelo de duas carruagens, dois refractários e razoáveis orgasmos. Como quem não quer a coisa, a senhora sentada ao lado da senhora sentada à minha frente que faz croché desvia um olho do telemóvel e procura-me a capa do livro. Chega lá. Abana a cabeça, sentenciosa, faz cara de caso, deita-me uns olhos, ambos, num misto de decepção e de censura. Percebo-a: não leio José Rodrigues dos Santos. Leio "Poesias Completas & Dispersos", de Alexandre O'Neill, calhamaço como os do outro, mas calhamaço sem culpa de autor, calhamaço que dá gosto. Folheio-o com o respeito e o cuidado de quem folheia uma bíblia. E é. Vou naquela parte em que O'Neill me diz "A estouvaca": deitada atravessada / na estrada / a malhada / vai ser atropelada / foi. Palavra do senhor.

P.S. - Publicado originalmente no dia 10 de Julho de 2018, então sob o título "Há palavras que nos beijam como se tivessem boca", segundo Alexandre O'Neill. Desta vez rapinei o título a Ary dos Santos, em "Poesia-orgasmo". O'Neill e Ary, curiosamente ambos publicitários e dois nos meus poetas mais preferidos. Mais preferidos, disse bem! Hoje, 31 de Julho, é Dia Mundial do Orgasmo. Tenham muitos!

quarta-feira, 1 de janeiro de 2020

Luís Pignatelli 4

Sonetilho para uma adolescente
 
Que vento norte
Na manhã do mar
Sopra teus seios
De flores de morte

Que nuvem arde
Sobre o teu corpo
Teu corpo aberto
À tempestade

Que vaga lua
Virá de noite
Doce tanagra

Pôr-te mais nua
Que a nua praia
Doce e amarga

"Obra Poética", Luís Pignatelli

(Luís Pignatelli nasceu no dia 1 de Janeiro de 1935. Morreu em 1993.)

terça-feira, 1 de janeiro de 2019

Luís Pignatelli 3

Não é fácil o amor

Não é fácil o amor, melhor seria
Arrancar um braço, fazê-lo voar...
Dar a volta ao mundo, abraçar
Todo o mundo, fazer da alegria


O pão nosso de cada dia, não copiar
Os males do amor, matar a melancolia
Que há no amor, querer a vontade fria

Ser cego, surdo, mudo, não sujeitar

O amor ao destino de cada um, não ter
Destino nenhum, ser a própria imagem
Do amor: pôr o coração ao largo, não sofrer


Os males do amor, não vacilar, ter a coragem
De enfrentar a razão de ser da própria dor
Porque o amor é triste, não é fácil o amor...


"Obra Poética", Luís Pignatelli

(Luís Pignatelli nasceu no dia 1 de Janeiro de 1935. Morreu em 1993.)

quinta-feira, 19 de julho de 2018

Paulo Corrêa Lopes 2

Salomé

Só, na cisterna, João Batista em prece
sonha. Estente-se a noite silenciosa,
e, na nudez da solidão piedosa,
o desespero que o tortura esquece.


Dorme o palácio. Salomé ansiosa,
como pantera atroz que se enraivece,
em contorções se agita, e se estremece,
debruçada num tálamo de rosa…


Quase nua se ergue, e altivamente,
nos estos da volúpia que a devora,
desprende as tranças sobre a espádua ardente.


Treme-lhe o lábio aparecendo um beijo,
clama pelo Profeta, e anseia, e chora,
nas algemas da carne e do desejo!


"Obra Poética", Paulo Corrêa Lopes

(Paulo Corrêa Lopes nasceu no dia 19 de Julho de 1898. Morreu em 1957.)

segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

Luís Pignatelli 2

Elegia do teu corpo na praia

De costas para o mar.
as tuas pernas como dois lírios brancos.
duas conchas cavadas no lado de trás dos joelhos,
pequenas gotas de água evaporando-se dentro delas.
o sol começa a dar-te uma cor de ébano novo.
a luz é intensa.
estendo-me junto de ti.
pouso a cabeça nos teus quadris,
essa doce e quente enseada.
como uma sucessão de ondas
as tuas ancas estremecem,
rolam na minha boca.
tenho a minha boca colocada nas tuas ancas.
as minhas mãos nas tuas omoplatas.
respiro contidamente como se fosse uma morte.
beijo-te o pescoço em silêncio.
a luz na praia agora é mais crua.
levantas-te. desapareces na água. respiro ainda em silêncio.
quando regressas o sol é uma rosácea faiscante.
volto a colocar a minha cabeça sobre o teu corpo.
o cheiro intenso do sal abre-me as narinas.
digo muito baixo: é afrodite que vem do mar.
e fico silencioso como um barco ancorado.
da baía do teu corpo começam a levantar voo
as gaivotas das minhas mãos.

"Obra Poética", Luís Pignatelli

(Luís Pignatelli nasceu no dia 1 de Janeiro de 1935. Morreu em 1993.)

domingo, 3 de dezembro de 2017

Cruzeiro Seixas

No silêncio das tapeçarias

No silêncio das tapeçarias
há a memória
das terríveis batalhas
do imaginário.
Mas são ternas
as cartas que trocam entre si
os seus heróis.
É certo que as árvores cantam por toda a parte
a sua música
e que há enfim leões e elefantes
no centro de Londres
de Paris ou de New York.
Agora a tua face está cravejada de ponteiros
e a manhã que acaba de nascer
regressa ao ventre materno.
Lisboa cobre-se de gaivotas.
Um gravíssimo excesso de grandeza
anuncia o Nada.

"Obra Poética, vol. I", Cruzeiro Seixas

(Cruzeiro Seixas nasceu no dia 3 de Dezembro de 1920)

sábado, 11 de novembro de 2017

Sosígenes Costa 2

O pavão vermelho
 
Ora, a alegria, este pavão vermelho,
está morando em meu quintal agora.
Vem pousar como um sol em meu joelho
quando é estridente em meu quintal a aurora.


Clarim de lacre, este pavão vermelho
sobrepuja os pavões que estão lá fora.
É uma festa de púrpura. E o assemelho
a uma chama do lábaro da aurora.


É o próprio doge a se mirar no espelho.
E a cor vermelha chega a ser sonora
neste pavão pomposo e de chavelho.


Pavões lilases possuí outrora.
Depois que amei este pavão vermelho,
os meus outros pavões foram-se embora.

"Obra Poética", Sosígenes Costa

(Sosígenes Costa nasceu no dia 11 de Novembro de 1901. Morreu em 1968.)

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

João Verde 4

Ingénuo amor

Depois da missa, às vezes, quando a gente
Desaparece ao fundo do caminho,
Ela demora-se a rezar baixinho,
Pregado o olhar no Cristo docemente.

E ninguém sabe deste amor ardente
Que nos sagramos doidos entre o linho,
Por uma tarde em que bebemos vinho
na romaria todos, francamente.

Uns dizem que ela está mudada, e tanto
Que tem no olhar doentio um tal quebranto
Bem diferente do dos olhos seus.

Outros - a gente boa do lugar:
"Está como as rosas brancas dum altar!"
A minha amante, tão temente a Deus!

"Obra Poética", João Verde

(João Verde nasceu no dia 2 de Novembro de 1866. Morreu em 1934.)

quarta-feira, 19 de julho de 2017

Paulo Corrêa Lopes

Cem mil portas

Há cem mil portas batendo, desesperadas, na treva.
Ventos! Levai nas vossas asas todo o mal do mundo,
todo o horror do mundo!


Amanhã, quando o anjo do Senhor descer sobre a terra,
que será das almas que enganaram, que mataram?
Amanhã, quando as cem mil portas se fecharem,
que será das almas que não sabem rezar?
Há cem mil portas batendo, desesperadas, na treva…

"Obra Poética", Paulo Corrêa Lopes

(Paulo Corrêa Lopes nasceu no dia 19 de Julho de 1898. Morreu em 1957.)

domingo, 1 de janeiro de 2017

Luís Pignatelli

No ventre de sua mãe

No ventre de sua mãe
(ai corpo da bem-amada)
o meu filho está crescendo;
lá pra dezembro que vem
outrossim estou dizendo:
ei-lo que nasce, o meu filho
ei-lo que nasce, nascendo
do ventre de sua mãe
como nasce o girassol
que no vento vai gerando
as sementinhas que tem
   
Ai corpo da bem-amada,
ai corpo que me quer bem.

"Obra Poética", Luís Pignatelli

(Luís Oliveira de Andrade, que usava o pseudónimo de Luís Pignatelli, nasceu no dia 1 de Janeiro de 1935. Morreu em 1993.)

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Sosígenes Costa

Chuva de ouro 

As begônias estão chovendo ouro,
suspendidas dos galhos da oiticica.
O chão, de pólen, vai ficando louro
e o bosque inteiro redourado fica.


Dir-se-á que se dilui todo um tesouro.
Nunca a floresta amanheceu tão rica.
As begônias estão chovendo ouro,
penduradas nos galhos da oiticica.


Bando de abelhas através do pólen
zinindo num brilhante fervedouro,
as curvas asas transparentes bolem.


E, enquanto giram num bailado belo,
as begônias estão chovendo ouro.
Formosa apoteose do amarelo!


"Obra Poética", Sosígenes Costa

(Sosígenes Costa nasceu no dia 11 de Novembro de 1901. Morreu em 1968.)

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

João Verde 3

A tua boca

Falas tu, julgo escutar,
como num sonho bendito,
as vibrações do infinito
no coreto do luar.

Falas tu e oiço ais,
guitarras e bandolins,
como por entre jardins
os trovadores medievais.

Falas tu, penso nas loucas
mariposas do desejo
que no conúbio dum beijo
unissem as nossas bocas.

Falas tu e creio bem,
meu pequenino bijou,
que se ando alegre também
é só quando falas tu.

"Obra Poética", João Verde

(João Verde nasceu no dia 2 de Novembro de 1866. Morreu em 1934.)

terça-feira, 8 de março de 2016

Ruy Cinatti 2

Quando o amor morrer dentro de ti

Quando o amor morrer dentro de ti,
Caminha para o alto onde haja espaço,
E com o silêncio outrora pressentido
Molda em duas colunas os teus braços.
Relembra a confusão dos pensamentos,
E neles ateia o fogo adormecido
Que uma vez, sonho de amor, teu peito ferido
Espalhou generoso aos quatro ventos.
Aos que passarem dá-lhes o abrigo
E o nocturno calor que se debruça
Sobre as faces brilhantes de soluços.
E se ninguém vier, ergue o sudário
Que mil saudosas lágrimas velaram;
Desfralda na tua alma o inventário
Do templo onde a vida ora de bruços
A Deus e aos sonhos que gelaram.


"Obra Poética", Ruy Cinatti

(Ruy Cinatti nasceu no dia 8 de Março de 1915. Morreu em 1986.)

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

João Verde 2

Do conto

A noite escura baixava.
De cantarinha na mão,
A pequenita chorava
Que cortava o coração.

É que entre o lugar e a fonte
Há muito causava horrores
O extenso pinhal do monte,
Povoado de malfeitores.

E a noite escura baixava.
De cantarinha na mão,
A pequenita chorava
Que cortava o coração.

Foi quando a madrinha sua,
A Virgem, vendo-a chorar,
Mandou acender a lua
Para lhe vir alumiar.

"Obra Poética", João Verde

(João Verde nasceu no dia 2 de Novembro de 1866. Morreu em 1934.)

domingo, 2 de novembro de 2014

João Verde

Vendo-os assim tão pertinho,
a Galiza mail’o Minho,
são como dois namorados
que o rio traz separados
quase desde o nascimento.
Deixai-os, pois, namorar,
já que os pais para casar
lhes não dão consentimento.

"Obra Poética", João Verde

(José Rodrigues Vale, que usou o pseudónimo literário de João Verde, nasceu no dia 2 de Novembro de 1866. Morreu em 1934.)