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terça-feira, 1 de janeiro de 2019

Luís Pignatelli 3

Não é fácil o amor

Não é fácil o amor, melhor seria
Arrancar um braço, fazê-lo voar...
Dar a volta ao mundo, abraçar
Todo o mundo, fazer da alegria


O pão nosso de cada dia, não copiar
Os males do amor, matar a melancolia
Que há no amor, querer a vontade fria

Ser cego, surdo, mudo, não sujeitar

O amor ao destino de cada um, não ter
Destino nenhum, ser a própria imagem
Do amor: pôr o coração ao largo, não sofrer


Os males do amor, não vacilar, ter a coragem
De enfrentar a razão de ser da própria dor
Porque o amor é triste, não é fácil o amor...


"Obra Poética", Luís Pignatelli

(Luís Pignatelli nasceu no dia 1 de Janeiro de 1935. Morreu em 1993.)

segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

Luís Pignatelli 2

Elegia do teu corpo na praia

De costas para o mar.
as tuas pernas como dois lírios brancos.
duas conchas cavadas no lado de trás dos joelhos,
pequenas gotas de água evaporando-se dentro delas.
o sol começa a dar-te uma cor de ébano novo.
a luz é intensa.
estendo-me junto de ti.
pouso a cabeça nos teus quadris,
essa doce e quente enseada.
como uma sucessão de ondas
as tuas ancas estremecem,
rolam na minha boca.
tenho a minha boca colocada nas tuas ancas.
as minhas mãos nas tuas omoplatas.
respiro contidamente como se fosse uma morte.
beijo-te o pescoço em silêncio.
a luz na praia agora é mais crua.
levantas-te. desapareces na água. respiro ainda em silêncio.
quando regressas o sol é uma rosácea faiscante.
volto a colocar a minha cabeça sobre o teu corpo.
o cheiro intenso do sal abre-me as narinas.
digo muito baixo: é afrodite que vem do mar.
e fico silencioso como um barco ancorado.
da baía do teu corpo começam a levantar voo
as gaivotas das minhas mãos.

"Obra Poética", Luís Pignatelli

(Luís Pignatelli nasceu no dia 1 de Janeiro de 1935. Morreu em 1993.)

sábado, 1 de julho de 2017

Salgueiro Maia

O banho

No decurso da sua atribulada vida, o capitão Gaspar também foi a Lourenço Marques, ficando instalado na messe de oficiais, onde se realizou uma linda festa, para a qual era obrigatório o uniforme branco.
O nosso herói, pouco habituado a fardas apertadas e pouco arejadas, começou a ficar com calor a mais, ar a menos e alergia à festa.
Para complicar mais a situação, e talvez por ser dos poucos oficiais combatentes que estavam presentes, um oficial-general entabula conversa com o capitão Gaspar quando ele se preparava para ir embora. A conversa alonga-se para o sector disciplinar, mas o que o capitão Gaspar precisava era de ir refrescar-se, pelo que, muito cordialmente, pergunta ao seu interlocutor: "Meu general, há algum regulamento que proíba um oficial de tomar banho?"
O oficial-general acha a pergunta muito repentina, mas responde que não! Acto contínuo, o capitão Gaspar deita-se, tal como está, para dentro da piscina do Clube Militar, gritando: "Aí vai!"

"Capitães de Abril", Salgueiro Maia

(Salgueiro Maia nasceu no dia 1 de Julho de 1944. Morreu em 1992.)

domingo, 1 de janeiro de 2017

Luís Pignatelli

No ventre de sua mãe

No ventre de sua mãe
(ai corpo da bem-amada)
o meu filho está crescendo;
lá pra dezembro que vem
outrossim estou dizendo:
ei-lo que nasce, o meu filho
ei-lo que nasce, nascendo
do ventre de sua mãe
como nasce o girassol
que no vento vai gerando
as sementinhas que tem
   
Ai corpo da bem-amada,
ai corpo que me quer bem.

"Obra Poética", Luís Pignatelli

(Luís Oliveira de Andrade, que usava o pseudónimo de Luís Pignatelli, nasceu no dia 1 de Janeiro de 1935. Morreu em 1993.)