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sexta-feira, 1 de janeiro de 2021

Luís Pignatelli 5

Ars amatoria

Pela sombra desatado
pela lua desperto
está na cama teu corpo
assim exposto:
se a minha mão o toca
um veio de água aberto
irrompe de tua boca
morre em meu rosto

Lentamente morre
à flor da carne desejada
para logo renascer
em fresco voo repetido
para logo repousar
ave ferida
na rama bem amada
de meu corpo apetecido

Um ao outro apetecendo
como neve derretida
na cintura
desta liana quebrada
onde a selva mais escura
do teu corpo vai morrendo
em meu corpo
incendiada

Luís Pignatelli

(Luís Pignatelli nasceu no dia 1 de Janeiro de 1935. Morreu em 1993.)

quarta-feira, 1 de janeiro de 2020

Luís Pignatelli 4

Sonetilho para uma adolescente
 
Que vento norte
Na manhã do mar
Sopra teus seios
De flores de morte

Que nuvem arde
Sobre o teu corpo
Teu corpo aberto
À tempestade

Que vaga lua
Virá de noite
Doce tanagra

Pôr-te mais nua
Que a nua praia
Doce e amarga

"Obra Poética", Luís Pignatelli

(Luís Pignatelli nasceu no dia 1 de Janeiro de 1935. Morreu em 1993.)

terça-feira, 1 de janeiro de 2019

Luís Pignatelli 3

Não é fácil o amor

Não é fácil o amor, melhor seria
Arrancar um braço, fazê-lo voar...
Dar a volta ao mundo, abraçar
Todo o mundo, fazer da alegria


O pão nosso de cada dia, não copiar
Os males do amor, matar a melancolia
Que há no amor, querer a vontade fria

Ser cego, surdo, mudo, não sujeitar

O amor ao destino de cada um, não ter
Destino nenhum, ser a própria imagem
Do amor: pôr o coração ao largo, não sofrer


Os males do amor, não vacilar, ter a coragem
De enfrentar a razão de ser da própria dor
Porque o amor é triste, não é fácil o amor...


"Obra Poética", Luís Pignatelli

(Luís Pignatelli nasceu no dia 1 de Janeiro de 1935. Morreu em 1993.)

segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

Luís Pignatelli 2

Elegia do teu corpo na praia

De costas para o mar.
as tuas pernas como dois lírios brancos.
duas conchas cavadas no lado de trás dos joelhos,
pequenas gotas de água evaporando-se dentro delas.
o sol começa a dar-te uma cor de ébano novo.
a luz é intensa.
estendo-me junto de ti.
pouso a cabeça nos teus quadris,
essa doce e quente enseada.
como uma sucessão de ondas
as tuas ancas estremecem,
rolam na minha boca.
tenho a minha boca colocada nas tuas ancas.
as minhas mãos nas tuas omoplatas.
respiro contidamente como se fosse uma morte.
beijo-te o pescoço em silêncio.
a luz na praia agora é mais crua.
levantas-te. desapareces na água. respiro ainda em silêncio.
quando regressas o sol é uma rosácea faiscante.
volto a colocar a minha cabeça sobre o teu corpo.
o cheiro intenso do sal abre-me as narinas.
digo muito baixo: é afrodite que vem do mar.
e fico silencioso como um barco ancorado.
da baía do teu corpo começam a levantar voo
as gaivotas das minhas mãos.

"Obra Poética", Luís Pignatelli

(Luís Pignatelli nasceu no dia 1 de Janeiro de 1935. Morreu em 1993.)

domingo, 1 de janeiro de 2017

Luís Pignatelli

No ventre de sua mãe

No ventre de sua mãe
(ai corpo da bem-amada)
o meu filho está crescendo;
lá pra dezembro que vem
outrossim estou dizendo:
ei-lo que nasce, o meu filho
ei-lo que nasce, nascendo
do ventre de sua mãe
como nasce o girassol
que no vento vai gerando
as sementinhas que tem
   
Ai corpo da bem-amada,
ai corpo que me quer bem.

"Obra Poética", Luís Pignatelli

(Luís Oliveira de Andrade, que usava o pseudónimo de Luís Pignatelli, nasceu no dia 1 de Janeiro de 1935. Morreu em 1993.)