| Foto Hernâni Von Doellinger |
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terça-feira, 21 de julho de 2026
E ao morrer renasci
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sexta-feira, 17 de julho de 2026
Que é feito do chi-coração?
Cuidado: frágil!
Éramos de abraço apertado, em Fafe, naquele tempo. Éramos rijos, feros e valentes, como então se dizia, mas de chi-coração. Agora querem-nos de abraço apartado, por confusão ou ignorância, parolice ou paronímia, têm talvez medo que a gente se escangalhe.
Dizem-me que as palavras já não valem nada. Mentira. As palavras são cada vez mais poderosas, as palavras dominam as nossas vidas. As palavras até tomaram o lugar dos factos, dos afectos, dos carinhos. Reparai. Antigamente davam-se beijos, davam-se abraços. Os beijos e os abraços faziam-se, realizavam-se, levavam-se a cabo, cumpriam-se. E éramos de abraço fácil. Agora dizem-se beijos, dizem-se abraços. Prometem-se, ficam no ar. O gesto ancestral e puro, carnal, verdadeiro e consequente, foi substituído pela retórica etiquetada, o contacto físico acabou vergado ao esboço da intenção - ao simulacro, à simulação. À dissimulação?
Dizemos "Beijinhos", muha!, dizemos "Abraço", dizemos olá de boca, empiscamos, e assim ficamos. Pelas palavras. Beijos e abraços são só vocábulos, paleio. Mantemos uma distância alegadamente higiénica entre nós, os alegados amigos uns dos outros. Amigos por computador. Dizemos. Enviamos. Remetemos. Aproveitamos a oportunidade para. Ao telefone, por escrito, ao vivo na pressa da rua, cara a cara, na patetice dos emojis. Dar a sério (à séria, se lido em Lisboa) é que não. Ninguém dá nada a ninguém - nem sequer beijos, nem sequer abraços. Fazemos votos de. "O que lhe estimo é um magnífico beijo", "Desejo-lhe um excelentíssimo abraço". E nisto estamos.
É. Olhai bem à vossa volta: as palavras estão em alta, navegam de vento em popa. As palavras. O falatório. Nunca tanto se palavrou. Nunca se falou tanto, nunca se mentiu tanto. Isso. Fala-se demais. O que verdadeiramente está em crise, por abuso, é a palavra, a palavra singular e definitiva, essa vaga memória de uma honra démodée que se arrasta pelas ruas da amargura - abandonada, pobre, cega e nua. Mas isto, claro, sou eu a dizer, e são apenas... palavras, palavras, palavras.
(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Mundial do Emoji.)
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quinta-feira, 16 de abril de 2026
A voz, a vós e avós
"Ai quem me dera ter outra vez vinte anos", cantava com sentimento o jovem fadista, estrela que haveria de ser. Tinha apenas sete aninhos, coitadinho, mas parecia que tinha oitenta...
P.S. - Hoje é Dia Mundial da Voz.
P.S. - Hoje é Dia Mundial da Voz.
segunda-feira, 13 de abril de 2026
Um beijo, é o que te estimo
Dizem-me que as palavras já não valem nada. Mentira. As palavras são cada vez mais poderosas, as palavras dominam as nossas vidas. As palavras até tomaram o lugar dos factos, dos afectos, dos carinhos. Reparai. Antigamente davam-se beijos, davam-se abraços. Agora dizem-se beijos, dizem-se abraços. O gesto ancestral e puro, carnal, verdadeiro, foi substituído pela retórica etiquetada, o contacto físico acabou vergado ao esboço da intenção - ao simulacro, à simulação. À dissimulação?
Dizemos "Beijinhos", dizemos "Abraço", dizemos olá de boca, e assim ficamos. Pelas palavras. Beijos e abraços são só vocábulos, paleio. Mantemos uma distância alegadamente higiénica entre nós, os alegados amigos uns dos outros. Amigos por computador. Dizemos. Enviamos. Remetemos. Aproveitamos a oportunidade para. Ao telefone, por escrito, ao vivo na pressa da rua, cara a cara, na patetice dos emojis. Dar a sério (à séria, se lido em Lisboa) é que não. Ninguém dá nada a ninguém - nem sequer beijos, nem sequer abraços. Fazemos votos de. "O que lhe estimo é um magnífico beijo", "Desejo-lhe um excelentíssimo abraço". E nisto estamos.
É. Olhai bem à vossa volta: as palavras estão em alta, navegam de vento em popa. As palavras. O falatório. Nunca tanto se palavrou. Nunca se falou tanto, nunca se mentiu tanto. Isso. Fala-se demais. O que verdadeiramente está em crise, por abuso, é a palavra, a palavra singular e definitiva, essa vaga memória de uma honra démodée que se arrasta pelas ruas da amargura - abandonada, pobre, cega e nua. Mas isto, claro, sou eu a dizer, e são apenas... palavras, palavras, palavras.
Dizemos "Beijinhos", dizemos "Abraço", dizemos olá de boca, e assim ficamos. Pelas palavras. Beijos e abraços são só vocábulos, paleio. Mantemos uma distância alegadamente higiénica entre nós, os alegados amigos uns dos outros. Amigos por computador. Dizemos. Enviamos. Remetemos. Aproveitamos a oportunidade para. Ao telefone, por escrito, ao vivo na pressa da rua, cara a cara, na patetice dos emojis. Dar a sério (à séria, se lido em Lisboa) é que não. Ninguém dá nada a ninguém - nem sequer beijos, nem sequer abraços. Fazemos votos de. "O que lhe estimo é um magnífico beijo", "Desejo-lhe um excelentíssimo abraço". E nisto estamos.
É. Olhai bem à vossa volta: as palavras estão em alta, navegam de vento em popa. As palavras. O falatório. Nunca tanto se palavrou. Nunca se falou tanto, nunca se mentiu tanto. Isso. Fala-se demais. O que verdadeiramente está em crise, por abuso, é a palavra, a palavra singular e definitiva, essa vaga memória de uma honra démodée que se arrasta pelas ruas da amargura - abandonada, pobre, cega e nua. Mas isto, claro, sou eu a dizer, e são apenas... palavras, palavras, palavras.
P.S. - Hoje é Dia Internacional do Beijo.
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domingo, 13 de abril de 2025
Dava-te um beijo, mas não tenho...
Dizem-me que as palavras já não valem nada. Mentira. As palavras são cada vez mais poderosas, as palavras dominam as nossas vidas. As palavras até tomaram o lugar dos afectos, dos carinhos. Reparem. Antigamente davam-se beijos, davam-se abraços. Agora dizem-se beijos, dizem-se abraços. O gesto ancestral e puro foi substituído pela retórica etiquetada, o contacto físico acabou vergado ao esboço da intenção - à simulação. À dissimulação?
Dizemos "Beijinhos", dizemos "Abraço", dizemos olá de boca, e assim ficamos. Pelas palavras. Beijos e abraços são só vocábulos, paleio. Mantemos uma distância alegadamente higiénica entre nós, os alegados amigos uns dos outros. Amigos por computador. Dizemos. Enviamos. Remetemos. Aproveitamos a oportunidade para. Ao telefone, por escrito, ao vivo na pressa da rua, na patetice dos emojis. Dar a sério (à séria, se lido em Lisboa) é que não. Ninguém dá nada a ninguém - nem sequer beijos, nem sequer abraços. Fazemos votos de. "O que lhe estimo é um magnífico beijo", "Desejo-lhe um excelentíssimo abraço". E nisto estamos.
É. Olhem bem à volta: as palavras estão em alta, navegam de vento em popa. As palavras. O falatório. Nunca tanto se palavrou. Nunca se falou tanto, nunca se mentiu tanto. Isso. O que verdadeiramente está em crise é a palavra, a palavra singular e definitiva, essa vaga memória de uma honra démodée que se arrasta pelas ruas da amargura - abandonada, pobre, cega e nua. Mas isto, claro, sou eu a dizer e são apenas... palavras, palavras, palavras.
Dizemos "Beijinhos", dizemos "Abraço", dizemos olá de boca, e assim ficamos. Pelas palavras. Beijos e abraços são só vocábulos, paleio. Mantemos uma distância alegadamente higiénica entre nós, os alegados amigos uns dos outros. Amigos por computador. Dizemos. Enviamos. Remetemos. Aproveitamos a oportunidade para. Ao telefone, por escrito, ao vivo na pressa da rua, na patetice dos emojis. Dar a sério (à séria, se lido em Lisboa) é que não. Ninguém dá nada a ninguém - nem sequer beijos, nem sequer abraços. Fazemos votos de. "O que lhe estimo é um magnífico beijo", "Desejo-lhe um excelentíssimo abraço". E nisto estamos.
É. Olhem bem à volta: as palavras estão em alta, navegam de vento em popa. As palavras. O falatório. Nunca tanto se palavrou. Nunca se falou tanto, nunca se mentiu tanto. Isso. O que verdadeiramente está em crise é a palavra, a palavra singular e definitiva, essa vaga memória de uma honra démodée que se arrasta pelas ruas da amargura - abandonada, pobre, cega e nua. Mas isto, claro, sou eu a dizer e são apenas... palavras, palavras, palavras.
P.S. - Hoje é Dia Internacional do Beijo.
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quarta-feira, 9 de outubro de 2024
Marques do Correio
O Marques do Correio aposentou-se ao fim de quase 50 anos de serviço nos CTT. Figura popular e generosa, profissional de uma competência insuperável, admirado e estimado dentro e fora do serviço, em Portugal e até no estrangeiro, o velho Marques ficou conhecido sobretudo por ter inspirado uma bonita cantiga celebrizada pela voz extensa e quente de Alberto Ribeiro e intitulada, nem de propósito, "Marques do Correio", derivado exactamente ao nosso Marques propriamente dito.
P.S. - Hoje é Dia Mundial dos Correios.
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terça-feira, 15 de novembro de 2022
segunda-feira, 26 de abril de 2021
quarta-feira, 14 de agosto de 2019
Emílio Moura 3
Canção
Viver não dói. O que dói
é a vida que se não vive.
Tanto mais bela sonhada,
quanto mais triste perdida.
Viver não dói. O que dói
é o tempo, essa força onírica
em que se criam os mitos
que o próprio tempo devora.
Viver não dói. O que dói
é essa estranha lucidez,
misto de fome e de sede
com que tudo devoramos.
Viver não dói. O que dói,
ferindo fundo, ferindo,
é a distância infinita
entre a vida que se pensa
e o pensamento vivido.
Que tudo o mais é perdido.
Viver não dói. O que dói
é a vida que se não vive.
Tanto mais bela sonhada,
quanto mais triste perdida.
Viver não dói. O que dói
é o tempo, essa força onírica
em que se criam os mitos
que o próprio tempo devora.
Viver não dói. O que dói
é essa estranha lucidez,
misto de fome e de sede
com que tudo devoramos.
Viver não dói. O que dói,
ferindo fundo, ferindo,
é a distância infinita
entre a vida que se pensa
e o pensamento vivido.
Que tudo o mais é perdido.
"Itinerário Poético - Poemas Reunidos", Emílio Moura
(Emílio Moura nasceu no dia 14 de Agosto de 1902. Morreu em 1971.)
quarta-feira, 8 de novembro de 2017
António Norton 2
Canção
Canto o que apetece cantar.
Semente na lama, semente nas landes,
Espuma nas ondas,
Lagarta no fruto ou búzio no mar.
O cavalo com olhos de sono que anda à volta da nora,
E o peixe com olhos de vidro que anda à volta do aquário.
O rodar constante e vário
Que anda à volta de uma hora.
Canto os teus olhos de água transparente,
E as medusas, que não precisam de olhar.
E o corpo da moça que estava na eira,
E a estrela da areia que estava no mar.
Ergo-me na ponta dos pés e canto
Na tua boca um beijo,
Alga e árvore que és.
António Norton
(António Norton nasceu no dia 8 de Novembro de 1924.)
Canto o que apetece cantar.
Semente na lama, semente nas landes,
Espuma nas ondas,
Lagarta no fruto ou búzio no mar.
O cavalo com olhos de sono que anda à volta da nora,
E o peixe com olhos de vidro que anda à volta do aquário.
O rodar constante e vário
Que anda à volta de uma hora.
Canto os teus olhos de água transparente,
E as medusas, que não precisam de olhar.
E o corpo da moça que estava na eira,
E a estrela da areia que estava no mar.
Ergo-me na ponta dos pés e canto
Na tua boca um beijo,
Alga e árvore que és.
António Norton
(António Norton nasceu no dia 8 de Novembro de 1924.)
segunda-feira, 3 de julho de 2017
Francisco Bittencourt
Canção
Mergulhado não
mas roendo o sono
é como durmo
até que o osso da aurora
esculpa sobre o céu
um rosto amado.
Cada noite que passa
é um risco nos meus olhos
a imitar montanhas
que se lançam candentes
ou anjo com espada
contra jardins e mortos.
Eu ergo o abraço irmão
e a noite se ilumina,
doce fruto estendido
são os teus sentidos
e a noite toda é uma tarde
onde soa um pedido
de colheitas maduras
e o feno se esparrama
sob galpões de sombras
para servir de leito
à minha fúria calma
e ao abismo que és tu
doce pássaro e neve,
azul e doce pássaro.
Francisco Bittencourt
(Francisco Bittencourt nasceu no dia 3 de Julho de 1933. Morreu em 1997.)
Mergulhado não
mas roendo o sono
é como durmo
até que o osso da aurora
esculpa sobre o céu
um rosto amado.
Cada noite que passa
é um risco nos meus olhos
a imitar montanhas
que se lançam candentes
ou anjo com espada
contra jardins e mortos.
Eu ergo o abraço irmão
e a noite se ilumina,
doce fruto estendido
são os teus sentidos
e a noite toda é uma tarde
onde soa um pedido
de colheitas maduras
e o feno se esparrama
sob galpões de sombras
para servir de leito
à minha fúria calma
e ao abismo que és tu
doce pássaro e neve,
azul e doce pássaro.
Francisco Bittencourt
(Francisco Bittencourt nasceu no dia 3 de Julho de 1933. Morreu em 1997.)
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