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sábado, 7 de novembro de 2020

Cecília Meireles 8

Lua adversa

Tenho fases, como a lua, 
Fases de andar escondida,
fases de vir para a rua...
Perdição da minha vida!
Perdição da vida minha!
Tenho fases de ser tua,
tenho outras de ser sozinha.

Fases que vão e que vêm,
no secreto calendário
que um astrólogo arbitrário
inventou para meu uso.

E roda a melancolia
seu interminável fuso!

Não me encontro com ninguém
(tenho fases como a lua...). 
No dia de alguém ser meu
não é dia de eu ser sua...
E, quando chega esse dia,
o outro desapareceu...

"Vaga Música", Cecília Meireles

(Cecília Meireles nasceu no dia 7 de Novembro de 1901. Morreu em 1964.) 

quinta-feira, 7 de novembro de 2019

Cecília Meireles 7

Motivo

Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.

Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.

Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
- não sei, não sei. Não sei se fico

ou passo.

Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
- mais nada.


Cecília Meireles

(Cecília Meireles nasceu no dia 7 de Novembro de 1901. Morreu em 1964.)

quarta-feira, 7 de novembro de 2018

Cecília Meireles 6

Leilão de jardim

Quem me compra um jardim com flores?
Borboletas de muitas cores,
lavadeiras e passarinhos,
ovos verdes e azuis nos ninhos?


Quem me compra este caracol?
Quem me compra um raio de sol?
Um lagarto entre o muro e a hera,
uma estátua da Primavera?


Quem me compra este formigueiro?
E este sapo, que é jardineiro?
E a cigarra e a sua canção?
E o grilinho dentro do chão?


(Este é o meu leilão.)

"Mar Absoluto e Outros Poemas", Cecília Meireles

(Cecília Meireles nasceu no dia 7 de Novembro de 1901. Morreu em 1964.)

terça-feira, 7 de novembro de 2017

Cecília Meireles 5


Eu não tinha estas mãos sem força,
Tão paradas e frias e mortas;
Eu não tinha este coração
Que nem se mostra.


Eu não dei por esta mudança,
Tão simples, tão certa, tão fácil:
- Em que espelho ficou perdida
a minha face?


"Viagem", Cecília Meireles 

(Cecília Meireles nasceu no dia 7 de Novembro de 1901. Morreu em 1964.)

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Cecília Meireles 4

É preciso não esquecer nada

É preciso não esquecer nada:
nem a torneira aberta nem o fogo aceso,
nem o sorriso para os infelizes
nem a oração de cada instante.


É preciso não esquecer de ver a nova borboleta
nem o céu de sempre.


O que é preciso é esquecer o nosso rosto,
o nosso nome, o som da nossa voz, o ritmo do nosso pulso.


O que é preciso esquecer é o dia carregado de atos,
a idéia de recompensa e de glória.


O que é preciso é ser como se já não fôssemos,
vigiados pelos próprios olhos

severos conosco, pois o resto não nos pertence.

"Poesia Completa", Cecília Meireles

(Cecília Meireles nasceu no dia 7 de Novembro de 1901. Morreu em 1964.)

sábado, 7 de novembro de 2015

Cecília Meireles 3

Timidez

Basta-me um pequeno gesto,
feito de longe e de leve,
para que venhas comigo
e eu para sempre te leve...

- mas só esse eu não farei.

Uma palavra caída
das montanhas dos instantes
desmancha todos os mares
e une as terras mais distantes...

- palavra que não direi.

Para que tu me adivinhes,
entre os ventos taciturnos,
apago meus pensamentos,
ponho vestidos noturnos,

- que amargamente inventei.

E, enquanto não me descobres,
os mundos vão navegando
nos ares certos do tempo,
até não se sabe quando...

- e um dia me acabarei.


"Viagem", Cecília Meireles

(Cecília Meireles nasceu no dia 7 de Novembro de 1901. Morreu em 1964.) 

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Cecília Meireles 2

Noções

Entre mim e mim, há vastidões bastantes
para a navegação dos meus desejos afligidos.

Descem pela água minhas naves revestidas de espelhos.
Cada lâmina arrisca um olhar, e investiga o elemento que a atinge.


Mas, nesta aventura do sonho exposto à correnteza,
só recolho o gosto infinito das respostas que não se encontram.


Virei-me sobre a minha própria existência, e contemplei-a
Minha virtude era esta errância por mares contraditórios,
e este abandono para além da felicidade e da beleza.


Ó meu Deus, isto é a minha alma:
qualquer coisa que flutua sobre este corpo efêmero e precário,
como o vento largo do oceano sobre a areia passiva e inúmera...
  

"Viagem", Cecília Meireles

(Cecília Meireles nasceu no dia 7 de Novembro de 1901. Morreu em 1964.)

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Cecília Meireles

Jornal, longe

Que faremos destes jornais, com telegramas, notícias,
anúncios, fotografias, opiniões...?


Caem as folhas secas sobre os longos relatos de guerra:
e o sol empalidece suas letras infinitas.

Que faremos destes jornais, longe do mundo e dos homens?
Este recado de loucura perde o sentido entre a terra e o céu.

De dia, lemos na flor que nasce e na abelha que voa;
de noite, nas grandes estrelas, e no aroma do campo serenado.

Aqui, toda a vizinhança proclama convicta:
"Os jornais servem para fazer embrulhos".

E é uma das raras vezes em que todos estão de acordo.


"Mar Absoluto e Outros Poemas", Cecília Meireles

(Cecília Meireles nasceu no dia 7 de Novembro de 1901. Morreu em 1964.)