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sexta-feira, 14 de agosto de 2020

Emílio Moura 4

Noiva 

Caminhas para mim como uma colegial em férias.
Teu sorriso é tão puro que te ilumina toda.
És mito, mas toco-te;
realidade, te elevo e te transformo em sonho.

Por que não me revelas de onde surgiste e de que elementos te formaste?
Teus cabelos são nuvens?
Tua voz é de orvalho?

Quantas vezes me torturei inutilmente porque ainda estavas irrevelada,
- fonte oculta na mata, ária adormecida, estrela entre nuvens...

Dormias, Noiva?
Meu apelo te acorda e eis que sorris, de súbito.
E é como se eu nascesse agora.
 

"Itinerário Poético - Poemas Reunidos", Emílio Moura 

(Emílio Moura nasceu no dia 14 de Agosto de 1902. Morreu em 1971.)

quarta-feira, 14 de agosto de 2019

Emílio Moura 3

Canção

Viver não dói. O que dói
é a vida que se não vive.
Tanto mais bela sonhada,
quanto mais triste perdida.

Viver não dói. O que dói
é o tempo, essa força onírica
em que se criam os mitos
que o próprio tempo devora.

Viver não dói. O que dói
é essa estranha lucidez,
misto de fome e de sede
com que tudo devoramos.

Viver não dói. O que dói,
ferindo fundo, ferindo,
é a distância infinita
entre a vida que se pensa
e o pensamento vivido.


Que tudo o mais é perdido.


"Itinerário Poético - Poemas Reunidos", Emílio Moura 

(Emílio Moura nasceu no dia 14 de Agosto de 1902. Morreu em 1971.)

terça-feira, 14 de agosto de 2018

Emílio Moura 2

Às vezes

Às vezes, subitamente, a poesia te visita.
Pura.
Infinitamente pura.
Como uma rosa.
Melhor ainda:
como a idéia de rosa.


"Itinerário Poético - Poemas Reunidos", Emílio Moura

(Emílio Moura nasceu no dia 14 de Agosto de 1902. Morreu em 1971.)

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Emílio Moura

Calmaria
 
Água estagnada
nuvem parada,
folha perdida,
pássaro de asa
partida.


Ó vento que morreis,
de leve, de leve,
despertai!


Luz que se apaga,
sombra diluída,
névoa que vaga,
voz que se cala,
ferida.


Ó voz que adormeceis
de manso, de manso,
gritai, gritai!


Tímida esperança,
pálido desejo:
a tarde tão mansa,
tão lânguida a noite
que vem.


Ó alma náufraga,
como tudo o mais:
desesperai!

"Itinerário Poético - Poemas Reunidos", Emílio Moura

(Emílio Moura nasceu no dia 14 de Agosto de 1902. Morreu em 1971.)