| Foto Hernâni Von Doellinger |
quarta-feira, 16 de setembro de 2026
terça-feira, 15 de setembro de 2026
Sejamos pacientes, pois
Hipocondríaco e metódico
Era um autarca hipocondríaco e metódico. Seguindo indicação médica, tomava quatro medidas por dia - uma ao levantar, uma depois de almoço, uma antes de jantar e uma ao deitar. Rigorosamente.
Como um alho era o famoso indivíduo, não sei quem nem de que sexo ou género, mas político certamente, que inventou a palavra "paciente" para substituir a palavra "doente". O finório, ou a finória, ou finórie, vá lá, sabia tudo sobre listas e tempos de espera, greves epidémicas ou cirúrgicas, operações adiadas, consultas anuladas, funerais e missas de sétimo dia, demissões de directores e outras pandemias. Porque a verdade é esta: o doente, regra geral, queixa-se, esperneia, mas o paciente, por definição, aguenta.
(Do meu blogue Mistérios de Fafe)
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Os capados
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| Foto Agência Ecclesia |
Os pontos nos ee
"Sexualmente falando, és imprestável", disse ela. "Tá bem", disse ele, e foi organizar-se com a vizinha. Ele percebera "emprestável". São coisas que acontecem...
A mim, confesso, nem me aquecia nem me arrefecia, aquilo da barba. Eu já estava por tudo. Tinha 11 anos, faltavam-me duas ou três semanas para entrar no seminário, e logo que lá chegasse - também me diziam - iriam capar-me sem dó nem piedade! Então olha, perdido por um, perdido por mil...
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segunda-feira, 14 de setembro de 2026
Cada um tinha a sua cruz
Macaquinhos no sótãoEle tinha macaquinhos no sótão. Denunciado pela vizinha bisbilhoteira, foi detido e investigado. Os animais, após vistoria veterinária, seguiram para o jardim zoológico. Ele, para o manicómio.
Analfabeto de nascença, utilizava a técnica estatística do Miguel Cantoneiro, ecumenicamente adaptada. O nosso extraordinário Miguel, fardado e de pistolo à cinta, anotava o trânsito com uma rodinha, um círculo pequeno, para cada carro ligeiro que passava na estrada nacional, e uma rodela, um círculo grande, para cada camião, não sei como era para as furgonetas e motorizadas, já não me lembro, mas devia haver uma escala qualquer, círculos intermédios, uma tabuada de rodinhas, rodas e rodelas que topava a tudo e batia sempre certo. Uma espécie de Excel mais de vinte anos antes de ser inventado. No Largo, o guardador de saídas, por seu turno, botava uma cruzinha pequenina para os fregueses pobres e desiludidos como ele, uma cruzinha maior para os menos mal da vida e um cruzeiro para a dúzia e meia de cagões locais. Como costumava dizer, cada um tinha a sua cruz. E era eficaz o processo. À noite, em casa, depois da sopa e antes da reza do terço, solitária e apressada, fazia a soma das cruzes, por escalões, comparava com os dias anteriores, os períodos homólogos, as contas todas certinhas, noves fora nada, particularizava as variáveis, indexava à inflação, descontava o algoritmo e arquivava tudo no saco de serapilheira debaixo da cama. Aos domingos de manhã, em vez de ir à missa, fazia uma pequena fogueira e queimava a papelada enquanto assobiava vigorosamente o hino de Fafe, "Fafe querido", mas de trás para a frente. Chamavam-lhe o Toma-Conta, o Vigilante. Talvez vigilante da natureza. Da natureza humana. Chamavam-lhe também outros nomes. Diziam que ele tinha um parafuso a menos, que era doudo, para o que lhe havia de dar, ser contador de pessoas. Ele dizia, porém, que era contador de anedotas...
domingo, 13 de setembro de 2026
Os cartoleiros
Da estupidez
Incomoda-me a estupidez. Sobretudo a minha.
Os cartoleiros eram os protegidos ou favoritos dos "superiores", quer-se dizer, dos padres, no seminário. Isso e nada mais. Eram geralmente alunos acima da média, com direito a pequenas mordomias e tolerância alargada. Insignificâncias. Eram os que tinham maior proximidade e convívio com os mestres. Além disso, os cartoleiros eram também, como se dizia em Fafe, escovas, graxistas, lambe-botas e, frequentemente, bufos. Eu, devo confessar, gozei do estatuto de cartoleiro no que diz respeito à primeira parte, isto é, aos benefícios, mas fui vítima da segunda, da manha hipócrita dos chegamissos. Os cartoleiros eram apontados a dedo e invejados pelos colegas, e invejavam-se entre si.
É claro que, no Brasil, a palavra cartoleiro desfruta de um significado diverso e muito próprio, no âmbito dos trabalhos manuais em particular ou do artesanato de uma forma geral. Mas isso, valha-me Deus, já nos levaria por outros caminhos...
É claro que, no Brasil, a palavra cartoleiro desfruta de um significado diverso e muito próprio, no âmbito dos trabalhos manuais em particular ou do artesanato de uma forma geral. Mas isso, valha-me Deus, já nos levaria por outros caminhos...
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