Desmaio, desjunho, desjulho, desgosto. Gosto de Agosto. Da palavra. Agosto. Isto é, q.b.
segunda-feira, 2 de agosto de 2021
Praiomasoquistas
Areia a escaldar e a voar, um sol a pique e impiedoso, o ar parado, pesado. Sua-se em bica, sufoca-se, leva-se com boladas no nariz e nos tomates, a pele derrete e dói, a cabeça estala, a areia cega, pica, mete-se nos dentes, incomoda o rego do cu. E aquela gente parece que gosta, guincha de prazer. Gente esquisita. O que a praia lhes faz...
domingo, 1 de agosto de 2021
No tempo da rádio a preto e branco
Comecei a ver o Sporting-Benfica na cozinha, ouvindo o relato na rádio Antena 1. Estava a ser um derby
de arromba, bola cá, bola lá, quase-golos uns atrás dos outros, os
relatadores esganiçados com tanta emoção, faltava-lhes o ar, que
jogatana, que jogatana! Fui a correr para a sala e liguei a televisão,
para ver com os meus próprios olhos: o jogo era fraquinho, não havia
dois passes seguidos certos, os do Benfica entregavam a bola aos do
Sporting e os do Sporting, porventura por civilidade anfitriã,
entregavam a bola aos do Benfica, política de boa vizinhança, ao
contrário do que nos querem fazer crer. Entre estas cortesias a meio
campo, e sempre e ainda no dito miolo do terreno, sarrafava-se a bom
sarrafar, mas dentro do protocolo estabelecido. Que merda! Voltei,
desiludido, para a cozinha, liguei outra vez o rádio: o prélio tornou a
ser uma categoria, um frémito, um frenesim, só não era golo porque não
calhava. Eram defesas impossíveis, eram perdidas inacreditáveis, só se
jogava nas áreas. Fiquei-me portanto pelos 96.7, que até podia ter sido
o resultado final, tantas as oportunidades radiofónicas, e regalei-me.
Que jogaço, que jogaço! Esqueçam a televisão por cabo, que nos custa os
olhos da cara e só nos dá espectáculos deprimentes. O futebol, para
ser bom, deve ser visto na rádio Antena 1. A rádio conta-nos o que não
é, mas alegra-nos a vida. A rádio tem futuro. Os dias da rádio são os
dias que hão-de vir.
Na verdade - e aqui que ninguém nos vê -, o melhor da televisão é que agora dá rádio.
Eu sou pela Antena 1 desde pequenino, ainda a Antena 1 se chamava Emissora Nacional e dava os resultados da 3.ª divisão e dos distritais já pela noite dentro e era uma comoção tremenda ouvir dizer Fafe, Associação Desportiva de Fafe, no Philips da mesinha de cabeceira dos meus pais. Ficávamos ali todos à espera, a família, como se estivéssemos a rezar o terço mas de boca calada, angustiados e alerta, porque aquilo era dito uma só vez, como no "Alô, Alô", e com a rapidez do "não dispensa a consulta do prospecto". Vamos supor: o jogo do Fafe tinha sido em Arcos de Valdevez, que naquela altura era muito longe e não havia telemóveis (eu sei que é difícil de acreditar); não fora o rádio e só saberíamos o resultado a altas da madrugada, se tivéssemos vagar para isso, quando a excursão regressasse ao Largo, e não era certo. O resultado. Porque o vinho também é bom, mas às vezes atrapalhava as contas.
"Bom dia, boa tarde ou boa noite, conforme a hora e o local em que nos escuta". Ouço portanto rádio. Sou antigo, sou do tempo da rádio a preto-e-branco. Sou um prezado ouvinte e com muito gosto. Prefiro os dicionários encadernados à Wikipédia e os livros de uma forma geral às séries televisivas "de culto". Prefiro o éter à água oxigenada. A dominical Tarde Desportiva, David Ferreira sempre e aquela meia hora dos dias da semana a seguir ao meio-dia ligam-me sacramentalmente à Antena 1.
O rádio faz parte da minha vida, acompanha-me desde que me lembro de mim, conserva-me as mais doces memórias, frescas ou em banho-maria consoante a época do ano. Como por exemplo:
Todas as noites. Após a oração ao anjo da guarda e o sinal-da-cruz feito "sem aldrabices" por ordem expressa e vigilante da nossa mãe, íamos para o nosso quartinho de duas camas, uma cama para a Nanda e a cama maior para o Nelo e para mim. A nossa mãe deitava-se enfim, exausta e nós não sabíamos, e ligava o rádio na Emissora Nacional. Dava teatro. Do lado de cá do tabique, eu, o Nelo e a Nanda pedíamos "mais alto". Também queríamos. (Ou)víamos silentes e na maior das comoções, porque aquelas histórias não eram para brincadeiras. Interrompíamos apenas para um que outro pedido de esclarecimento acerca da senhora que fazia a vida negra ao senhor e que, todos concordávamos com a nossa mãe, era "uma cabra", embora eu não visse nisso grande defeito. Na escola já tinha feito algumas redacções sobre "A cabra" e por isso sabia que a cabra é um animal doméstico e serve, nomeadamente, para a nossa alimentação, que era assim que a coisa se rematava.
O teatro terminava, vinha a ficha técnica - porventura Jorge Alves, Manuel Lereno, Carmen Dolores, Rui de Carvalho, Eunice Muñoz ou Canto e Castro... nos papéis de -, mas a nossa mãe só desligava depois do "Samuel Dinis ensaiou", que era mesmo o fim, e o rádio dizia "Denis". Trocávamos boas-noites dum lado para o outro do tabique. "Agora vamos dormir", mandava a nossa mãe, e nós apertávamo-nos aos cobertores, contentes pela soirée e mortinhos por obedecer.
Todas as noites. Cinco ou dez minutos passados, a minha mãe dava um toquezinho na parede e perguntava, numa voz de embalar:
- Estais a dormir?
- Eu estou - respondia sempre eu.
- Lindo menino - dizia a minha mãe. E eu adormecia feliz. Radioso.
Na verdade - e aqui que ninguém nos vê -, o melhor da televisão é que agora dá rádio.
Eu sou pela Antena 1 desde pequenino, ainda a Antena 1 se chamava Emissora Nacional e dava os resultados da 3.ª divisão e dos distritais já pela noite dentro e era uma comoção tremenda ouvir dizer Fafe, Associação Desportiva de Fafe, no Philips da mesinha de cabeceira dos meus pais. Ficávamos ali todos à espera, a família, como se estivéssemos a rezar o terço mas de boca calada, angustiados e alerta, porque aquilo era dito uma só vez, como no "Alô, Alô", e com a rapidez do "não dispensa a consulta do prospecto". Vamos supor: o jogo do Fafe tinha sido em Arcos de Valdevez, que naquela altura era muito longe e não havia telemóveis (eu sei que é difícil de acreditar); não fora o rádio e só saberíamos o resultado a altas da madrugada, se tivéssemos vagar para isso, quando a excursão regressasse ao Largo, e não era certo. O resultado. Porque o vinho também é bom, mas às vezes atrapalhava as contas.
"Bom dia, boa tarde ou boa noite, conforme a hora e o local em que nos escuta". Ouço portanto rádio. Sou antigo, sou do tempo da rádio a preto-e-branco. Sou um prezado ouvinte e com muito gosto. Prefiro os dicionários encadernados à Wikipédia e os livros de uma forma geral às séries televisivas "de culto". Prefiro o éter à água oxigenada. A dominical Tarde Desportiva, David Ferreira sempre e aquela meia hora dos dias da semana a seguir ao meio-dia ligam-me sacramentalmente à Antena 1.
O rádio faz parte da minha vida, acompanha-me desde que me lembro de mim, conserva-me as mais doces memórias, frescas ou em banho-maria consoante a época do ano. Como por exemplo:
Todas as noites. Após a oração ao anjo da guarda e o sinal-da-cruz feito "sem aldrabices" por ordem expressa e vigilante da nossa mãe, íamos para o nosso quartinho de duas camas, uma cama para a Nanda e a cama maior para o Nelo e para mim. A nossa mãe deitava-se enfim, exausta e nós não sabíamos, e ligava o rádio na Emissora Nacional. Dava teatro. Do lado de cá do tabique, eu, o Nelo e a Nanda pedíamos "mais alto". Também queríamos. (Ou)víamos silentes e na maior das comoções, porque aquelas histórias não eram para brincadeiras. Interrompíamos apenas para um que outro pedido de esclarecimento acerca da senhora que fazia a vida negra ao senhor e que, todos concordávamos com a nossa mãe, era "uma cabra", embora eu não visse nisso grande defeito. Na escola já tinha feito algumas redacções sobre "A cabra" e por isso sabia que a cabra é um animal doméstico e serve, nomeadamente, para a nossa alimentação, que era assim que a coisa se rematava.
O teatro terminava, vinha a ficha técnica - porventura Jorge Alves, Manuel Lereno, Carmen Dolores, Rui de Carvalho, Eunice Muñoz ou Canto e Castro... nos papéis de -, mas a nossa mãe só desligava depois do "Samuel Dinis ensaiou", que era mesmo o fim, e o rádio dizia "Denis". Trocávamos boas-noites dum lado para o outro do tabique. "Agora vamos dormir", mandava a nossa mãe, e nós apertávamo-nos aos cobertores, contentes pela soirée e mortinhos por obedecer.
Todas as noites. Cinco ou dez minutos passados, a minha mãe dava um toquezinho na parede e perguntava, numa voz de embalar:
- Estais a dormir?
- Eu estou - respondia sempre eu.
- Lindo menino - dizia a minha mãe. E eu adormecia feliz. Radioso.
P.S. - A Emissora Nacional foi inaugurada oficialmente no dia 1 de Agosto de 1935.
Tempo e resultado
Na sacramental ronda pelos vários campos, o pivô da emissão pergunta ao relatador: - Tempo e resultado? O relatador informa, conciso e preciso: - O tempo está bom e o resultado mantém-se.
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