quinta-feira, 19 de maio de 2016

Mário de Sá-Carneiro 4

Como eu não possuo

Olho em volta de mim. Todos possuem -
Um afecto, um sorriso ou um abraço.
Só para mim as ânsias se diluem
E não possuo mesmo quando enlaço.

Roça por mim, em longe, a teoria
Dos espasmos golfados ruivamente;
São êxtases da cor que eu fremiria,
Mas a minha alma pára e não os sente!

Quero sentir. Não sei... perco-me todo...
Não posso afeiçoar-me nem ser eu:
Falta-me egoísmo para ascender ao céu,
Falta-me unção para me afundar no lodo.

Não sou amigo de ninguém. Para o ser
Forçoso me era antes possuir
Quem eu estimasse - ou homem ou mulher,
E eu não logro nunca possuir!...

Castrado de alma e sem saber fixar-me,
Tarde a tarde na minha dor me afundo...
Serei um emigrado doutro mundo
Que nem na minha dor posso encontrar-me?...

Como eu desejo a que ali vai na rua,
Tão ágil, tão agreste, tão de amor...
Como eu quisera emaranhá-la nua,
Bebê-la em espasmos de harmonia e cor!...

Desejo errado... Se eu a tivera um dia,
Toda sem véus, a carne estilizada
Sob o meu corpo arfando transbordada,
Nem mesmo assim - ó ânsia! - eu a teria...

Eu vibraria só agonizante
Sobre o seu corpo de êxtases dourados,
Se fosse aqueles seios transtornados,
Se fosse aquele sexo aglutinante...

De embate ao meu amor todo me ruo,
E vejo-me em destroço até vencendo:
É que eu teria só, sentindo e sendo
Aquilo que estrebucho e não possuo.

"Dispersão", Mário de Sá-Carneiro

(Mário de Sá-Carneiro nasceu no dia 19 de Maio de 1890. Morreu em 1916.)

quarta-feira, 18 de maio de 2016

Caminho 117

                                                                                                                Foto Hernâni Von Doellinger

As minhas frases favoritas 13

É preciso ter azar...

terça-feira, 17 de maio de 2016

É Coura, estúpidos!, o rio chama-se Coura, Coura...

Foto Hernâni Von Doellinger

É todos os anos a mesma merda, uma contumaz manifestação de ignorância e estupidez. Desde 2011 que ando aqui a pregar no deserto, a agredir o invisual, mas não adianta nada, chegamos à beira do Festival de Paredes de Coura e a asneira desaba com estrondo. São os blogues, os sítios de venda de bilhetes, as televisões, os jornais, jornalistas e simpatizantes que insistem em dizer e escrever que o evento decorre nas margens do rio "Tabuão". Dasse!, dasse!, dasse!, três vezes dasse! Eu já disse que não existe nenhum rio "Tabuão". O que há é um sítio (isto é, um local) chamado Taboão (Taboão com ó) junto ao rio Coura. É a praia fluvial do Taboão. E é na praia fluvial do Taboão (Taboão com ó), nas margens do rio Coura, que se realiza desde 1993 o Festival de Paredes de Coura. De uma vez por todas, por favor, meus pedaços-de-asno: o rio Coura não se chama rio "Tabuão", nem sequer rio Taboão - chama-se rio Coura, como o próprio nome indica. Por isso é que Paredes de Coura se chama Paredes de Coura e não Paredes de Taboão.
Vamos lá então recapitular a matéria dada durantes os últimos seis anos, vamos à geografiazinha: o rio que passa em Paredes de Coura chama-se rio Coura. É o mesmo rio que, mais abaixo, passa em Vilar de Mouros - que também tem festival, este ano outra vez -, e continua a chamar-se rio Coura. O Coura, rio, nasce na serra da Boalhosa, na lagoa da Chã de Lamas e na serra de Corno de Bico, fazendo um percurso de cerca de 50 quilómetros até desaguar na margem esquerda do rio Minho à porta do mar. Banha os concelhos de Paredes de Coura, Vila Nova de Cerveira e Caminha. Passa pelas freguesias de Formariz, Paredes de Coura, Rubiães, São Martinho de Coura, Covas, Vilar de Mouros, Venade, Vilarelho, Seixas e Caminha. Percebido? Agora vamos escrever isto 50 vezes no quadro, seus orelhas de burro!...

(O Festival de Paredes de Coura 2016 decorre de 17 a 20 de Agosto, como de costume na praia fluvial do Taboão, margens do rio Coura, Paredes de Coura)

As minhas frases favoritas 12

A minha religião é o trabalho...

A ver navios 91

                                                                                                                 Foto Hernâni Von Doellinger

Día das Letras Galegas 2016

Galiza

Galiza docemente
está ollando o mar:
ten vales e montañas
e terras para labrar!

Ten portos, mariñeiros,
cidades e labregos
cargados de traballos,
cargados de trafegos!

Galiza é unha nai
velliña, soñadora:
na voz da gaita rise,
na voz da gaita chora!

Galiza é o que vemos:
a terra, o mar, o vento...
Pro hai outra Galiza
que vai no sentimento!

Galiza somos nós:
a xente e maila fala.
Se buscas a Galiza
en ti tes que atopala!

Manuel María, "Os Soños na Gaiola"

(Hoje é Día das Letras Galegas, este ano dedicado ao poeta Manuel María)