Herança
Ele pó, modesto,
Ela neve, pura: deram
Um pouco de lama.
"Missangas - Poesia e Folklore", Afrânio Peixoto
(Afrânio Peixoto nasceu no dia 17 de Dezembro de 1876. Morreu em 1947.)
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terça-feira, 17 de dezembro de 2019
terça-feira, 8 de agosto de 2017
Apparício Silva Rillo 4
Herança
Naqueles tempos, sim,
naqueles tempos as casas já nasciam velhas.
Eram uma casas cálidas, solenes
sob as telhas portuguesas, maternais.
Em pálidos azuis eram pintadas
e em brancos, em ocres e amarelos.
Algumas nem mesmo tinham reboco. Na
carne dos tijolos mostravam-se nuas,
abertas em janelas que espiavam
da sombra verde para o sol das ruas.
Naqueles tempos, sim,
naqueles tempos
tinham balcões e sacadas essas casas
e úmidos porões e sótãos com fantasmas.
E tinham jasmineiros sobre os muros
e acolhedoras latrinas de madeira
disfarçadas entre as plantas dos quintais.
E laranjeiras e galos e cachorros,
um barril barrigudo cheio de água
e uma concha de lata para a sede.
Nas varandas que eram frescas e abertas
a moleza da sesta numa rede...
Naqueles tempos, sim,
naqueles tempos
as portas eram altas
e alto o pé-direito das salas dessas casas.
Mas eram simples as pessoas que as casas abrigavam.
Os homens chamavam-se Bento, Honorato, Deoclécio,
as mulheres eram Carlinda, Emerenciana, Vicentina.
Os homens usavam barbas e picavam fumo em rama,
as mulheres faziam filhos, bordados e rosquinhas.
Os homens iam ao clube, as mulheres à missa,
e homens e mulheres aos velórios.
Morriam discretamente e ficavam nos retratos.
Naqueles tempos, sim,
naqueles tempos
a igreja tinha santos nos altares
e havia mulheres rezando ao pé do santos.
O padre usava uma batina cheia de manchas e botões,
batizava crianças, encomendava os mortos,
rezava a missa em latim: "Agnus Dei"...
e comia cordeiro gordo na mesa do intendente.
Os homens ajudavam nas obras da igreja,
mas acreditavam mais nas armas que nos santos.
Naqueles tempos, sim,
naqueles tempos
os chefes eram chamados "coronéis".
Ganhavam seus galões debaixo da fumaça
em peleias a pata de cavalo,
garruchas de um tiro só e espadas de bom aço.
As mulheres plantavam flores e temperos
pois tinham mesma valia o espírito e o corpo.
Sabiam receitas de panelas fartas,
faziam velas de sebo e tachadas de doce
e de graxas e cinzas inventavam sabão.
Naqueles tempos, sim,
naqueles tempos
os bois mandavam nos homens,
e por isso a vida era mansa na cidadezinha
arrodeada de ventos, chácaras e estâncias.
Os touros cumpriam devotamente o seu mister
e as vacas, pacientes,
pariam terneiros e terneiros e terneiros.
O campo engordava os bois,
as tropas de abril engordavam os homens
e os homens engordavam as mulheres.
Por isso a cidade chegou até aqui.
Por isso estamos aqui
- netos e bisnetos desses homens,
dessas mulheres, netas e bisnetas.
Por isso um berro de boi nos toca tanto
e tão profundamente.
Por isso somos guardiões de casas velhas,
almas de sesmarias e de estâncias,
paredes que suportam seus retratos.
O músculo do boi na força que nos leva.
A barba dos avós como um selo no queixo.
O doce das avós na memória da boca
e nela este responso:
- Naqueles tempos, sim, naqueles tempos...
"Pago Vago", Apparício Silva Rillo
(Apparício Silva Rillo nasceu no dia 8 de Agosto de 1931. Morreu em 1995.)
Naqueles tempos, sim,
naqueles tempos as casas já nasciam velhas.
Eram uma casas cálidas, solenes
sob as telhas portuguesas, maternais.
Em pálidos azuis eram pintadas
e em brancos, em ocres e amarelos.
Algumas nem mesmo tinham reboco. Na
carne dos tijolos mostravam-se nuas,
abertas em janelas que espiavam
da sombra verde para o sol das ruas.
Naqueles tempos, sim,
naqueles tempos
tinham balcões e sacadas essas casas
e úmidos porões e sótãos com fantasmas.
E tinham jasmineiros sobre os muros
e acolhedoras latrinas de madeira
disfarçadas entre as plantas dos quintais.
E laranjeiras e galos e cachorros,
um barril barrigudo cheio de água
e uma concha de lata para a sede.
Nas varandas que eram frescas e abertas
a moleza da sesta numa rede...
Naqueles tempos, sim,
naqueles tempos
as portas eram altas
e alto o pé-direito das salas dessas casas.
Mas eram simples as pessoas que as casas abrigavam.
Os homens chamavam-se Bento, Honorato, Deoclécio,
as mulheres eram Carlinda, Emerenciana, Vicentina.
Os homens usavam barbas e picavam fumo em rama,
as mulheres faziam filhos, bordados e rosquinhas.
Os homens iam ao clube, as mulheres à missa,
e homens e mulheres aos velórios.
Morriam discretamente e ficavam nos retratos.
Naqueles tempos, sim,
naqueles tempos
a igreja tinha santos nos altares
e havia mulheres rezando ao pé do santos.
O padre usava uma batina cheia de manchas e botões,
batizava crianças, encomendava os mortos,
rezava a missa em latim: "Agnus Dei"...
e comia cordeiro gordo na mesa do intendente.
Os homens ajudavam nas obras da igreja,
mas acreditavam mais nas armas que nos santos.
Naqueles tempos, sim,
naqueles tempos
os chefes eram chamados "coronéis".
Ganhavam seus galões debaixo da fumaça
em peleias a pata de cavalo,
garruchas de um tiro só e espadas de bom aço.
As mulheres plantavam flores e temperos
pois tinham mesma valia o espírito e o corpo.
Sabiam receitas de panelas fartas,
faziam velas de sebo e tachadas de doce
e de graxas e cinzas inventavam sabão.
Naqueles tempos, sim,
naqueles tempos
os bois mandavam nos homens,
e por isso a vida era mansa na cidadezinha
arrodeada de ventos, chácaras e estâncias.
Os touros cumpriam devotamente o seu mister
e as vacas, pacientes,
pariam terneiros e terneiros e terneiros.
O campo engordava os bois,
as tropas de abril engordavam os homens
e os homens engordavam as mulheres.
Por isso a cidade chegou até aqui.
Por isso estamos aqui
- netos e bisnetos desses homens,
dessas mulheres, netas e bisnetas.
Por isso um berro de boi nos toca tanto
e tão profundamente.
Por isso somos guardiões de casas velhas,
almas de sesmarias e de estâncias,
paredes que suportam seus retratos.
O músculo do boi na força que nos leva.
A barba dos avós como um selo no queixo.
O doce das avós na memória da boca
e nela este responso:
- Naqueles tempos, sim, naqueles tempos...
"Pago Vago", Apparício Silva Rillo
(Apparício Silva Rillo nasceu no dia 8 de Agosto de 1931. Morreu em 1995.)
sábado, 9 de junho de 2012
Eugénio da Andrade não merecia
![]() |
| Foto RICARDO CASTELO |
A Fundação Eugénio de Andrade, no Porto, foi extinta. Fechou, em Setembro, por falta de apoios e de dinheiro, e já não vai a tempo de emigrar para a Holanda, como o Pingo Doce, ou fugir para o Brasil, como a Leya, em busca de uma cidade e de um país que a mereçam. Creio que a questão que nos deve fazer pensar é exactamente esta e não outra: a Fundação Eugénio de Andrade, no Porto que salvou o Coliseu, teve que fechar portas, apenas seis anos após a morte do poeta; como foi isto possível, nas nossas barbas?
Fala-se de despejos, de intrigas, de mentiras e conveniências mais ou menos declaradas, atiram-se culpas de ida e volta, há conferências de imprensa e ameaças com tribunal. Recuso-me a nomear esta gente, não me interessa quem é quem em cada lado da barricada ou barricadas - autarquia, ex-directores da fundação ou herdeiros de Eugénio de Andrade. Pergunto: em nome de quê ou de quem foram levantadas as barricadas que deram nisto, nesta barracada? Como pode esta gente, agindo de formas tão diferentes e contrárias, dizer toda que está a respeitar "a vontade do escritor"?
O espólio de Eugénio de Andrade pertence, por testamento, à cidade do Porto e está à guarda da Câmara Municipal. Os ex-directores defenderam ontem que o melhor destino a dar ao imóvel que durante 19 anos acolheu a fundação seria criar uma casa-museu dedicada ao poeta, uma Casa da Poesia.
Confesso que, de momento, o futuro do legado físico de Eugénio de Andrade é o que menos me inquieta. O espólio é certamente importante, vale dinheiro, e portanto alguém lhe há-de dar rumo e uso, mal nos desprecatemos. E a casa, palavra de honra que não acredito que a insensibilidade cultural de Rui Rio chegue ao cúmulo de ele não arranjar uma solução que a ligue de modo efectivo e digno ao grande poeta, logo que a poeira assente.
O que me incomoda, de momento, é o circo desnecessário e maldizente montado à volta e em nome do nome e da memória-memória de Eugénio de Andrade. Ele não merecia isto. E merecia mais de nós todos que não fizemos nada.
(No início do ano fizeram de Eugénio de Andrade notícia, por razões que o poeta não merece. E depois Eugénio morreu outra vez. Foi há cinco meses. Publiquei então este texto, hoje enriquecido com a excelente foto do Ricardo Castelo.)
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