Mostrar mensagens com a etiqueta Afrânio Peixoto. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Afrânio Peixoto. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 17 de dezembro de 2020

Afrânio Peixoto 8

Perfume silvestre

As coisas humildes
Têm seu encanto discreto:
O capim melado...

"Missangas - Poesia e Folklore", Afrânio Peixoto

(Afrânio Peixoto nasceu no dia 17 de Dezembro de 1876. Morreu em 1947.)

terça-feira, 17 de dezembro de 2019

Afrânio Peixoto 7

Herança

Ele pó, modesto,
Ela neve, pura: deram
Um pouco de lama.


"Missangas - Poesia e Folklore", Afrânio Peixoto

(Afrânio Peixoto nasceu no dia 17 de Dezembro de 1876. Morreu em 1947.)

segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

Afrânio Peixoto 6

Mallarmé ou Valéry

Fiz uma charada:
Não sabia que isto é hoje
A poesia pura.


"Missangas - Poesia e Folklore", Afrânio Peixoto

(Afrânio Peixoto nasceu no dia 17 de Dezembro de 1876. Morreu em 1947.)

domingo, 17 de dezembro de 2017

Afrânio Peixoto 5

Outras vezes, ficava a ouvir as proezas de caça e de vaquejadas, transes arriscados e artimanhas sutis contra feras e bois bravos, misturados por caçadores e vaqueiros aos entretenimentos práticos da vida, quando a chama da fogueira os reunia no prazer de uma fumaça e no maior de despertar a curiosidade, e dar um interesse. Já lhes aprendera a gíria difícil e expressiva e não encontrava mistério quando ouvia ao Sérgio contar que dera na malhada grande com uma novilha bargada, ponta baixa, com uma estrela na testa, bico de renda e buraco de bala na orelha direita, forquilha e entalhada por cima na outra orelha... ou riscar com a ponta de um garrancho, no chão frouxo, o ferro da pá esquerda, uma flor com um monograma incluso: era a marca do Zé Lopes, do Encravado. E as histórias de Trancoso, façanhas, guerrilhas, tretas, esconjuros, assombramentos, notícias de casos rústicos e comuns pareciam-lhe mais divertidos e sadios que as literaturas perversas, indecorosas, as vaidades imbecis e os jornais interesseiros, que alimentam a curiosidade intelectual dos civilizados...

"A Esfinge", Afrânio Peixoto

(Afrânio Peixoto nasceu no dia 17 de Dezembro de 1876. Morreu em 1947.) 

sábado, 17 de dezembro de 2016

Afrânio Peixoto 4

Nesses meses procurara reviver todas as alegrias e tristezas da vida do campo; recapitulara numa inteligência afetiva e numa compassividade tranqüila todos os mistérios que encantaram ou assustaram seu coração de menino. Em volta da fazenda não ficaram córregos e valados, cachoeiras ou boqueirões, rechãs ou espigões de serra, sem a sua visita amável e melancólica, agora que, se não tinha mais o espanto dos olhos da infância, sentia a saudade das emoções que outrora lhe causaram. Em casa não perdera nenhuma dessa visões singelas e quase rituais da vida sertaneja. A diligência afanada das manhãs, pelas vacas e cabras a ordenhar, o banho frio nos riachos de vale embrumado, o café ou primeiro almoço farto de guloseimas da roça, a partida para a lavoura, a malhada, a caça, ou a feira, as sestas lânguidas e bocejantes dos meios-dias encalmados, a volta fatigada e contente nas tardes suaves e tristes, a ouvir a melancolia do aboio e acompanhar o esmorecimento lento do crepúsculo: tudo ele soubera reviver com volúpia demorada de lembrança e um gozo constante na presença.

"A Esfinge", Afrânio Peixoto

(Afrânio Peixoto nasceu no dia 17 de Dezembro de 1876. Morreu em 1947.) 

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Afrânio Peixoto 3

Quando, às cinco e meia, ia entrando na Lalet, saíam José e Stela, que me fizeram a acolhida amável de sempre.
- Chegou tarde, disse ela, para assistir a uma cena de romance, não dos que você imagina, mas dos que a vida improvisa. Olhe, o seu amigo ainda está comovido...
De facto, José estava pálido e o gesto ainda trémulo.
- Pois vamos tornar a tomar chá, e vocês me contarão...
Não aceitaram. Tomaram um carro e me meteram dentro dele. Tive de ouvir a história, em vez de meu chá. O romancista é um
repórter sentimental.

... Estavam tranquilamente, entre chávenas e torradas, sentados a uma mesa próxima, onde se achava só um cavalheiro, quando se acercaram duas senhoras. Notaram que, apesar das maneiras e compostura de gentleman, ele não se levantara, à recepção, e apenas indicara, às recém-vindas, duas cadeiras próximas.
Uma delas, mais moça, quase bonita, abriu a bolsa e tirou um papel, desdobrando-o, como lhe mostrando a letra, ou assinatura. O sujeito meteu a mão à carteira e daí tirou também um papel. Trocaram os dois papéis e a senhora imediatamente rasgou o que recebera, em pedacinhos, que encerrou depois na sua bolsa. Isto feito, chamou a atenção do cavalheiro, que lhes vai ao encalço e, no corredor central, à altura da balaustrada, atingindo-as, com a mão aberta aplica, à que lhe falara, o castigo infame e bárbaro de, umas sobre as outras, bofetadas... Ela as recebe todas, sem gritos, sem reação, apenas mais apressada, até à porta, concertando o cabelo e o chapéu, e ganhando finalmente a rua. A outra mulher, dama de companhia talvez, limitou-se apenas a agarrar a mão da companheira, para ganharem um veículo. O homem deteve-se à porta, e volvendo, encontrou já próximos, numa espectativa de agressão, vários homens, até José, que só não interviera pela rapidez da cena e inermidade da ofendida, que apressara o seu castigo, não reagindo a ele.
- Imagine, interrompeu Stela, se o homem está armado e investe contra os que o cercaram. José estava na frente...
- Amanhã os jornais diriam que um marido enganado, depois de castigar a esposa, lhe havia alvejado o amante, e estava o José
classé D. Juan...

Após um meio sorriso sem graça, o "ex-futuro Don Juan" continuou:
- Cada qual, sem palavras, em alguns segundos, recuou para o seu lugar; o combate cessara, por falta de combatentes; não iríamos protestar agora, se a interessada recebera sem protesto; mas o pseudo
gentleman leu em todas as faces a mesma reprovação tácita... "Bárbaro! Numa mulher não se bate, nem com uma flor!"

 [...]

Afrânio Peixoto

(Afrânio Peixoto nasceu no dia 17 de Dezembro de 1876. Morreu em 1947.) 

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Afrânio Peixoto 2

Os dias passavam no Barro Branco numa sucessão rápida e descuidada, ao passo que se operava a conformação necessária do tempo e que as distrações incessantes do campo tomavam a atenção de Paulo. E percebendo que lhe voltava a serenidade e a paz, mais se absorvia nas diversões simples da vida da roça, que o tinham valido. Ele, que sempre fora um desatento à natureza, nessa inconsciência espantada das crianças inteligentes que vêem e ouvem, mas sentem apenas exteriormente a representação da própria curiosidade e imaginação, era agora quase um epicurista sutil, a retirar de cada aspecto da natureza - pedra, águas, árvore, ninhos, casa rústica, ou paisagem - uma multidão de observações felizes, logo da primeira impressão transformadas em imagens tumultuosas... Constante nesse vezo irreprimível de trocar a percepção das coisas sentidas em representação adequada ou fantasiosa, comparava-se, e aos artistas, a moedeiros obcecados que onde encontrem uma cintilação de ouro, no minério, na escória, na pepita, são levados a cunhar a medalha nítida e perfeita que lhe dará o circular e viver para o gozo humano. Muitas vezes, saindo para o campo, armado de espingarda e de petrechos de caça, e volvendo sem ter dado um tiro, nem se lembrando, mesmo ao acaso, de acordar um eco na floresta, ele se dizia pago dessas horas de excursão, enlameado embora, ou arranhado de espinhos, pois caçara imagens, vendo, contemplando, divagando...

"A Esfinge", Afrânio Peixoto

(Afrânio Peixoto nasceu no dia 17 de Dezembro de 1876. Morreu em 1947.)

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Afrânio Peixoto

Pétala caída

Pétala caída
Que torna de novo ao ramo:
Uma borboleta!


"Missangas - Poesia e Folklore", Afrânio Peixoto

(Afrânio Peixoto nasceu no dia 17 de Dezembro de 1876. Morreu em 1947.)